segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - O fim


Antes de sair do banheiro para pedir ajuda, eu olhei uma última vez para onde eu vira Helene, que não estava mais lá.
- Eu... vou procurar ajuda, você vai ficar bem, Gabriela, tente... ficar acordada - eu disse, ainda sem fôlego.
Saí desesperada do banheiro, pensando em encontrar a madre superiora o mais rápido possível.
- AMÉLIA! - eu repetia aos gritos, batendo com força na porta da Direção.
- Pelo sagrado coração de Maria! O que houve, menina? - perguntou a madre superiora, um tanto atordoada, ao abrir a porta.
- A Gabriela... ela tá... no banheiro feminino, ela... ela... precisa de ajuda - eu disse, ofegante.
- Calma, se não daqui a pouco quem vai estar precisando de ajuda é você - ela disse, tentando me acalmar, acariciando o meu ombro - Agora, me leve até ela.
Chegando ao banheiro feminino, a madre superiora soltou um grito de pavor. Ela se agachou próxima a Gabriela, e tocou os cortes em suas mãos, como se estivese tentando escondê-los, e começou a rezar baixinho.
- Meu senhor, perdoai essa pobre alma... - ela começou.
- Sério que você vai esperar os cortes sararem por um milagre divino!? - eu disse, indignada - Chama logo a droga da enfermeira!
- A madre superiora olhou para mim, meio perdida. Imaginei que aquela era a primeira vez que ela lidava com uma situação daquela.
- Chame... Chame a Carmén pra mim, na enfermaria, eu ficarei aqui mantendo ela acordada, VÁ! - ela disse, colocando Gabriela em seu colo, começando a acariciar o seu rosto, conversando com ela, baixinho.
Eu corri até a enfermaria, e acordei Carmén, explicando-a toda a situação. Chegamos o mais rápido possível ao banheiro feminino, onde Gabriela ainda estava consciente. Nós três carregamos a menina ensanguentada nos braços, e a levamos para a enfermaria, ao chegar lá, eu fui mandada de volta ao dormitório, depois que a madre superiora enxugou as minhas lágrimas com as mãos, e tentou me calmar, fechando a porta da enfermaria na minha cara, em seguida, me deixando sozinha no corredor dos dormitórios.
Não consegui dormir. Fiquei enrolada em baixo do meu lençol, a imagem de Helene em minha cabeça, até que a madre superiora entrou no dormitório para nos acordar. ela veio em minha direção e disse baixinho...
- Ela já está bem, e você tem uma história pra me contar - ela disse, me olhando desconfiada.
- A senhora não acha que eu...
- Eu não acho nada, mas você foi a pessoa que a encontrou...
- Ela já havia feito a besteira quando a encontrei, não tenho mais nada pra explicar - encarei a madre superiora de forma desafiadora, ela me lançou um olhar arrependido, e retirou-se sem dizer mais nada.
- O que houve? - perguntou Janaína, preocupada.
- Você não vai acreditar...
Contei toda a história a Janaína e depois a Olavo, no refeitório. Os dois ficaram boquiabertos, ambos comentaram sobre o quanto a madre superiora deve ter ficado desesperada, uma vez que os religiosos possuem uma visão terrível a respeito da tentativa de suicídio, o que, claramente, era o que havia acontecido.
- O que será que a levou a tentar uma coisa dessas, e do jeito que ela tentou...? - questionou, Lavinho, horrorizado.
- Essa garota parece ter muitos problemas, não repararam o jeito dela, ultimamente? Se afastou das amigas, não conversa com ninguém... Talvez sofra de depressão... Uma tia minha tinha isso, tentou se matar várias vezes, de diferentes formas, mas o marido sempre a impedia. Ela teve que ser internada - comentou Janaína.
- Ela precisa se mandar dessa escola o mais rápido possível - pensei alto.
- O quê? - perguntou Lavinho.
- Esquece... eu... volto já! - disse, me levantando rapidamente da cadeira.
- Carol, pra onde você... Puta que pariu! Você vai perder a aula - protestou Janaína.
- Eu volto logo - eu disse, começando a andar em direção a saída do refeitório, tentando me esconder da vigília das irmãs.
Depois de sair do refeitório, subi as escadas até a biblioteca, tomando cuidado para não ser vista por ninguém.

- Você tá louca, Carol!? Isso não é hora de aparecer aqui, você tem aula... - começou Olívia, preocupada.
- Relaxa, e me escuta, Liv! - eu disse, tentando chamar a sua atenção para o que eu estava prestes a relatar - A Gabriela tentou se matar...
- Meu Deus...
- Calma, eu ainda não contei tudo... Ela tentou se matar, e eu acho que a razão foi a Helene... A vagabunda não tá deixando a Gabriela dormir, ela fica sussurrando coisas no ouvido dela...
- Bem, isso é o que espíritos como a Helene fazem, Carol; atormentam pessoas, não tem nada de surpreendente nisso, assim como não há nada que nós duas possamos fazer a respeito... Neste momento, a melhor opção para a Gabriela seria dar o fora dessa escola, e nunca mais pôr os pés aqui - disse Olívia, olhando diretamente para mim, por cima de seu óculos vermelho...
- Eu também pensei nisso, vou tentar conversar com ela o mais rápido possível, isso não pode continuar assim...
- Ela está bem? - perguntou Olívia, preocupada.
- Sim, segundo a madre superiora ela já tá se recuperando...
- Graças a Deus - disse Olívia, aliviada.
- Eu vou indo agora, mas eu volto depois pra conversar com a Anita, tem algo que eu preciso perguntar a ela...
- Tudo bem , agora vai pra aula, menina! - disse Olívia, saindo de trás do birô para me conduzir até a porta da biblioteca.
Claro que o episódio da noite passada ficou passeando pela minha cabeça o dia inteiro. Não consegui prestar atenção em aula nenhuma, todos os meus pensamentos estavam voltados para Helene, e especialmente para Gabiela. Durante a última aula daquele dia, o professor Fernando teve que interromper a sua explicação sobre destilamento, quando a madre superiora entrou na sala, com uma cara de quem estava prestes a anunciar a morte de alguém.
- Com licença, professor... - ela disse, voltando-se para a turma - Boa tarde a todos.
- "Boa tarde" - a turma respondeu em um imperfeito coro.
- Primeiramente eu gostria de dizer o quanto estou triste por ter que comunicar o que eu... o que eu estou prestes a comunicar a todos vocês, mas... - de fato, a madre superiora aparentava ter chorado, mas naquele momento, tantava parecer forte - Bem, isso não vai fazer a miníma diferença, eu acho... - ela olhava para o chão nesse instante, como se procurasse forças para dizer seja lá o que ela estava para dizer - Neste ano de 2010, eu lamento dizer... a nossa escola terá que fechar as suas portas... para sempre...
A turma inteira entrou em povoroza, alguns alunos demonstravam profunda tristeza, outros indignação. Eu, Lavinho e Janaína trocamos olhares, sem saber o que dizermos um ao outro, diante daquela inesperada e aterradora notícia. Chorando, a madre superiora fez um sinal mudo com as mãos, ordenando que todos ficassem em silêncio, quando ela conseguiu fazer a turma se calar completamente, voltou a dizer...
- Devido aos recentes acontecimentos envolvendo alguns alunos... Nós teremos que fechar a instituição... Ninguém será prejudicado, a escola irá funcionar até o final deste ano letivo... Por motivos óbvios, também não será realizada a apresentação de A Paixão de Cristo deste ano... Aqueles pais que já desejarem providenciar a transferência...
Ouvir aquela notícia sobre o Lar, me fazia sentir como se estivessem roubando parte da minha vida. Eu vivera grandes momentos naquela escola, conhecera pessoas que eu jamais esqueceria, e agora tudo isso ia ser tirado de mim. Amélia não diria, mas todos sabiam que a razão para o Lar estar fechando era o desaparecimento de Barbara, provavelmente por meio de uma ação do advogado dos pais da garota, e eu não conseguia tirar a razão dos dois, ninguém poderia imaginar a dor de perder uma filha daquela maneira. Processar as pessoas que deveriam proteger a sua filha, e não o fizeram, era a atitude que qualquer pai ou mãe tomaria.
-... Assim como vocês, a direção da escola também lamenta muito essa notícia... - ela se controlava para não chorar mais, respirou fundo e voltou a falar - Isso é tudo... Obrigada, professor - ela disse, retirando-se rapidamente da sala.
A sala ficou em perfeito silêncio, até mesmo o professor Fernando não conseguiu prosseguir com a aula, e nos liberou mais cedo. Enquanto todos iam para o refeitório depois da aula, eu corri para a enfermaria, depois de ter dito a Lavinho e a Ína, claro. As vezes eu sentia como se os meus dois melhores amigos fossem na verdade meus pais, e eu tivesse que dar satisfação a eles o tempo todo, mas acho que isso é o tipo de coisa que acaba acontecendo nas grandes amizades.
Bati devagar na porta da enfermaria, e logo Carmén veio me atender.
- Pois não, Carol? - ela disse, sorrindo deliciosamente para mim.
- Oi, Carmén... Será que eu poderia ver como a Gabriela está? Eu prometo que vou ser rapida...
- É a Amallya? - gritou Gabriela, do fundo da sala absurdamente branca.
- Sim, querida - respondeu Carmén.
- Deixa ela entrar, Carmén, por favor - disse Gabriela, e devo confessar que aquilo me assustou um pouco.
Totalmente surpreendida, eu entrei quando Carmén me deu passagem, fechando a porta atrás de nós. Eu me aproximei de Gabriela, que estava palida, deitada em uma confortável cama, coberta com lençóis brancos, trajando algo que lembrava uma camisola azul-bebê. Parecia muito cansada, tomava soro, e tinha curativos em seus pulsos, tentei evitar olhá-los.
- Eu volto logo, meu anjo - disse Carmén, dirigindo-se a Gabriela, saindo da enfermaria, em seguida.
- Oi - eu disse, timidamente.
- Oi... Gostou das minhas pulseiras? - ela disse, dando um sorriso, e levantando ambos os braços.
- Bem legais - eu respondi, rindo da piada de humor um tanto negro da menina.
- Você tá bem? - perguntei, me sentando a seu lado na cama.
- Bem melhor... Obrigada por perguntar... Mas você não veio até aqui só pra saber como eu estou... Você tá mais interessada em saber o porquê de eu ter feito essa burrada, estou certa!?
- Se você quiser me contar...
Ela riu, e continuou a falar.
- Minha querida mãe... Eu disse que eu não queria voltar pra essa escola... E ela fez o que sabe fazer de melhor, desde quando eu era uma pirralhinha... Não deu a mínima... Acho que esse lance - ela olhou para os pulsos - foi mais uma tentativa de chamar a atenção dela, sabe? Eu não queria realmente morrer... apesar de a idéia ter parecido bem tentadora quando a maldita voz voltou pra minha cabeça...
- Foi por isso que você saiu correndo da sala, ontem? Você tava ouvindo a Helene?
- Sim... foi a primeira vez que ela fez isso na sala de aula... Eu entrei em pânico, e decidi sair dali, antes que começasse a agir feito uma maluca na frente da turma inteira...
- Algo me diz que eles já te acham uma maluca, de qualquer jeito, então não precisa se precupar quanto a isso - eu disse, conseguindo arrancar um pequeno sorriso do rosto triste e cansado de Gabriela.
Ficamos em silêncio por alguns constrangedores segundos, Gabriela parecia querer me dizer algo, mas eu fui mais rápida...
- Quando precisar de ajuda... - comecei.
- É, você já deixou isso bem claro... Eu procuro você - ela disse, sorrindo timidamente, e parecendo agradecida.
Eu sorri em resposta, e comecei a me retirar da enfermaria...
- Amallya!? - disse Gabriela, me fazendo voltar a atenção para ela - Obrigada... - ela disse, com um tímido olhar de gratidão, o que me deixou muito feliz.
- Se recupera, valeu!? - eu disse, me retirando, em seguida.
A enfermeira já voltava apressada para a sala.

