sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Capítulo 17 - Além


Quando eu abri os olhos, a minha vista foi penetrada por uma forte luz branca, eu estava deitada sobre um chão frio e úmido. Demorei um pouco para perceber que a luz era transmitida por uma lanterna, jogada próxima a mim. Intrigada, porém, amedrontada demais para pensar em uma razão para ela estar ali, eu me movimentei para pega-la, sentindo as minhas pernas doerem devido a queda. Eu podia dizer que meu rosto estava machucado, pela dor aguda que eu sentia na área, e a nauseante sensação de sangue brotando da minha testa e nariz. O forte e misterioso mal cheiro do lugar penetrou as minhas narinas, e me fez tossir, parecia haver algo morto ali. Tremendo, e sem levantar do chão, eu peguei a lanterna, e vasculhei o lugar, lentamente, sem saber ao certo o que eu procurava. As paredes enegrecidas indicavam que houvera um incêndio ali, a escuridão era assustadoramente densa, devido à profundidade da câmara. Por um momento eu havia esquecido de Janaína, tudo o que eu pensava era em arrumar um modo de sair dali, foi quando a luz da lanterna revelou algo na escuridão que fez o meu sangue gelar. Eu gritei aparavorada, recuando no chão, e largando a lanterna, ao me defrontar com o rosto de Barbara Regina, sem vida, largada em meio a sujeira e destroços do lugar. O corpo parecia estar em um avançado estado de decomposição, por isso o intenso fedor que tomava conta de toda a câmara. Eu só pude reconhecer que era, de fato, Barbara, pela farda do colégio e seu longo cabelo dourado. Seus olhos estavam revirados, inertes, e sua boca meio aberta e seca.
Eu continuei gritando, encostada em uma parede, na esperança que alguém ouvisse, e viesse me tirar dali o mais rápido possível. Foi quando eu voltei a minha atenção para uma voz familiar, que vinha da passagem, acima de mim...
- Olha, eu sei que você tava morrendo de saudades dela, mas quer fazer o favor de calar essa boca!? Ninguém vai te ouvir aí de baixo - disse Janaína, do alto.
- Você... você... Ela tá morta... - eu dizia, desesperada. Não racionava direito, e evitava olhar o cadáver ao meu lado.
- Bem notado... Mas se você pensar bem... tecnicamente, não foi eu quem a matei, mas sim a sua amiga Gabriela, não acha!? - disse Janaína, friamente.
- Helene... É você no corpo da Janaína, não é!?... Escuta... não... não é a Janaína que você quer... Você quer a mim, deixa ela em paz... - eu implorava, olhando para a imagem da minha amiga, no alto.
- Você se acha a estrela do filme, não é!? Tipo; a mocinha que vive escapando do assassino, e sempre sobrevive pras sequências!? Quem disse que eu quero você? - ela perguntou, com um insuportável sorriso no rosto.
- Mas... a Janaína não tem nada com isso tudo... - eu disse, achando super estranho o fato de estar dirigindo essas palavras para a imagem da própria Janaína.
- A sua amiga tem TUDO a ver com isso... - ela disse, enfurecida - Ou melhor... a mãe dela tem.
- O quê...? - eu disse, sem ter absorvido direito o que Helene acabara de dizer.
- Depois que eu morri... Fiquei vagando pelos corredores do Lar, com todo este... ódio dentro de mim... Procurando pelas pessoas responsáveis pela minha morte... Claro que todas elas haviam saído da escola, depois do que acontecera. Então eu fiquei aprisionada aqui, por anos, enquanto esse... esse sentimento crescia e se fortalecia dentro de mim... Eu precisava me vingar... essa seria a única maneira de sair daqui... me satisfazendo... Alguns anos se passaram, até que um dia... eu finalmente a reencontrei... Matriculando a filhinha no Lar... Paula... - o nome parecia queimar em sua garganta, tamanho era o ódio que ela aparentava sentir ao pronunciá-lo - A mãe da Janaína... A partir desse dia, a sua melhor amiga passou a ser o meu alvo principal. Apesar da minha sede de vingança, eu decidi esperar até que Janaína estivese no primeiro ano ginasial, por razões que talvez você já saiba quais... Mas então você e o seu maldito dom entraram no meu caminho... Por alguma razão, que não me interessa, você começou a me ver justamente no início deste ano, e como se não bastasse, uniu forças com a bibliotecária drogada... O fato de vocês duas poderem me ver me assustou muito, eu devo admitir... Isso atrapalhou os meus planos, e me deixou muito furiosa no início, mas... eis que o destino sorri para mim, mais uma vez... e a filha de Lúcia Machado, a pobre Gabriela, entra para o Lar... se tornando, então, o meu novo alvo. Eu passei a atormentá-la, por pura diversão... e quando finalmente consegui possuir o seu corpo... eu a usei para matar Barbara e Alycia... Não que eu tivesse, exatamente, um bom motivo pra fazer isso, sabe!? Elas simplesmente me lembravam muito a dupla dinâmica Paula e Lúcia, e isso me dava nos nervos... - ela parecia se deliciar com as memórias de seus feitos doentios - Claro que algumas coisinhas não terminaram da maneira como eu planejava, tipo; eu mesma queria ter cortado a garganta da Gabriela, mas ela conseguiu se livrar de mim por um instante e, desesperada, fez isso a si mesma... Apesar de eu ter gostado muito que você tenha presenciado o suicídio... acredito que tenha te traumatizado bastante, coitadinha...
- Como você pôde...? - foi tudo o que eu consegui pronunciar com o impacto das revelações que Helene acabara de fazer.
- A MÃE DA GABRIELA... - ela alteou a voz, tentando me calar - teve o que mereceu por ter ajudado a infernizar a minha vida, e a dos meus dois únicos amigos, Caio e Marcos... Depois que a filhinha dela se matou, eu decidi ficar fora de vista por alguns meses, pra você ficar mais vulnerável, e então eu pude atacar quem eu realmente queria, desde o início... e foi muito fácil, já que a Janaína não tem esse poder que você tem, e que a pobre Gabriela também possuia dentro de si, por mais que em menor intensidade... Mas como eu ia dizendo; a idiota da Lúcia não foi a autora de todas as coisas terríveis que fizeram contra mim nessa escola... Não... Lúcia Machado não passava de um capacho para a verdadeira rainha do Lar, no tempo em que eu estudei aqui... Paula, ela foi a grande arquiteta do planinho que acabou transformando o Refugium em um túmulo que eu compartilhei com meus amigos... - ela chorava de raiva, mas contar aquela história parecia também estar lhe proporcionando um prazer doentio.
De repente, tudo fazia sentido, e a linda garota ao lado de Lúcia Machado na foto da turma do primeiro ano ginasial de 1978, e que sempre me parecera estranhamente familiar, ganhara a face da mãe de Janaína.
- Vocês... morreram aqui...- eu disse, para mim mesma, olhando em volta de toda a câmara, imaginando o que acontecera ali.
- Acredito que a rata de biblioteca já tenha te contado boa parte da minha tórrida história de amor com a Paula, não é mesmo!?... Anita... aquela traidorasinha nojenta. Sempre se escondendo por trás daquela carinha de anjo, e de seus livros idiotas, como uma cobra esperando pra dar o bote...
- As únicas cobras nessa história toda foram você e a Paula... As pessoas ao seu redor nada mais foram do que vítimas... -comecei, desafiando-a.
- CALA A BOCA! - ela gritou, enfurecida, me assustando ao ver Janaína daquela maneira - Eu ainda não terminei... - ela se recompôs, e voltou a falar - Refugium... - ela disse, com uma espressão de puro deleite, como se estivesse lembrando de coisas boas. E eu pude perceber que ela tocava o nome cravado na parede - O nome foi pura frescura do Caio, que adorava latim... - ela sorriu, com um olhar distante, e eu quase pude sentir pena - Era para ser um confessionário subterrâneo, mas a obra foi cancelada por falta de dinheiro na época, e acabou sendo lacrada, e esquecida, por isso não tem escadas, nós usávamos uma de madeira... Eu, Caio e Marcos o descobrimos. Esse lugar foi o nosso verdadeiro lar, por vários anos... Aqui nós podíamos ser nós mesmos, sem dever nada a ninguém, sem sermos julgados pelos olhares das pessoas à nossa volta, o tempo todo... Podíamos... ficar em silêncio, por horas... E a Paula... ela acabou com tudo isso... - a raiva tomara conta de sua expressão, mais uma vez - Como último ato de vingança, ela e o seu grupinho descobriram onde o Refugium ficava, com a ajuda da Anita... e tocaram fogo no lugar, enquanto nós estávamos nele... Por um acidente, a traidora da Anita ficou presa aqui, e acabou morrendo também...
- Meu Deus... - eu estava horrorizada, não conseguia dizer mais nada. Minha mente estava em completo descontrole, várias coisas passeavam por ela naquele instante. Por um momento, quase pude entender a vontade de Helene em querer se vingar. Que modo terrível de morrer... e ao lado de seus melhores amigos. Mas, claro, aquela era a versão dela sobre a história, possivelmente envenenada pelo ódio que crescia dentro do pobre espírito.
- Agora se me dá licença... eu tenho que reencontrar uma velha amiga de escola... - disse Helene, começando a arrastar o confessionário para fechar a passagem...
- NÃO! ESPERA! POR FAVOR, HELENE...
- Calma, querida... Não precisa ter medo... Como você pôde perceber, eu te deixei uma lanterna, e uma ótima companhia para toda a eternidade... Eu não posso garantir que ela vá falar muito, pelo menos não nas primeiras semanas em que você estiver aqui... Mas eu tenho certeza que vocês vão virar grandes amigas - ela disse, com o habitual sorriso psicopata, exceto pelo fato de estar estampado no doce rosto de Janaína.
Ainda sorrindo, Helene fechou a passagem com o confessionário, enquanto eu gritava, implorando por misericórdia. Em instantes, a câmara foi totalmente envolvida pela escuridão, e pelo silêncio. A única coisa que se ouvia era o meu próprio choro. Eu nem tentara gritar, sabia que era inútil. Só me restava admitir a vitória de Helene, e apodrecer naquele lugar, junto com a resposta para o mistério em torno do desaparecimento de Barbara Regina. Eu me enconstei em uma parede, chorando histeriacamente, e tentando ao máximo ficar afastada da minha companheira de cela. A não ser que eu tivesse o poder de materializar uma escada de madeira com a força do meu pensamento, não havia maneira alguma de sair dali. O pânico tomava conta de mim, e depois de revistar o lugar inteiro com a lanterna, milhões de vezes, eu finalmente percebi o quanto aquilo era inútil, e apaguei a luz do objeto, me deitando no chão, toda encolhida, e não por causa do frio, o lugar era quente como o inferno devia ser, mas sim devido ao medo. "Então é isso!? A Helene vai vencer... - eu pensava, enquanto chorava com a face sobre o frio chão - Ela vai usar a própria Janaína para matar a Paula, e provavelmente, matar a própria Janaína depois que se vingar da sua antiga colega de classe... ou abandonar o corpo da pobre garota, e deixá-la viver com a culpa de ter matado a própria mãe, e enlouquecer por isso... E eu... Ficaria aprisionada no tal Refugium, imaginando todas essas coisas terríveis acontecendo com a minha melhor amiga, e provavelmente morrer de fome, sede, ou sabe-se lá mais o quê..." Foi quando eu escutei um forte barulho vindo da passagem acima de mim. Eu me levantei, subtamente, ligando a lanterna e apontando-a para o alto. O confessionário de madeira estava sendo arrastado novamente; uma fraca luz ia penetrando a passagem, à medida em que o confessionário era movido. Eu dei um gritinho de prazer, ao ver a face da minha salvadora.
- AMALLYA!? - gritou Olívia, do alto, aparentemente sozinha.
- OLÍVIA, OLÍVIA! EU TÔ AQUI EM BAIXO, ME TIRA DAQUI, PELO AMOR DE DEUS, OLÍVIA, POR FAVOR... - eu implorava, enquanto via Olívia erguer uma escada de madeira, que eu reconheci rapidamente como a que os zeladores usavam para trocar lampadas.
- CALMA, QUERIDA, EU TÔ AQUI, EU VIM TE AJUDAR...
A escada mal chegara ao chão, e já eu comecei a subi-la, agradecendo a Deus por não ter permitido que eu apodrecesse naquele buraco. Chegando ao topo, eu não disse mais nada antes de abraçar Olívia, como nunca abraçara ninguém em toda a minha vida, chorando feito uma criança que era acolhida pela mãe, depois de ter levado uma queda. Foi quando eu percebi que ela não estava sozinha...
- Você tá sangrando, Carol! - disse Anita, aparentando estar mais assustada do que eu. Não que isso fosse uma novidade - Meu Deus, a Helene... ela não vai parar nunca...
- É um pouco tarde pra perceber isso, querida - disse Olívia, sarcasticamente.
- A Helene... (eu tentava repôr o ar) ela... ela tá com a Janaína... na Janaína... - eu disse, ainda muito nervosa.
- Nós já sabemos de toda a história, Carol... - disse Olívia, acariciando a minha face coberta de sangue e suor, na tentativa de me acalmar.
- Eu tenho seguido a Helene, desde a conversa que você teve com a Olívia sobre ela estar de volta... Eu não podia permitir que ela fizesse com você o que fez com as outras garotas - disse Anita, demonstrando todo o seu afeto por mim, e fortalecendo o grande carinho que eu já sentia por ela. Por mais estranho que pudesse parecer, alguém nutrir qualquer tipo de sentimento por um fantasma - Eu vi quando vocês entraram no bosque, então eu as segui até a igreja, e quando ela te empurrou aí dentro, eu corri pra chamar a Olívia...
- Muito obrigada, Anita. Obrigada a vocês duas...
- É verdade? O corpo da menina Barbara... tá aí embaixo? - perguntou Olívia, dando uma espiada na passagem, e recuando ao sentir o fedor que emanava do lugar.
- Sim... Mas, infelizmente, nós não temos tempo pra tirá-lo daí, ainda. A Janaína e a mãe dela estão correndo grande perigo...
- Claro, claro. Vamos pro meu carro... Acho que você vai ter que ficar aqui, Anita... - disse Olívia.
- Nós precisamos ir até o dormitório feminino, antes. Janaína tem a cópia da chave da casa dela, guardada na bolsa, nós vamos precisar caso a Helene já tenha chegado lá... - eu disse, começando a caminhar para fora da igreja.
Olívia e Anita me seguiram, e nós nos precipitamos pelo bosque, em direção à entrada da escola.
Chegando ao dormitório, que encontrava-se em perfeito silêncio, eu corri para a bolsa de Janaína, sem me preocupar em acordar as outras meninas no lugar. Quando eu finalmente encontrei a chave dentro do bolso frontal da mochila de Janaína, agarrei-a, fortemente, com a minha mão direita e corri para o lado de fora do dormitório, onde Olívia e Anita me esperavam.
- Vamos embora de uma vez, antes que alguém nos veja... - disse Olívia, apreensiva.
