domingo, 18 de julho de 2010

Capítulo 10 - A garota nova


O medo no olhar de Anita, ao falar sobre Helene (ou seria não falar?), só me deixava mais curiosa para desvendar o passado daquelas duas meninas. Infelizmente, a assustada Anita era a minha única fonte de informação, e parecia não estar nenhum pouco interessada em abrir o seu anuário escolar secreto para mim. Eu não conseguia culpa-la, pois eu sabia, e ainda sei, como é difícil revirar o nosso baú de memórias que desejamos esquecer. Eu tenho um desses, e tenho certeza que você também, e adoraria poder trancá-lo e perder a chave para sempre. Por isso, resolvi dar um tempo a Anita, claro que eu não iria desistir de arrancar dela tudo o que conseguisse, a respeito de Helene, mas o momento certo chegaria. A semente da sua afeição por mim já estava plantada (obrigada por também gostar de Harry Potter, Anita), era só uma questão de tempo até que a gente se tornasse melhores amigas, e aos poucos ela revelasse o seu passado para mim. Eu iria aparecer sempre na biblioteca, para conversar sobre a leitura dos livros com ela, eu teria tempo, o tempo que Anita levaria para ler cinco livros da J.K. Rowling, para ser mais precisa.
No intervalo da quarta-feira daquela semana, eu estava sentada com Olavo e Janaína, em uma das mesas que ficavam próximas às janelas, observando Gabriela, que desde o incidente com Barbara, sentava sozinha no refeitório. A garota evitava olhar ao seu redor, provavelmente por medo de descobrir que todos a encaravam, como se ela fosse culpada de algo. "Eu não queria ser ela, nesse momento... pobre garota nova", pensei.
- Vai comer a sua batatinha frita? - perguntou Olavo. Aparentemente a pergunta era para mim, mas eu não prestara atenção - CAROL!? - ele gritou.
- OI LAVINHO! - respondi, alteando a voz, sem percerber, como resposta ao grito de Olavo.
- Graças a Deus! Ela está viva e conectada ao planeta Terra, novamente... - disse Olavo, sarcasticamente - A gente tá falando com você faz um tempão, e você só dá respostas como "Sim", "não", "isso foi só uma vez, e eu estava bêbada"...
- Bêbada? Quando eu disse isso?
- Tá vendo só!? Você nem se lembra de estar conversando com a gente - disse Olavo, ligeiramente magoado.
- Abre o Jogo, Carol. Tem alguma coisa errada com você... tá meio off, sei lá - disse Janaína.
- Eu... tô bem, gente... Muito obrigada por se preocuparem comigo, e me desculpa por estar distante, mas... eu tô bem, tá? - eu disse, agradecendo por ter amigos que, de fato, dão a mínima pra mim.
Eles se entreolharam, meio desconfiados, e eu pude perceber que nem Olavo, nem Janaína haviam acredito que eu estava bem.