Eu e Janaína conversávamos, deitadas em nossas camas, olhando uma para a outra. Janaína já apresentava os primeiros sinais de sono...
- Eu... (bocejou) Não quero estudar em outro colégio interno dirigido por fanáticos religiosos... eu nunca vou encontrar pessoas tão legais quanto você e o Lavinho, tipo... não é o tipo de coisa que acontece duas vezes, saca!?
- É um pouco cedo pra pensar nisso, não acha? - eu disse, rindo da preocupação de Ína.
- Nós só temos mais um ano juntos...
- Nós não vamos morrer ou coisa do tipo, Ína... A nossa amizade vai continuar com ou sem o Lar - eu tentava tranquilizar a minha melhor amiga, escondendo o quanto eu mesma estava triste com o fim do Lar, não queria contribuir para a tristeza dela.
- Promete? - ela perguntou, fazendo biquinho e me fazendo rir daquela idiotisse.
- Prometo, sua tosca - eu disse, batendo nela com o meu travesseiro.
Não sei exatamente quando nós duas caímos no sono, devo ter dormido por uma meia hora ou menos, quando fui despertada pelo som da porta do dormitório se abrindo, duas pessoas conversavam baixinho, enquanto entravam no quarto. Ainda um pouco atordoada por causa do sono, demorei um pouco para reconhecer as duas vozes...
- Sinto muito, querida, mas é realmente uma emergência... - disse Carmén, parecendo estar se desculpando por algo.
- Tudo bem, eu entendo, Carmén... Muito obrigada por tudo - disse Gabriela, se deitando devagar em sua cama.
- Amanhã eu estarei de volta bem cedo...
- Não acredito que vá precisar mais da sua ajuda, eu já estou me sentindo melhor, sério mesmo.
- Veremos isso amanhã, querida... Durma bem - disse Carmén, dando um beijo na testa de Gabriela, e se retirando do dormitório, em seguida.
Carmén fechou a porta do dormitório, e o lugar foi envolvido pela escuridão novamente. Eu peguei no sono, quase que instantaneamente...
Eu abri os meus olhos para a escuridão do dormitório, aterrorizada. "Não, não, NÃO! De novo não! Não agora!"; eu repetia para mim mesma, enquanto sentia cada parte do meu corpo ser invadida por um frio terrivelmente familiar... Há algum tempo, me acostumara a pensar nele como "o frio da morte". Eu comecei a chorar, me achando uma idiota por isso. Imaginava, aterrorizada, que a qualquer momento Helene iria sussurrar algo em meu ouvido... O frio foi aumentando, eu podia jurar que escutava passos próximos à minha cama. Eu queria sair dali, me sentei na cama, visualizando a porta do dormitório, bem a minha frente... "Vamos... Corra!"...
- Você pode fugir, Carol... mas eu sempre vou te encontrar... SEMPRE - ameaçou a voz feminina, e mais uma vez, a sensação era a de tal frase estar sendo pronunciada muito próxima ao meu ouvido.
Eu sufoquei um grito, e pulei da cama, correndo desesperada até a porta do dormitório, sem me preocupar em evitar fazer barulho. Eu fechei a porta atrás de mim, e uma vez no corredor, corri para o banheiro feminino, e me tranquei na primeira cabine, chorando feito uma criança. Não sabia o que dera em mim. Eu não precisava ter medo da Helene e eu sabia disso, Olívia me garantira isso... Talvez tenha sido a voz... O ódio com certeza dominara aquele espírito, eu podia sentir toda a sua raiva e rancor só de ouvir a sua aterradora voz.
A porta do banheiro se abriu, e eu quase desmaiei de susto, tampei a boca com as mãos, e fiquei aliviada no mesmo instante, ao reconhecer a voz de Alycia...
- Fica aí, caramba! Eu volto já, prometo...
- Deixa eu entrar, qualé o problema? - disse Alexandre, parecendo querer ficar a sós com Alycia no banheiro feminino.
- O problema é que eu não quero... Agora vai me esperar na escada de emergência, ou eu não vou beijar nada... além da sua boca, hoje - Alycia encerrou a conversa, empurrando Alexandre para fora do banheiro feminino.
Eu não queria ser descoberta ali, por sorte Alycia escolheu a cabine ao lado da minha. Ela parecia estar urinando. Depois de dois minutos, saiu da cabine, indo direto para a pia do banheiro e ligando uma das torneiras, lavou as mãos e o rosto. De dentro do box, eu a obeservava por uma brecha da porta. A porta do banheiro rangeu, indicando que alguém mais entrara, seria Alexandre desobecendo a atual namorada? Percebi que não, ao ver a expressão de Alycia, ela parecia irritada e surpresa ao mesmo tempo.
- Você não deveria estar gemendo na sua cama, aberração? - perguntou Alycia, parecendo enojada.
Procurei uma segunda brecha na porta para tentar enxergar a outra pessoa. Me assustei ao ver que era Gabriela. Os curativos nos pulsos haviam sumido, e eu não gostei nenhum pouco disso, os cortes ainda estavam muito abertos, me arrepiei ao vê-los, ela encarava Alycia de forma ameaçadora, não parecia a mesma Gabriela... - Alguém esqueceu de tomar os remédios - murmurou Alycia, começando a se retirar do banheiro, sendo impedida por Gabriela, que esbarrou nela de propósito, parecendo querer dizer algo, ela apertava o braço de Alycia com força - Eu juro que se você não me largar agora... - começou Alycia, em tom de ameaça.
Gabriela ergueu o seu olhar para Alycia, e eu me assustei ao perceber que seus olhos estavam diferentes, o castanho habitual deles parecia ter sido penetrado por um branco espectral, o mesmo parecia ter calado Alycia...
- Transar com o namorado da melhor amiga recém-falescida, antes mesmo do cadáver dela esfriar, é uma forma muito estranha de demonstrar luto, não acha? - começou Gabriela, com uma voz gutural e amarga, muito diferente da sua voz tradicional.
- Do que você tá falando, sua...
- Eu devo admitir que você me superou, quer dizer... Eu e o Alexandre nos beijamos algumas poucas vezes, quando a Barbara estava ocupada demais tendo um dos seus surtos de popularidade, mas... Fazer isso depois da morte dela... já é ser vadia demais, até mesmo pra você, Alycia...
Em um rápido movimento, Gabriela foi atingida violentamente no rosto por um tapa...
- Gostou disso, sua psicopata? - perguntou Alycia, falando muito próxima a Gabriela, desafiando-a - A madre superiora pode ter fechado os olhos para a assassina que agora estuda aqui... Mas eu não!... Eu sei que foi você quem matou a Barbara, e pode ter certeza... Eu vou te fuder legal, sua vagabunda, você vai sair daqui direto pra um hospício...
- Sério? - disse Gabriela, virando-se para encarar Alycia, os cabelos caindo sobre o rosto, devido ao tapa - E você pretende fazer isso antes ou depois de chupar o pau do Alexandre?
Alycia tentou responder à provocação com outro tapa, mas foi lançada contra a pia atrás de Gabriela, antes que pudesse tentar algo.
- Minha vez - sussurrou Gabriela, tirando uma reluzente faca de cozinha de dentro da roupa, penetrando rapidamente o peito de Alycia com a arma.
Tudo aconteceu muito rápido, eu recomecei a chorar ali dentro da cabine, paralizada pelo medo, eu jamais imaginei que a pequena discussão das duas poderia chegar àquele ponto, eu tentei me mover, mas o meu corpo parecia não me obedecer, tamanho era o meu estado de desespero. Alycia se debatia, cuspindo sangue, Gabriela se preparou para dar mais outro golpe, e sem pensar duas vezes, eu abri a porta da minha cabine, que bateu violentamente na garota, derrubando-a no chão, a faca fora jogada para longe. Eu tentei segurar Alycia, que começava a desmaiar...
- Alycia? Alycia, fala comigo, por favor, fala comigo... - eu dizia, sacudindo-a em meus braços, ao perceber, desesperada, que a menina começava a fechar os olhos.
- Oi, Carol... Pensei que não ia participar da nossa brincadeira... - disse Gabriela, tendo se levantado do chão e recuperado a faca banhada em sangue, segurando-a firme, de forma ameaçadora, com mão direita.
- Eu não perderia por nada, Helene...
Ela correu em minha direção, e eu não tive tempo de pensar ou fazer mais nada, além de correr ao encontro dela, empurrando-a violentamente contra a parede para poder escapar de lá. Uma vez fora do banheiro, esperei ela aparecer, imaginando que estaria bem mais interessada em mim, e em instantes, ela apareceu no corredor, enfurecida, com a maldita faca na mão. Sem olhar para trás uma outra vez, eu recomecei a correr. Desesperada, eu ouvia os passos incrivelmente rápidos de Gabriela (ou devo dizer Helene?), em meu encalço. Eu corria em direção à escada que me levaria para o piso inferior, Gabriela parecia se aproximar de mim em uma velocidade incrível, o pânico me sufocava, me impedindo de correr mais rápido. Chegando à escada, eu senti a aproximação de Gabriela, seguida de uma dor nauseante, quando a lâmina da faca que ela segurava atravessou o meu ombro, me fazendo rolar escada abaixo após perder o equilíbrio. Só parei de cair quando fui jogada contra a parede onde a escada dava a curva. Eu sentia que ia perder a consciência a qualquer momento. As dores causadas pela queda se misturavam com a dor aguda do corte em meu braço esquerdo. Impossibilitada de me levantar do chão, eu já aceitara o meu fim, tentando ver o lado positivo nisso: "Eu poderia realmente estar com o Léo mais uma vez". Com muita dificuldade, eu ergui o meu olhar para o topo da escadaria, onde Gabriela estava em pé, a faca não estava mais em sua mão. Foi quando eu percebi que havia algo de estranho com a garota. Gabriela parecia estar lutando contra o espiríto em seu corpo, ela se debatia, aos berros, parecia estar sentindo uma dor escruciante, ela se ajoelhou, voltando a segurar a faca, antes jogada no chão...
- MEU DEUS, GABRIELA! - alguém gritou ao longe.
- Me desculpe - sussurrou Gabriela, que agora chorava, olhando para mim.
Eu começava a perder a minha visão, o meu corpo e a minha mente pareciam estar mergulhando aos poucos na escuridão, a última coisa que eu vi, e algo que me atormentaria para sempre, foi a pobre Gabriela cortando a própria garganta, vagarozamente, com a faca em sua mão.
Estava acabado... Helene finalmente conseguira cumprir a sua vingança, levando a vida de uma inocente... As trevas tomaram conta de tudo, anunciando um triste fim.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Capítulo 13 - Pedido de socorro


Depois de ter perdido Anita de vista, eu fui falar com Olívia a respeito de tudo o que a assustada fantasma havia me confessado, e tudo o que ela quase confessara.
- Olívia...? - eu disse, tentando chamar a sua atenção. Ela parecia muito concentrada na catalogação de uns livros novos que haviam sido doados para a biblioteca.
- Oi - ela disse, sem tirar os olhos dos seus livros.
- Você já ouviu algo a respeito dos três silenciosos? - perguntei, sem muita esperança de que Olívia soubesse de algo.
- Os três... o quê? - ela disse, finalmente olhando para mim.
- Deixa pra lá... E sobre um esconderijo secreto... dentro do Lar... Você já ouviu falar?
- Querida, eu sei de muitas coisas que aconteceram e que andam acontecendo nessa escola, coisas que algumas pessoas adorariam que permanecessem escondidas secretamente (ela disse, sarcasticamente), mas... eu não sei de nenhum esconderijo secreto não... e se é um esconderijo, pressupõe-se que seja secreto, não acha? - ela disse em tom de zombação, e voltou-se para o seu trabalho com a catalogação - Mas qual a razão para essas perguntas tão intrigantes? - ela perguntou, sem olhar para mim.
- Algo que a Anita me falou, depois eu te conto com mais calma, você parece muito ocupada.
- Bingo! Se manda daqui, querida - ela disse, sem desviar a atenção dos livros uma única vez.
Quando eu cheguei à mesa onde estavam Olavo e Janaína, a sirene tocou, indicando o fim do intervalo, e eu estava com tanta fome, que quase gritei de raiva.
- Alguém vai ficar com fome - brincou Janaína.
- Não é nenhum pouco recomendável tirar onda de alguém com fome, dona Janaína, principalmente se esse alguém for eu - eu disse, um pouco estressada.
- Ai que meda! - disse Lavinho, dando um tapinha na minha cabeça.
Gabriela vinha rapidamente em minha direção, encarando o chão, provavelmente para evitar o meu olhar, quando ela passou por mim, eu comecei a segui-la, insistindo para ela parasse para conversar comigo, um instante.
- Gabriela... - eu andava rapido, tentando acompanhar os seus passos - Gabriela... vamos conversar... - eu disse, tocando o seu ombro, amigavelmente.
- Não toque em mim, sua aberração! - ela disse, tirando a minha mão de seu ombro, violentamente, e voltando a sua atenção para mim - Eu só vou te dizer isso uma vez... Me deixa em paz... ou eu te parto a cara, sua anormal! - ela quase sussurrou para mim. Olhei para seus olhos, ela parecia mais cansada e perturbada que nunca.
- Eu só quero te ajudar... - eu disse, de maneira séria.
- Ajuda a mãe! Eu não preciso da ajuda de ninguém, quanto menos da sua - ela disse, me dando as costas e correndo em direção a saída do refeitório, desaparecendo de vista, em meio a multidão de alunos que voltavam para as suas salas.

Três dias se passaram, da forma mais vagarosa e entediante possível. Gabriela passara a dormir além do limite permitido pelas irmãs. Enquanto todas no dormitório já estavam acordadas, ela permanecia dormindo como uma rocha, apesar de acordar rapidamente, e assustada, ao sentir o simples toque de alguém. No intervalo ela dormia em cima da mesa, que somente ela ocupava, no refeitório. "Talvez a coitada não esteja dormindo à noite!?" - pensei, com medo de imaginar a razão para isso. Naquela quinta-feira, eu havia decidido, ficaria acordada, esperando todas dormirem, e iria até a cama de Gabriela só para ter a certeza de que ela estava dormindo bem. Era inevitável essa minha preocupação quase maternal com a Gabriela. A garota estava passando pela mesma situação que eu, a única diferença era a minha capacidade de lidar calmamente com isso (ou, pelo menos, mais calmamente do que a Gabriela), mas claro, não era a mim que Helene estava atormentando.