- Espera! - eu parei subitamente, fazendo Olívia se estressar.
- O que foi dessa vez? - ela disse, agressiva.
- Eu preciso chamar o Olavo...
- O quê? Você enlouqueceu de vez, Carol?! - disse Olívia, tornando-se cada vez mais apreensiva com toda a situação.
- Se o pior acontecer hoje... - imaginei como seria devastador para Olavo perder suas duas melhores amigas - Olavo tem o direito de saber o que realmente aconteceu, e não uma versão mentirosa contada pela polícia, ou sei lá... Tá na hora do meu melhor amigo saber a verdade sobre mim... - eu disse, me dando conta do quanto eu realmente estava decidida a contar a Lavinho sobre o meu dom, e sobre todos os problemas que ele vinha me trazendo. Não fazia mais sentido esconder algo tão importante sobre mim, de alguém tão importante para mim. Olavo tinha o direito de saber, assim como Janaína... eu só lamentava não ter percebido isso antes.
- Tudo bem, mas anda logo! - disse Olívia.
Eu corri para o dormitório masculino, e empurrei a enorme porta, me dando conta de que aquela era a primeira vez que eu entrava naquele lugar, que não tinha diferença alguma do dormitório feminino, exceto pelo cheiro, que de primeira, me lembrou meias suadas, e pelo barulho irritante dos roncos. Eu procurei por Olavo, tentando fazer o mínimo de barulho, e o encontrei em uma cama muito próxima à janela, no outro lado do dormitório. Ele dormia sem camisa, usando apenas uma samba-canção com estampa do Bob Esponja. Era a primeira vez que eu via Lavinho sem camisa, em muito tempo, e era notável que ele havia mudado muito, devo confessar que fiquei ligeiramente entertida observando o seu abdomen magrinho, antes de acordá-lo.
- Lavinho!? - eu repetia, enquanto sacudia o seu corpo, sabendo que seria uma árdua tarefa acordá-lo, uma vez que o seu sono era super pesado - Lavinho, acorda! - eu disse, dando tapinhas leves em seu rosto.
- O quê...? Que porra é... AMALLYA!? - ele disse, espantado, e cobrindo-se com o edredon da cama.
- Shhhh, silêncio, pô! Sim, sou eu, tô precisando da sua ajuda, é urgente... - eu disse, apressando-o a se levantar.
- Mas...
- Nada de "Mas", Lavinho. Veste uma camisa, e vem comigo - eu disse, olhando em volta, para ver se alguém havia acordado.
Olavo obedeceu, um pouco irritado por ainda estar com sono. Assim que ele vestiu uma camiseta regata, amarela, eu peguei a sua mão com força, e nós dois saímos do dormitório.
- Vai me explicar o que tá rolando, ou não!? - ele disse, impaciente.
- Prontos para ir? - perguntou Olívia, aproximando-se subitamente de nós, assustando Olavo, que não havia notado a sua presença.
- Mas o quê...? - começou Olavo.
- Estamos sim, Liv - eu respondi à pergunta de Olívia - Eu te explico no caminho - eu disse, dirigindo-me à Olavo.

Estávamos todos no carro de Olívia, um velho Fiat Uno Mille vermelho, rumo à casa de Janaína, e Olavo olhava para mim como se procurasse uma maneira educada de dizer que eu havia perdido a cabeça. Sim, eu acabara de contar quase tudo a ele, tendo guardado em segredo apenas a parte em que o fantasma de Leonardo estava no meu quarto, naquele exato momento, provavelmente, morrendo (de novo) de preocupação por minha causa.
- Isso tudo é... muita loucura... Você não pode pedir que eu acredite numa história dessas tão facilmente... - disse Olavo, parecendo preocupado comigo.
- Não importa se você acredita ou não, Lavinho... Eu só achei que você, mais do que ninguém, tinha o direito de saber - Eu disse, me sentindo estranhamente aliviada por ter compartilhado o meu segredo com Lavinho - A casa é essa com o jardim de girassóis, Liv - eu disse, ao perceber que nos aproximávamos da casa de Janaína.
- As luzes estão todas apagadas... - Comentou Olívia, apreensiva.
- Isso não é bom... - eu disse, saindo do carro, antes mesmo de Olívia estacioná-lo apropriadamente.
- Espera, Amallya! - disse Olívia, enquanto estacionava o carro, próximo à cerca de madeira, que antecedia o jardim.
A rua em que Janaína morava possuia uma ótima iluminação noturna, e era, notavelmente, muito nobre. Todas as casas eram enormes, luxuosas, e não muito diferentes umas das outras, a de Janaína não ficava de fora desse padrão, o jardim, no entanto, dava à residência um certo destaque com relação as outras. Eu corri pela calçada ladeada de girassóis, em direção à porta dupla, de entrada da casa, girando a chave na fechadura, e abrindo-a, sem pensar duas vezes. A casa estava perfeitamente silenciosa, e escura; a única luz acesa era a de um lindo abajour em forma de bailarina, sobre uma mesinha ao lado do sofá de curva, na sala de estar. Eu podia sentir a respiração cautelosa de Olavo, atrás de mim. Olívia foi a última a entrar, e tentava fazer o minímo de barulho possível ao trancar a porta.
- A casa não parece ter sido invadida... - comentou Olavo, baixinho.
- A Helene estava no corpo da Janaína, se ela entrou, fez isso facilmente, não acha!? - eu disse, no mesmo tom de voz dele, olhando em todas as direções, tentando detectar o menor sinal que denunciasse alguém à espreita, na escuridão.
- Não tem ninguém aqui embaixo... - sussurrou Olívia, que de todos parecia ser a mais tranquila - Vamos subir, devagar - ela tomou a frente, envolvendo a mim e a Olavo, com os braços para trás, como se estivesse nos protegendo com enormes asas, enquanto suabíamos a escada (ornamentada, tanto nos degraus; cobertos com um imenso carpete vermelho, quanto no corrimão; pintado de dourado) que nos levaria para o andar de cima, onde ficavam os quartos.
Chegando ao fim da escada, havia um corredor , iluminado por outro abajour sobre um console, com um imenso espelho atrás do luxuoso móvel. À nossa direita havia uma porta entreaberta, e uma fraca luz era emitida de dentro do cômodo, assim como um barulho ilegível. Sem exitar, Olívia entrou no quarto, fazendo sinal para que eu e Olavo a seguisse. O barulho vinha da TV, sintonizada em um canal que transmitia "All about Eve" com a Bette Davis, um dos meus filmes favoritos. No quarto havia uma enorme cama de casal, coberta com um edredom branco, ligeiramente bagunçado. Olívia parou, bruscamente, ao se deparar com a presença de uma mulher alta, e de uma beleza hipnotizante, trajando um longo roupão de seda roxo. A mãe de Janaína estava de costas para a enorme porta de vidro da varanda do quarto, decorada com uma uma cortina em um tom ligeiramente cinza, que se movia fantasmagoricamente, de acordo com o vento que entrava por uma brexa da porta meio-aberta. A mulher nos encarava de uma maneira, no mínimo, inesperada; não havia medo em seu olhar, e ela parecia mais curiosa do que surpresa com a nossa "invasão". A luz da lua, que invadia a varanda atrás dela, contornava o seu corpo, deixando o seu rosto sombreado, e dando a ela uma expressão assustadora, injusta para a sua beleza.
- Quem são vocês?... O que estão fazendo em minha casa?... - ela perguntou, finalmente demonstrando alguma indignação.
- Senhora... nós viemos te ajudar... - começou Olívia, parecendo nervosa.
- Não se lembra de mim, Paula? - eu perguntei, estranhando o fato de Paula não estar reconhecendo a melhor amiga da própria filha, e que há anos quebrara um precioso objeto de decoração que lhe pertencia - Eu sou amiga da Janaína...
- Como vocês entraram aqui? - perguntou a mulher, que começava a ficar enfurecida.
- Calma, Paula, nós podemos explicar... Sobre a sua filha... - começou Olívia, tentando acalmar a mãe de Janaína.
Por um instante, eu desviei a atenção da estonteante mulher, e olhei para a porta do banheiro, (ao lado da estante em que estavam a TV e alguns livros) prendendo a respiração ao ver que um pé humano e pálido, a mantinha entreaberta. Por um flashe de momento, eu me dei conta de que a pessoa jogada no chão do banheiro era Janaína...
- OLÍVIA! - eu gritei, institivamente, e tudo o que aconteceu depois, foi muito rápido...
Olívia desviou a atenção para a porta do banheiro, dando a oportunidade para Paula puxar uma faca de cozinha, escondida dentro do roupão, e atacá-la, subitamente, com uma apunhalada no braço direito, fazendo Olívia libertar um grito abafado, de dor e espanto.
- NÃÃÃO! - gritamos eu e Olavo, ao vermos a trágica cena.
Olívia despencou no chão com a dor, e Paula correu em direção a Olavo, arremeçando-o com uma força incrível contra a parede próxima à porta do banheiro, me agarrando fatalmente pelo pescoço, em seguida. Eu pude reconhecer a fúria de Helene nos olhos de Paula, que apertava o meu pescoço com uma das mãos, e segurava a faca de cozinha (banhada com o sangue de Olívia) com a outra. A sua força com uma única mão era incrível, eu tentava me livrar de suas garras, mas era inútil.
- Você se intrometeu em meus planos, pela última... vez - disse Paula. Seus olhos queimavam de prazer e fúria.
Suas unhas cortavam a minha pele, tamanha era a força com que ela apertava meu pescoço. Helene estava decidida a me matar, mas eu não estava disposta a desistir da minha vida tão facilmente...
E eu senti... senti uma estranha e poderosa vibração que emanava de dentro de mim... de dentro da minha alma... algo que poderia salvar a minha vida. Eu olhei para Olívia, que sangrava caída sobre o chão, porém ainda consciente, olhando de volta para mim. E com um simples toque em sua testa, a minha amiga ferida não me deixou dúvida alguma sobre o que fazer em seguida...
- Não... se preocupe... - eu me esforçava para falar, por mais que a dor me impedisse - você não vai me ver novamente, Helene... - eu disse, tão furiosa quanto a própria Helene.
Eu pus minhas duas mãos sobre a testa de Paula, deixando aquela estranha força que crescia dentro de mim, me tomar por inteira, sem pensar sobre o que era, ou o que faria comigo. Eu ouvi um grito de dor, e por um segundo, fui sugada para uma atmosfera pacífica, iluminada por uma densa luz branca, como a luz do sol. Parecia ser outra dimensão, eu flutuava no ar, me perguntando aonde eu estava, até retornar para a tensão no quarto de Paula, quando eu senti o meu corpo ser, violentamente, arremessado no chão. Ainda atordoada, eu olhei em volta do enorme quarto, me desesperando ao ver Olavo parcialmente inconsciente, e Olívia desmaida, próxima à Paula, que se contorcia de dor.
- Você não pode me tocar, Helene... - eu disse, me levantando do chão, conforme a dor nas minhas costas me permitia - É hora de desistir...
Paula agora possuia marcas, que lembravam arranhões, em seu lindo rosto - "Teria eu feito isso com ela?" - me perguntei, sentindo-me culpada por talvez ter machucado a mãe de Janaína.
Com os cabelos caindo sobre o rosto ensanguentado, Paula me olhou de forma ameaçadora, como se fosse voar para cima de mim, mais uma vez. Eu tentei manter-me firme, disfarçando o medo que sentia. No entanto, Paula não me atacou; o corpo da pobre mulher se contorceu, violentamente, para trás, enquanto ela libertava um terrível grito de dor, até, aparentemente, desmaiar. Por um momento, eu entendi o que Helene pretendia, e fui incapaz de impedí-la. A porta do banheiro foi aberta com violência, fazendo um barulho que ecoou por todo o quarto, e Janaína saiu de lá, mais uma vez sob o domínio de Helene, pegando a faca, próxima ao corpo de Paula. Quase que institivamente, eu me aproximei da mulher insconsciente, na intenção de protegê-la.
- Desista, Helene... - eu disse, debruçada sobre o corpo enfraquecido de Paula, olhando fixamente para Janaína.
- Helene...? Carol, sou eu... Ína... - disse Janaína, calmamente, com um semblante que não pertencia a ela - Não tá reconhecendo a sua melhor amiga? - Janaína sorriu, maliciosamente, deslizando a faca de cozinha pelo próprio pescoço, abrindo, de repente, um corte na área da garganta, libertando um fino jorro de sangue que deslizou pelo seu pescoço e seio, até a sua camisola.
- PARE, HELENE! - eu gritei, desesperada.
Janaína parou a faca sobre o corte recente, e me olhou, parecendo se divertir...
- Ok... - ela disse, finalmente tirando a faca do próprio pescoço - Vamos fazer um simples trato, então... e você não vai poder recusar... - ela disse, em tom de ordem - Me dê a Paula... e eu deixo você e a sua amiguinha em paz - ela disse, passando a deslizar a ponta da faca sobre o próprio seio.
De relance, eu olhei para Olavo, que aos poucos começava a recobrar a consciência, e logo depois para Olívia, que se erguia do chão, devagar, pressionando o ferimento no braço, aproximando-se sorrateiramente de Janaína. Percebendo o que ela pretendia fazer, eu tentei ganhar tempo...
- Será que você não se cansa de manchar as mãos com sangue inocente, Helene!?... - comecei, conseguindo ganhar a atenção dela - Primeiro foram os seus dois melhores amigos; o Caio e o Marcos...
- Eu não vou hesitar em matar outra amiguinha sua, Amallya... NÃO ME PROVOCA!- ela gritou, enfurecida, voltando a pôr a faca no próprio pescoço.
- Os dois, assim como a pobre da Anita, não tinham nada a ver com a briguinha infantil entre você e a Paula, e acabaram morrendo...
- CALA A PORRA DA SUA BOCA! - ela gritou, aos prantos, batendo na própria cabeça com as mãos, como se tentasse se livrar de memórias que a atormentavam.
- E a culpa não foi da Paula, Helene... Você transformou uma simples birra entre colegiais, em uma doentia busca por vingança...
- NÃO! NÃO! NÃO!...
- Você os matou... ... você.
A fúria de Helene havia alcançado o seu limite; pocessa de raiva, ela tentou correr em minha direção, quando Olívia a surpreendeu pelas costas, jogando-a rapidamente contra a estante com a TV e os livros, e pressionando a testa de Janaína com as duas mãos, fechou os olhos, concentrando-se em banir Helene do corpo da minha amiga, e deste mundo, de uma vez por todas. Janaína agonizava de dor; era Helene lutando contra os poderes de Olívia, lutando para permanecer entre nós, mas a luta já estava ganha, eu só me preocupava com os danos que aquilo causaria à minha amiga. Eu corri para socorrer Olavo, que via toda a perturbadora cena, escorado em uma parede, próxima à porta de vidro da varanda. Eu o abracei, perguntando se estava tudo bem, ele não respondeu nada; assim como eu, continuou observando a luta que era travada bem na nossa frente. Os gritos de Janaína ecoavam assustadoramente pelo quarto, mas um outro barulho, quase imperceptível, subitamente me chamou a atenção; bem atrás de mim, eu podia ouvir o vidro da porta da varanda estalando, e aos poucos, pequenas rachaduras iam se formando nele...