À noite, todas as meninas estavam reunidas no dormitório, conversando baixinho, atentas para quando a madre superiora entrasse pela porta, cumprindo a inspeção noturna. Eu e Janaína conversávamos sobre uma vez em que estávamos eu, Ína, Lavinho e Léo, sentados no gramado da miha casa, brincando de verdade ou consequência, dividindo duas garrafas de vinho, e que, depois de ter fumado um cigarro de maconha, e ter bebido alguns copos de vinho, um tanto rápido demais, Olavo me roubou um beijo. Nessa época, eu e Leonardo já namorávamos há alguns anos, mas ele não conseguiu ficar com raiva de Lavinho, não havia sentido, e a amizade deles era muito forte para ser abalada por um beijo roubado em uma rodinha de verdade ou consequência, com uma garrafa vazia de vinho sendo usada como roleta para o jogo. Eu desviei a minha atenção de Ína, por um instante, e percebi, intrigada, que a cama de Gabriela estava vazia. Aquilo não me trazia boas lembranças, obviamente.
- Eu tenho que fazer xixi - eu disse, me levantando da cama, e correndo para a porta do dormitório.
- Vai nessa, mas vai rápido, a bruxa superiora já deve tá chegando - alertou Janaína.
Ao abrir a porta, observei o corredor, atenta para a vinda da madre superiora, ou de qualquer outra pessoa. Vendo que o corredor encontrava-se perfeitamente vazio, eu corri até a porta do banheiro feminino. Não sei explicar a razão, mas eu tinha esperança de encontrar Gabriela chorando em uma das cabines do banheiro, ou sei lá. Eu entrei no lugar, e a imagem do banheiro ensanguentado que fora cravada na minha mente uma semana atrás, inevitavelmente, me veio à cabeça com uma intensidade anormal. Em seguida... o frio. A minha cabeça latejava. A dor e, principalmente, o medo, me fizeram fechar os olhos com força. Foi quando eu ouvi uma voz feminina, que parecia vir da última cabine do banheiro. A voz sussurrava, assustada...
- Sai daqui... saia daqui... saia... saia... por favor... me deixe em paz, droga... - dizia a voz, que me parecia ligeiramente familiar.
"Eu não vou abrir os olhos, eu não vou abrir os olhos...", eu repetia na minha mente. Pouco a pouco o frio ia me tomando por inteira. Eu abri os olhos, quase que inconscientemente, me arrependendo no mesmo intante. Eu queria fecha-los novamente, mas ela me impedia. Eu pude sentir uma lágrima deslizar pelo meu rosto, enquanto encarava, estática, a imagem de Helene, parada de frente para a última cabine do banheiro feminino, e de costas para a última pia do banheiro, a pia onde o sangue de Barbara Regina fora derramado violentamente. Lentamente, Helene começou a desviar o seu olhar da cabine, para mim. Nossos olhos se encontraram... ela sorriu. Eu dei um passo para trás, foi quando a luz do banheiro começou a falhar, até que, aos poucos, se apagou por completo. O frio e a escuridão me paralizaram. Eu ouvi o som da porta de uma das cabines se abrindo, alguém parecia se aproximar de mim, eu dei alguns passos rápidos para trás, e dei de costas com a porta do banheiro, começando a procurar, desesperadamente, pela maçaneta da porta. Eu ouvi um "click" e a luz voltou novamente. Gabriela estava na minha frente, os olhos denunciavam que ela estava chorando.
- O que você tá fazendo aqui? - ela perguntou, confusa.
- Eu... - as palavras fugiam de mim.
A sensação era a de estar sendo despertada de um pesadelo, como um daqueles em que a gente sente que está sendo perseguido, porém não consegue correr rápido o suficiente para se salvar. Eu olhava para Gabriela, sem acreditar realmente no que estava vendo, tamanho era o meu estado de choque.
- Me responde, anormal! - ela disse, de forma arrogante, começando a me pressionar contra a porta do banheiro, apertando os meus braços - Você tá me seguindo, né!? Sua sapatão nojenta! O que você quer comigo, hein!? RESPONDE!
- Me solta, sua maluca! - eu disse, empurrando Gabriela com força, no intuito de afastá-la de mim, para finalmente poder retomar o fôlego por completo. Eu respirei fundo, e continuei - Eu não tava te seguindo...
- Eu reparei na maneira como você fica me encarando... - ela disse, com os olhos lacrimejando.
- Eu e toda a escola, você quer dizer - completei, indo até a pia, abrindo a torneira e jogando um pouco de água no rosto.
- Não como eles... você me encara diferente, tipo hoje no refeitório... pensou que eu não tava percebendo!? Vai dizer que é mentira? Que eu tô ficando louca!? - ela disse, começando a chorar.
Eu me aproximei de Gabriela, na intenção de tentar consolá-la, apesar de geralmente ser péssima nisso. Eu toquei, cautelosamente, o seu ombro...
- Eu posso imaginar como você se sente...
- Não, não pode! Ninguém pode! - ela disse, afastando a minha mão, violentamente.
- Eu não te culpo por nada... eu quero te ajudar...
- CALA A BOCA! Ninguém pode me ajudar, muito menos você - ela disse, começando a abrir a porta do banheiro, para se retirar. Eu não podia perder aquela chance.
- Eu sei quem é ela - eu disse, quase que inconscientemente.
Ela congelou na porta.
- O que disse? - ela perguntou, sem se virar para mim.
- Eu... a menina que anda aparecendo pra você... eu também posso vê-la... e eu sei quem ela é - eu disse, cuidadosamente.
Ela se virou para me olhar, seu rosto estava encharcado de lágrimas. Ela respirou fundo...
- Você é mais maluca do que eu imaginava - ela disse, enxugando o rosto com a própria camisola e retirando-se bruscamente pela porta do banheiro.
Gabriela estava, claramente, tentando ignorar o que vinha acontecendo com ela mesma. Talvez em uma tentativa desesperada de provar para si que não estava perdendo a cabeça... Mas ela estava, só não sabia até onde isso a levaria ainda. Eu precisava ajudá-la, e eu era a única pessoa que poderia fazer isso, na verdade. Me aproximar da estranha novata, nunca havia sido tão importante.

A sexta feira chegara, e eu quase não conseguia acreditar. A semana passara voando, e eu não havia aparecido na biblioteca desde o dia em que deixara a minha coleção de exemplares do Harry Potter, nas mãos de Anita. Era melhor assim, não queria arriscar perder todo o progresso que eu havia tido em tentar me aproximar dela, assustando-a novamente com as minhas perguntas sobre Helene. Eu não iria atrás de Anita, pelo menos não naquele dia. Na verdade, eu estava muito mais preocupada com Gabriela, quem a cada dia parecia se isolar mais das outras pessoas no Lar. Na hora do intervalo, ela almoçava solitária em uma mesa, sempre com a cabeça baixa. Ela podia ser detestável, mas eu não conseguia vê-la daquele jeito, eu precisava fazer alguma coisa para que Gabriela me deixasse ajuda-la, ganhar sua confiança de alguma maneira.

Naquela sexta, na hora do intervalo, eu reparei que Gabriela não estava no refeitório. Eu simplesmente não conseguia me controlar, eu tinha que saber onde ela estava, a todo o momento, só para ter certeza de que Helene não estava tentando mexer com a cabeça da pobre garota, novamente.

- Eca! Tem um cabelo na minha batata frita - reclamou Janaína.

- Tem certeza que é um cabelo? Sei não, hein! Tá me parecendo mais o pentelho de alguém - brincou Olavo.