Eu encarava o céu acizentado daquela manhã de quinta-feira, deitada no colo de Janaína, que mexia deliciosamente no meu cabelo. Era intervalo, e eu e meus dois melhores amigos estávamos na estátua do espírito santo, em completo silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. É tão bom estar com pessoas que você ama de verdade, e que te amam da mesma forma, você se sente confortável para falar merda o tempo todo com elas, ou até mesmo ficar em silêncio absoluto, e o melhor de tudo é que você nunca é julgado por isso. As vezes, eu, Janaína e Olavo conversávamos no gramado da minha casa, até a gente não ter mais nada para falar um para o outro, então a gente se deitava na grama, e ficávamos abraçados em silêncio, olhando para o céu, as vezes até pegávamos no sono naquela situação.

- Você teria coragem de ficar com o Lavinho? - perguntou Janaína, como quem pergunta "que dia é hoje?", enquanto nós duas olhávamos para o teto do dormitório feminino, Ína esperando o sono chegar e eu esperando o momento certo de ir checar se Gabriela dormia tranquilamente.
- Que merda, Ína! Dorme logo, que o sono tá começando a fuder com a tua cabeça. Que perguntinha mais idiota! - eu disse, em tom de protesto, tomando cuidado para não acordar as outras garotas.
- Só responde, caramba! - ela insistiu, também tomando cuidado com o tom de voz.
- É o mesmo que perguntar se eu ficaria com você; a resposta seria NÃO, mil vezes, NÃO!
- Nossa, valeu! Eu sou tão não-pegável assim!? - ela disse, parecendo magoada.
- Você entendeu o que eu quis dizer, Ína. Eu te pegaria numa boa... se eu fosse lésbica, mas nessa vida não rolou, quem sabe na próxima!?
- Você não vai nem perguntar a razão pra eu te fazer essa pergunta? - ela disse, tentando me deixar intrigada.
- Tá, Ína... qualé a dessa pergunta incrivelmente idiota? - perguntei, me rendendo.
- Bem... eu perguntei, porque... Eu tenho certeza que o Lavinho ficaria com você, numa boa.
- Que ridículo, Ína! A gente é quase irmão...
- Ah, Carol! Vai dizer que você nunca suspeitou que o Olavo já tinha uma quedinha por você desde antes... -ela parou de falar, como se não quisesse terminar a frase.
- Desde antes do quê? - eu perguntei, de forma autoritária.
- Nada, eu... devo tá com muito sono mesmo, tô começando a falar merda.
- Ah, mas essa merda você vai terminar de falar! - eu disse, quase pulando pra cama de Janaína, e subindo em cima dela, prendendo os seus braços contra o colchão, ao som de seus gritinhos de protesto.
- Pára, Carol! Você tá maluca!? Vai acordar todo mundo! Sai de cima de mim, vai!?
- Só depois que você me disser desde quando o Lavinho tem uma quedinha por mim!?
- Olha, eu ando meio nostálgica ultimamente, lembrando de uns lance nada-a-ver, esquece isso, vai!?
- Janaína Marques, a senhorita sabe muito bem do que eu sou capaz quando quero arrancar um segredo de alguém, portanto... não... queira... me... testar - eu ameacei a minha melhor amiga, mas só de brincadeirinha.
Janaína riu e, percebendo que não tinha saída, começou a falar...
- Bem... desde antes de você e o Léo começarem a ficar... o Lavinho já demonstrava sentir algo por você, na verdade ele mudou muito depois que você e o Leonardo começaram a namorar, não se lembra? Ficou mais na dele, menos brincalhão, a gente chegou até a conversar com ele sobre isso...
- Sim, eu lembro disso... Mas não quer dizer que a razão tenha sido eu ter começado a namorar o Léo, aliás, de onde você tirou essa idéia de que o Lavinho sente algo por mim?
- Tá quase estampado na testa dele, Carol. Só você que não percebe, ou finge que não percebe, sei lá...
- Você tá delirando, Ína... Eu e o Lavinho somos amigos...
- E o que impede ele de querer ser algo mais que só um amigo seu? A gente não tem controle sobre o que sente, Carol... Você e o Léo também já foram amigos, se lembra?
E Janaína estava com toda a razão, eu só não queria admitir isso. Era muito estranho pensar no Olavo como algo mais que um amigo, e na verdade, eu nem queria pensar.
- Porra, Ína! Valeu mesmo, agora eu nunca vou olhar pra o Lavinho da mesma maneira.
- Você vai continuar olhando pra ele da maneira que você quiser, Carol... O que eu te contei hoje não vai mudar nada, e se mudar... bem, eu não vou ser culpada - ela deu um sorrisinho e me empurrou de cima dela - Agora volta pra sua caminha, vai.
Eu voltei pra minha cama, e fiquei encarando o teto do dormitório, enquanto Janaína se enrolava toda, preparada para se entregar ao sono. Caramba! Ter o meu melhor amigo interessado por mim era tudo o que eu menos precisava naquele momento. Já não bastava o que eu vinha enfrentando aquele ano no Lar, agora eu teria que lidar com um amigo e seus sentimentos (que de "amigáveis" não tinham nada) por mim. Como eu iria fazer Lavinho parar de gostar de mim, sem magoá-lo, e principalmente, sem destruir a nossa amizade? Primeiro eu teria que comprovar por mim mesma que essa suposição da Janaína era de fato verdadeira, e depois, dependendo do veredicto, eu tomaria uma atitude.
Sem querer, eu adormeci. Devo ter apagado por meia hora, ou mais, sei lá. Me levantei de supetão, como se tivesse me lembrado de algo muito importante que eu deveria ter feito, antes de cair no sono, e a lembrança tivesse feito eu acordar. E na verdade, era mais ou menos isso, eu não pretendia dormir até que tivesse certeza de que Gabriela também estivesse dormindo, sem ser importunada por nada nem ninguém. Assim que levantei, olhei em direção a cama de Gabriela. Como eu temia; a garota não estava dormindo, se revirava embaixo dos lençóis, e eu pude ouvir que chorava. Desci da cama e caminhei decidida até ela.
Gabriela? - eu disse, quando me aproximei o suficiente para conversar com ela, sem acordar ninguém.
Ela ficou imóvel por alguns segundos, e então saiu de baixo do lençol, e pela sua cara eu podia jurar que ia levar um soco dela, ali mesmo.
- Você tá querendo que eu te mate, fala a verdade - ela disse, tentando me intimidar com o olhar, sem muito sucesso.
- Eu tô querendo te ajudar...
- Ajudaria muito se você sumisse da minha vida...
- Você sabe que precisa da minha ajuda, Gabriela, só tem medo de admitir isso - eu disse, fazendo ela se calar e virar o rosto, evitando me olhar.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, ela encarando o outro lado do dormitório, e eu esperando que ela tivesse coragem de me olhar nos olhos. Quando eu percebi que aquilo não ia dar em nada, resolvi voltar para minha cama.
- Eu espero, do fundo do meu coração, que não seja tarde demais quando você resolver aceitar a minha ajuda - eu disse, começando a me retirar, quando...
- Ela sussurra coisas no meu ouvido... - disse Gabriela, timidamente, me fazendo parar para ouvi-la. Me voltei para ela, devagar - De noite, quando o colégio todo está em completo silêncio... eu escuto a sua voz... ela diz... coisas... coisas que eu não entendo, mas... que me assustam... as vezes parece que ela está se referindo a outra pessoa, e não a mim... Ela parece estar muito furiosa... Isso tem me deixado acordada a noite toda... não durmo direito há muitos dias...
- Eu não sabia...
- Então não venha me dizer que sabe pelo que eu estou passando... Você parece estar dormindo muito bem, na minha opnião - ela disse, voltando a se enrolar da cabeça aos pés.
Eu não consegui dizer mais nada. Eu realmente não podia imaginar o quanto estava sendo difícil para Gabriela conviver com a constante presença de Helene, afinal, não era através de mim que o espírito estava tentando se vingar de alguém do seu passado, e mesmo se Helene tentasse fazer algo contra mim, se Olívia estivesse certa, ela não conseguiria. A partir daquela noite, eu havia decidido que daria um tempo a Gabriela, e esperaria que ela viesse atrás da minha ajuda, quando se sentisse preparada. Eu só podia torcer para que ela estivessse preparada antes que fosse tarde demais.

A sexta-feira chegara, e mais uma vez eu me despedia de Olavo e Janaína.
- Se cuida, Carol - disse Janaína, correndo até o carro da mãe, que desta vez não viera comprimentar nem a mim nem a Olavo. Me perguntei se o nosso último encontro não teria sido o culpado por essa atitude, foi quando eu me lembrei que era típico da mãe da Janaína agir como uma perfeita vaca, então fiquei mais tranquila.
Eu e Olavo ficamos sozinhos por alguns minutos, e eu fiquei aliviada depois que o pai dele deu as caras no portão da escola. Desde a conversa com Janaína, a respeito do suposto interesse de Lavinho por mim, eu ficava um tanto desconfortável perto dele, e morria de medo que ele percebesse que havia alguma coisa estranha.
- Tchau, Carol... - ele disse, dando um beijo no meu rosto. Involuntariamente, eu recuei um pouco. Lavinho me olhou, um tanto desconfiado, e foi ao encontro do pai - Até segunda! -gritou ele.
- Até - eu respondi, e voltei para dentro da escola, louca para dormir e poder ir para casa no outro dia.

- Obrigado - sussurrou Leonardo, bem perto do meu ouvido.
Era manhã de sábado, e nós estávamos deitados na minha cama, encarando um ao outro. Eu ainda vestida com a farda do colégio, morrendo de preguiça de ir ao banheiro. Ele me olhava carinhosamente, parecia realmente grato, eu só não sabia o porquê.
- Pelo quê? - perguntei, intrigada.
- Você não se meteu em perigo essa semana... pelo menos eu não senti nada que indicasse isso... Obrigado - ele disse novamente, me dando um rápido beijo na boca.
- Ah! É... essa semana foi bem monótona. Eu não vi a Helene uma única vez - preferi não dizer ao Léo o quanto esse sumiço repentino da Helene me preocupava. Me dava a sensação de que ela estava planejando algo pelas minhas costas.
- Você parece desapontada... - disse Léo, contrariado - Deveria estar feliz com isso, não!?
- Não é isso, Léo... Olha, vamos mudar de assunto!? Eu passo a semana inteira naquela porcaria de escola, e quando tenho a chance de ficar dois dias longe de lá...
- Tudo bem, tudo bem... Vamos falar de outra coisa, sim... Ah! Eu estava me perguntando; há quanto tempo a gente não assiste os seus filmes do Quentin Tarantino!?
- Acho que a última vez que eu assiti foi com você... e a gente fez tudo, menos prestar atenção nos filmes - eu disse, rindo deliciosamente daquela lembrança, Leonardo fez o mesmo.
- Bem... agora acho que a gente vai poder assisti-los, afinal, eu não vou poder te dar uns amassos - disse Léo, com um sorriso safado no rosto.
- Dar uns amassos, Léo!? - eu disse, meio enojada com a expressão que ele usara.
- Qual o problema? - ele perguntou, ainda sorrindo.
- Nem se a gente pudesse dar uns amassos (zombei), eu toparia depois de uma dessas, de boa! - eu disse, finalmente me levantando da cama, tirando a roupa na frente do Léo, e correndo para o banheiro.
- Isso, pode provocar! Ah, se eu pudesse te pegar agora, você tava fu...
Na mesma hora a porta do meu quarto se abriu, e a minha mãe surgiu, com uma expressão estranha. Percebendo o que havia acontecido, eu saí rapidamente do banheiro, sem dar a mínima para o fato de eu estar nua.
- Oi, mãe...
- Você viu a chave do carro? Eu não consigo lembrar...
- Na sua mão, talvez!? - eu disse, olhando para a chave que a minha mãe segurava. Não, ela não estava ficando maluca, esse tipo de coisa acontecia com mais frequência do que se é possível imaginar.
- Ah! Claro, obrigada... - ela disse, balançando a chave, e acendendo um cigarro, em seguida - Filha... eu podia jurar que te ouvi falar sozinha ainda há pouco...
- Mamãe, quantos cigarros a senhora já fumou hoje? - eu perguntei, cruzando os braços, e espiando Leonardo pelo canto do olho. Ele ria de toda a situação, claro.
- Boa pergunta!... - ela disse, parecendo fazer esforço para se lembrar - Meu Deus, como eu queria me livrar dessa merda!
- A senhora já sabe qual é a solução...
- É, eu preciso transar, e transar muito! - ela disse, parecendo se arrepender em seguida - Você não ouviu isso, mocinha - repreendeu.
- Eu estava pensando em adesivos de nicotina, mas a sua idéia parece bem mais interessante...
- Vai tomar seu banho, dona Caroline - ela disse, dando um sorriso, que há tempos eu não via em seu rosto. Aquilo me deixou feliz por um instante, eu retribuí o sorriso mandando um beijo com a mão, enquanto ela fechava a porta do quarto.
- Eu e Leonardo rimos baixinho, olhando um para o outro. Eu me aproximei dele, toda sensual, e beijei os seus lábios. Eu senti o frio dele tomar o meu corpo, e estremeci, me afastando dele, institivamente. Caminhei de forma sensual até o banheiro, observando Leonardo, que sorria feito um bobão.
Aquele foi um dos melhores fins de semana da minha vida. Eu e Léo asistimos todos os filmes do Quentin Tarantino, e na noite de domingo, relembramos todos os melhores momentos do tempo em que a gente começou a namorar. Rimos muito quando eu mencionei um episódio em que nós fomos assaltados em uma pracinha, perto da casa do Léo, e depois que o assaltante pegou todo o nosso dinheiro e o meu celular, ele se despediu da gente, me parabenizando pelo "namorado gatinho". Eu lembro que ficamos olhando um para a cara do outro feito dois trouxas, até o assaltante sumir de vista, a partir daí foi impossível conter as risadas, mesmo sabendo que tinhamos perdido cento e cinquenta reais e um celular que custara duas vezes esse valor.
Na manhã de segunda-feira, foi até difícil me despedir do Léo. Não estava com a mínima vontade de voltar para o Lar, queria passar a eternidade trancada no meu quarto, acompanhada apenas do fantasma do meu namorado, e esquecer todos os problemas que me esperavam do lado de fora da minha aconchegante casa. Infelizmente, nós nunca podemos fugir da realidade, nem dos muitos problemas que ela envolve. Então lá fui eu, de volta para o Lar, sem fazer idéia de que a minha quantidade de problemas estava bem perto de aumentar drasticamente.