- Olívia...? - eu disse, tentando alertá-la sobre a porta de vidro, que começava a rachar de forma ameaçadora, e inexplicável. Olívia não respondeu, parecia estar em outro lugar, talvez o pacífico lugar onde eu estivera por um milésimo de segundo, quando entrei em contato com o espírito de Helene. Quando eu olhei novamente para a porta, as rachaduras haviam aumentado tão rapidamente, que só deu tempo de me afastar com Olavo, quase empurrando-o, antes que a enorme porta de vidro explodisse em milhões de perigosos cacos. Olívia foi derrubada pelo impacto da explosão, enquanto Janaína ficara jogada no chão, coberta por cacos de vidro em variados tamanhos. Haviam cortes por todo o seu lindo rosto, e a garota estava completamente inconsciente. Eu ia ajudar Olívia, quando ela, com um pouco de dificuldade, se levantou por conta própria. O profundo corte em seu braço ainda sangrava de forma preocupante.
- Eu estou bem... É com ela que vocês devem se precocupar... - disse Olívia, ofegante, apontando para Janaína, que ainda estava inconsciente.
Eu me aproximei da minha melhor amiga, um pouco receosa de que ela ainda estivesse sob o domínio de Helene...
- Ína...? Você tá bem? - eu perguntei, acariciando o rosto ensanguentado de Janaína.
- Ela vai ficar bem... - disse Olívia, acariciando o meu ombro e o de Lavinho, tentando nos consolar - só precisa descansar... Ser hospedeiro de um espírito como a Helene pode ser uma experiência muito perigosa... O ódio que Helene carregava dentro de si era muito poderoso... - ela olhou para a porta de vidro estilhaçada - e isso afetou a Janaína também...
- Então acabou!? A Helene foi mandada de volta para... seja lá de onde aquela maldita retornou...? - eu perguntei, esperançosa, como eu não me sentia hávia muito tempo.
- Sim... A Helene retornou para o Além... da pior forma possível, mas retornou... Ela nunca encontrará a paz que outros espíritos merecem ter quando vão para o outro lado... Acredito que ela está condenada a ser um espírito eternamente atormentado pelo próprio ódio que carrega consigo...
- E pela culpa... - eu pensei alto, interrompendo Olívia.
Nós três ficamos em silêncio, obeservando Janaína, até Olívia tomar a iniciativa de tentar erguer a pobre garota, e colocá-la sobre a cama do quarto, com a minha ajuda e a de Olavo. Uma vez tendo colocado Janaína e Paula, uma ao lado da outra, sobre a imensa cama de casal, nós cobrimos as duas com o edredon, e nos retiramos do quarto, apreensivos. Eu e Olavo nos sentamos em um dos sofisticados sofás da sala de estar, minuciosamente decorada, enquanto Olívia ficou de pé, escorada no corrimão da escada, de frente para nós. Ela enrolava um lençol branco, tirado do guarda-roupa de Paula, em volta do corte no braço, no intuito de conter o sangramento.
- Não seria melhor a gente chamar um médico? - perguntou Olavo.
- E ter que explicar toda esssa bagunça!? Eu acho que não! Além do mais, não vai ser necessário... O dano maior não foi causado contra a saúde física, mas sim contra a alma delas, envenenadas pelo ódio de Helene. Logo elas estarão bem...
- A Janaína vai se lembrar de algo? - perguntei, preocupada com a saúde mental da minha amiga.
- Eu receio que não... Mas uma conexão com um espírito como a Helene, é o tipo de coisa que pode deixar muitas cicatrizes internas, Carol... Futuramente ela pode precisar da ajuda de amigos para curá-las - disse Olívia, olhando profundamente para mim e para Lavinho.
- Ok, mas os seus ferimentos não foram internos, Liv. Você não pode continuar sangrando desse jeito... Eu vou pedir uma ambulância - eu disse, preocupada com o estado de Olívia.
- É muita gentileza da sua parte, Carol, mas eu nunca me senti tão bem em toda a minha... - Olívia começou, tirando a mão do corte, por um segundo, permitindo que o lençol usado para fazer pressão, caísse, revelando um jorro de sangue sem fim.
Ao ver, de relance, o sangramento descoberto, Olívia revirou os olhos, ameaçando desmair. Sorte que eu e Olavo corremos para sustentar a corajosa bibliotecária, à tempo.
- Mudou de idéia? - perguntei, enquanto ajudava Olavo a apoiar Olívia nos ombros.
- É, acho que vocês me convenceram... - disse Olívia, ainda um pouco tonta.
Eu peguei o telefone sem-fio, que estava em uma mesinha ao lado do sofá onde eu sentava, e liguei para a emergência, explicando a gravidade da situação, e enfatizando o quão rápidos eles precisavam ser. Inventei que Olívia era a minha mãe e que havia sido esfaqueada por um homem, aparentemente drogado, que invadira a casa, na intenção de levar algo de valor. A história parecia ter incentivado a rapidez deles, ou o posto de saúde que recebeu a ligação era incrivelmente perto da casa de Janaína, porque em exatos dez minutos, dois homens, ligeiramente bonitos e vestidos de branco, batiam na porta da casa.
- Não esqueçam: para evitar confusão, vocês precisam voltar para o Lar, e entrar em seus respectivos dormitórios, sem serem percebidos, e claro, antes da bruxa superiora aparecer para a inspeção diária, ok!? Eu sei que pra você isso não vai ser difícil, certo, Carol!? - disse Olívia, baixinho, já começando a ser guiada pelos dois homens até o barulhento carro.
- Você me conhece, fica tranquila... e se cuida, Liv - eu disse, me despedindo de Olívia, que saia da casa, mandando um beijo com o braço ferido, se arrependendo, profundamente, depois.
Depois de trancarmos a casa, eu e Lavinho subimos para o quarto onde Paula e Janaína descansavam, e ficamos sentados no chão, ombro a ombro, de frente para a cama de casal, onde mãe e filha dormiam. Eu deitei a minha cabeça no ombro de Lavinho, evitando o sono que já teimava em chegar, e assim ficamos em silêncio por alguns minutos.
- Carol...? - disse Lavinho, quase sussurrando em meu ouvido, com a intenção de não me acordar, caso eu já estivesse dormindo.
- Oi - eu respondi, achando graça na atitude fofa de Olavo.
- Posso te perguntar uma coisa? - ele disse, meio envergonhado.
- Você acabou de fazer uma pergunta, não vejo razão pra não te deixar fazer outra - eu disse, tirando a cabeça do ombro de Lavinho, para olhá-lo de frente.
- Por que raios você decidiu esconder esse lance de ver espíritos, logo de mim e da Ína? - ele disse, em um leve tom de indignação.
- Eu não sei ao certo... - comecei a tentar responder, me sentindo envergonhada - Talvez... porque vocês poderiam achar que eu tava maluca, ou... simplesmente porque eu não queria arrastar vocês dois pra toda essa bagunça que a minha vida havia se tornado, desde que eu descobri que eu sou um tipo de Caça-fantasmas...
- Nós somos seus melhores amigos, Carol! A gente ia te dar força... e te internar, claro, mas sempre pensando no seu bem... - brincou Lavinho, me fazendo rir, mesmo em um momento como aquele.
- E eu ficaria muito grata, pode acreditar - eu disse, bagunçando o seu cabelo, super lisinho, o oposto do de Léo.
Ele riu, e me encarou novamente...
- Posso te fazer outra pergunta? - ele disse, mudando totalmente a sua expressão, ficara mais sério.
- Vai nessa - eu disse, me preparando.
- Você já... viu o Léo alguma vez... quer dizer... o espírito dele? - ele perguntou, receoso.
Eu deveria estar esperando por aquela pergunta, mas Olavo me pegara totalmente despreparada. Eu fiquei olhando para ele, que pareceu perceber o quanto a pergunta me assustara, pois desviou o olhar, quase com vergonha. Eu poderia ignorar a pergunta, mas decidi que Olavo, mais do que ninguém, tinha todo o direito de saber que o espírito do seu melhor amigo ainda vagava pelo meu quarto.
- Ele está no meu quarto agora... e muito preocupado, provavelmente - eu disse, tocando o seu rosto para que ele voltasse a olhar para mim.
Por alguns segundos, Olavo não disse nada, só ficou me olhando, como se ainda reformulasse em sua cabeça o que eu acabara de dizer. Foi quando Janaína se levantou da cama, freneticamente, como quem acorda de um terrível pesadelo, fazendo eu e Olavo nos abraçarmos de medo, aos berros, em uma cômica cena.
- Meu Deus!... O que houve comigo? - ela perguntava, ofegante. Sua camisola e rosto encharcados de suor - MÃE!? - ela gritou, ao se deparar com Paula, terrivelmente ferida e inconsciente em sua cama - Gente, o que aconteceu? Por que eu tô em casa? O que houve... aqui? - ela perguntou, olhando em volta do quarto destruído.
Eu olhei para Olavo, pedindo socorro.
- Boa sorte com isso - ele disse, fugindo do meu olhar e da conversa que eu estava prestes a iniciar com uma Janaína assustada e confusa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Capítulo 16 - Refugium



Olavo estava sentado em um banco de pedra, próximo ao bosque da escola, quando eu e Janaína nos aproximávamos para falar com ele. O dia estava particularmente lindo, o sol brilhava como nunca, e sua luz banhava as folhas das árvores do bosque, criando um efeito mágico de se olhar. Janaína estava muito nervosa, mas ela foi a primeira a falar com o amigo.
- Oi - ela disse, timidamente.
- Oi... - Lavinho respondeu, sem olhar em nossa direção.
Eu apertei forte a mão de Janaína, encorajando-a para continuar a falar.
- Será que... você poderia perdoar uma amiga que falou muita merda, foi completamente cabeça dura com você, e que se arrepende muito do que fez?
Olavo não respondeu nada, só se levantou do banco, e nos abraçou, tão forte, que nada mais precisou ser dito...
- Meus pais vão se separar - ele disse baixinho, enquanto nos abraçava, e eu percebi, com uma imensa dor no meu coração, que ele chorava. Ficamos abraçados por uns minutos, como se compartilhássemos a mesma dor.

Eu olhava para Leonardo, sentado sobre a a minha cama, obervando concentrado a paisagem além da janela do meu quarto. Por um momento eu hesitei em chamar a sua atenção, queria observá-lo ali, quietinho, absorto em seus próprios pensamentos, e tão lindo, como sempre fora. Mas ele percebeu a minha presença, e lançando um sorriso que me desmontou em mil pedaços, ele veio em minha direção.
- Oi - ele disse, muito próximo a mim. O frio que emanava dele já penetrava cada parte do meu corpo.
- Oi... - eu disse, sem olhar para ele. Tentava encontrar coragem para me desculpar pela maneira fria com que eu vinha tratando ele - Eu queria que você me desculpasse...
- Pelo quê? - ele perguntou, serenamente.
- Eu tenho sido uma idiota desde... Eu não tenho te tratado bem, e...
- Você não precisa se desculpar por nada... - ele disse, beijando levemente os meus lábios, em seguida - Eu tenho sido muito egoísta, esse tempo todo, se alguém tem que se desculpar aqui, sou eu...
- Não, Léo...
- Eu tenho sido um egoísta, te impedindo de usar o seu dom para ajudar outras pessoas, e eu queria te dizer que... eu sinto muito orgulho de você por ter tentado ajudar a Gabriela...
Eu senti as lágrimas descerem pelo meu rosto.
- Eu não consegui salvá-la...
- Mas eu tenho certeza que você fez tudo o que estava ao seu alcance... Droga! Queria tanto poder te dar um abraço - ele disse, parecendo realmente muito triste por não poder me consolar mais.
Resolvi tentar parar de chorar, para diminuir a sua angústia.
- Você tem razão... Obrigada por tudo, Léo, e mais uma vez... Me desculpa... - eu disse, tentando ao máximo esconder dele, o quanto eu ainda me sentia culpada pelo fim de Gabriela - Eu vou tomar um banho - eu disse, ainda predendo o choro, deixando Leonardo com uma expressão triste em seu rosto, próximo à janela do meu quarto.
Com o tempo, eu decidi que aquela era uma culpa que eu estava condenada a carregar sozinha, em silêncio, pelo resto da minha vida.

Minha mãe se preparava para uma viagem ao Nordeste, onde ela iria visitar a minha avó, e sua mãe, a simpática dona Angélica, naquele sábado. Depois de ter preparado uma mala para dois dias, ela foi ligar para o meu pai, que deveria vir me buscar para passar o fim de semana com ele...
- Já se passaram dois meses desde a última vez em que ela te viu[...] Não! Não vem com esse papo de trabalho[...] E desde quando essa VAGABUNDA se tornou mais importante pra você do que a sua própria filha?[...] quer saber!? VAI SE FUDER, MÁRIO! Eu realmente espero que quando você tiver um filhote com essa cadela, ele receba toda a atenção que uma criança merece receber do pai. Não! Espera! Pra falar a verdade: EU NÃO DOU A MÍNIMA PRA VOCÊ OU PRA QUALQUER ABERRAÇÃO QUE ESSA VADIA PARIR!
Olga enfiou o tefone de volta no gancho, e por um momento eu pensei que ela havia quebrado o objeto. Mamãe respirou fundo, parecia estar pocessa de raiva. Depois de um tempo, ela voltou-se para mim, e tentando aparentar o máximo de serenidade, disse...
- Querida... Eu acho que você vai ter que ficar sozinha durante esse fim de semana... Mas não se preocupe, eu vou deixar dinheiro pra você comer fora e... vou tentar voltar o mais rápido possível no domingo, ok!?
Acho que nem pessoas que ganham na mega-sena ficam tão felizes como eu fiquei ao ouvir aquelas palavras. Eu nunca tivera a chance de ficar sozinha em casa por tanto tempo, e tal oportunidade me dera a idéia de chamar Olavo e Janaína para uma "festa do pijama". Sim! O nosso conceito de "festa do pijama" era muito diferente do que as pessoas estão acostumadas. Por exemplo; esse lance de ser uma coisa só de meninas não se aplicava à festa do pijama idealizada por mim, Olavo, Leonardo e Janaína; dormir estava fora de cogitação, e ao invés de leitinho morno com chocolate em pó, nós bebiamos vodka com refrigerante. Claro que depois de dois copos da bebida, todos, principalmente Janaína, se mostravam um pouco mais, como eu posso dizer?... transparentes... é, acho que é esssa a palavra certa: "transparentes"...
- Ok, ok... querem saber? Não tem nada de nojento nisso... - começou Janaína, virando mais um copo, o terceiro dela naquela noite, em meio às nossas gargalhadas - Eu... já fiz sexo oral no meu primo...
- Safada! - eu disse em tom de brincadeira.