- Que nojo, Lavinho - eu disse, tentando me mostrar mais presente na conversa. Nos últimos dias, Olavo e Janaína vinham reclamando bastante, e com razão, do meu distanciamento repentino.

- Eu não vou comer isso! - disse Janaína, afastando a sua bandeja.

- Legal - disse Olavo, pegando para ele a porção de batata frita que Janaína acabara de abandonar.

- Eu vou ao banheiro - eu disse, no intuito de procurar por Gabriela.

- Não demora - disse Ína, olhando enojada para lavinho, que devorava a porção de batata frita com cabelo extra.

Eu saí do refeitório e comecei a caminhar rapidamente pela escola, a procura de Gabriela. E para minha sorte, não demorou muito até que ela surgisse na minha frente. Não só ela, mas Alexandre, o namorado, ou seria ex?, de Barbara, e os dois pareciam estar tendo uma discussão. Embaixo de uma das arvores do pátio interno da escola, Alexandre parecia tentar intimidar Gabriela, pressionando-a violentamente contra a arvore. Tentei me aproximar mais para ouvir a conversa, mas eu não podia fazer isso sem que um dos dois me percebesse. Foi quando Gabriela alteou a voz, e eu pude escutar nitidamente:

- Eu já disse que não me lembro! Você também tava com ela naquela noite, seu idiota! Eu não vou assumir a culpa de algo que eu não fiz! - ela disse, chorando.

Com um empurrão, Gabriela afastou Alexandre, e começou a caminhar em direção ao lugar onde eu estava escondida. Rapidamente eu me escondi atrás de outra arvore, e esperei os dois se retirarem do pátio.

sábado, 5 de junho de 2010

Capítulo 9 - Anita


Era manhã de domingo, o relógio digital ao lado da minha cama marcava 8 horas em ponto. Eu passara o dia anterior na minha cama, conversando baixinho com Leonardo, saindo do meu quarto apenas para pegar algo para comer, retornando para a minha cama, em seguida. Dona Olga quase não parara em casa, por isso não me interrogou sobre o meu enclausuramento, e talvez, mesmo se tivesse passado o dia inteiro em casa, não tivesse percebido. Ela nunca foi esse tipo de mãe, só queria saber sobre as minhas notas na escola, e se o Olavo andava me oferecendo drogas. Na verdade, ela já tivera uma conversa muito séria com ele sobre esse assunto, no ano passado, quando Olavo apareceu lá em casa, depois de ter usado maconha, dizendo para a minha mãe que estava perdidamente apaixonado por mim, enquanto eu morria de rir da situação, e pedia para ela pegar leve com ele, quem NUNCA me oferecera um único cigarro de nada.
Quando eu me levantei da cama, e esfreguei os olhos com força, me assustei ligeiramente com a presença de Leonardo, sentado no chão, olhando diretamente para mim.
- Bom dia - ele falou, sorrindo.
- Bom dia - respondi, me espreguiçando.
- Sua mãe acabou de sair... pra comprar pães, eu acho.
- Eu acho que pra comprar cigarros é mais o jeito dela - eu disse, enquanto arrumava a minha cama.
Nós dois ficamos em silêncio, enquanto eu estirava a colcha da cama, e ajeita os travesseiros. Quando terminei, me virei para ele, que me olhava como se estivesse em transe.
- Para com isso - eu disse, envergonhada.
- Parar com o quê? - ele perguntou, sorrindo maliciosamente, sabendo exatamente do que eu estava falando.
- Com isso, com esse olhar, eu fico envergonhada.
- Eu sei, mas eu não posso evitar... - ele se levantou, aproximando-se de mim - Você é tão linda... Não pode me pedir pra parar de te admirar, é impossível...
Ele me beijou, leve e rapidamente.
- Posso perguntar uma coisa? - ele disse, um tanto receoso.
- Pode... eu acho - respondi, ansiosa.
- Naquele dia em que a gente tava ouvindo Kid Abelha no carro da sua mãe... você tava louca pra me dar, não tava?
A minha vontade era de dar um tapa na cara dele, o que não seria possível. Eu o encarei séria, e disse...
- Você é um porco, sabia!? Nem depois de morto você toma jeito, Léo!? - eu disse, realmente enraivecida.
- Isso quer dizer um sim? - ele perguntou, o sorriso sacana estampado na cara dele. Deus! Eu amava aquele sorriso, mas nunca deixei o Léo perceber isso.
- Não, eu NUNCA pensei em dar pra você, Leonardo...
- Mas você me deixou pegar nos seus peitos... até a sua mãe aparecer na janela do carro, puta da vida - ele riu, e eu me esforcei, em vão, para não rir daquela lembrança, também.
- Cala a boca... (risadas) Seu escroto! Eu deixei, mas isso não quer dizer que eu queria te dar.
A porta do meu quarto abriu bruscamente, me fazendo perder o ar, e minha mãe surgiu do corredor, com um cigarro na boca e uma sacola de pães na mão direita. Ela me encarou, visivelmente preocupada, por alguns segundos, e então disse...
- Você tava falando sozinha?
- Não... Claro que não! Que idéia, mãe! - respondi, me sentindo mal por estar mentindo daquele jeito para a minha mãe.
Na minha frente, Leonardo ria de toda a situação, o que não me ajudava a ficar mais confortável.
- Eu podia jurar que... Você... quer que eu te asse alguns pães? -ela perguntou, um tanto confusa.
- Você... bateu com a cabeça em algum lugar?
- Não abusa, Amallya... - Olga me alertou, retirando-se, e fechando a porta do quarto com força.
- Essa foi por pouco... - disse Léo, ainda rindo - Mas então...? Você não me respondeu ainda...
- Na boa... Vai se fuder, Léo! - eu disse, tirando a minha camisola, ficando apenas de calcinha na frente dele, que me encarava de boca aberta.
Eu sorri para ele, maliciosamente, e caminhei provocante em direção ao banheiro.
- Isso é muita maldade, sabia!? - ele disse, revoltado.