Depois de me despedir de dona Olga, e descer do carro, quase fui empurrada no chão por Gabriela, que passou por mim feito um furacão. Ela tentava esconder, mas parecia estar chorando, precionando a mochila com toda a força contra o peito. Ainda concentrada em Gabriela, que se distanciava rapidamente, nem percebi que Olavo e Janaína se aproximavam de mim.
- Oi, Carol - disse Janaína, me assustando.
- Ah... oi, gente.
- Eu, hein! Tá toda nervosinha assim por quê - perguntou Lavinho.
- Nada não... - reparei que não haviam mais polícias vigiando a entrada da escola - O que aconteceu com os PMs? - perguntei, intrigada.
- Sei lá, mas também não tem nenhum polícial dentro da escola, devem ter desistido do caso da Barbara... Os pais dela estiveram aqui, mais cedo, disseram que o tempo fechou na sala da madre superiora - comentou Lavinho.
- Eles não podem desisitir de procurá-la assim, de uma hora pra outra, isso não faz sentido... -protestei.
- O que não faz sentido é a maneira como a Barbara sumiu... Ok, a escola é enorme, mas os políciais já procuraram em tudo que é canto, e NADA... - disse Janaína, até ser interrompida por Lavinho.
- Algum lugar eles devem ter deixado passar, ela não pode ter sumido assim, sem explicação nenhuma, a não ser...
- Lavinho, não começa! - advertiu Janaína.
- Lá vem... - comentei, já sabendo sobre o que Olavo ia começar a falar.
- Ah, gente! Vai dizer que vocês não acreditam em outras dimensões? Uma vez eu li um livro que dizia que qualquer lugar pode ser uma porta para outras dimensões, e se a Barbara encontrou um desses lugares e... - Lavinho foi interrompido pelo som da sirene.
- Eu nunca gostei tanto de ouvir o som dessa maldita sirene, como eu tô gostando agora - disse Janaína, me fazendo rir.
- Porra! Vocês nunca me levam à sério! - reclamou, Lavinho.
- A gente tenta, amigo, mas você não colabora... - disse Janaína.
- Eu levo você a sério, Lavinho... -comecei.
- Valeu, pelo menos você, Carol...
- Quando você não tá doidão, o que não acontece com muita frequência, né!? - eu disse, fazendo Janaína ter uma crise de risos.
- Muito engraçado, sério mesmo, tipo, não dá pra perceber pela minha cara, mas por dentro eu tô me acabando de rir... - disse Lavinho, parecendo meio chateado de verdade.
- Tão fofinho, com raiva... - eu o abracei e dei um beijo em seu rosto - A gente tá só tirando onda com a sua cara, Lavinho. Desculpa, vai!?
Ele não conseguiu conter o sorriso, e tudo ficou bem. Foi quando eu me dei conta de que não tava levando muito a sério o lance que Janaína me contara no dormitório, sobre Olavo sentir algo por mim. Eu não ia prejudicar a minha amizade com ele por causa de uma suposição, não mesmo! Nossa amizade era forte demais para se abalar desse jeito.
A irmã Joana dizia alguma coisa sobre números primos, formas geométricas ou hipotenusa, enquanto eu observava Alexandre sussurrar algo no ouvido de Alycia, que a fizera sorrir. Os dois pareciam estar no maior clima romântico, o que não me surpreendeu nenhum pouco. Não era novidade para ninguém na turma, que a Alycia tinha uma quedinha pelo namorado de Barbara, assim como não era novidade que Alexandre era um perfeito galinha. A minha atenção foi subitamente desviada, quando Gabriela se levantou da sua carteira, soluçando de tanto chorar, e saiu da sala correndo, sem dar qualquer explicação para a professora. Involuntariamente, eu me levantei para segui-la, sendo repreendida pela irmã Joana, no mesmo instante.
- Ninguém sai desta sala até eu voltar! - ela disse, se retirando para deter Gabriela.
Eu me sentei, sob os olhares de todos na sala. Olavo e Janaína me encaravam como se perguntassem "que porra foi essa?".
- Qualé, gente!? Vocês não viram o estado da garota? Eu fiquei preocupada, vocês não?
- Quer saber, Carol!? Você tá mais estranha que a Gabriela, ultimamente - disse Janaína, parecendo um pouco irritada.
Permanecemos em silêncio, até a volta da irmã Joana, que retomou a aula, sem mais explicações.
Durante o resto do dia, Gabriela não compareceu às aulas, imaginei que ela talvez estivesse na enfermaria, se recuperando de, seja lá o quê, ela estivesse sentindo para ter corrido da sala daquele jeito. À noite, no dormitório, Gabriela apareceu acompanhada da madre superiora. Ela ainda parecia muito abalada, e sem olhar para ninguém, deitou-se em sua cama, se cobrindo com o lençól da cabeça aos pés, pude ouvir algumas meninas rirem baixinho da ação de Gabriela.
- Ela parece estar péssima - comentou Janaína - O que será que houve?
- Não faço a mínima idéia - eu menti, imaginando qual poderia ser a razão para o atual estado de Gabriela, e um único nome me veio à cabeça: Helene.
Naquela noite, eu e Janaína compartilhávamos um cansaço indescritível, por isso conversamos pouco antes de pegarmos no sono, ao mesmo tempo. O meu sono, no entanto, não durou muito. Eu senti a escuridão do dormitório penetrar os meus olhos, ao abri-los no meio da noite. Olhei rapidamente para o relógio acima da porta do dormitório: 3 e 30 da madrugada. Não sabia exatamente o porquê de eu ter despertado naquela hora, mas me senti agradecida por tal fato ao ver a porta do dormitório ser aberta, lançando um raio de luz sobre o meu rosto, que vinha do corredpr. Alguém saia do aposento, muito rapidamente, pois não consegui ver quem era. Rapidamente, olhei para a cama de Gabriela, e pulei da minha da minha própria cama ao ver que ela não estava na dela. Corri até a porta entreaberta, quase me esquecendo de não fazer barulho. Coloquei a cabeça para fora do dormitório e chequei se havia alguém no corredor, a porta do banheiro feminino acabara de se fechar, fazendo um barulho que ecoou pelo corredor vazio. Sem pensar duas vezes, eu corri até o lugar de onde o barulho viera. Me posicionei em frente a porta do banheiro feminino e, inevitavelmente, me lembrei de todas as coisas que eu já havia presenciado ali dentro. Hesitei por um instante, acho que estava esperando a tal da coragem chegar, então, respirando fundo, eu abri devagar a porta, e senti... O frio vinha de dentro, como se estivesse tentando escapar, me arrepiei, fiquei congelada segurando a maçaneta da porta, por alguns segundos. Abri-a, e fui entrando aos poucos, não conseguia olhar para os boxes, eu encarava o chão, o frio tomou conta do meu corpo por inteiro, foi quando eu olhei para frente, e a vi, me encarando da mesma maneira sacana, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo. Helene estava escorada na parede, como ela conseguia fazer aquilo sem atravessá-la eu não sei, mas ela parecia muito relaxada. Eu a encarei por alguns segundos, tentando não demonstrar medo. Pelo jeito que ela sorria, pude perceber que estava fracassando nessa tentativa.
- Sentiu a minha falta, Carol? - sussurou uma voz feminina e assustadoramente bonita , como se a pessoa estivesse ao meu lado pronunciado tal frase.
Eu recuei apavorada, não conseguia mais esconder o medo, eu ia abrir a porta para sair correndo dali, quando eu vi algo que me chamou a atenção. De dentro do box mais próximo a mim, havia um líquido vermelho-vivo, escorrendo lentamente pelo chão. Por um instante eu esqueci de Helene e abri rapidamente a porta do tal box... Eu sufoquei um grito que, com certeza, iria acordar todos nos dormitórios. Eu tampava a minha boca com a mão, quase mordendo-a, como reação a cena que eu presenciava. O choro, no entanto, eu não consegui conter, diante de uma Gabriela quase inconsciente e jorrando sangue por dois cortes feitos em seus pulsos, ela se debatia no chão, uma lâmina de gilete ensanguentada jogada ao seu lado. Ela tentou, com dificuldade, virar a cabeça em minha direção, o seu olhar era puro desespero, as lágrimas em seu rosto se misturavam com o sangue.
- Me... ajude... p-por favor - ela sussurrou, em um tom aterrador de súplica.

domingo, 22 de agosto de 2010

Capítulo 12 - Os três silenciosos



Eu abri a porta do meu quarto, sonhando com um banho para tirar toda a sujeira acumulada no meu corpo, graças à minha queda mais cedo na escola. E me surpreendi ao ser recebida pelo olhar acusador de Leo, que me esperava sentado na cama, com os braços sobre os joelhos, me lembrando um desses detetives de comportamento auto-destrutivo que costumam protagonizar filmes políciais.
- Oi, Leo. Cara, eu tô louca pra tomar um banho...
- Como foi a escola? - ele perguntou, sem mudar a expressão séria em seu rosto.
"Só o que me faltava", pensei, "ser intimidada por um fantasma".
- Entediante... como sempre - eu respondi, estranhando a frieza com que ele fizera a pergunta - eu... vou tomar um banho, não vou demorar, prometo - eu disse, começando a caminhar em direção a porta do banheiro, tentando evitar o olhar de Leo.
Eu tirei toda minha roupa, ainda um pouco suja de grama e terra, e entrei no chuveiro, deixando a água fria passear por cada parte do meu corpo. Eu tive a sensação de estar sendo observada, e olhei para alem do box do banheiro, e me deparei com Leonardo, escorado na porta, me encarando da mesma forma acusatória. Aquilo estava me incomodando de uma maneira indescritível.
- Leo, o que você... - comecei, pronta para me irritar com ele, até ser interrompida pelas suas próprias palavras de revolta.
- Você foi atrás dela, não foi? - ele perguntou, parecendo enfurecido - Você me prometeu... que não iria correr atrás de problemas, mas nem ao menos se esforçou para manter a sua palavra, não foi?
A pergunta me pegara totalmente desprevenida, como ele poderia saber? Eu fechei a torneira do chuveiro, encarando-o, provavelmente com cara de retardada, sem saber o que responder, até que decidi falar a primeira coisa que me veio a cabeça.
- Do que você... - eu ia começar a me fazer de desentendida, quando novamente fui enterrompida pela fúria de Leonardo.
- ME ESCUTA BEM, AMALLYA! - começou Leonardo, em um tom de voz que ele nunca usara comigo em anos de namoro - POR ALGUMA RAZÃO, EU CONSIGO SENTIR QUANDO VOCÊ ESTÁ METIDA EM PERIGO, E EU POSSO TE ASSEGURAR... sentir isso... seja lá O QUE FOR... não foi nada bom - ele terminou, e a revolta no seu olhar me fez imaginar que ele estaria chorando se pudesse. Ele não podia, mas eu sim (e você já deve ter percebido isso), e eu simplesmente não consegui segurar o choro naquele momento.
- Eu não posso ficar de braços cruzados... - comecei, enxugando as lágrimas do rosto.
- ENTÃO FAÇA POR MIM!... - berrou Leo, me interrompendo novamente, seu olhar era uma mistura de fúria e súplica - fique de braços cruzados... por mim - ele disse, e a súplica nos seus olhos me fez chorar ainda mais.
- Eu sinto muito... - respirei fundo para tomar coragem de completar a frase - mas eu não posso prometer algo que eu não pretendo cumprir - eu disse, tentando encara-lo de maneira decicida, para encerrar aquele assunto de uma vez por todas - Agora, eu realmente preciso tomar um banho... se você permitir.
- Ele olhou para mim, parecendo extremamente desapontado, e atravessou a porta do banheiro, me deixando sozinha.
Eu liguei o chuveiro novamente, me permitindo chorar, mas dessa vez eu não chorava por ter desapontado o fantasma do meu namorado, mas eu chorava de raiva, raiva por não ter a compreensão dele. Eu não podia fechar os meus olhos para seja lá o quê Helene estivesse tramando, sendo a única pessoa que poderia impedi-la. "Ele precisa entender", eu pensava, enquanto lutava contra a minha raiva, debaixo do chuveiro.