- Huuum, a conversa tá ficando interessante - comentou Lavinho, nos fazendo rir ainda mais.
- Ah, gente... é algo muito normal, e eu não me arrependo de ter feito...
- Mas... sei lá, é um pênis, Ína, na sua boca... pênis são nojentos... - eu dizia, fazendo cara de nojo.
- Concordo! - exclamou Olavo.
- Quer dizer que você nunca fez um boquete no Léo? - perguntou Janaína, e todos nós rolamos pela minha cama, rindo sem sabermos exatamente do quê.
- Não, claro que não... - eu olhei para Leonardo, que nos observava, também aos risos, próximo à porta do meu quarto. Ele me deu um sorriso, pronunciando a palavra "mentirosa", labialmente. Eu dei outro sorriso, e voltei para a conversa com Olavo e Janaína.
- Não foi o que eu ouvi... - comentou Janaína, ainda rindo.
- Eu também já fiz sexo oral em uma prima minha, mas... ela pediu pra parar porque tava fazendo cócegas - comentou Olavo. A sua voz já estava afetada pela bebida.
- Alguém precisa te ensinar a fazer sexo oral, amigo... - disse Janaína, começando a rir de Olavo.
Eu exagerei tanto na risada dessa vez, que acabei caindo da cama, fazendo Olavo e Janaína quase sufocarem de tanto rir.
Quando a bebida nos derrubou, ficamos deitados os três em minha cama, olhando o sol nascer através da janela, ainda balbuciando algumas coisas sem o menor sentido, e rindo a toa. Depois que Janaína pegou no sono e começou a babar no meu braço, estávamos somente eu e Lavinho acordados, eu procurava por Leonardo no quarto, mas não o via em lugar algum.
- Você se lembra da última vez que bebemos juntos? - perguntou Lavinho, que estava deitado ao meu lado, a minha cama não era tão grande, por isso nós três tivemos que ficar muito apertados.
- Acho que sim, foi... Na casa do Léo, quando os pais dele viajaram pra comemorar o aniversário de casamento, ou algo do tipo... - eu dei uma risada ao me lembrar daquele dia - Você lembra que a Janaína tentava me beijar o tempo todo, e... - outra risada - eu tava tão de saco cheio que peguei ela e tasquei um beijo, eu mesma... - nós dois começamos a rir juntos - daí ela olhou pra mim com uma cara super estranha e disse: "Carol... Eu te acho super gata e tal, mas... eu e você nunca vamos ser nada além de grandes amigas" - mais risos - Tipo, ela que tava louca querendo me beijar e quando eu finalmente dou um beijo nela... - nós rimos por alguns segundos, e depois paramos, para recuperar o fôlego, voltando a admirar o nascer do sol.
- Eu sinto falta dele... - disse Lavinho, com um olhar distante, para além da janela, e eu sabia que ele estava falando do Léo.
A amizade de Leonardo e Olavo, certamente, era algo muito forte e que ia além da minha capacidade de imaginar o quanto. Eles moravam na mesma rua, desde pequenos, cresceram juntos, e eram tão inseparáveis que a mãe de Leonardo foi obrigada a matricular o filho na mesma escola que o amigo.
- Eu posso imaginar... - eu disse, olhando para o meu melhor amigo. Seus olhos começavam a lacrimejar.
- Quando os meus pais tiveram a primeira briga séria, tipo... coisas quebrando pela casa, e tal... O Léo apareceu no meu quarto, dizendo que queria me tirar de lá... Ele entrou escondido dos meus pais, acredita?... A gente saiu de casa correndo e fomos jogar bola, na quadra da rua... Eu dormi na casa dele aquela noite, claro que foi o primeiro lugar pra onde a minha mãe ligou quando deu pela minha falta... A mãe do Léo tentou acalmá-la, e a convenceu de me deixar passar a noite lá... Claro que aquilo não tornou as coisas mais fáceis, quando eu voltei pra casa... Mas significou muito pra mim, sabe?... A partir daquela noite eu me convenci de que nunca iria ter outra amizade que nem a do Léo... Não é o tipo de coisa que se encontra facilmente, sabe?... - disse Olavo, lutando contra a própria vontade de chorar.
Eu dei um beijo em seu rosto...
- Eu sei... - eu disse, olhando-o fixamente.
Olavo me encarou de volta, seu olhar ainda parecia muito triste. Nós ficamos nos admirando por alguns segundos, e quando a sua expressão mudou, eu me lembrei do possível interesse que o meu melhor amigo tinha por mim, o que me fez desviar o olhar, rapidamente, pretendendo não causar uma falsa impressão, caso ele estivesse realmente nutrindo algo mais forte que um sentimento de amizade por mim.
- Eu... vou dormir no sofá... - eu disse.
- Não, por favor, a cama é sua... - disse Olavo, parecendo envergonhado.
- Não, Lavinho, por favor... Fica aqui, eu... não consigo dividir a cama, frescura minha, fica à vontade, tá!? - eu disse, me retirando rapidamente do quarto.
Eu nunca havia pensado em Lavinho como algo além de um amigo, e começar a pensar nisso me assustava de um jeito que me forçava a mantê-lo o mais longe possível de mim. Eu nunca soube lidar muito bem com os meus próprios sentimentos, na maioria das vezes, tenho muito medo deles, principalmente daqueles que eu não consigo controlar.
Eu me joguei no sofá, com a cabeça enterrada em um dos travesseiros, para sufocar uma estranha vontade de chorar, "talvez seja a bebida!" - pensei - "talvez você esteja se apaixonando pelo seu melhor amigo" - pensei novamente, e quando menos percebi, estava encharcando o travesseiro com as minhas lágrimas - "nunca mais eu ponho uma gota de bebida alcoólica na boca" - eu pensei, começando a rir da minha própria mentira, caindo no sono, repentinamente.
Na manhã seguinte, eu fui a primeira a despertar, minha cabeça latejava e o meu corpo inteiro parecia prostestar pelos exageros da noite passada. Depois de me espreguiçar, eu me arrastei feito uma morta-viva até a cozinha, consciente de que teria que preparar um café da manhã para três. Eu dei uma olhada para o fogão, e pensei: "aaah, foda-se! Eu não vou preparar esse café sozinha". Subi até o meu quarto, e chegando lá, pulei em cima de Olavo e Janaína, que não gostaram nenhum pouco daquilo...
- Porra, Carol! Tá maluca!? Tem medo de morrer, não!? Nem a minha mãe é louca de me acordar quando eu tô de ressaca... - Protestou, Janaína, me surrando com um dos travesseiros da cama, enquanto Olavo fazia o mesmo com o outro travesseiro.
- Ah, gente, eu fui até a cozinha pra preparar o café da manhã e pensei: "Eu não vou ter toda essa diversão sozinha. Vou chamar meus dois melhores amigos para me ajudarem"...
- É? Engraçadinha! Nós somos visitas, você deveria trazer o nosso café da manhã em uma bandeja... - começou, Lavinho.
- Cala a boca que "visitas", aqui em casa, vocês dois não são mais faz tempo, seus folgados! - eu puxei o edredom com toda a força que pude, fazendo Olavo e Janaína cairem no chão.
Eu olhei para o lado, e vi Leonardo, que acompanhava toda a cena, rindo. Claro que eu também não resisti e comecei a rir. No chão, Olavo e Janaína me xingavam, e soltavam altas gargalhadas ao mesmo tempo, acompanhadas de gemidos de dor, devido a pequena queda. Inesperadamente, eles se levantaram e começaram a correr atrás de mim pela casa inteira, querendo vingança.
- Volta aqui, Carolsinha! - dizia Olavo, enquanto me perseguia na sala da casa.
- Eu quero ver se você vai rir quando eu te pegar! - disse Janaína, tentando me alcançar.
Quando Olavo conseguiu se aproximar de mim, me agarrou pela cintura, e me jogou no sofá. Os dois começaram a fazer cócegas em mim, até eu quase fazer xixi na roupa.
Na cozinha, nós preparamos três mistos quentes, e Janaína fez o café dela, que eu e Olavo tanto bajulávamos. Quando tudo estava posto na mesa, eu corri para a sala e coloquei o primeiro albúm do Kid Abelha para tocar.
- Caraaaalho, esse café tá muito bom, Ína! - comentou Olavo.
- Muito foda! - eu disse, de boca cheia.
- E vocês são dois puxa-sacos - disse Janaína.
Leonardo nos observava, dessa vez aparentando tristeza. Fiquei preocupada com ele, mas decidi abordá-lo para uma conversa, depois do café da manhã.
- Nossa, tá fazendo muito frio aqui, não acham? - comentou Olavo.
Eu olhei para Leonardo, sabendo que a presença dele era a razão para o frio constante.
- É verdade - concordou Janaína, tentando aquecer os braços com as mãos.
- Eu não tô sentindo, vocês devem estar doentes, ou sei lá... Me passa o café, Ína - eu disse, tentando mudar o foco da conversa, e quando olhei novamente para onde Leonardo estava, percebi que ele havia sumido.
Quando a minha mãe telefonou, por volta das dez da manhã, avisando que estava voltando para casa, Olavo e Janaína começaram a se preparar para irem embora. De onze horas eu os deixei na parada de ônibus mais próxima, e voltei sozinha para casa, ansiosa para conversar com Leonardo. Assim que cheguei, fui direto para o meu quarto, onde Leonardo estava na janela, de costas para mim.
- Você tá legal? - perguntei, me aproximando dele.
- Tô sim... Não precisa se preocupar - ele respondeu, permanecendo de costas.
- Você parecia meio triste na cozinha... Foi uma má idéia ter trazido o Lavinho e a Ína pra cá? - perguntei.
- Claro que não! - ele disse, firmemente, voltando-se para mim - É só que... Ver vocês três juntos, se divertindo como a gente costumava fazer... Sei lá... eu fiquei triste por não poder fazer parte da vida de vocês...
- Droga! Eu fui muito egoista, eu deveria saber que... - comecei.
- Não, Amallya! Foi uma ótima idéia trazer os dois aqui. Ou você acha que eu não gostei de rever meus melhores amigos? - ele me repreendeu, me deixando envergonhada por ter pensado que a presença de Olavo e Janaína pudesse ter deixado Leonardo triste - É só que... Eu sinto falta de realmente estar com vocês, só isso... Você me entende? - ele me perguntou, tentando disfarçar a tristeza em seu olhar, provavelmente para não me preocupar mais.
- Eu entendo, me desculpa...
- Não precisa se desculpar, eu fiquei muito feliz em ver que vocês estavam felizes, isso basta pra mim - ele me beijou, como que tentando encerrar aquela conversa. Eu obedeci a seu pedido silencioso, e não não toquei mais no assunto.

Na segunda feira pela manhã, eu estava arrumada para ir a escola, ainda um pouco cansada por não ter dormido muito no fim de semana. Leonardo me observava, distraido, arrumar o material escolar.
- Vou indo... - eu disse, colocando a mochila nas costas - A gente se vê no sábado.
- Não se mete em encranca... ou, pelo menos tenta não se meter em encrenca, sei lá... - ele disse, esboçando um leve sorriso.
Eu me aproximei dele, e beijei sua boca, rapidamente, me deixando ser tomada pelo frio de sua aura e lábios.
- Eu prometo que vou fazer o meu melhor... Enquanto isso, tenta relaxar, ok!? - eu disse, começando a me retirar do quarto...
- Carol...? - disse Léo, me fazendo parar na porta - Eu te amo - ele disse, com um olhar um tanto apreensivo, quase como se estivesse dizendo "por favor, não vá". Eu controlei uma inexplicável vontade de chorar, e respondi...
- Eu também te amo.
Me retirei, abandonando o seu olhar desolado, com uma estranha sensação tomando conta de mim, algo que me alertava baixinho para voltar para dentro do quarto, trancar a porta, e nunca mais sair... Ficar para sempre envolvida pelo frio que emanava de Leonardo, e vigiada pelo seu olhar misterioso e acolhedor.
- CORRE, AMALLYA! OLHA A HORA! - gritou a minha mãe, pontuando a frase com uma longa buzinada do carro.
Eu tentei, em vão, calar aquele alerta que se repetia em minha mente; "Não vá, não entre naquele carro, não ponha os pés naquela escola...", e uma vez dentro do carro, eu olhei para a janela do meu quarto, a procura de Leonardo, querendo admirar o seu olhar mais uma vez (uma última vez?), e para a minha total angustia, ele não estava lá.

Na escola, a primeira coisa sobre a qual eu, Olavo e Janaína conversamos foi a nossa noite de sábado, ou pelo menos o que a gente conseguia lembrar dela, no caso de Janaína: Nada. Eu e Olavo demos muitas risadas tentando fazê-la se lembrar de uma certa confissão que ela fizera, sob o efeito de três copos de Vodka com refrigerante, envolvendo sexo oral e um certo primo dela.
- Mentirosos! Como é que vocês dois tem a coragem de insinuar que eu fiz um boquete no meu primo!? - protestou Janaína, e seu sorriso denunciava que nem a própria estava botando fé no que dizia.
- Engraçado, há um dia atrás você estava se gabando do quanto era experiente nesse departamento - disse Olavo, me fazendo quase chorar de tanto rir.

Durante o intervalo, eu e Janaína nos separamos de Olavo no caminho para o refeitório, e entramos no banheiro feminino do térreo. Eu fazia xixi, enquanto Janaína trocava o absorvente, na cabine ao lado da minha. Nós saímos quase ao mesmo tempo, e ficamos de frente ao espelho; eu lavando as mãos e o rosto, e Janaína arrumando o cabelo.
- Droga! A minha menstruação tinha que chegar em plena semana de provas!? É muita felicidade pra uma pessoa só, não sei se eu vou aguentar! - disse Janaína, sarcasticamente, enquanto arrumava a sua franja.
- Nem me fale, a minha tá quase chegando também... - eu parei, subtamente, ao perceber que havia mais alguém no banheiro.
Pelo enorme espelho à nossa frente, eu pude ver a minha imagem, a de Janaína, e a de Helene, escorada, calmamente, na porta do banheiro. Eu sufoquei um grito de susto, e me voltei rapidamente para a porta, onde não havia ninguém.
- O que foi, Carol? - perguntou Janaína, preocupada.
- Nada... - eu disse, surpresa, ao encarar a porta do banheiro - Eu só... Não foi nada.
"Ótimo! Ficar louca seria o ponto máximo de um ano totalmente incrível"- pensei, começando a ficar preocupada com a possibilidade de estar perdendo a cabeça, ou pior... de realmente ter visto a Helene naquele banheiro.
- Tem certeza? - perguntou Janaína, olhando na mesma direção em que eu olhava, paralisada, como se a porta tivesse me hipnotizado.
- Tenho, vamos só... sair daqui, ok!? - eu pedi, e Janaína me acompanhou para fora do banheiro, parecendo realmente muito precocupada.