Eu nem sentira aquele dia passar. Sentada na cama, assistindo televisão, ou mesmo adimirando o fantasma deitado preguiçosamente ao meu lado. As horas se tornaram minutos, e quando eu menos esperava, já passava das três da manhã. Só teria direito à três horas de sono, antes que a minha mãe entrasse no quarto, anunciando aos berros que eu iria me atrasar para a escola. E três horas depois, foi exatamente o que aconteceu.
- Acorda, Amallya! Você vai se atrasar pra porra da escola DE NOVO, e quem vai ter que dar justificativa sou eu! Imagino que você esteja muito satisfeita com isso, não!? Garota ingrata... - disse Olga, fechando a porta do quarto com uma força desnecessásia, ao sair.
Depois de acordada pela voz da minha adorável mãe, eu virei o rosto e encontrei Leonardo, deitado ao meu lado, me encarando docemente.
- Eu sempre admirei a simpatia da sua mãe - ele disse, de maneira sarcástica.
- Ela é um doce, eu tenho a quem puxar, não acha?... - eu disse, tentando tomar coragem para me levantar... Mas olhar para Leonardo, sabendo que eu estava prestes a ter que me despedir dele por mais uma semana, praticamente me prendia naquela cama - Eu não quero ir... - eu disse, quase sussurrando.
- Você tem que ir... Mas pode ter certeza, quando você voltar... - ele beijou os meus lábios, levemente - eu vou estar te esperando.
Depois de ter tomado banho, e vestido a farda, eu comecei a arrumar o meu material, e sem me dar conta da presença de Leonardo, enfiei todos os exemplares de Harry Potter na minha mochila, pensando em usa-los como isca para conquisatr a amizade de Anita, minha única, e morta, fonte de informação sobre Helene.
- Qualé a do Harry Potter? - perguntou Léo, curioso.
- O quê? - perguntei, atordoada.
- Os livros... pra quê você tá levando a sua coleção do Harry Potter?
- Ah! Os livros, eu... Vou emprestar pra Olívia... Ela é muito fã, então... - respondi, tentando parecer convincente.
- Sei... Não sabia que ela gostava de Harry Potter - comentou, Léo.
- E como você saberia? Nunca foi à biblioteca, exceto quando era obrigado pela professora de Literatura - eu dei uma risadinha, quando no mesmo instante fui atacada por lembranças deliciosas de um tempo que jamais voltaria. Eu, Leonardo, Olavo, e Janaína, dividindo uma das mesas da biblioteca, e rindo de palavras difíceis, encontradas em um livro de Machado de Assis, que líamos, ou tantávamos ler, juntos. Dom Casmurro, se não me engano.
- Queria namorar alguém culto? O Nievy tava disponível - ele disse, sarcasticamente.
- Não... ele tinha aquela péssima mania de vomitar o café da manhã na sala de aula, lembra? Além do mais... - me aproximei dele, devagar - o que uma pobre garota como eu pode fazer?... Se só os garotos que não valem nada a atraem? - dessa vez, eu o beijei levemente. Ele sorria, enquanto me beijava.
- Pra minha sorte, você sempre teve um péssimo gosto - ele disse, sorridente.
- NÃO FODE COMIGO, AMALLYA! DESCE LOGO DESSE QUARTO! - gritou a minha mãe, do andar de baixo.
- Eu vou sentir saudades - eu disse, dando as costas para Leonardo, e começando a sair do meu quarto.
Não queria prolongar a despedida, só seria mais doloroso. "É só uma semana, sua chorona!", você pode estar pensando. Eu sabia disso, e ainda assim, era doloroso. A sensação de que eu chegaria no meu quarto no sábado de manhã e não encontraria o Leonardo, simplesmente não me abandonava.