Leo desaparecera de vista, naquele dia. Mas eu podia senti-lo no meu quarto, ele só não queria aparecer, e por alguma razão, ele era capaz de se esconder de mim quando queria. Eu não tentei chama-lo, ou implorar pelo seu perdão. Quando a noite chegou, eu entrei no meu quarto, que desde a chegada de Leo, estava sempre tomado pelo frio, e me joguei na cama, me enrolando da cabeça aos pés com o edredom. Depois de alguns minutos deitada, eu pude sentir o frio ficando cada vez mais intenso, perto de mim. No mesmo instante, o edredom começou a se mexer, também atrás de mim, e sabendo o que tudo aquilo significava, eu me virei para o outro lado da cama, e dei de cara com um Leo ainda muito triste, aparentemente. Eu acariciei o seu rosto, devagar.
- Mesmo quando você desaparece... eu ainda posso te sentir, idiota - eu disse, dando uma risada leve, acompanhada por outra de Leo.
- Eu sei disso... eu só queria sumir da sua vista mesmo - ele disse, se concentrando para conseguir acariciar o meu rosto da mesma forma que eu fazia com ele.
- Eu não quero que você fique aqui sofrendo, enquanto eu estou no Lar ajudando alguém que realmente precisa de mim - eu disse, um pouco receosa de estar voltando ao assunto que deu início a nossa briga.
- Eu não posso evitar... Você é tudo o que eu mais amei na vida, e só de pensar que pode estar em perigo, eu... Você não pode me impedir de ficar preocupado com a sua segurança - ele disse, novamente com o doloroso olhar de súplica.
Mais uma vez, eu mudei de idéia, e decidi não contar a ele tudo o que acontecera no Lar durante a última semana, especialmente sobre a tentativa de Helene em possuir o corpo da pobre Gabriela. Eu pensava que deixando ele informado sobre a situação de risco em que Gabriela se encontrava, talvez Leo me apoiasse em tentar proteger a garota, mas depois das últimas palavras dele, eu percebi que isso só serviria para deixa-lo mais preocupado. E eu não podia culpa-lo por isso. Então, mais uma vez, eu optei pelo silêncio, e caí no sono, admirando aqueles tristes olhos verdes, cujo o antigo brilho fora brutalmente roubado pela morte.
Naquela noite eu sonhei... Eu e Leo andávamos pela 25 de março, que no sonho estava perfeitamente deserta. Eu segurava a sua mão com força, enquanto Leonardo não parecia nervoso, muito pelo contrário... ele sorria, um sorriso que eu vira raras vezes em seu rosto. Eu olhei adiante, e fiquei hipnotizada por uma atraente luz branca, que brilhava lindamente, bem na nossa frente. Eu olhei empolgada para Leo, e me desesperei ao ver que o seu peito sangrava, formando uma mancha vermelha que aos poucos brotava na sua camiseta branca. Eu comecei a chorar, enquanto sentia Leonardo sendo puxado da minha mão, indo em direção a luz branca. Tive a impressão de que ele estava estava sendo tragado pela própria luz. Ele continuava sorrindo, quando as nossas mãos se separaram bruscamente, e eu acordei... chorando feito uma criança que acabara de urinar na cama inteira, depois de ter tido um pesadelo.
Leonardo estava sentado próximo a janela, quando se levantou rapidamente, vindo em minha direção
- Calma, calma... -ele dizia - Foi só um pesadelo...
Eu não conseguia olhar para ele, a lembrança do sonho ainda estava forte na minha mente, era doloroso demais.
Eu enxuguei as lágrimas do rosto, e recuperei o fôlego.
- Eu... eu vou beber água - eu disse, saindo rapidamente do quarto, sem olhar para Leonardo uma só vez.
Desci até a cozinha, abri a geladeira, e enchi um copo de vidro com água, reparando que as minhas mãos tremiam incontrolavelmente. Eu bebi metade da água no copo, e não consegui conter as lágrimas. Eu tentava chorar baixinho, para que Leonardo não ouvisse. Dormi no sofá da sala, naquela noite.

Durante todo o fim de semana, eu e Leonardo evitamos o assunto discutido no sábado pela manhã, silenciosamente concordamos que nenhum de nós manteria a sua promessa; eu continuaria a "correr atrás de problemas" quando estivesse no Lar, e Léo continuaria a ficar zangado comigo por causa disso. Eu teria que aguentar os ataques de fúria do Léo, e mais ainda, ele teria que aguentar a dor de "sentir" que eu estou estava em perigo. E assim, com poucas palavras dirigidas um ao outro, o sábado e o domingo se passaram, e na segunda-feira de manhã, eu já estava pronta para ir a escola quando Leonardo veio me dar o seu beijo de despedida.
Eu senti o frio de seus lábios penetrar a minha boca e corpo, me dando conta de que seria a última vez em cinco dias que eu iria gostar de sentir aquele misterioso frio.
- É a sua última chance... Prometa que não vai estar em perigo - ele disse, com os lábios ainda muito próximos dos meus, talvez de propósito.
- Você não sabe o quanto eu queria poder te prometer isso... Até sábado, Léo - eu disse, friamente, me afastando dele e me retirando do quarto, em seguida. Desci as escadas rapidamente, sem olhar para trás, tranquei a porta da casa e corri para o carro da minha mãe, que já me esperava furiosa, como sempre.
- Que demora pra sair, Carol! Parece que gosta de chegar atrasada - ela disse, acendendo um cigarro, e começando a dirigir.

- Meu cú, que o Sonic Youth é melhor que Nirvana! Porra, Ína, pensei que o único que se drogava aqui era eu... - disse Olavo, dando início a mais uma discussão inútil sobre gosto musical.
- Se toca, gente! Comparar Nirvana com Sonic Youth, ou vice e versa, é o mesmo que comparar a Madonna com a Cindy Lauper, ou... os Strokes com a Artic Monkeys, ambas são bandas fodásticas, e tiveram o mesmo nível de importância pra o rock... - eu disse, tentando pôr um fim na discussão.
- Sonic Youth é puro barulho, Nirvana é poesia...
- Como se a poesia das letras do Nirvana fizessem alguma diferença pra alguém que se entope de drogas toda a vez que vai ouvir música! - disse Janaína, me fazendo rir pela primeira vez naquele dia.
- (risos) Vocês não fazem idéia... E nem NUNCA vão fazer, ouviram, mocinhas!? - insinuou Olavo, nos advertindo em seguida.
- Olha só que fofinho, tentando manter as amigas longe do mundo das drogas - brincou Janaína, dando um abraço em Olavo, seguido de um beijo meu na bochecha dele.
O som das nossas risadas foi interrompido pelo ensurdecedor som da sirene, que também interrompeu a nossa vontade de continuar rindo.
- Hora da forca - brincou Janaína.

As três aulas que antecederam o intervalo passaram se arrastando, como sempre, e eu não tirei o meu pensamento de Anita, até o momento em que a sirene tocou pela terceira vez. Desta vez, para evitar mais problemas, eu avisei a Olavo e Janaína que estava indo "dar um oi" para Olívia, e claro, eles não ficaram felizes com isso, mas pelo menos eu não saíra voando da sala feito um foguete, sem dar-lhes satisfação. Eles disseram que estariam me esperando no refeitório, mas se tudo desse certo, e eu estava sentindo que daria, eu não iria almoçar naquele dia.
Na biblioteca, Olívia parecia já estar esperando por mim, apenas indicou discretamente a sessão onde Anita encontrava-se, e voltou a sua atenção para pilha de livros sobre o seu birô.
- Você não vem? - perguntei baixinho. Estava realmente contando com a presença de Olívia durante a conversa com Anita.
- Não, eu achei melhor não, ela vai se sentir muito intimidada. Eu vou ficar aqui e torcer para que você não dê nenhuma cagada dessa vez, agora se manda! - disse Olívia, sempre muito carinhosa.
Eu caminhei devagar até a ala de história. No final do corredor de livros, estava Anita, sentada no chão e escorada em uma das estantes, com o "Harry Potter e o enigma do príncipe", nas mãos. Parecia muito concentrada na sua leitura, por um momento exitei em perturbá-la, com medo de estragar tudo, mais uma vez, mas ela já havia percebido que estava sendo obeservada.
- Oi, Amallya - ela disse, sem tirar os olhos do livro.
- Ah... Oi... - eu disse, um tanto sem graça - Gostando dos livros? - perguntei, ainda envergonhada.
- Claro! Teria chorado muito com a morte do Sirius Black... se eu pudesse... Eu adorei ele, assim como adorei o Cedrico, mas... ele também morreu... O que esses autores vêem de tão bonito na morte? Nunca vi gente pra gostar tanto de matar, como esses assassinos com suas canetas... assassinas! - ela disse, marcando o livro, e fechando-o com força, parecendo realmente revoltada.
- Bem... nenhum deles usa caneta, hoje em dia... - eu disse, tentando iniciar uma conversa tranquila, antes de tocar no assunto que realmente me interessava.
- Ah, é! Eu quase esqueci das máquinas de escrever - ela disse, ainda com raiva.
- Na verdade... Deixa pra lá - eu encerrei o assunto, temendo ter que explicar a respeito de computadores e internet.
- Então... a Gina e o Harry, hein!? Eles são tão fofos juntos, né? - perguntei, começando a me encher daquele assunto.
- A Gina é um saco, e o Harry, como todos os garotos, só se deu conta da existência dela depois que os seus seios começaram a crescer, e você não veio até aqui pra falar sobre Harry Potter - ela disse, me olhando fixamente. A menina era esperta, até demais para o meu gosto, sabia muito bem como me deixar sem graça.
- Eu... Tem razão... - eu disse, baixando a cabeça, tamanha era a minha vergonha.
- Eu soube o que houve com a sua amiga no dormitório... - ela disse, passando a evitar o meu olhar. Eu passei a encará-la, vendo que, finalmente, íamos conversar sobre o que eu queria de fato. Me aproximei dela, devagar, e sentei a seu lado - Eu nunca pensei que, mesmo depois de morrer, ainda seria atormentada pela Helene... - eu pude perceber que ela estava profundamente triste, como alguém quando chora, a única diferença é que não haviam lágrimas - Tudo o que eu tenho agora são lembranças... aliás, acho que é a única coisa que um fantasma pode carregar consigo - ela sorriu de forma triste - Eu tenho várias lembranças, Amallya... e nem todas são lembranças boas - dessa vez, ela passou a me encarar, o olhar ainda muito triste - Eu lembro da minha família, do meu primeiro e último beijo, dos meus amigos... desta escola, e principalmente... da Helene - sua expressão mudou completamente, eu podia jurar que ela iria sair correndo, exatamente como nas outras vezes em que me evitou, mas ela só respirou fundo, e continuou a falar - Nós eramos amigas... Não como ela era amiga do Caio e do Marcos, mas ainda assim a gente se gostava muito. Eu era uma garota muito solitária, por opção mesmo... e a biblioteca sempre foi o meu refúgio, por isso, eu quase não andava com Helene, Caio e Marcos... As vezes a companhia de um bom livro, pode ser bem melhor que a companhia de uma pessoa... Como Helene, Caio e Marcos viviam sempre juntos, e nunca se relacionavam com o resto da turma, não demorou muito para que eles ganhassem um apelido... Eles eram muito estranhos, e reservados, especialmente a Helene, por isso, todas as pessoas da nossa classe passaram a chamá-los de os três silenciosos... Logo, a escola toda, incluindo os funcionários e os professores, estavam os chamando assim pelas costas... Acho que é o preço que se paga por não ser como as pessoas querem que você seja... por ser diferente... Eu mesma já fui chamada de muita coisa, traça de livros está entre os apelidos mais carinhosos...
- Na escola, assim como fora dela, ninguém tem o direito de ser quem realmente é... e quem tem a coragem de fazer tal coisa, acaba sofrendo as consequências... Eu entendo perfeitamente, acredite - eu disse, quase que pensando alto. Então deixei Anita continuar.
- Assim como eu, eles três não pareciam ligar muito para tais provocações... E isso só irritava ainda mais as pessoas... Não demorou muito, até as provocações piorarem, é claro... Um dia, Helene foi humilhada na sala de aula por um grupinho idiota de garotas da nossa turma, depois de ter menstruado na cadeira onde estava sentada... No outro dia, ela começou a se vingar de todas elas, uma por uma...
- Uma delas era Lúcia... Lúcia Machado, estou certa? - perguntei, super empolgada.
- Eu não consigo me lembrar delas, por alguma razão... Mas acredito que sim, esse era o nome de uma delas... Como eu ia dizendo, dentre todos os atos de vingança, que incluiam; uma escarrada na boca, um belo soco no olho e um maiô sujo com sangue falso para simular uma menstruação, o pior de todos foi a Helene ter... você sabe... dormido (ela disse baixinho, sem precisão alguma) com o namorado da líder do grupo e ter espalhado para a escola inteira que tinha perdido a virgindade com ele... Isso foi o fim, daí pra frente as coisas só iriam piorar... (ela respirou fundo, novamente) Por mais que o Marcos e o Caio tentassem aconselhar a Helene de que tudo aquilo era absolutamente infantil e desnecessário, ela continuou com o seu plano, e sofreu as consequências por isso... Um dia, no vestiário feminino, depois da aula de educação física, a Helene estava sozinha tomando banho, quando ela foi abordada pelas quatro garotas que vinham sendo infernizadas por ela... As quatro juntas, deram uma surra na Helene que a fez ir direto para a enfermaria... ela sangrava muito, e foi encontrada inconsciente no chão do vestiário... Foi... foi horrível... eu a encontrei, e carreguei-a nos ombros, gritando por socorro... As garotas foram severamente punidas, mas nenhuma expulsa do colégio... Uma semana depois, a Helene estava recuperada... e enfurecida...
- Ela fez mais alguma coisa contra elas? - perguntei, meio que já sabendo a resposta.
- Sim... Foi durante a apresentação de A Paixão de Cristo, daquele ano, Lúcia e seu grupinho inteiro estavam na peça... E a Helene... ela...- a sua expressão havia mudado novamente, parecia estar muito assustada, e ao mesmo parecia se esforçar para lembrar de algo - A Helene... Tocou fogo no palco, durante a apresentação... Foi horrível, o palco inteiro estava em chamas, em questão de segundos... Helene deixou bem claro que ELA havia feito aquilo, rindo de toda a situação, enquanto todos tentavam desesperadamente sair do auditório... Ela havia ido longe demais... Claro que esse joguinho de vingança não iria parar... Então foi a vez de Lúcia e suas amiguinhas... Na época, corria um boato de que os três silenciosos tinham um tipo de... esconderijo secreto, dentro da escola... Mas isso não era só um boato... era verdade...
- Esconderijo secreto? - perguntei, totalmente intrigada.
- Eles batizaram de Refugium... Eles me mostraram onde ficava, uma vez, mas eu não quis entrar... claustrofobia, entende?... Helene me fez jurar que eu não contaria a ninguém sobre o lugar...
- Você ainda se lembra onde fica? - perguntei, esperançosa.
Anita demorou a responder, parecia muito distante naquele momento.
-Anita? - voltei a chamar a sua atenção.
- Não... eu não me lembro - ela respondeu, e eu não acreditei, mas preferi não insistir.
- O refugium, nada mais era do que um lugar secreto onde os três silenciosos podiam ser eles mesmos... sem serem julgados por ninguém... eles se sentiam... seguros de todos, ali... Lúcia queria saber onde era esse lugar... ela... - Anita apertou os olhos, como se tentasse se lembrar, ou se livrar, de alguma memória - ela insistiu e... - se Anita já não estivesse morta, eu gritaria por socorro naquele momento, pois a sua expressão era a de alguém que estava sentindo uma dor imensurável... a dor de uma lembrança que a atormentava, até mais do que a própria Helene.
- Anita?... - eu disse, precocupada. Sem me dar conta do quanto era ridículo estar preocupada com um fantasma.
- Eu disse... eu... eu quebrei a minha promessa... eu fui a culpada... - ela dizia, com uma expressão dolorosa em seu rosto.
- Culpada de quê, Anita? - eu perguntei, baixinho, muito próxima a ela.
- Por favor... me desculpa... Eu não quero mais... eu... não quero mais - ela disse, se levantando e correndo para a sessão vizinha, sumindo de vista.
Eu fiquei lá, sentada no chão da ala de história, tentando dar uma lógica para as últimas palavras de Anita, sobre o ocorrido no tal Refugium. O que teria acontecido lá? Do que Anita se culpava? "Mais mistérios... era tudo o que eu precisava", pensei, batendo a cabeça contra a estante atrás de mim, me arrependendo profundamente, depois.
- Porra! - eu disse, em alto e bom som, como reação a dor que eu sentira.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Capítulo 11 - Confronto