No caminho para o refeitório, eu tentava convencer a mim mesma de que aquilo não passara de uma ilusão, não fazia sentido a Helene estar de volta, com que propósito? O que ela estaria querendo dessa vez? Matar a filha de alguém que, provavelmente, infernizou a vida dela durante a adolescência, não teria sido o bastante? Era como ter voltado ao início do ano, e a todas as perguntas que tanto me assombraram a respeito das intenções de Helene.
Só consegui parar de pensar na Helene quando a irmã Joana colocou a prova de matemática na minha frente, e ainda assim eu tive que me esforçar um pouquinho para me concentrar em números e cálculos, ao invés de em espíritos vingativos.
Em meia hora de prova, eu não conseguira responder nada, a minha mente estava totalmente voltada para a aparição de Helene. Eu tinha medo de vê-la a qualquer momento, na minha frente, perguntando se eu não sentira saudades. E foi quase o que aconteceu. Eu tirei a minha atenção da prova por um instante, e olhei em direção a porta da sala, de onde Helene me observava, através da tela de vidro, com o mesmo olhar esnobe de sempre. Eu olhava fixamente para ela, e de repente, tudo em volta parecia ter sumido, ou não ter significado algum, a única coisa que existia era aquele fantasma atrás da porta, me observando, quase como se dissesse: "Pensou que tinha se livrado de mim?... Vem cá, Carol... eu senti tanto a sua falta"...
- Amallya!? - disse a irmã Joana, chamando a minha atenção. Eu pude sentir, envergonhada, os meus olhos lacrimejando - Acredito que a sua atenção deveria estar voltada para a SUA prova, não concorda!? - ela disse, com um olhar fulminante.
Eu quase enterrei a minha cara na mesa, me esforçando para não olhar novamente para a tela de vidro na porta da sala. Tentei ao máximo me concentrar na prova, mas a imagem de Helene não saia da minha cabeça, logo eu só pensava em responder as questões o mais rápido possível, e correr para a biblioteca. Eu precisava avisar Olívia sobre a possível volta de Helene. Depois que o som da sirene anunciou que já se passara uma hora desde o início da prova, eu finalmente pude entregá-la à irmã Joana e sair correndo de dentro da sala. Uma vez no corredor, eu me surpreendi com a imagem de Helene, que para o meu desespero, estava ao lado da escada que me levaria para o andar da biblioteca, como se estivesse vigiando a passagem.
Ela olhava para mim de maneira desafiadora, eu tentei não demonstrar o meu medo, e continuei andando até a escada, sem desviar o olhar do imponente espírito. Inconscientemente, eu apressei o passo quando comecei a subir a escada, me odiando por ter dado esse gostinho a ela.
- Mande lembranças pra Olívia... - disse Helene.
O meu sangue ferveu, e eu parei subitamente, me voltando para ela, que para a minha total surpresa, sumira do pé da escada. Eu engoli em seco, e continuei subindo os degraus, o mais rápido que pude.
Eu abri a porta da biblioteca, e a minha expressão pareceu ter assustado Olívia, que se levantou rapidamente do birô, e veio em minha direção. Eu estava ofegante, e suava muito.
- Olívia... - comecei, parando para respirar.
- O que houve, menina? Parece que viu um... - começou ela.
- Não! Essa piadinha eu não aguento! Nem começa! - eu disse, com todo o fôlego que eu consegui acumular, desabando na cadeira em frente ao birô de Olívia. Ela alisava o meu cabelo, tentando me acalmar.
- O que aconteceu? - perguntou ela, preocupada.
- Eu vi... - comecei, parando subitamente ao ver uma foto muito familiar, abandonada sobre o birô de Olívia - O que você tá fazendo com essa foto? - perguntei, um tanto alto demais, pegando a fotografia de anuário da turma do primeiro ano de 1978.
- Fala baixo, sua retardada! Isso aqui ainda é uma biblioteca, esqueceu!? - disse Olívia, passando a puxar o meu cabelo, ao invés de alisá-lo.
- Aaai, Liv! - eu disse, como reação a dor, que não foi tão grande.
- Desculpe... - disse ela, voltando a sentar atrás do birô.
- Qualé a da foto? - perguntei novamente.
Ela respirou fundo, e me olhou séria...
- Essa é a Helene? - ela perguntou, apontando a maldita garota de olhar intimidador, na foto.
- Sim... Mas por que... - eu disse, começando a ficar intrigada com aquela conversa.
- Eu tenho visto ela - disse Olívia, me deixando surpresa e aliviada ao mesmo tempo.
- Graças a Deus... - eu disse - não tô ficando louca...
- Você também tem visto ela?
- Começou hoje... Mas que porra! O que essa psicopata quer dessa vez? - eu me perguntei, atentando para não aumentar o tom da minha voz com a minha raiva.
- Você não consegue pensar em nada...? Ou em alguém...? - insinuou Olívia, com uma expressão super preocupada em seu rosto, inevitavelmente, me fazendo lembrar da minha mãe.
- Puta que pariu! - eu quase berrei, quando me dei conta do que Olívia tentava me dizer - Ela... ela quer à mim!? - eu perguntei, desnecessariamente.
- Você tem que sair dessa escola o mais rápido possível! Inventa aluma coisa pra sua mãe vir te buscar, diz que tá doente, arranja algum problema sério com a madre superiora pra ela te suspender, sei lá... - alertou-me Olívia, seriamente preocupada.
- Não! Eu não posso sair daqui, não agora que a Helene está de volta. Além do mais, você mesma disse que ela não pode fazer mau à alguém como eu... - comecei, tentando me reconfortar.
- Amallya, eu acredito que já deixei bem claro o que pode acontecer se você tentar enfrentar um espírito como a Helene...
- Eu não ligo! - e desta vez eu não liguei para o tom da minha voz, me sentindo envorgonhada depois - Eu não vou deixar ela vencer, Olívia... Não dessa vez! - eu disse, olhando formemente para a amiga à minha frente, e me retirando da biblioteca, feito um furacão.
Olívia ainda tentou me impedir, levantando-se do birô, mas eu fui mais rápida, e saí da biblioteca, apressando-me para o andar inferior.
O andar térreo já estava cheio de alunos que terminaram as suas provas mais cedo. Eu ainda tinha a esperança de dar de cara com a Helene, mais uma vez, e desafiá-la, mas ela não apareceria em um lugar tão cheio de gente... Ou pelo menos era o que eu esperava.
Em meio a multidão de alunos eufóricos, estava o ameaçador olhar, lindamente esverdeado, de Helene. Eu correspondi ao seu olhar com um mais ameaçador ainda, e comecei a caminhar decidida à seu encontro. "Vou te mandar direto pra o inferno, vagabunda!" - eu pensava, enquanto andava em sua direção, esbarrando em alguns alunos no percurso.
Alguém muito alto tirou a minha visão de Helene, por um instante, e quando eu olhei novamente para o fim do corredor, ela não estava mais lá. Eu comecei a olhar em todas as direções, e quando olhei para o meu lado esquerdo, pude vê-la tão próxima de mim, que institivamente, fui forçada a recuar, um pouco amedrontada. Mais pessoas na minha frente, e mais uma vez ela desaparecera. E a maldita ficou repetindo esse ato de sumir e reaparecer em um lugar diferente, até eu começar a ter a angustiante sensação de que ela estava em toda a parte, rindo de mim.
Eu podia ouvir o comentário de alguns alunos, a respeito do meu estado de medo e raiva, ao estar sendo totalmente manipulada por um espírito.
"Ela deve estar maluca, que nem a outra que se matou" - sussurravam vozes desconhecidas e cheias de escárnio.
- "Olha só como ela é estranha! Tá chorando... só pode estar maluca!"
- "Eu sabia que ela ia acabar assim, tava passando muito tempo com a Gabriela antes da garota se matar..."
- "Maluca"
- "Ela tá chorando?"
- "Ela tem que sair da escola! Já basta de gente enlouquecendo aqui!"
Eu reprimi uma extrema vontade de gritar, e saí daquele lugar o mais rápido que pude. Helene estava tentando me enlouquecer, estaria ela tentando fazer comigo o mesmo que fizera com a pobre Gabriela? Mas por que naquele momento? Depois de todos aqueles meses?
Correndo freneticamente, eu atravessei o lobby da escola, me enfiando dentro do bosque, sem saber ao certo para onde estava indo. Muitas coisas assombravam a minha mente naquele momento. Quando eu finalmente dei por mim, estava dentro da igreja no coração do bosque da escola. Me senti segura ali, não sabia o porquê, mas eu simplesmente me senti segura, como em nenhum outro lugar. Não havia ninguém lá, e a igreja estava escura e silenciosa. Eu me sentei em um dos bancos, enxugando as lágrimas em meu rosto, e tentando recuperar o fôlego. Eu admirei a abóbada da igreja, me dando conta de que nunca havia visto nada tão bonito naquela escola. No teto havia um lindo desenho da pomba que representa o espírito santo. O pássaro era enorme e intimidador, parecia estar protegendo as pessoas abaixo dele, de suas asas irradiavam traços dourados. Eu me senti tão em paz, admirando aquela verdadeira obra de arte, que decidi me deitar no banco, encarando a linda imagem na abóbada, me sentindo estranhamente protegida.
- Amallya? - aguém chamava por mim, enquanto me sacudia.
Demorou alguns segundos até eu perceber que se tratava da voz do padre Jonas. Eu me levantei num pulo, sentindo uma chata dor de cabeça, talvez pela posição e o local em que dormira.
- Padre... me desculpa, eu... - comecei, ainda meio atordoada.
- Você não precisa se desculpar por ter pegado no sono dentro da igreja - disse o padre Jonas, me ajudando a levantar do banco.
- Obrigada... - observei que o lugar estava mais escuro - Já anoiteceu? - perguntei surpresa.
- Sim, já passa das seis, e todos estão no refeitório, jantando. Eu te levarei até lá.
Pensei em Olvao e Janaína, que deveriam estar mortos de preocupação, afinal, eu sumira por quase cinco horas. O bosque estava assustadoramente escuro e silencioso naquele momento. Apressei o passo, ao perceber que o padre Jonas se distanciara de mim.
- O que te levou a procurar a igreja, filha? - perguntou o padre Jonas, repentinamente, no momento em que atravessávamos o lobby da escola.
- Eu não sei ao certo... só cheguei lá - respondi, escondendo a parte em que eu estava sendo perseguida por um espírito que, provavelmente, queria me enlouquecer, ou pior...
- Bem... me conforta saber que o seu coração te guiou para um lugar bom... - disse o padre Jonas.
- Com o perdão da palavra, senhor... Assim como as pessoas; nenhum lugar é totalmente bom - eu disse, sem saber ao certo o que me levara a desabafar aquilo, ainda mais com o padre Jonas, que me olhou com repulsa pelo meu comentário.
Ao chegarmos no refeitório, eu avistei rapidamente a mesa onde Olavo e Janaína comiam, e fui até eles, deixando o padre Jonas para trás.
- Oi, gente... - eu disse, me sentando em uma das cadeiras vagas. Havia um terceiro prato esperando por mim na mesa.
- Onde você se meteu, sua retardada? - perguntou Janaína, tomando um gole de suco de laranja, em seguida.
- Você desapareceu depois da prova, e deixou a gente morto de preocupação - completou Lavinho.
- Eu sei, me desculpem... Eu... tava na igreja.
- Tava de detenção? O que foi que você fez? - perguntou Janaína, surpresa.
- Não, eu não tava cumprindo detenção, eu... comecei a caminhar pela escola, depois da prova, fui parar lá, me deitei em um dos bancos e dormi, foi só isso - eu disse, começando a comer, me dando conta do quanto eu estava faminta.
- De todos os lugares para se tirar um cochilo nessa escola você foi escolher logo aquela igreja bolorenta!? Eu só tenho amigo fudido da cabeça mesmo! - comentou Janaína, sem se preocupar em me ofender com o comentário.
- Da próxima vez avisa, pô! A gente ficou precocupado - disse Lavinho, acariciando a minha mão esquerda. Institivamente, eu afastei a minha mão, me arrependo ao ver que Olavo ficara envergonhado.
- Bem, me deculpem se eu sou humana e as vezes preciso de um momento sozinha! Não sabia que precisava da permissão de vocês pra conseguir isso - eu disse, tentando não parecer grosseira.
Olavo e Janaína ficaram em silêncio, e eu pude comer em paz. Devo ter levado menos de dez minutos para tanto, tamanha era a minha fome. Encerrei a minha refeição com um último gole do suco de laranja, e foi nesse mesmo momento que a sirene tocou, e todos no refeitório se levantaram para formar as filas com direção aos dormitórios.
Eu e Janaína nos despedimos de Lavinho, no momento em que as nossas filas se separaram, e eu entrei no dormitório feminino, parando abruptamente na porta do aposento. Eu escutei os gritinhos de reclamação das meninas que estavam atrás de mim mas não dei a miníma, eu não me movi. As garotas atrás de mim me empurravam para poderem entrar, exceto Ína, que permaneceu ao meu lado, preocupada com o meu estado de choque.
- Carol, você tá bem? O que há de errado? Você tá gelada... - comentou ela, ao tocar no meu braço.
Me perguntei se alguém mais sentia o penetrante frio que tomava conta de todo o dormitório. "Ela está aqui!" - eu pensei, com toda a convicção do meu ser, e me apavorei.
- Não foi nada, eu... só fiquei um pouco tonta, acontece - eu disse, tentando acalmar a minha amiga.
- Se quiser eu te levo à enfermaria... - começou Janaína.
- Não, Ína, não é nada, é sério... Não se preocupa - eu disse, acariciando o seu rosto, e pegando na sua mão para continuarmos a andar até as nossas camas, olhando em todas as direções, esperando encontrar Helene em alguma parte do enorme aposento.
Eu vesti a minha camisola curta de alcinha por cima das minhas roupas de baixo, e me deitei, cobrindo o corpo inteiro com o edredom. Janaína ainda parecia preocupada, mas não me perguntou mais nada.
- Boa noite, Ína - eu disse, ficando de costas para ela, tentando evitar qualquer conversa antes de dormir.
- Boa noite - ela disse, indiferente.
Eu queria que Janaína dormisse o mais rápido possível, para que eu pudesse sair do dormitório no meio da noite, e ir ao encontro de Helene. Eu precisava saber o que ela queria de mim. Eu precisava acabar com aquilo de uma vez por todas... o que me atormentava, era não saber como.
Eu fechei os meus olhos com força, sentindo o frio arrepiar cada pêlo do meu corpo. Não intencionava pegar no sono.
...
Eu corria, corria com toda a minha vontade, sentia meu peito e pernas doerem com o esforço, mas eu corria... Corria em meio à uma escuridão sem fim. Não sabia de quem, ou do quê, eu estava fugindo, mas eu fazia isso com toda a minha vontade. Repentinamente, eu cheguei à uma escada, e à alguns degraus abaixo, estava eu, como se tivesse acabado de cair. Como isso era possível?