- É impressão minha ou... o céu tá cinza pra caralho!? - comentou Olavo, obviamente chapado. Ele costumava fumar um cigarro de maconha antes de ir a escola, caso as coisas estivessem difíceis em sua casa. Mais cedo, os pais dele brigaram, e a razão fora o chão molhado do banheiro, depois que o pai de Olavo tomou banho. Talvez eles não soubessem, ou simplesmente ignorassem, que o grande culpado pelo estado de auto-destruição em que o meu melhor amigo se encontrava, era o casamento deles.
- Não, Lavinho... não é impressão sua, o céu, de fato, está nublado - eu disse, abraçando-o forte.
- E você, de fato, está doidão - brincou Janaína.
Nós três estávamos sentados sob a sombra da estátua do espírito santo, esperando o sinal tocar.
Eu sentia as primeiras gostas da chuva tocarem o meu rosto, enquanto Olavo parecia dormir no meu ombro. Foi quando a estranha Gabriela passou correndo por mim. Eu a acompanhei com o olhar, pensando na tarefa que Olívia me dera. "Mas como?", eu pensava, "Como eu vou me aproximar dessa garota?".
O sinal tocou, e aos poucos o pátio frontal foi se esvaziando. Na entrada da escola, haviam dois polícias que vigiavam a entrada dos alunos. Foi impossível não me sentir uma presidiária quando eu reparei ambos tocando os seus revolveres, como se estivessem esperando que algum aluno surtasse e começasse a esfaquear os colegas.
Ao pé da escada que nos levava ao primeiro andar, a madre superiora observava, visivelmente preocupada e cansada, os alunos subirem em fila. A situação no Lar não havia mudado nenhum pouco. O corpo de Barbara não fora encontrado, todos sabiam disso, assim como todos sabiam o que aconteceria caso ele não fosse encontrado logo. O Lar era um colégio de tradição e renome, mas não sobreviveria à um caso de assassinato não solucionado, envolvendo uma aluna como vítima.

- Abre o jogo, Amallya! - começou Janaína, irritada - Qualé a sua com a Olívia, hein!? Antes você pouco botava os pés naquela biblioteca, agora você praticamente trabalha lá...
- Eu já disse, Ína, eu preciso de um livro...
- Meu cu, que você precisa de um livro! Você tá de segredinho com a Olívia, e tá escondendo o jogo de mim e do Olavo, que, até onde eu me lembro, somos os seus melhores amigos.
- Olha... você tem razão... eu não quero mentir pra vocês... Mas eu preciso que entendam uma coisa... eu não posso contar nada ainda...
- Ah, então é verdade!? - ela tava ficando mais estressada, e isso não era nada bom. Eu devia ter mentido de novo.
- Eu prometo que eu vou contar, pra vocês dois... na hora certa.
- E quando vai ser isso? - perguntou Olavo, finalmente se intrometendo na conversa.
- Em breve, eu prometo... Se eu contar agora... vocês vão achar que eu tô louca, ou sei lá...
Janaína estava pronta para rebater, quando Lavinho tomou a frente, acalmando-a, e falou...
- Olha... conta pra gente quando você tiver preparada, e... como seus amigos, a gente espera o tempo que for preciso, né Ína? - ele olhou fixamente para Janaína, esperando a sua compreensão.
- É... eu acho que sim - ela disse, visivelmente desconfortável em concordar com aquilo.
- Obrigada, gente - eu disse, dando um abraço forte nos dois, correndo para a bilioteca, em seguida, carregando com dificuldade os exemplares de Harry Potter.
Era hora do intervalo, e os alunos andavam agitados pelos corredores da escola, conversando em grupos, a maioria sobre o desaparecimento de Barbara, sobre o quanto os polícias espalhados pelo colégio eram bonitinhos, sobre as armas que carregavam, as fardas que usavam, ou mesmo sobre as inúmeras utilidades de uma algema.
Eu entrei na biblioteca, e corri em direção ao birô de Olívia, que registrava alguns empréstimos de livros.
- Oi, quatro-olhos - eu disse, tentando chamar a atenção dela.
- Trouxe os livros? - ela perguntou, imediatamente.
- Sim.
- Ótimo, agora vá até o coredor de literatura clássica, devagar, e faça alguma coisa útil pela primeira vez vez em toda a sua vida.