Quem era Gabriela Machado? Por que Helene teria algum interesse em atormentar aquela garota? Perguntas como essas, e outras, muitas outras, corriam frenéticas pela minha mente. E a falta de respostas para todas elas, só me deixava mais angustiada. E como se não bastasse, eu acabara de descobrir que Alexandre também estava com Barbara na mesma noite em que a garota desapareceu, o que, apesar de não muito surpreendente, uma vez que todos sabiam dos passeios noturnos que Barbara e o namoradinho costumavam realizar para terem um pouco de privacidade na escuridão das escadarias da escola, ainda assim era uma revelação preocupante. Estaria Alexandre relacionado de alguma maneira com o desaparecimento de Barbara? "Claro que não!", eu pensava. Além de o astro da escola não ter, aparentemente, motivo nenhum para querer se livrar da namorada (além de ela ser uma vadia mimada, odiada por todos os outros alunos, inclusive por suas supostas amigas), Alexandre era burro demais para saber esconder um... cadáver? Tão bem assim. Não, ele nao tinha nada a ver com isso, talvez só estivesse chocado com o que aconteceu com a namorada, e claro, assustado com a possibilidade de ele se tornar um suspeito. Era como se muitas coisas estivessem acontecendo ao meu redor, rápido demais, e eu não conseguisse captar tudo, como se estivessem se escondendo de mim. Eu tinha que pôr um fim em todas as minhas dúvidas, de uma vez por todas. E eu começaria por Gabriela, ou melhor... por seu histórico escolar. E só havia uma pessoa naquela escola que poderia me ajudar a ter acesso a tal documento.
- Você enlouqueceu, menina!? - disse Olívia, séria, depois de ter ouvido um pedido meu, envolvendo o furto de um histórico escolar.
- Qualé, Liv!? Você sabe que consegue - eu insistia.
- Eu não vou fazer isso! Eu sei que não parece, mas eu amo o meu emprego, e não pretendo perdê-lo tão cedo. É o que alimenta o meu gato e a mim, muito obrigada, mas eu passo.
- É por uma boa causa, e você sabe disso.
- Eu não vejo no que isso pode ajudar em descobrir o que essa tal de Helene tá pretendendo...
- Confie em mim, Liv! Eu prometo que vai valer a pena - a verdade é que eu não fazia idéia do que estava prometendo, ou de como aquele histórico poderia me ajudar. Eu só sentia que precisava saber sobre as informações naquele documento.
Olívia ficou pensativa, por alguns segundos.
- Eu te dou uma cópia, hoje...
- Muito obrigada, Liv - eu disse, animada.
- Mas eu juro por Deus, sua esquisitinha... se eu me ferrar, você se ferra também, pode ter certeza - ela disse, em tom de brincadeira... ou não? Com a Olívia nunca se sabia.
- Eu não tenho nenhum emprego pra perder aqui, otária - comecei a correr em direção a saída da bilioteca, parando na porta - Eu passo aqui hoje no final da aula pra pegar, tudo bem!? TE AMO, LIV! - eu disse, me retirando.
Voltei correndo para o refeitório, esperando que Olavo e Janaína não tivessem se dado conta da minha demora. Eu não havia nem chegado à mesa onde os dois estavam, quando a sirene tocou, encerrando o intervalo.
- Droga! Perdi muito tempo arrumando o cabelo no banheiro - eu comentei, quando me aproximei dos dois, tentando despistar as suas perguntas a respeito da minha demora.
Como sempre, o tempo das aulas passou se arrastando, e eu não via a hora de sair correndo daquela sala para saber se Olívia conseguira fazer a cópia do histórico de Gabriela. Durante todas as aulas, eu pensei em uma desculpa para desviar o meu caminho do refeitório, sem levantar as suspeitas de Olavo e Janaína. Quando as aulas se encerraram, eu disse que precisava fazer uma ligação importante para a minha mãe. Os dois acreditaram, e continuaram o caminho para o refeitório sem mim. Eu corri para a biblioteca, tomando cuidado para não ser vista por ninguém que me fizesse voltar para o refeitório, onde todos os alunos do Lar deveriam estar, naquele horário. Chegando na bilioteca, Olívia já começara a arrumar a sua bolsa, pronta para encerrar mais um dia de trabalho como bibliotecária do Lar.
- Liv...
- QUE DROGA! - ela gritou, deixando a sua bolsa cair no chão - Meu Deus, Amallya! Bate na maldita porta, da próxima vez - ela disse, se recuperando do susto.
- Foi mal, eu não quis te assustar, juro... E aí? Cadê o histórico?
- Aqui - ela disse, me entregando duas folhas, com a primeira contendo uma foto 3x4 de Gabriela Machado, e com vários dados pessoais digitados por uma máquina de escrever.
Eu analisei, rapidamente, as informações contidas no documento, e como esperado, não consegui encontrar nada de muito surpreendente sobre a garota (era o seu histórico escolar, não o seu diário secreto, sua idiota!). Porém, um único nome contido no documento me prendeu a atenção, por algum motivo que até então eu não sabia explicar, eu simplesmente não consegui tirar o nome da mãe de Gabriela da minha cabeça, alguma coisa me dizia que era um detalhe importante, mas eu não sabia o por quê. Lúcia Machado... eu ficava repetindo esse nome, mentalmente, procurando a razão para o mesmo me intrigar tanto... até que, como um soco, ela me veio à mente.
- Lúcia Machado! - eu disse animada.
- Quem? - perguntou Olívia, confusa.
- Do anuário escolar!
- Anuário? Tá falando do quê, Amallya? - perguntou Olívia, começando a ficar preocupada.
- Lúcia Machado, eu já vi esse nome no anuário escolar de 1978, eu... tenho quase certeza disso... - eu disse, começando a correr em direção à seção de anuários.
- Amallya, aonde você vai? - perguntou Olívia, começando a me seguir.
Ao chegar na prateleira dos anuários, encontrei rapidamente aquele que eu procurava, e o abri na página em que vira a foto da turma inteira do primeiro ano ginasial de 1978. O nome Lúcia Machado estava entre os nomes na legenda. A garota da foto tinha um sorriso esnobe, e estava ao lado de uma outra garota, muito bonita, porém, com o mesmo ar esnobe. Então era isso... Não podia ser uma simples coincidência. Gabriela era filha de alguém que estudou com Helene, e provavelmente fez da sua vida um inferno, e agora a garota queria se vingar na filha da sua rival. Claro que era tudo uma suposição, mas não por muito tempo.
- Você tá com cara de quem descobriu algo muito importante, fala logo o que é! Eu ODEIO mistérios - disse Olívia, que reparara na minha empolgação ao segurar o anuário de 1978.
- Lúcia Machado é mãe de Gabriela...
- E dái?
- Se você me deixar...
- Tudo bem, tudo bem, me desculpa.
- Lúcia Machado e Helene estudaram juntas aqui no Lar, no ano de 1978, e vai saber por mais quanto tempo... Será que eu preciso dizer mais alguma coisa? - eu disse, encarando Olívia, que ainda parecia meio confusa.
- Você tá querendo dizer que Helene quer se vingar da mãe de Gabriela por algo que ela fez no passado... quando as duas estudaram juntas? -perguntou Olívia, mais esclarecida a respeito das minhas suspeitas.
- Parabéns, Sherlock Holmes!
- Tudo bem, já é alguma coisa...
- ALGUMA COISA? Se liga, Liv! Não é só alguma coisa, tá mais pra... a coisa, ou sei lá - eu disse, transbordando entusiasmo.
- São só suposições, Amallya, é isso que eu tô querendo dizer...
- Por enquanto... Mas eu e você conhecemos alguém que pode nos ajudar a tirar isso a limpo - eu disse, com um olhar insinuador.
- Anita - ela falou, em voz baixa.
- Você acha que ela falaria com a gente, agora?
- Não, eu acho melhor não... ela tá bem concentrada na leitura dos livros que você emprestou... vamos dar um tempo pra ela, você pode perguntar na segunda, ok!? - Sugeriu Olívia.
- Tem razão... - eu disse, um tanto desapontada. Mas Olívia estava certa, eu preferia esperar por mais um fim de semana para ter as respostas que eu tanto procurava, a correr o risco de perdê-las pra sempre.
- Agora vai descansar, você tá só a merda, ultimamente, sabia? Não tem dormido não, é garota? - perguntou Olívia, acariciando o meu rosto, rapidamente.
- Não muito - respondi, me dando conta do quanto eu realmente estava cansada.
- Já pra cama! Você já teve muito mistério pra um dia só - disse Olívia, me acompanhando até a saída.
- Liv... - eu parei na porta, e Olívia fez o mesmo.
- O que é, agora? - ela perguntou, um tanto impaciente.
- Posso te fazer uma pergunta... e por favor, não tenha medo de me assustar com a resposta - eu disse, implorando pela sinceridade de Olívia.
- Eu não vou te prometer nada - disse Olívia, desviando o seu olhar do meu.
- Só responde com sinceridade... Existe alguma maneira da Helene... machucar, ou... fazer algo pior com a Gabriela? - eu perguntei já começando a temer a resposta de Olívia.
Ela respirou fundo, e me encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo se mentiria ou não.
- Deus sabe como eu não queria te dizer isso, mas... existe sim - ela respondeu, séria.
- Como? - perguntei, ainda abalada pela resposta de Olívia.
- Agora não é o momento, meu anjo.Vai dormir, por favor... A gente se vê na segunda - ela disse, me conduzindo para o lado de fora da biblioteca, e trancando a porta por dentro, em seguida.
Eu fiquei em pé do lado de fora da biblioteca por alguns segundos, ainda pensando sobre a resposta de Olívia. "Então fantasmas podem machucar pessoas vivas!?", pensei. "Mas como?", por alguma razão, Olívia não quizera me responder aquela segunda pergunta. E para falar a veradade, eu não sabia se estava preparada para ouvi-la ainda, por isso agradeci Olívia por ter me poupado de tal revelação, naquele momento.
Presumindo que meus amigos não estivessem mais no refeitório, resolvi ir direto para o pátio frontal, onde, de fato, Olavo e Janaína já esperavam por seus pais. De longe, pude perceber que eles conversavam com uma mulher que parecia ter saído de uma dessas revistas com fotos de modelos tão perfeitas que nem parecem reais. Demorou um pouco até eu perceber que a linda mulher era a mãe de Janaína.
- Oi gente - eu disse, me encaixando entre Lavinho e Ína.
- Ah! Mamãe, lembra da Amallya? - perguntou Janaína, me aproximando da sua mãe, para que pudéssemos nos comprimentar.
- Claro que eu lembro... - ela disse, me abraçando, e me olhando meio perdida.