Eu fiquei encarando aquela figura muito parecida comigo, chorando amedrontada, no fim da escada, como se eu fosse machucá-la. Ainda vislumbrando a minha própria imagem, no alto da escada, fui agarrada por mãos frias como mármore, e senti o meu pescoço ser, violentamente, puxado para trás. Eu olhei fundo no verde penetrante dos olhos de minha caçadora. Helene sorriu deliciada, antes de rasgar a minha garganta com um único golpe de faca...
Eu acordei ofegante, meu corpo e roupa encharcados de suor. Nesse instante, a porta do dormitório fechou-se abruptamente, fazendo um barulho que ecoou por todo o aposento. Eu pude sentir o meu coração tentar escapar do meu peito, com o susto que levara. Ainda um pouco atordoada, me esforcei para ver Janaína na escuridão, e me desesperei ao ver que ela não estava em sua cama. Pensei em Helene, e me dei conta de que o clima no dormitório também mudara, o penetrante frio da morte dera lugar à temperatura ambiente, nem muito fria, nem muito quente.
Eu pulei da cama, e corri em direção à porta do dormitório. Espiando o lado de fora, me deparei com Janaína descendo as escadas para o térreo.
- Janaína!? - eu gritei, sem me preocupar em acordaqr as outras pessoas nos dormitórios.
Ela não respondeu ao meu chamado, e continuou descendo os degraus da escadaria, até sumir de vista. Nesse momento, eu me vi assombrada por imagens de um passado que eu daria tudo para esquecer. Estaria acontecendo tudo de novo? Helene atacara novamente, e desta vez, a vítima escolhida seria a minha melhor amiga? Aquilo precisava acabar, de uma vez por todas. Ela não tinha razão para querer fazer mal algum contra Janaína, a não ser que ela pretendesse me atingir através dela. Decidi não perder mais nenhum segundo me perguntando sobre os planos de Helene, corri em direção à escada, tentando seguir Janaína.
Quando eu cheguei ao térreo, ela já ia muito longe, para além do lobby da escola. Estranhei o fato de a porta principal estar aberta, uma vez que todos os alunos já dormiam, então imaginei que talvez ainda não passasse das onze horas, e que houvessem funcionários cumprindo expediente no Lar.
- JANAÍNA!? - eu gritei mais uma vez, desta vez mais alto, chamando pelo nome da minha melhor amiga, na esperança de que ela me respondesse. Mas ela não respondeu, o que me deu a certeza de que Janaína não comandava mais o seu própio corpo. Atingida pela certeza de que a minha amiga corria grave perigo, eu corri o mais rápido que pude em direção à entrada do colégio. Janaína, por sua vez, também apressou-se.
Cheguei ofegante aos degrais que antecediam a entrada da escola. A única luz que iluminava o pátio frontal do Lar era a da lua, que naquela noite estava minguante, formando um perfeito sorriso no céu, a escuridão parecia, de fato, estar antecedendo algo horripilante. Senti a minha espinha gelar, ao ver que Janaína se precipitara pelo bosque. "Estou caminhando direto para uma armadilha" - pensei, recuando alguns passos nos degraus do lobby. "A sua melhor amiga ainda está lá, e precisa de você". Eu respirei fundo, sentindo o meus pulmões se encherem do gélido ar noturno, e corri em direção ao bosque, sem pensar no que poderia estar me aguardando lá. Eu pisava no chão de terra e folhas secas, sendo guiada pela luz da lua, que penetrava, timidamente, a floresta por entre os galhos das imensas arvores. A escuridão não me permitia ver Janaína, mas eu podia ouvir os seus passos adiante. Ao chegar na igreja, que ficava em uma área mais aberta do bosque, e por isso a luz da lua penetrava com mais intensidade, pude ver Janaína entrando na velha construção. O medo me disse para não dar mais nenhum passo, e voltar para a escola o mais rápido possível, e devo confessar que, por um instante, aquela idéia me pareceu bem tentadora. Mas eu não podia abandonar Janaína. E foi pensando nela que eu tomei coragem para colocar um pé na frente do outro, e continuar caminhando até a igreja.
Eu abri a imensa porta de madeira envelhecida, e entrei. O rangido da porta ecoou gravemente, tamanho era o silêncio do lugar. Em meio à densa escuridão, me esforcei para enxergar o pequeno altar com a imagem de nossa senhora de Aparecida, onde eu sabia que haviam algumas velas,e se eu tivesse sorte; fósforos. Eu dei alguns passos para a direita, e esbarrei no simples altar de madeira, começando a tateá-lo às cegas, encontrando imediatamente um castiçal com uma vela, e para a minha felicidade, uma caixa de fósforos.
Eu acendi a vela de imediato, e vasculhei o lugar com a fraca e amarelada luz que emanava do fogo, procurando por algum sinal de Janaína.
- Janaína!? - eu chamei, sem gritar.
Não houve resposta.
Eu caminhei, cautelosamente, em direção ao altar da igreja, onde havia uma imensa cruz de madeira com a tradicional imagem de Jesus Cristo sobre ela. Foi quando eu ouvi o forte som de algo muito pesado sendo arrastado, cortando violentamente o silêncio, o que me fez virar em direção ao foco do barulho, quase apagando a vela com o movimento brusco que eu fizera. O som viera do confessionário, que ficava atrás de uma cortina vermelho-sangue. A cortina balançara, por efeito do vento, ou porque alguém acabara de movimentá-la. O medo me paralisara. Naquele momento eu desejei não ter entrado na igreja, e até pensei em sair correndo sem olhar para trás, mas era tarde demais, a porta estava muito longe, e algo na escuridão me dizia que seria muito arriscado tentar fugir. Nao vendo outra saida, eu comecei a me mover em direção à cortina que antecedia o confessionário. Eu toquei o tecido plumado da cortina, respirando fundo e abrindo-a, abruptamente. Atrás não havia ninguém, nem nada, além do confessionário. Eu respirei aliviada, e intrigada, ao mesmo tempo. Olhei para trás, procurando pelo menor sinal de vida. Eu já estava recuando, quando olhei para o confessionário uma última vez, e percebi algo muito estranho. De fato, ele havia sido movido, e tal movimento desvendara uma fenda, antes ocultada pelo confessionário. Eu o movi um pouco mais, e aos poucos, uma estreita passagem foi se revelando à minha frente. Eu tampei o nariz ao sentir o desagradável odor que emanava do lugar. Tentei iluminar a passagem secreta com a pouca luz que emanava da chama da vela, mas não servira nem para ter uma noção do tamanho do lugar, que na verdade parecia ser um buraco, pois não havia chão além da passagem, só o breu. Eu ergui a minha visão e me deparei com uma escritura, raspada profundamente na parede acima da passagem, e ao ler a palavra, senti a minha mente ser levada no passado para uma conversa que eu tivera com uma assustada Anita, na biblioteca, e que, até aquele momento, me parecia sem importância. Na conversa, ela me falara sobre um lugar secreto em que Helene e seus dois melhores amigos, Caio e Marcos, costumavam ir durante a noite. O lugar fora descrito por Anita como um "Refúgio" para os três amigos. E não podia ser mera coincidência que a palavra "REFUGIUM" estivesse cravada em uma parede acima de uma passagem oculta, e que parecia não ser visitada por ninguém há anos. Atingida pela repentina descoberta, eu recuei, amedrontada, e ao me virar, me encontrei com o olhar de Janaína, tão próxima de mim que poderia me beijar. Ela sorria, sorria de um jeito que não era comum a ela, mas que me era terrivelmente familiar...
Eu só pude libertar um grito de pavor, antes de ser empurrada para a passagem atrás de mim, sendo tragada pela escuridão em uma curta queda, e perdendo a consciência ao chegar no chão.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Capítulo 15 - Cicatrizes


O sol se escondia atrás de nuvens cinzentas, aos poucos o céu ia tornando-se bucólico, o cheiro peculiar que antecede a chuva começava a penetrar as minha narinas. "Faz mal sentir esse cheiro"; eu pensava. Dona Olga dissera uma vez que era só senti-lo e esperar para pegar uma gripe no outro dia, mas eu não me preocupava com isso.
- Vai chuver - comentou Leonardo, que estava sentado ao meu lado nos batentes que antecediam a porta da minha casa.
- Eu sei... mas não quero entrar agora - eu respondi, descansando a minha cabeça em meus joelhos.
Eu senti o frio de Leonardo penetrar o local da cicatriz no meu braço esquerdo, ele a tocava, tentando me acariciar. Desejei que ele não tivesse feito aquilo, aquela maldita coisa no meu braço não me trazia lembranças das mais felizes. Naquele momento, decidi que nunca mais usaria blusa regata em toda a minha vida.
- Você nunca conversou comigo... sobre essa cicatriz... - comentou ele, me irritando ainda mais.
- Talvez eu simplesmente não queira falar sobre ela... - eu disse, me afastando um pouco dele, e como resultado, parou de me tocar - e eu já te disse tudo o que você precisava saber... vamos mudar de assunto, ou ficar em silêncio... - eu disse, voltando a enterrar a cabeça entre as minhas pernas.
- Me desculpe... eu não queria fazer você se lembrar...
- Mas fez! - eu disse, de forma arrogante, me arrependendo depois.
Percebi que Leonardo se afastava de mim, mas não o impedi, queria mesmo ficar sozinha. Eu olhei para o céu nublado mais uma vez, e fui tomada por uma tristeza indescritível, as primeiras gotas de chuva começavam a tocar a minha pele. Me encostei na porta, evitando ao máximo a chuva. Era novembro, e a cidade já estava em clima de Natal, algumas casas da minha vizinhança já estavam enfeitadas para a data, tudo a minha volta parecia indicar que o tempo passara, e muito, desde o dia em que Gabriela Machado tirara a própria vida na minha frente, mas aquilo ainda parecia tão vivo em minha memória, que era difícil acreditar que acontecera há onze meses. A água da chuva tocava os meus pés, deliciosamente, e por um momento me vi livre dos pensamentos sobre Gabriela, e admirei a chuva. Devo ter ficado ali por mais de meia hora, a chuva, no entanto, durou o resto do dia.

Na escola, as coisas haviam mudado muito desde o suicídio de Gabriela, claro que ela levou a culpa dos crimes cometidos, mas Lúcia Machado sempre defendia a filha, afirmando que , ao contrário do que diziam as autoridades, Gabriela nunca tivera problemas mentais, o que era verdade. A mulher até se atracara com a mãe de Alycia, que aos prantos, acusava a madre superiora de permitir que "psicopatas mirins" se matriculassem no Lar. Alycia não sobrevivera ao ataque fatal de Gabriela, fora encontrada já morta, afogada em seu próprio sangue, no banheiro feminino, o que também garantira mais um processo para a escola por parte da mãe da garota. Mas a pessoa que mais mudara era a madre superiora , a mulher parecia representar perfeitamente a situação pela qual o Lar estava passando, através de suas assombrosas olheiras, as marcas da velhice mais expostas, como feridas de guerra, e seu semblante derrotado. Olga estava menos ativa para manter a ordem no Lar, não visitava mais as salas durante as aulas, não fazia a sua inspeção noturna nos dormitórios, passava o dia inteiro trancada em sua sala, saindo apenas quando a solicitavam para alguma coisa. Os dias do Lar estavam contados, assim que o ano letivo acabasse, o colégio também teria o seu fim, e não havia nada que eu pudesse fazer. "Não conseguiu nem garantir que Helene não fizesse mal a pobre Gabriela, quanto mais salvar o Lar de seu fim, se renda a sua inutilidade, Amallya... Você é um fracasso, sempre foi e sempre será, acostume-se", eu pensava, toda a vez que tentava imaginar uma saida para a atual situação do meu amado colégio. Porém, dentre todas as coisas que mudaram na minha vida desde as tragédias que eu presenciara no Lar, eu nunca poderia imaginar que os meus amigos também seriam uma delas. Janaína estava mais estressada que o normal, e se isolava constantemente, já Olavo parecia me evitar, também começara a fumar mais, o que me fazia aconselhá-lo além do normal, afinal é para isso que os amigos de verdade servem, quando um amigo nosso está fazendo uma burrada consigo mesmo, nós temos que ser um pé no saco para ele.
- Esse é o terceiro que você fuma - comecei.
- E eu não preciso de alguém contando os cigarros que eu fumo, muito obrigado - respondeu ele, dando uma longa tragada para pontuar o seu "foda-se, o pulmão é meu".
- Desculpa por estar preocupada com você...
- "Desculpa por estar precocupada com você"... - desdenhou Janaína - Aaaah! Deixa ele se fuder, Carol! Parece até que é mãe dele... opa! Me desculpe, eu esqueci que a sua mãe não dá a mínima pra você - disse Janaína, começando a falar diretamente com Olavo.
Ele lançou um olhar explosivo e ao mesmo tempo surpreso, para Janaína, como se não a conhecesse, e saiu em direção ao bosque, sem dizer mais nada. Eu e Janaína ficamos sentadas sob a sombra da estátua do espírito santo, olhando uma para a outra.
- O que há de errado com vocês? - perguntei, em uma mistura de espanto e raiva.
- "O que há de errado?", "O que há de errado?" Dá um tempo, Carol! Para de perguntar o que há de errado com as pessoas, e comece a se pergentar o que há de errado com você, pra variar. Saco! - disse Janaína, também me abandonando, correndo em direção ao lobby do colégio.
E eu fiquei sentada ali, me perguntando o que acabara de ter acontecido e o porquê. Alguma coisa estava acontecendo entre Olavo e Janaína, eu conversaria com Lavinho sobre isso, mas não naquele momento. Eu corri para a biblioteca, na esperança de que a companhia de Olívia me acalmasse um pouco. Era incrível, por mais que Olívia não trocasse uma palavra comigo (como as vezes ela fazia quando estava muito ocupada), a simples presença dela me fazia bem.

- Some daqui! - disse Olívia, sem olhar para mim, estava concentrada na leitura de "Christine" de Stephen King.
- Eu gosto de pensar que essa é a sua maneira de dizer que estava com saudades.
- Se isso faz você se sentir melhor... - ela disse, me dando um leve e carinhoso sorriso, eu respondi da mesma forma.
Ficamos em silêncio, olhando uma para a outra por uns dois segundos, quando eu senti que Olívia lia a minha face, me senti invadida, e desviei o olhar.
- Você tá bem?... - perguntou Olívia, começando a ficar preocupada, ela sempre me lembrava a minha mãe quando fazia isso - Ainda se sentindo culpada pelo que aconteceu com a Gabriela? - perguntou, me irritando por ela me conhecer tão bem.
- Acho que é algo com o qual eu vou ter que aprender a lidar...
- Você não podia salvá-la, Carol...
- Mas você disse...
- Que pessoas como nós não precisam se preocupar com espíritos, mas sim eles com a gente, eu sei que disse isso, mas... eu sinto por não ter explicado o quanto pode ser perigoso para você tentar enfrentar um espírito como a Helene...
- Mas eu podia ter tentado... - eu insistia na minha culpa - Eu só não tive coragem...
- Nesse caso não seria coragem, querida, mas sim burrice, existe uma grande diferença entre os dois... Não deixe a culpa te consumir, Amallya, isso só vai fazer mal a você e as pessoas ao seu redor...