- Eu também te amo - respondi., começando a me retirar, quando Olívia chamou a minha atenção, novamente...
- E Carol...
- Sim.
- Não estrague tudo... essa pode ser a sua única chance. Se a Anita ficar assustada, ela pode fugir de você por toda a eternidade, e nem eu, nem você queremos isso, não é? -ela perguntou séria.
- Sim... quer dizer... NÃO! Não queremos.
- Perfeito, agora vá, e... Boa sorte - ela disse, sorridente.
Eu recomecei a andar em direção à ala de literatura clássica. Para a minha sorte, a biblioteca estava calma, naquele dia, haviam somente dois grupos de alunos que ocupavam duas das mesas no lugar. Chegando na ala indicada por Olívia, eu dei uma espiada no corredor. E lá estava Anita, sentada no chão, escorada em uma das estantes de madeira, lendo um livro tão grosso que poderia facilmente matar uma pessoa, se usado da maneira certa. Foi inevitável não me lembrar do pesadelo que eu tivera alguns dias atrás, envolvendo Helene, uma faca de cozinha ensanguentada, Anita, e a biblioteca, ou uma versão assustadora dela.
Respirei fundo e comecei a me aproximar de Anita, que só percebeu a minha presença quando eu lhe chamei a atenção.
- Oi - eu disse, timidamente.
A garota olhou para mim, visivelmente amedrontada, e começou a se levantar, pronta para correr como da última vez.
- Espera, Anita, por favor - eu disse, fazendo-a parar por um segundo. Ela permaneceu de costas para mim - Olha, eu... eu soube que você curte Harry Potter... então eu... trouxe a minha coleção de livros pra você, eu tenho todos os 7, e já li todos, seria muito legal ter alguém pra comentar, sabe?... Os meus amigos odeiam Harry Potter - eu dei uma risadinha, tentando parecer simpática. O que parece ter funcionado, pois ela começou a se virar, lentamente, em minha direção.
- Eu já li os dois primeiros - ela disse, timidamente.
- Sério!? A Olívia não me disse isso, teria me poupado o trabalho de trazer todos (outra vez, a risadinha forçada).
- Mas olha, eu vou deixar todos com você, caso você queira ler de novo - eu disse, colocando os exemplares no chão.
- Obrigada - ela disse, finalmente se aproximando.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, enquanto ela folheava, com dificuldade, alguns dos livros.
- Então... Talvez você não saiba, mas... os seis primeiros livros já viraram filmes...
- Você não veio até aqui pra falar sobre Harry Potter... Esses livros são apenas a única maneira que você encontrou de tentar se aproximar de mim para saber mais sobre... enfim... você perdeu o seu tempo, pode levar os seus livros, se quiser... ou pode deixa-los comigo, MAS EU NÃO VOU FALAR NADA SOBRE ELA, EM TROCA! - disse Anita, visivelmente assustada. O que era estranho, para um fantasma.
- Tudo bem, eu não quero te obrigar a nada, e pode ficar com os livros pelo tempo que você precisar, eu não me importo - eu disse, tentando parecer simpática.
- Sério? - ela perguntou, encantada.
- Sim, e faça bom proveito.
- Obrigada, muito obrigada...
- Tudo bem, não precisa agradecer.
Anita voltou-se para os livros, e vendo que eu não conseguiria arrancar nada dela, eu comecei a me retirar da ala de Literatura clássica, quando a mesma resurgiu na minha frente, quase me fazendo gritar com o susto.
- Eu queria ajudar você, sabe? - ela disse, amedrontada.
- Então me ajude - eu disse, tentando, ao máximo, permanecer simpática.
- Mas eu não posso - ela disse, angustiada.
- Por que não? - perguntei, calmamente.
Ela demorou a responder, seu olhar parecia distante e triste, como se ela estivesse revivendo algo muito doloroso. Tive a impressão de que, se ela pudesse, estaria chorando naquele instante.
- Você não faz idéia... do que ela fez... e acredite em mim... não importa o que ela esteja querendo fazer agora... é melhor você não tentar impedir.
- Anita, eu não posso ficar de braços cruzados...
- Eu também não fiquei de braços cruzados, na época... e olha o que aconteceu comigo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Capítulo 8 - Volta