Ficamos em silêncio, até que eu resolvi salva-la daquele constrangimento.
- Eu... quebrei a sua galinha gigante de porcelana chinesa, quando tinha sete anos...? - eu disse, em uma tentativa ousada de fazer a mãe de Ína se lembrar de mim.
- Claro! Eu me lembro agora... E não era uma galinha gigante, era um pavão - ela disse, com um sorriso simpático, e visivelmente falso no rosto, uma vez que o seu olhar denunciava o seu desejo de me matar naquele exato momento.
Nós quatro rimos em unissono, tentando disfarçar a tensão do momento.
- Olha pelo lado bom, ele sempre ficou horrível na sua sala - eu disse, me dando conta, um tanto tarde demais, que só estava piorando a situação.
- Não, não ficava não - disse a mãe de Janaína, dessa vez sem o sorriso falso no rosto.
- Desculpa - eu disse, engolindo a seco.
Ficamos os quatro em silêncio, por alguns segundos.
- Bem... acho que a gente tem que ir, Janaína, querida - disse a mãe de Janaína.
- Foi um prazer, rever a senhora... - o nome da linda mulher me fugia naquele momento.
- Lorena, me chame de Lorena - ela disse, de forma um tanto arrogante, como que percebendo a minha angústia em não conseguir lembrar o nome da mãe da minha melhor amiga.
- Lorena, isso! - eu completei, resolvendo, a partir daquele momento, não abrir mais a minha boca.
- Tchausinho, perdedores - disse Ína, se despedindo, carinhosamente, de seus dois melhores amigos.
- Até mais, Teletubbie - disse Olavo, usando um apelido que ambos; eu, Olavo e Leonardo, havíamos dado a Janaína, quando ela começou a se queixar da sua cintura um tanto avantajada.
Eu caí na risada, sem conseguir me controlar.
- Essa foi maldade... idiota - disse Ína, apertando a própria cintura, fazendo uma falsa cara de mágoa, e se despedindo com um gesto obsceno envolvendo o dedo médio da sua mão direita.
- Você deveria se envergonhar, coisa feia - eu disse, em tom de brincadeira, fazendo Ína dar um último sorriso, antes de correr para acompanhar a sua mãe, que já se aproximava do carro, no lado de fora do colégio.
- Essa mulher me dá medo - disse Olavo, referindo-se a mãe de Janaína.
- Ela quase enfiou os cacos da galinha gigante dela na minha garganta, depois que viu a coisa estraçalhada no chão da sala de estar... Acho que eu fiz de propósito, lá no fundo eu sinto isso, sabe? Aquela coisa era horrível, tipo... algo que a minha avó colocaria na sala de estar dela, ou sei lá - eu disse, conseguindo arrancar uma risada de Olavo.
- Ela deveria ter agradecido, ao invés de ter usado a imaginação pra te assassinar, hoje... Aquele olhar que ela te lançou... sinistro - comentou Lavinho, mostrando que eu não fora a única pessoa a perceber a maneira que Lorena me olhara no momento em que eu me revelei como a assassina da sua galinha chinesa gigante e brega.
Eu me deitei no colo de Olavo, que pareceu um tanto desconfortável com a situação, mas eu não liguei muito pra isso, na hora. Só queria olhar as estrelas que começavam a surgir no céu daquela tarde de sexta-feira.
- Então... - começou Lavinho, um tanto sem jeito - o céu... tá lindo hoje, né?
- É... tá sim - eu respondi, ainda atordoada pela visão do céu tingido de rosa e azul, que começava a se encher de estrelas.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Cheguei a cair no sono, rapidamente, no confortável colo do meu melhor amigo, quando ele me despertou...
- Amallya...?
- Sim, Lavinho? - eu disse, um pouco atordoada.
- Eu...
- OLAVO!? - gritou o pai de Olavo, me fazendo levantar do seu colo, como um foguete.
- JÁ VAI, PAI! - disse Lavinho, aparentemente irritado com a maneira como o seu pai chamara a sua atenção.
- Me desculpa, Olavo... - eu disse, sem saber ao certo do que eu estava me desculpando.
- Não tem de quê, maluca - disse Olavo, beijando o meu rosto carinhosamente, antes de começar a correr em direção ao seu pai, quem parecia estar puto da vida.
E lá estava a pobre Amallya Caroline, mais uma vez... sozinha. Não que eu já não estivesse acostumada com a solidão das noites de sexta-feira, mas desde o dia em que Helene decidira visitar o dormitório feminino no meio da madrugada, as minhas noites sem a companhia de Janaína, tornaram-se muito menos suportáveis. Mas a noite chegara, e eu estava tão cansada que cheguei a ter a esperança de que a minha desesperada necessidade de dormir, afastaria o meu medo, recentemente adquirido, de fechar os olhos naquele dormitório. E foi com essa frágil esperança que eu fechei os meus olhos, confortavelmente deitada em minha cama, no solitário dormitório. Naquela noite haviam, além de mim, quatro garotas ocupando o enorme aposento, entre elas estava Gabriela Machado, que desde a nossa última conversa no banheiro feminino, parecia extremamente reservada, e desconfiada. Mas eu não queria pensar em Gabriela, em Helene, ou no passado que ela e a mãe de Gabriela, Lúcia Machado, tiveram juntas no Lar, na verdade, tudo que eu mais desejava naquele momento era fechar os olhos e conseguir não pensar em NADA. E eu até consegui... Não por muito tempo, mas eu consegui.
Com os olhos fechados, eu me deixei afundar na aconchegante escuridão do nada... Até que um grito muito familiar me puxou, violentamente, de volta para a minha conturbada realidade. Os gritos ecoavam de forma perturbadora pelo dormitório, devido à pouca quantidade de pessoas que ocupavam o lugar naquele dia.
- SOCORROOOO! ALGUÉM... FAÇA PARAAAAR! POR FAVOR! FAÇA ELA PARAAAR! - gritava Gabriela, repetidas vezes.
Logo os gritos de Gabriela se misturaram com os gritos de pavor das outras meninas, que não ousavam chegar perto da pobre garota, e para ser honesta, eu também demorei bastante para conseguir ter coragem de me aproximar de Gabriela. A primeira impressão que eu tive ao me aproximar da sua cama, era a de que a garota estava tendo tendo um pesadelo, seus olhos estavam firmemente fechados... Mas um simples pesadelo não podia estar causando toda aquela agonia em alguém.
Gabriela se agitava na cama, como se estivesse sendo queimada em uma fogueira... como se algo, invisível, a estivesse machucando seriamente. Os gritos pioravam com o passar do tempo, durante alguns minutos ninguém apareceu para socorrer a garota que, aparentemente, agonizava de dor. Eu era a única no dormitório que estava fora da cama, as outras meninas não faziam nada além de gritar e de me alertar para manter distância. Em passos cautelosos, eu as desobedecia, me aproximando mais da cama de Gabriela.
- ME DEIXA EM PAAAZ! POR FAVOOOR! - ela gritava, apavorada e inquieta.
Eu podia imaginar quem (ou seria o quê?) estava provocando aquela tortura na garota, mas não fazia sentido, uma vez que eu não sentira nenhuma presença.
- Gabriela!? - eu disse, tomando coragem para tocar a garota.
- FAÇA PARAR... POR FAVOR... FAÇA... PARAAAAR! - ela gritava mais e mais, a medida em que eu ia me aproximando.
Eu toquei o seu ombro, tentando acalma-la, e o frio da sua pele me fez recuar. No entanto, ela respirou fundo, fazendo um estranho som gutural com a boca, parando de gritar e abrindo os olhos rapidamente, como se, de fato, tivesse acordando de um pesadelo. Ela respirava ofegante, parecendo atordoada, e lágrimas desciam de seus olhos, descontroladas. Sua roupa e cama estavam encharcadas de suor.
- Você está bem? - eu perguntei, um pouco abalada por sua reação ao meu toque.
- Obrigada - ela disse, quase sussurrando, sem me olhar nos olhos.
- O quê?... - foi tudo o que eu pude falar, antes que a madre superiora me empurra-se devagar, para poder ver o que acontecia com Gabriela.
- O que houve, meu anjo? - perguntou Amélia, acariciando o rosto de Gabriela.
- Eu... - ela olhou para mim, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa - tive um pesadelo - ela finalizou, direcionando o seu olhar para a madre superiora.
- Padre Jonas? - chamou a madre superiora, fazendo com que o padre Jonas irrompesse da multidão de garotas, aproximando-se da cama de Gabriela.
- Amélia? - disse Jonas, assustado ao se deparar com a situação de Gabriela.
- Vamos leva-la para a enfermaria... - começou Amélia.
- Não, madre, por favor... foi... só um sonho, eu juro, não estou me sentindo mal... - disse Gabriela.
- Como não, minha filha? Você está encharcada de suor e... - começou o padre Jonas, sendo interrompido por Gabriela.
- Isso é o que acontece quando se tem um pesadelo muito intenso, padre Jonas. Eu estou bem, acredite em mim - ela disse, ignorando as pessoas a sua volta, voltando a deitar-se, enrolada em seu cobertor, como se nada tivesse acontecido.
Um tanto desconfiada, a madre superiora afastou-se da cama com o padre Jonas.
- Todas vocês, por favor, voltem para suas camas - disse a madre superiora, calmamente.
Ainda eufóricas, todas as meninas obedeceram a madre superiora, que se retirava do dormitório, acompanhada pelo padre Jonas. Eu olhei uma última vez para Gabriela, totalmente escondida debaixo de seu cobertor, e pensei se Helene teria sido a culpada pelo "pesadelo" que a garota acabara de ter. O "obrigada" de Gabriela também não me saia da cabeça. Afinal, o que eu teria feito, para que ela me agradecesse daquela maneira? Como se eu a tivesse salvo de despencar em um abismo, ou algo do tipo. Eu voltei para a minha cama, somente para me dar conta de que perdera o sono completamente.
Os gritos de Gabriela me assombraram durante a noite inteira, e como é possível imaginar; eu não consegui dormir. Somente quando eu fui "despertada" pela voz da madre superiora, eu pude sentir o peso da péssima noite que eu tivera, sobre os meus olhos, que teimavam em permanecerem fechados. Quando eu acordei no outro dia, Gabriela já não estava mais na sua cama, imaginei, meio atordoada pelo insistente sono, que a sua mãe tivesse sido informada a respeito do que acontecera com a filha e por isso passou mais cedo na escola.
No chuveiro, onde eu pude pensar melhor com a água gelada me ajudando a despertar aos poucos, eu pensei em relatar a Olívia o ocorrido no dormitório, e saber se haveria alguma possibilidade da Helene ter sido a causadora do que quer que tenha acontecido com Gabriela.