- Na verdade, eu acho que isso já tá acontecendo - eu falei, pensando em Olavo e Janaína, e em como os dois andavam estranhos.
- Como assim? - perguntou Olívia.
- Esquece... Deixa eu ficar aqui até o fim do intervalo? - eu pedi, me sentando na cadeira em frente ao birô de Olívia, observando-a segurar o livro que estava lendo.
- Tá... mas não me atrapalha, eu tô em uma parte interessante da história - ela disse, voltando a atenção para o livro.
E eu fiquei lá, com a cabeça deitada sobre o birô, esperando o toque da sirene anunciar o reinício das aulas. Meus penasamentos voltaram-se para Gabriela, e eu não pude evitar a pergunta...
- Olívia...?
Ela suspirou de raiva...
- Que parte de "não me atrapalha" você não entendeu, peste? - ela disse, carinhosamente.
- Se eu tivesse tido coragem de tentar expulsar a Helene do corpo da Gabriela, como você disse que os Elos são capazes de fazer... o que poderia ter acontecido comigo? - perguntei, já temendo a resposta.
Olívia ficou em silêncio, por um momento achei que ela fosse ignorar a pergunta...
- Como eu já disse, Carol... eu receio que você ainda não esteja preparada para isso... mas se você tivesse tentado, provavelmente teria conseguido salvar a Gabriela, e até mesmo expulsar a Helene deste mundo... mas digamos que... você não estaria viva para me contar como conseguiu - ela setenciou, me olhando profundamente, e depois de um certo tempo voltou à leitura.
Naquele momento, eu senti o estranho frio que vinha me assombrando desde o início daquele ano, me tomar pela espinha, não entrei em pânico, no entanto, pois eu já imaginava quem poderia estar atrás de mim...
- Oi, Amallya? - disse Anita, timidamente.
- Oi Anita... - me levantei rapidamente da cadeira, tomada pelo impulso de dar-lhe um abraço, pelo longo tempo em que não nos víamos, me dando conta, instantes depois, do quanto idiota seria se eu tentasse fazer aquilo - Nossa... fazia um tempão que a gente não se falava...
- Não vai dizer que eu estou diferente? - brincou Anita, mostrando um lado brincalhão dela que eu não conhecia. Já me acostumara a vê-la sempre amedrontada, ou enterrada em um livro, mas nunca fazendo piada.
- É... você parece mais morta do que nunca - eu disse, esperando que ela achasse graça, mas não foi o caso. Anita deu um sorriso, meio sem graça.
Olívia me deu um beliscão pela piadinha infeliz, eu sufoquei o grito pela dor, fazendo apenas uma careta.
- E aí, gostou da série? - eu disse tentando, desesperadamente, mudar de assunto.
- Que série? - perguntou Anita, meio perdida.
- Harry Potter... gostou dos livros? - perguntei novamente.
- Sim, eu adorei... Morre muita gente no final, e de morte eu já tô farta, mas valeu a pena ler. A gente pode conversar um instante? - ela perguntou, indicando a última ala de livros da biblioteca.
- Ah... claro! - eu disse, começando a acompanhá-la.
Nós duas fomos em direção a seção de História. A bilioteca parecia estar vazia.
- Eu queria te pedir desculpas - disse Anita, assim que nós chegamos à ala.
- Desculpas...? - eu disse, confusa- Você não tem que se desculpar por nada, Anita...
- Eu poderia ter te falado sobre a Helene antes, é impossível não ter a sensação de que... foi tarde demais...
- Saber a intenção da Helene com a Gabriela há mais tempo, não teria me ajudado a impedi-la de fazer o que fez...
- Mas eu fui tão... covarde...
- Você agiu como qualquer pessoa normal agiria, quando confrontada com lembranças dolorosas, Anita... Eu que te forcei demais, me desculpa... - eu fui interropida pelo som da sirene - Saco! Eu tenho que ir agora, foi ótimo rever você - eu disse, começando a me retirar da biblioteca.
- Mas... Amallya, eu... - começou Anita, parecendo querer me dizer algo.
- Depois eu passo aqui pra pegar meus livros, valeu!? - eu disse, passando direto pelo birô de Olívia, onde ela ainda lia, concentradamente.
- Tchau, Olívia - eu disse, abrindo a porta da biblioteca para sair.
- Boa aula - ela disse, sem parar de ler.
À noite, eu e Janaína não trocamos uma palavra antes de dormir. Eu contemplava a cama vazia de Gabriela Machado, enquanto um filme de memórias que eu daria tudo para esquecer, rodava na minha cabeça, me mantendo acordada por muito, muito tempo. Flashes do dia em que Gabriela Machado tirara a própria vida na minha frente, passaram a me assombrar todas as noites, como Helene costumava fazer. Sim, Helene havia sumido desde o dia da morte de Gabriela, mas era impossível evitar a desagrádavel sensação de que ela estava por perto, me observando na escuridão, por mais que eu não sentisse nada que denunciasse a sua presença.
Aos poucos eu pegava no sono, as lembranças ruins iam desfazendo-se lentamente em minha mente, até tudo se transformar em trevas...
Um grito ofegante me desperta, em plena madrugada. Janaína estava ensopada de suór, e respirava muito rápido. Eu esfreguei os olhos para despertar, e me voltei para ela, preocupada.
- Ína, você tá bem? - perguntei, acariciando o seu ombro.
- Eu... tô sim... foi só... só um pesadelo - ela disse, pressionando o rosto com as mãos.
- E... com o que você sonhou? - perguntei, curiosa.
- Eu... Droga! Não consigo lembrar - ela começou a chorar, e me abraçou subitamente, eu retribuí o abraço, um pouco surpresa.
- Me desculpa... - ela repetia, com o rosto pressionado contra o meu seio - por favor, me desculpa...
- Pelo quê? - perguntei, já imaginando o que poderia ser.
- Eu agi feito uma vaca, hoje cedo, não devia ter dito aquilo pro Lavinho, não sei o que me deu...
- Acontece, Ína... Todos nós fazemos merda, as vezes. Infelizmente, isso é perfeitamente humano - eu disse, beijando a sua testa suada, e fazendo ela olhar para mim - esquece o que aconteceu hoje, ok!?
- Mas... e o Lavinho... Acho que ele ainda tá muito puto comigo... Meu Deus! As coisas que eu disse pra ele... - ela recomeçou a chorar.
- Shhh, calma, calma... Amanhã eu prometo que eu te ajudo a falar com ele, tá bem? Agora, eu vou pegar um pouco de água pra você...
- Não precisa... Fica aqui, por favor... - ela implorou, parecendo realmente amedrontada pela idéia de ficar sozinha.
- Tudo bem, então...
- Você acha que a madre superiora iria nos condenar às chamas do inferno se a gente dormisse abraçadinhas, só hoje? - perguntou ela, fazendo gracinha. Ela voltara a ser a Janaína que eu conhecia.
- Foda-se a madre superiora e o seu preconceito idiota!... Além do mais... eu sempre fui um pouco afim de te dar uns amassos, mesmo - eu disse, entrando na brincadeira, abraçando-a forte.
Ína deu uma risada, e pulou para a minha cama. Nós ficamos abraçadas até o sono chegar, o que não demorou muito. Na manhã do dia seguinte, a irmã Joana nos acordou com uma cara de nojo, nos fazendo jurar, em nome de Deus, que nunca mais faríamos aquilo novamente. A gente fez o que ela mandou, sem levar à sério, quase rindo da cara dela, o que a gente só fez quando ela deu as costas, enfurecida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - O fim


Antes de sair do banheiro para pedir ajuda, eu olhei uma última vez para onde eu vira Helene, que não estava mais lá.
- Eu... vou procurar ajuda, você vai ficar bem, Gabriela, tente... ficar acordada - eu disse, ainda sem fôlego.
Saí desesperada do banheiro, pensando em encontrar a madre superiora o mais rápido possível.
- AMÉLIA! - eu repetia aos gritos, batendo com força na porta da Direção.
- Pelo sagrado coração de Maria! O que houve, menina? - perguntou a madre superiora, um tanto atordoada, ao abrir a porta.
- A Gabriela... ela tá... no banheiro feminino, ela... ela... precisa de ajuda - eu disse, ofegante.
- Calma, se não daqui a pouco quem vai estar precisando de ajuda é você - ela disse, tentando me acalmar, acariciando o meu ombro - Agora, me leve até ela.
Chegando ao banheiro feminino, a madre superiora soltou um grito de pavor. Ela se agachou próxima a Gabriela, e tocou os cortes em suas mãos, como se estivese tentando escondê-los, e começou a rezar baixinho.
- Meu senhor, perdoai essa pobre alma... - ela começou.
- Sério que você vai esperar os cortes sararem por um milagre divino!? - eu disse, indignada - Chama logo a droga da enfermeira!
- A madre superiora olhou para mim, meio perdida. Imaginei que aquela era a primeira vez que ela lidava com uma situação daquela.
- Chame... Chame a Carmén pra mim, na enfermaria, eu ficarei aqui mantendo ela acordada, VÁ! - ela disse, colocando Gabriela em seu colo, começando a acariciar o seu rosto, conversando com ela, baixinho.
Eu corri até a enfermaria, e acordei Carmén, explicando-a toda a situação. Chegamos o mais rápido possível ao banheiro feminino, onde Gabriela ainda estava consciente. Nós três carregamos a menina ensanguentada nos braços, e a levamos para a enfermaria, ao chegar lá, eu fui mandada de volta ao dormitório, depois que a madre superiora enxugou as minhas lágrimas com as mãos, e tentou me calmar, fechando a porta da enfermaria na minha cara, em seguida, me deixando sozinha no corredor dos dormitórios.
Não consegui dormir. Fiquei enrolada em baixo do meu lençol, a imagem de Helene em minha cabeça, até que a madre superiora entrou no dormitório para nos acordar. ela veio em minha direção e disse baixinho...
- Ela já está bem, e você tem uma história pra me contar - ela disse, me olhando desconfiada.
- A senhora não acha que eu...
- Eu não acho nada, mas você foi a pessoa que a encontrou...
- Ela já havia feito a besteira quando a encontrei, não tenho mais nada pra explicar - encarei a madre superiora de forma desafiadora, ela me lançou um olhar arrependido, e retirou-se sem dizer mais nada.
- O que houve? - perguntou Janaína, preocupada.
- Você não vai acreditar...
Contei toda a história a Janaína e depois a Olavo, no refeitório. Os dois ficaram boquiabertos, ambos comentaram sobre o quanto a madre superiora deve ter ficado desesperada, uma vez que os religiosos possuem uma visão terrível a respeito da tentativa de suicídio, o que, claramente, era o que havia acontecido.
- O que será que a levou a tentar uma coisa dessas, e do jeito que ela tentou...? - questionou, Lavinho, horrorizado.
- Essa garota parece ter muitos problemas, não repararam o jeito dela, ultimamente? Se afastou das amigas, não conversa com ninguém... Talvez sofra de depressão... Uma tia minha tinha isso, tentou se matar várias vezes, de diferentes formas, mas o marido sempre a impedia. Ela teve que ser internada - comentou Janaína.
- Ela precisa se mandar dessa escola o mais rápido possível - pensei alto.
- O quê? - perguntou Lavinho.
- Esquece... eu... volto já! - disse, me levantando rapidamente da cadeira.
- Carol, pra onde você... Puta que pariu! Você vai perder a aula - protestou Janaína.
- Eu volto logo - eu disse, começando a andar em direção a saída do refeitório, tentando me esconder da vigília das irmãs.
Depois de sair do refeitório, subi as escadas até a biblioteca, tomando cuidado para não ser vista por ninguém.

- Você tá louca, Carol!? Isso não é hora de aparecer aqui, você tem aula... - começou Olívia, preocupada.
- Relaxa, e me escuta, Liv! - eu disse, tentando chamar a sua atenção para o que eu estava prestes a relatar - A Gabriela tentou se matar...
- Meu Deus...
- Calma, eu ainda não contei tudo... Ela tentou se matar, e eu acho que a razão foi a Helene... A vagabunda não tá deixando a Gabriela dormir, ela fica sussurrando coisas no ouvido dela...
- Bem, isso é o que espíritos como a Helene fazem, Carol; atormentam pessoas, não tem nada de surpreendente nisso, assim como não há nada que nós duas possamos fazer a respeito... Neste momento, a melhor opção para a Gabriela seria dar o fora dessa escola, e nunca mais pôr os pés aqui - disse Olívia, olhando diretamente para mim, por cima de seu óculos vermelho...
- Eu também pensei nisso, vou tentar conversar com ela o mais rápido possível, isso não pode continuar assim...
- Ela está bem? - perguntou Olívia, preocupada.
- Sim, segundo a madre superiora ela já tá se recuperando...
- Graças a Deus - disse Olívia, aliviada.
- Eu vou indo agora, mas eu volto depois pra conversar com a Anita, tem algo que eu preciso perguntar a ela...
- Tudo bem , agora vai pra aula, menina! - disse Olívia, saindo de trás do birô para me conduzir até a porta da biblioteca.
Claro que o episódio da noite passada ficou passeando pela minha cabeça o dia inteiro. Não consegui prestar atenção em aula nenhuma, todos os meus pensamentos estavam voltados para Helene, e especialmente para Gabiela. Durante a última aula daquele dia, o professor Fernando teve que interromper a sua explicação sobre destilamento, quando a madre superiora entrou na sala, com uma cara de quem estava prestes a anunciar a morte de alguém.
- Com licença, professor... - ela disse, voltando-se para a turma - Boa tarde a todos.
- "Boa tarde" - a turma respondeu em um imperfeito coro.
- Primeiramente eu gostria de dizer o quanto estou triste por ter que comunicar o que eu... o que eu estou prestes a comunicar a todos vocês, mas... - de fato, a madre superiora aparentava ter chorado, mas naquele momento, tantava parecer forte - Bem, isso não vai fazer a miníma diferença, eu acho... - ela olhava para o chão nesse instante, como se procurasse forças para dizer seja lá o que ela estava para dizer - Neste ano de 2010, eu lamento dizer... a nossa escola terá que fechar as suas portas... para sempre...
A turma inteira entrou em povoroza, alguns alunos demonstravam profunda tristeza, outros indignação. Eu, Lavinho e Janaína trocamos olhares, sem saber o que dizermos um ao outro, diante daquela inesperada e aterradora notícia. Chorando, a madre superiora fez um sinal mudo com as mãos, ordenando que todos ficassem em silêncio, quando ela conseguiu fazer a turma se calar completamente, voltou a dizer...
- Devido aos recentes acontecimentos envolvendo alguns alunos... Nós teremos que fechar a instituição... Ninguém será prejudicado, a escola irá funcionar até o final deste ano letivo... Por motivos óbvios, também não será realizada a apresentação de A Paixão de Cristo deste ano... Aqueles pais que já desejarem providenciar a transferência...