Eu abri os olhos, e a sensação era a de estar acordando de um pesadelo... Um pesadelo muito real. Teria mesmo acontecido todas aquelas coisas terríveis na noite passada? O banheiro feminino coberto de sangue anônimo, o desaparecimento de Barbara Regina, e a terrível maneira como esses dois fatores pareciam casar-se perfeitamente. Seria tudo isso real?
Eu olhei para a cama de Barbara, que permanecia intacta, exatamente como ontem à noite, e eu tive a minha resposta: Foi real, por mais assustador que pudesse ser... fora real, disso eu tinha certeza. As outras meninas ainda dormiam, inclusive Janaína. Eu olhei para o enorme relógio de parede, pendurado em cima da porta do dormitório, ainda faltava uma hora para a entrada da madre superiora. Eu não ia conseguir voltar a dormir, aliás, nem fazia mais sentido voltar a dormir. Então eu fiquei sentada na minha cama, repensando tudo o que acontecera no dia anterior, por exemplo, a maneira estranha com Gabriela agira durante o desastroso ensaio de A Paixão de Cristo, momentos depois de eu ter sentido a presença de Helene, e de ter visto ela, que observava fixamente os alunos que estavam no palco do auditório. Eu tinha que contar isso à Olívia, o mais rápido possível, isto é, na hora do intervalo. Não haveria outra chance, matar aula naquela escola era quase uma missão suicida. Teria que ser no intervalo. "Ótimo!", pensei, "Eu vou morrer de ansiedade até lá!". E eu ia mesmo.
As três aulas antes do intervalo pareceram durar uma eternidade. No primeiro toque de uma aula para outra, a minha vontade era de sair correndo pela porta da sala, direto para a biblioteca, sem dar a mínima para a madre superiora, ou para a morte lenta e dolorosa que eu sofreria nas mãos da minha querida mamãe, caso eu fosse suspensa da escola. Pedir para sair de sala com o pretexto de ir ao banheiro, ou trocar o absorvente, estava fora de cogitação, uma vez que a irmã Joana, que dera a primeira aula naquele dia, anunciara para a turma, com uma falsa expressão de "sinto muito" que "Excepcionalmente nesta manhã, todos os alunos estão proibidos de sair de sala antes do intervalo, não importa o quão urgente, inadiável, caso de vida ou morte, possa ser a causa do pedido, obrigada!". Eu não tinha outra opção, se não esperar...
Quando faltavam exatos cinco minutos para o meio dia, eu passei a encarar o relógio de parede, pendurado sobre a porta da sala. Por cinco minutos foi como se eu e aquele relógio fossemos as únicas coisas existentes na terra, cheguei a pensar que ouvia o barulho causado pelo movimento dos ponteiros. Observei os três ponteiros se encontrarem sobre o número 12 no relógio, e voei da minha carteira, ao som da sirene que quase não me deixou ouvir os gritos de protesto e Olavo e Janaína, pedindo para que eu os esperasse.
Eu subi, de dois em dois degraus, a escada para o primeiro andar, e corri em direção à biblioteca, finalmente respirando quando atravessei a porta dupla e parei ofegante diante do birô de Olívia, que me olhava assustada.
- Eu... (respirei fundo) preciso...
- De um banho! Você tá encharcada, menina! - disse Olívia, alarmada.
- Falar... com você... é importante... Porra! Pra quê eu fui correr tanto? - protestei, parando para repor todo o fôlego.
- O que pode ser tão importante? - perguntou Olívia, repreendendo com o olhar os outros alunos presentes na biblioteca, que me olhavam curiosos - Venha comigo - ela disse, levantando-se do birô, e me guiando até a sessão de história.
- Então... O que houve? - perguntou, sem me dar total atenção, pois observava os outros presentes na biblioteca, atrás de mim.
- Eu não sei se é realmente importante, mas... eu achei que você deveria ficar sabendo...
- Conta logo, então! - disse Olívia, finalmente demonstrando algum interesse sobre o que eu tinha para dizer.
- Ontem, durante o ensaio de A Paixão de Cristo, eu... eu vi a Helene...
- E a novidade é? - perguntou Olívia, sarcasticamente.
- Se você me deixar terminar, eu chego lá! - respondi, irritada. Olívia calou-se. - Bem... continuando... ela estava em cima do palco e olhava fixamente para os alunos que ensaiavam a peça... acho que ela nem fazia idéia de que eu podia vê-la... Ela tava tão... concentrada, e... pela forma como ela encarava as pessoas no palco, parecia estar puta da vida, ou sei lá... eu tava morrendo de medo, até chorei... - pude perceber que Olívia parecia séria, e ligeiramente preocupada - Mas isso não foi tudo... o pior foi que uma das alunas que estavam no palco, começou a agir de forma muito estranha, muito mesmo! Tipo estranho de comer merda e andar pra trás, sabe? Uma aluna novata... (estalei os dedos, tentando lembrar o nome dela) Gabriela! O nome dela é Gabriela, e... ela começou a gritar, ela parecia muito perturbada. Quando a coitada se deu conta de toda atenção que havia chamado, ela... saiu do auditório, chorando... e quando eu me dei conta, a Helene também havia sumido... - Olívia agora parecia totalmente distante - Ei! - tentei chamar a sua atenção - Então, o que você acha? Será que... essa tal de Gabriela também é um elo?
- Eu... acredito que não... Nós, elos, temos uma maneira diferente de vermos os espíritos, as vezes, se nós não sentimos a presença deles, um frio congelante que denuncia quando há algum espírito por perto...
- Eu sei como é, eu senti isso na noite em que o Léo apareceu no meu quarto.
- Enfim... quando não sentimos isso, um espírito pode passar por nós no meio da rua e ser confundido com uma pessoa viva, além disso, espíritos não podem identificar elos, só nós podemos identificar eles, um fantasma pode estar sendo observado constantemente por um elo e nem se dar conta disso, o que eu tô tentando te dizer é que... é muito raro um elo reagir histericamente à presença de um espírito... portanto, só pode haver uma explicação para o que aconteceu com a Gabriela...
- Que seria?
- É possível que ela estivesse vendo a Helene, mas... se eu estiver certa, e ela não for um elo, só há uma meneira disso ser possível, a Helene talvez quisesse que a Gabriela a visse, e... talvez estivesse atormentando ela, de propósito, alguns fantasmas fazem isso.