Eu pude desviar o meu caminho do refeitório (já havia me tornado expert nesse tipo de coisa), e ir direto para a biblioteca, onde, para a minha sorte, Olívia realizava a sua faxina de sábado, quando ela tirava a poeira das estantes e dos livros (bem... não de todos os livros, é claro).
A porta da biblioteca estava trancada, então eu bati delicadamente no vidro, para chamar a atenção de Liv, que parecia muito concentrada, tirando a poeira de uma das estantes da sessão infanto-juvenil. Ela usava uma calça jeans rasgada nos joelhos, uma blusa velhinha com uma foto da Rita Lee estampada, e sandálias.
Ela abriu a porta para mim, parecendo um pouco aborrecida.
- O que é agora, Carol!?
- Eu preciso falar com você, é muito importante... eu juro.
- Entra logo! - ela disse, me chamando para dentro da biblioteca, que cheirava a produtos de limpeza naquele dia.
- Aconteceu um lance muito sinistro com a Gabriela, tipo... não sinistro, sinistro, mas sinistro tipo... O EXORCISTA, sacou? O filme? Não? Tudo bem... a questão é que... eu acho que a Helene foi a culpada, você presecisava ter visto, Liv, foi... quer dizer, eu...
- CALMA, Carol! - disse Olívia, pressionando o meu ombro, no intuito de me acalmar - Respira, e me conta tudo de novo, e dessa vez na minha lingua, ok!?
- Tá bom, me desculpa, é que... No meio da noite, eu acordei com os gritos da Gabriela, e... ela parecia muito estranha, e agonizava na cama como se algo estivesse machucando ela pra valer, sabe? Eu... eu não sabia o que fazer, as outras garotas não paravam de gritar, como ela não abria os olhos eu... eu pensei que ela estivesse sonhando, ou sei lá... então eu me aproximei e... toquei ela, sabe? Pra acordar ela, e... e ela acordou... e me agradeceu... Diz aí se não foi estranho!? AAAH! E, eu quase esqueci, a pele dela... quando eu a toquei... tava muito fria, fria mesmo, sabe? - eu finalizei, esperando uma reação de total espanto, por parte de Olívia. Mas tudo o que ela fez foi me olhar intrigada, e começar a roer as unhas da mão direita, enquanto caminhava em circulos pela biblioteca.
- Que droga, QUE DROGA! - ela disse, parecendo irritada e muito preocupada, ao mesmo tempo.
- O quê? - perguntei, ainda mais precocupada.
- Eu sabia que era roubada trabalhar em um colégio com mais de cem anos de existência! Mas eu NUNCA me escuto! NUNCA! Vai lá, Olívia, aceita o trabalho, vai! Você tá em dívida com São Paulo INTEIRA! Quer acabar levando um tiro de algum traficante em uma moto?... - dizia Olívia, falando com ela mesma, ignorando totalmente a minha presença. Ela tirou um cigarro e um isqueiro do bolso da calça, e o acendeu na minha frente.
- Liv, o que tá acontecendo? - eu perguntei, começando a entrar em pânico também.
Olívia deu uma longa tragada no seu cigarro, libertou uma nuvem de fumaça da boca, direto na minha cara, respirou fundo e me olhou apreensiva, novamente aparentando estar decidindo se mentiria ou não para mim.
- Lembra quando você me perguntou se um fantasma poderia machucar alguém?
- Claro que lembro, isso foi ontem, Liv.
- Eu te disse que sim, mas não te falei como.
- Exato.
- Pois bem... Eu não sei se eu deveria te falar isso, mas... Acho que você tem o direito de saber, afinal, essa fantasma parece mesmo estar querendo chamar a sua atenção, e é melhor que você esteja alerta sobre tudo que ela possa tentar fazer contra você ou... contra qualquer um aqui nesta escola... - ela deu uma outra tragada do seu cigarro, e voltou a me olhar fundo nos olhos - Você sabe que fantasmas podem... tomar o corpo de certas pessoas, não é, Carol?
Aquela pergunta me pegara despreparada, mas eu deveria ter pensado nisso antes, era óbvio demais. De que outra maneira um fantasma faria mal a pessoas vivas, se não tomando o corpo delas, ferindo-as de várias maneiras, por dentro?
- Eu... posso já ter ouvido falar - eu disse, ainda assustada com a idéia.
- Bem... isso só acontece com pessoas que possuem muita, ou um pouco, de mediunidade, isto é... que são... elos, como nós, que possuem alguma conexão com o além, ou sei lá... Se o que aconteceu ontem com a sua colega tiver sido, de fato, uma tentativa da Helene tomar o seu corpo, então... eu estava errada e essa Gabriela pode sim ser um elo, mas não um como nós.
- Como assim? Existem vários tipos de elos?
- Mais ou menos... eu diria que existem aqueles que somente recebem espíritos, isto é, que estão totalmente suacetíveis a eles, e existem aqueles que podem fazê-los voltar para onde nunca deveriam ter saído. Eu e você nos encaixaríamos melhor nesse último grupo.
- Eu?... Eu seria capaz de fazer a Helene sumir daqui, definitivamente? -perguntei empolgada.
- Não exatamente... Você disse que só precisou tocar na Gabriela e então ela voltou ao normal, certo?
- Sim.
- Certo. Agora vamos supôr que a Helene estava, de fato, quase conseguindo possuir o corpo de Gabriela... Fantasmas como a Helene, que não pretendem voltar tão cedo para "o outro lado", não suportam o toque de um elo, eles podem sentir o nosso poder, e por isso sentem medo de nós...
- Isso não faz sentido... - eu disse, interrompendo a explicação de Olívia.
- E... eu posso saber a razão? - perguntou Olívia, parecendo um pouco irritada por estar sendo contrariada.
- Eu já... toquei o Léo, várias vezes... e nunca mandei ele de volta pra nenhum lugar - respondi, me sentindo desiludida pela possibilidade da teoria de Olívia estar errada.
- Claro que não funcionaria com o Léo, sua idiota! - disse Olívia, de forma um tanto arrogante - Entenda uma coisa... Existe uma ENORME diferença entre a Helene e o Léo, e principalmente... existe uma enorme diferença entre os sentimentos que os prendem à esta vida... Porra! Você... você estava com ele no momento em que ele morreu, você, a garota que ele mais amou na vida, foi a última pessoa que ele viu antes de morrer, o amor que vocês sentem um pelo outro é o que, provavelmente, mantém ele no nosso "plano", ele não está aqui por querer se vingar, ou coisa do tipo, não são sentimentos ruins que o prendem aqui, Carol... ele é um espírito ligado a esse plano de forma pacífica, e talvez nem saiba disso...
- Ele disse algo parecido, na noite em que apareceu pra mim pela primeira vez... eu perguntei como era possível ele estar ali na minha frente, e ele respondeu que não fazia idéia - eu disse, me lembrando com alegria, daquela noite.
- Tá vendo só!? Agora, por outro lado... o que mantém Helene aqui é algo horrível, possivelmente, uma obsessão por vingança, muito poderosa, portanto, ela está presa à esse mundo por livre e espontâneo ódio, e não pretende voltar para o outro lado tão cedo... Espíritos como ela são muito perigosos, e odeiam os elos e o seu poder.
- Como um elo pode mandar um espírito "vazar"? - perguntei, esperançosa.
- Calma aí, garotinha! Isso não é algo para alguém como você se quer PENSAR em fazer... pelo menos não agora - disse Olívia, em tom de alerta.
- Por que não? - perguntei, decepcionada.
- Porque é extremamente perigoso, e fim de ato! - disse Olívia, tentando encerrar a conversa ali mesmo.
- Mas...
- Sem porra de "mas", eu odeio "mas", assim como odeio "e se", ou... "porém", sacou!? - ela disse, começando a me dar as costas.
- Então a gente vai simplemsmente deixar que essa Helene tente... POSSUIR a Gabriela novamente? É isso? - perguntei, revoltada.
- Claro que não, mas não cabe mais a você protegê-la, isso tá se tornando muito perigoso, e eu não tô brincando, Carol! - ela disse, e a seriedade de Olívia me assustou. Na verdade, ver a Olívia séria sempre me assustava - Agora vá pra casa, e segunda feira, NÓS DUAS, teremos uma conversinha com a Anita sobre... você sabe quem, e os seus possíveis interesses na Gabriela ou em você, e então a sua participação neste caso estará ENCERRADA, eu fui clara o suficiente, mocinha? - perguntou Olívia, me encarando de forma intimidadora.
- Mas você não pode...
- Ei! O que eu te falei sobre o "mas", Amallya!? - disse Olívia, como uma advertência, começando a me arrastar para fora da biblioteca - Tenha um ótimo fim de semana, tente fazer o que meninas normais fazem; Saia pra uma noitada, ou... vá ao cabeleireiro - ela disse, fechando a porta da biblioteca na minha cara, trancando-a em seguida.
"Mas que porra", pensei, enquanto começava a caminhar de volta ao refeitório, onde a minha mãe me esperava, provavelmente, puta da vida, não que isso fosse uma novidade. Novidade seria se ela não estivesse puta da vida, e foi exatamente o que aconteceu naquele dia, a minha mãe estava chorando, disfarçadamente, sentada em uma das mesas do refeitório, enquanto me esperava.
- Mãe? O que houve? - perguntei, me aproximando devagar.
- O quê? Carol! - ela disse, enxugando as lágrimas do rosto, tentando esconder que estava chorando - Você demorou, mocinha.
- Por que a senhora tá chorando, mãe? - perguntei, preocupada.
- Chorando? Você tá louca, não, eu... eu não tô... (soluço) chorando - ela disse, não convencendo nem a si mesma.
- Fala logo, dona Olga - eu disse, sabendo que ela ia começar a desabafar. Ela sempre adorou falar dela mesma, não importava a quem.
- O desgraçado do seu... pai... ele ligou pra mim hoje de manhã, aquele filho da...
- Mãe! - eu disse, impedindo ela de terminar a frase.
- Ele veio me dizer que, depois de dois meses sem nem se lembrar de você, ele finalmente quer passar um fim de semana com a filhinha, dá pra acreditar nisso? - ela disse, recomeçando a chorar.
- Desgraçado... - eu sussurrei - Eu não vou! A minha vontade significa alguma coisa nessa porra de divórcio, não é mesmo? E eu não estou nem um pouco a fim de ir! - eu disse, realmente revoltada com a atitude do meu pai.
A total ausência do meu pai na minha vida, não me permitiu conhecê-lo muito bem, por isso eu não vou perder tempo tentando descrevê-lo, até porque isso seria impossível. Afinal, como é possível falar de alguém que você mal conhece? Mas eu também não quero ser injusta com o velho, por isso eu tenho que admitir... eu conheci pais infinitamente piores que ele.
- Bem... você terá que dizer isso pra ele, querida. O idiota jura que EU estou fazendo a sua cabeça pra não querer ir passar os finais de semana com ele - disse Olga, exugando as novas lágrimas do rosto, e começando a caminhar em direção à saída do refeitório - ele disse que ligaria mais tarde, e só falaria com você.
- Ótimo, eu vou deixar bem claro o quanto eu não gostei de ter sido ignorada por ele, durante dois meses inteiros - eu disse, acompanhando-a.
Quando nós chegamos ao pátio frontal, eu ainda pensava no meu pai, e ensaiava uma maneira de fazê-lo se arrepender de ter ignorado a minha existência durante tanto tempo, e ainda pôr a culpa da nossa falta de contato, na minha mãe. "Que covarde, cara de pau! Nem pra assumir a própria culpa!?", eu pensava, enquanto lutava contra a vontade de chorar. "Ele vai ficar com a consciência tão pesada, que vai se lembrar de mim até quando estiver trasando com alguma vagabunda de buteco que ele tenha conhecido... - AAAI! Mas que... merda! - eu disse, quando a minha linha de pensamento foi totalmente interrompida por uma pedra no meio do meu caminho, que me fez tombar no gramado do pátio central, muito próxima a estátua do Espírito santo.
Ainda no chão, eu olhei para frente e vi que a minha mãe, como sempre, continuava andando em direção ao carro como se ela estivesse deixando o Lar sozinha. Eu levantei o mais rápido que pude, tirando a grama da minha roupa, quando olhei em direção ao bosque que abrigava a igreja da escola, e parada entre as arvores estava Helene, que novamente viera para se despedir. Eu fui tomada por uma raiva inexplicável, e sem me dar conta do que estava fazendo, comecei a caminhar, quase correr, em direção a Helene, que na mesma hora, começou a andar em direção oposta, adentrando o coração do bosque. "aaah, você não vai fugir de mim!", eu pensei, enquanto seguia Helene, sem nem lembrar da mãe esperando no carro.
Eu caminhei para dentro do bosque, até perceber que Helene havia sumido de vista. Não havia nenhum som, além do canto dos passaros, e o chacoalhar dos galhos e folhas das arvores. Eu olhei em todas as direções possíveis, mas não vi nada nem ninguém. Eu não sei se foi o medo, ou a minha revolta momentânea, mas eu estava decidida à confrontar Helene.
- APAREÇA! - eu comecei a gritar no meio das arvores - APAREÇA, SUA COVARDE! EU ESTOU BEM AQUI! POR QUE VOCÊ NÃO EXPERIMENTA BRINCAR COM ALGUÉM COMO EU AO INVÉS DE INFERNIZAR ALGUÉM INDEFESO, HEIN!? - eu estava com medo, mas lutava com toda a minha força para não transparecer isso.
Logo nem os passaros faziam barulho, o bosque estava perfeitamente silencioso. De repente, o frio... Eu podia sentir como se Helene estivesse prestes a me tocar pelas costas. Eu me virei, impulsivamente, e me esforcei para não gritar ao me dar de cara com a imagem da estranha garota. Ela nunca estivera tão perto de mim. Seus olhos olhos verdes pareciam penetrar a minha alma de alguma forma, havia algo intenso neles, algo que já me assustava antes, mas que naquele momento me atingira como nunca. Então eu relembrei o que Olívia me dissera na biblioteca, sobre os sentimentos que aprisionavam os espíritos no mundo dos vivos... e eu pude ver, nos olhos de Helene, o ódio que a aprisionava aqui.
- Eu sei o que você pretende... - eu comecei, fazendo o possível para não demonstrar o quanto eu estava com medo - e eu juro... você vai ter que me matar pra conseguir o que quer... se afasta da Gabriela... eu não vou avisar de novo - eu disse, encarando-a da maneira mais intimidadora que eu pude encenar.
Ela não respondeu nada, nem fez nada. Só ficou me encarando, com o sorriso no rosto aumentando quase que imperceptivelmente, na medida em que eu a ameaçava. Talvez tenhamos ficado cerca de dois minutos nos encarando, até o silêncio no bosque ser quebrado pelo chamado da minha mãe.
- AMALLYA!? - gritou Olga, parecendo preocupada.
Eu olhei rapidamente em direção ao lugar de onde a minha mãe me chamara, e quando voltei o meu olhar para Helene, ela havia sumido. Eu não pude segurar as minhas lágrimas. "Que droga! Sua covarde, fraca! PARA DE CHORAR!", eu pensava, enquanto surrava a minhas próprias pernas, como protesto. Eu respirei fundo, e caminhei em direção a saída do bosque, sem ter coragem de olhar para trás uma única vez.