Ouvir aquela notícia sobre o Lar, me fazia sentir como se estivessem roubando parte da minha vida. Eu vivera grandes momentos naquela escola, conhecera pessoas que eu jamais esqueceria, e agora tudo isso ia ser tirado de mim. Amélia não diria, mas todos sabiam que a razão para o Lar estar fechando era o desaparecimento de Barbara, provavelmente por meio de uma ação do advogado dos pais da garota, e eu não conseguia tirar a razão dos dois, ninguém poderia imaginar a dor de perder uma filha daquela maneira. Processar as pessoas que deveriam proteger a sua filha, e não o fizeram, era a atitude que qualquer pai ou mãe tomaria.
-... Assim como vocês, a direção da escola também lamenta muito essa notícia... - ela se controlava para não chorar mais, respirou fundo e voltou a falar - Isso é tudo... Obrigada, professor - ela disse, retirando-se rapidamente da sala.
A sala ficou em perfeito silêncio, até mesmo o professor Fernando não conseguiu prosseguir com a aula, e nos liberou mais cedo. Enquanto todos iam para o refeitório depois da aula, eu corri para a enfermaria, depois de ter dito a Lavinho e a Ína, claro. As vezes eu sentia como se os meus dois melhores amigos fossem na verdade meus pais, e eu tivesse que dar satisfação a eles o tempo todo, mas acho que isso é o tipo de coisa que acaba acontecendo nas grandes amizades.
Bati devagar na porta da enfermaria, e logo Carmén veio me atender.
- Pois não, Carol? - ela disse, sorrindo deliciosamente para mim.
- Oi, Carmén... Será que eu poderia ver como a Gabriela está? Eu prometo que vou ser rapida...
- É a Amallya? - gritou Gabriela, do fundo da sala absurdamente branca.
- Sim, querida - respondeu Carmén.
- Deixa ela entrar, Carmén, por favor - disse Gabriela, e devo confessar que aquilo me assustou um pouco.
Totalmente surpreendida, eu entrei quando Carmén me deu passagem, fechando a porta atrás de nós. Eu me aproximei de Gabriela, que estava palida, deitada em uma confortável cama, coberta com lençóis brancos, trajando algo que lembrava uma camisola azul-bebê. Parecia muito cansada, tomava soro, e tinha curativos em seus pulsos, tentei evitar olhá-los.
- Eu volto logo, meu anjo - disse Carmén, dirigindo-se a Gabriela, saindo da enfermaria, em seguida.
- Oi - eu disse, timidamente.
- Oi... Gostou das minhas pulseiras? - ela disse, dando um sorriso, e levantando ambos os braços.
- Bem legais - eu respondi, rindo da piada de humor um tanto negro da menina.
- Você tá bem? - perguntei, me sentando a seu lado na cama.
- Bem melhor... Obrigada por perguntar... Mas você não veio até aqui só pra saber como eu estou... Você tá mais interessada em saber o porquê de eu ter feito essa burrada, estou certa!?
- Se você quiser me contar...
Ela riu, e continuou a falar.
- Minha querida mãe... Eu disse que eu não queria voltar pra essa escola... E ela fez o que sabe fazer de melhor, desde quando eu era uma pirralhinha... Não deu a mínima... Acho que esse lance - ela olhou para os pulsos - foi mais uma tentativa de chamar a atenção dela, sabe? Eu não queria realmente morrer... apesar de a idéia ter parecido bem tentadora quando a maldita voz voltou pra minha cabeça...
- Foi por isso que você saiu correndo da sala, ontem? Você tava ouvindo a Helene?
- Sim... foi a primeira vez que ela fez isso na sala de aula... Eu entrei em pânico, e decidi sair dali, antes que começasse a agir feito uma maluca na frente da turma inteira...
- Algo me diz que eles já te acham uma maluca, de qualquer jeito, então não precisa se precupar quanto a isso - eu disse, conseguindo arrancar um pequeno sorriso do rosto triste e cansado de Gabriela.
Ficamos em silêncio por alguns constrangedores segundos, Gabriela parecia querer me dizer algo, mas eu fui mais rápida...
- Quando precisar de ajuda... - comecei.
- É, você já deixou isso bem claro... Eu procuro você - ela disse, sorrindo timidamente, e parecendo agradecida.
Eu sorri em resposta, e comecei a me retirar da enfermaria...
- Amallya!? - disse Gabriela, me fazendo voltar a atenção para ela - Obrigada... - ela disse, com um tímido olhar de gratidão, o que me deixou muito feliz.
- Se recupera, valeu!? - eu disse, me retirando, em seguida.
A enfermeira já voltava apressada para a sala.

Eu e Janaína conversávamos, deitadas em nossas camas, olhando uma para a outra. Janaína já apresentava os primeiros sinais de sono...
- Eu... (bocejou) Não quero estudar em outro colégio interno dirigido por fanáticos religiosos... eu nunca vou encontrar pessoas tão legais quanto você e o Lavinho, tipo... não é o tipo de coisa que acontece duas vezes, saca!?
- É um pouco cedo pra pensar nisso, não acha? - eu disse, rindo da preocupação de Ína.
- Nós só temos mais um ano juntos...
- Nós não vamos morrer ou coisa do tipo, Ína... A nossa amizade vai continuar com ou sem o Lar - eu tentava tranquilizar a minha melhor amiga, escondendo o quanto eu mesma estava triste com o fim do Lar, não queria contribuir para a tristeza dela.
- Promete? - ela perguntou, fazendo biquinho e me fazendo rir daquela idiotisse.
- Prometo, sua tosca - eu disse, batendo nela com o meu travesseiro.
Não sei exatamente quando nós duas caímos no sono, devo ter dormido por uma meia hora ou menos, quando fui despertada pelo som da porta do dormitório se abrindo, duas pessoas conversavam baixinho, enquanto entravam no quarto. Ainda um pouco atordoada por causa do sono, demorei um pouco para reconhecer as duas vozes...
- Sinto muito, querida, mas é realmente uma emergência... - disse Carmén, parecendo estar se desculpando por algo.
- Tudo bem, eu entendo, Carmén... Muito obrigada por tudo - disse Gabriela, se deitando devagar em sua cama.
- Amanhã eu estarei de volta bem cedo...
- Não acredito que vá precisar mais da sua ajuda, eu já estou me sentindo melhor, sério mesmo.
- Veremos isso amanhã, querida... Durma bem - disse Carmén, dando um beijo na testa de Gabriela, e se retirando do dormitório, em seguida.
Carmén fechou a porta do dormitório, e o lugar foi envolvido pela escuridão novamente. Eu peguei no sono, quase que instantaneamente...
Eu abri os meus olhos para a escuridão do dormitório, aterrorizada. "Não, não, NÃO! De novo não! Não agora!"; eu repetia para mim mesma, enquanto sentia cada parte do meu corpo ser invadida por um frio terrivelmente familiar... Há algum tempo, me acostumara a pensar nele como "o frio da morte". Eu comecei a chorar, me achando uma idiota por isso. Imaginava, aterrorizada, que a qualquer momento Helene iria sussurrar algo em meu ouvido... O frio foi aumentando, eu podia jurar que escutava passos próximos à minha cama. Eu queria sair dali, me sentei na cama, visualizando a porta do dormitório, bem a minha frente... "Vamos... Corra!"...
- Você pode fugir, Carol... mas eu sempre vou te encontrar... SEMPRE - ameaçou a voz feminina, e mais uma vez, a sensação era a de tal frase estar sendo pronunciada muito próxima ao meu ouvido.
Eu sufoquei um grito, e pulei da cama, correndo desesperada até a porta do dormitório, sem me preocupar em evitar fazer barulho. Eu fechei a porta atrás de mim, e uma vez no corredor, corri para o banheiro feminino, e me tranquei na primeira cabine, chorando feito uma criança. Não sabia o que dera em mim. Eu não precisava ter medo da Helene e eu sabia disso, Olívia me garantira isso... Talvez tenha sido a voz... O ódio com certeza dominara aquele espírito, eu podia sentir toda a sua raiva e rancor só de ouvir a sua aterradora voz.
A porta do banheiro se abriu, e eu quase desmaiei de susto, tampei a boca com as mãos, e fiquei aliviada no mesmo instante, ao reconhecer a voz de Alycia...
- Fica aí, caramba! Eu volto já, prometo...
- Deixa eu entrar, qualé o problema? - disse Alexandre, parecendo querer ficar a sós com Alycia no banheiro feminino.
- O problema é que eu não quero... Agora vai me esperar na escada de emergência, ou eu não vou beijar nada... além da sua boca, hoje - Alycia encerrou a conversa, empurrando Alexandre para fora do banheiro feminino.
Eu não queria ser descoberta ali, por sorte Alycia escolheu a cabine ao lado da minha. Ela parecia estar urinando. Depois de dois minutos, saiu da cabine, indo direto para a pia do banheiro e ligando uma das torneiras, lavou as mãos e o rosto. De dentro do box, eu a obeservava por uma brecha da porta. A porta do banheiro rangeu, indicando que alguém mais entrara, seria Alexandre desobecendo a atual namorada? Percebi que não, ao ver a expressão de Alycia, ela parecia irritada e surpresa ao mesmo tempo.
- Você não deveria estar gemendo na sua cama, aberração? - perguntou Alycia, parecendo enojada.
Procurei uma segunda brecha na porta para tentar enxergar a outra pessoa. Me assustei ao ver que era Gabriela. Os curativos nos pulsos haviam sumido, e eu não gostei nenhum pouco disso, os cortes ainda estavam muito abertos, me arrepiei ao vê-los, ela encarava Alycia de forma ameaçadora, não parecia a mesma Gabriela... - Alguém esqueceu de tomar os remédios - murmurou Alycia, começando a se retirar do banheiro, sendo impedida por Gabriela, que esbarrou nela de propósito, parecendo querer dizer algo, ela apertava o braço de Alycia com força - Eu juro que se você não me largar agora... - começou Alycia, em tom de ameaça.
Gabriela ergueu o seu olhar para Alycia, e eu me assustei ao perceber que seus olhos estavam diferentes, o castanho habitual deles parecia ter sido penetrado por um branco espectral, o mesmo parecia ter calado Alycia...
- Transar com o namorado da melhor amiga recém-falescida, antes mesmo do cadáver dela esfriar, é uma forma muito estranha de demonstrar luto, não acha? - começou Gabriela, com uma voz gutural e amarga, muito diferente da sua voz tradicional.
- Do que você tá falando, sua...
- Eu devo admitir que você me superou, quer dizer... Eu e o Alexandre nos beijamos algumas poucas vezes, quando a Barbara estava ocupada demais tendo um dos seus surtos de popularidade, mas... Fazer isso depois da morte dela... já é ser vadia demais, até mesmo pra você, Alycia...
Em um rápido movimento, Gabriela foi atingida violentamente no rosto por um tapa...
- Gostou disso, sua psicopata? - perguntou Alycia, falando muito próxima a Gabriela, desafiando-a - A madre superiora pode ter fechado os olhos para a assassina que agora estuda aqui... Mas eu não!... Eu sei que foi você quem matou a Barbara, e pode ter certeza... Eu vou te fuder legal, sua vagabunda, você vai sair daqui direto pra um hospício...
- Sério? - disse Gabriela, virando-se para encarar Alycia, os cabelos caindo sobre o rosto, devido ao tapa - E você pretende fazer isso antes ou depois de chupar o pau do Alexandre?
Alycia tentou responder à provocação com outro tapa, mas foi lançada contra a pia atrás de Gabriela, antes que pudesse tentar algo.
- Minha vez - sussurrou Gabriela, tirando uma reluzente faca de cozinha de dentro da roupa, penetrando rapidamente o peito de Alycia com a arma.
Tudo aconteceu muito rápido, eu recomecei a chorar ali dentro da cabine, paralizada pelo medo, eu jamais imaginei que a pequena discussão das duas poderia chegar àquele ponto, eu tentei me mover, mas o meu corpo parecia não me obedecer, tamanho era o meu estado de desespero. Alycia se debatia, cuspindo sangue, Gabriela se preparou para dar mais outro golpe, e sem pensar duas vezes, eu abri a porta da minha cabine, que bateu violentamente na garota, derrubando-a no chão, a faca fora jogada para longe. Eu tentei segurar Alycia, que começava a desmaiar...
- Alycia? Alycia, fala comigo, por favor, fala comigo... - eu dizia, sacudindo-a em meus braços, ao perceber, desesperada, que a menina começava a fechar os olhos.
- Oi, Carol... Pensei que não ia participar da nossa brincadeira... - disse Gabriela, tendo se levantado do chão e recuperado a faca banhada em sangue, segurando-a firme, de forma ameaçadora, com mão direita.
- Eu não perderia por nada, Helene...
Ela correu em minha direção, e eu não tive tempo de pensar ou fazer mais nada, além de correr ao encontro dela, empurrando-a violentamente contra a parede para poder escapar de lá. Uma vez fora do banheiro, esperei ela aparecer, imaginando que estaria bem mais interessada em mim, e em instantes, ela apareceu no corredor, enfurecida, com a maldita faca na mão. Sem olhar para trás uma outra vez, eu recomecei a correr. Desesperada, eu ouvia os passos incrivelmente rápidos de Gabriela (ou devo dizer Helene?), em meu encalço. Eu corria em direção à escada que me levaria para o piso inferior, Gabriela parecia se aproximar de mim em uma velocidade incrível, o pânico me sufocava, me impedindo de correr mais rápido. Chegando à escada, eu senti a aproximação de Gabriela, seguida de uma dor nauseante, quando a lâmina da faca que ela segurava atravessou o meu ombro, me fazendo rolar escada abaixo após perder o equilíbrio. Só parei de cair quando fui jogada contra a parede onde a escada dava a curva. Eu sentia que ia perder a consciência a qualquer momento. As dores causadas pela queda se misturavam com a dor aguda do corte em meu braço esquerdo. Impossibilitada de me levantar do chão, eu já aceitara o meu fim, tentando ver o lado positivo nisso: "Eu poderia realmente estar com o Léo mais uma vez". Com muita dificuldade, eu ergui o meu olhar para o topo da escadaria, onde Gabriela estava em pé, a faca não estava mais em sua mão. Foi quando eu percebi que havia algo de estranho com a garota. Gabriela parecia estar lutando contra o espiríto em seu corpo, ela se debatia, aos berros, parecia estar sentindo uma dor escruciante, ela se ajoelhou, voltando a segurar a faca, antes jogada no chão...
- MEU DEUS, GABRIELA! - alguém gritou ao longe.
- Me desculpe - sussurrou Gabriela, que agora chorava, olhando para mim.
Eu começava a perder a minha visão, o meu corpo e a minha mente pareciam estar mergulhando aos poucos na escuridão, a última coisa que eu vi, e algo que me atormentaria para sempre, foi a pobre Gabriela cortando a própria garganta, vagarozamente, com a faca em sua mão.
Estava acabado... Helene finalmente conseguira cumprir a sua vingança, levando a vida de uma inocente... As trevas tomaram conta de tudo, anunciando um triste fim.