- Filha da puta! - xinguei baixinho.
- Porém, fantasmas não saem por aí aparecendo para pessoas normais sem nenhum motivo, Carol... Deus queira que eu esteja errada, mas... a Helene pode ter algum interesse em aparecer pra essa novata.
A imagem das camas de Barbara e Gabriela vazias no meio da noite anterior, me veio à cabeça, e eu me dei conta de que havia algo mais que Olívia precisava saber.
- Eu senti uma presença no dormitório, ontem à noite.
- O quê? - perguntou Olívia, assustada.
- Foi como se alguém tivesse deslizado uma pedra de gelo no meu corpo, eu tava dormindo e acordei com essa sensação, eu sabia o que significava, então... morrendo de medo, eu me enrolei toda com o cobertor e tentei dormir... Algum tempo depois eu acordei de novo... dessa vez com o grito que vinha do banheiro feminino... e reparei que nem Barbara e nem Gabriela estavam em suas camas.
- Espera... essa Gabriela é... é a Gabriela...? - Olívia tentava formular uma pergunta, sem muito sucesso.
- Sim! Essa Gabriela é a mesma que foi encontrada no banheiro feminino, ontem - respondi, empolgada.
- Meu Deus - Olívia parecia mais preocupada que nunca.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até a imagem dos polícias que perambulavam pela escola, e da razão para eles estarem ali, surgir na minha mente.
- Mas e aí... O que os políciais disseram sobre...? - não consegui encontrar uma definição para o que quer que tivesse ocorrido no banheiro feminino.
- Nada demais... eles encontraram várias marcas digitais na pia, e claro... tem todo aquele... sangue... Eles vão fazer de tudo pra descobrirem quem se ferrou naquele banheiro... Mas... tem outra coisa...
- Fala logo, pelo amor de Deus! - supliquei, morrendo de curiosidade.
- Segundo os especialistas em sangue...
- Especialistas em sangue?
- Eu sei, eu também não sabia que existia, mas enfim... eles disseram que... analisando a quantidade absurda de sangue encontrado na cena do crime... a vítima não foi só arremessada contra o espelho, mas... também pode ter sido esfaqueada, e uma vez enfraquecida, foi jogada contra o espelho, e bateu com a cabeça na pia... antes de chegar ao chão - disse, cautelosa para que ninguém na biblioteca, além de mim, escutasse o que ela relatava.
- Porra! - eu disse, horrorizada.
- Os professores e alguns funcionários estão sendo interrogados agora, os próximos serão vocês - disse Olívia, em tom de alerta.
- Você já foi interrogada?
- Ainda não, estão esperando o intervalo terminar pra esses ratinhos saírem daqui - disse Olívia, olhando impaciente para os alunos atrás de mim.
- Eles ainda estão procurando pela Barbara? - perguntei.
- Existe uma equipe trabalhando nisso, agora mesmo, pelo menos foi o que me disseram.
Eu pensei um pouco, e decidi fazer uma pergunta que me perturbava desde a noite passada, mas eu não sabia explicar ao certo a razão para tanto, era mais como uma intuição, eu acho.
- Você acha que a Helene pode ter alguma relação com tudo o que tá acontecendo? - perguntei, apreensiva.
- Eu acho que agora, mais do que nunca, você deveria tentar se aproximar da Anita. Ela estudou com essa Helene no tempo em que as duas eram vivas, não? Se existe alguém que pode nos contar algo sobre a Helene, é a Anita.
- Mas como eu vou conseguir me aproximar dela?
Olívia pensou por alguns segundos.
- Harry Potter! - disse ela, empolgada.
- O que Harry Potter tem a ver... Oh! Harry Potter! - eu disse, também empolgada.
- Exato! Na próxima semana traga todos os seus exemplares, e eu tenho certeza que você vai fisgar a confiança daquela falecida ratinha de biblioteca - disse Olívia, me lançando um sorrisinho malicioso.
- Ótima idéia, Liv!
- Ah! E tenta se aproximar mais da Gabriela. Com tudo o que anda acontecendo, ela deve estar se sentindo muito sozinha, aproveita isso! - disse Olívia, sugerindo uma idéia quase impossível.
- Eu acho que isso vai ser muito mais difícil do que tentar dialogar com um fantasma que se assusta até com a minha voz - respondi, desanimada.
- Eu sei que você vai conseguir. Agora vai comer alguma coisa, antes que o intervalo termine.
- Me lembrei de Olavo e Janaína, e da maneira como eu os havia abandonado na sala de aula.
- Tá! A gente se vê depois - eu disse, recomeçando a correr e tropeçando desastradamente no birô de Olívia.
- CUIDADO! SEU DESASTRE AMBULANTE! ISSO É MADEIRA IMPORTADA, CARAMBA! - gritou Olívia, preocupada com o birô.
- Eu corri para o refeitório, onde Olavo e Janaína conversavam algo, sentados em uma mesa próxima às janelas. Fui até eles, pensando em uma desculpa convincente para a maneira como eu havia deixado a sala.
- Oi - eu disse, ofegante.
- Olha só, Olavo, ela ainda lembra que a gente existe - disse Janaína, em tom de brincadeira, e eu me senti aliviada por ela não estar zangada da maneira como eu imaginava.
- Que merda foi aquela, cara? Você parecia até... Os vietnamitas fugindo do Dr. Manhattan, o Super Homem quando vê uma criptonita, ou...
- A gente já entendeu, Lavinho. Você é o super nerd, aqui! - disse Janaína, interrompendo o delírio nerd de Olavo.
Me divertindo com com eles, eu me sentei, e peguei a terceira bandeja na mesa, me dando conta do quanto amava aqueles dois. Olavo e Janaína sempre pediam uma bandeja para mim, quando eu não ia direto para o refeitório.
- Valeu pelo almoço, gente - eu disse.
- Valeu nada! Pode ir dando uma explicação pra você ter deixado a gente feito dois babacas chamando o seu nome, na sala de aula - disse Janaína, tirando o copo de suco da minha mão.
- Bem... - comecei a pensar, rapidamente, em uma resposta convincente - eu tive que... pegar um livro, que... sai muito, entende? - respondi, não convencendo nem à mim mesma.
- E cadê esse livro tão procurado? - perguntou Janaína, enfatizando cada palavra com o seu inconfundível sarcasmo.
- Eu... não cheguei a tempo, e alguém já tinha levado. Meu Deus, batata frita! - eu disse, tentando escapar de mais perguntas.
- Da próxima vez, vê se espera a gente - disse Olavo, enquanto bebia o resto do seu suco, fazendo um barulho irritante com o canudo.
- Ou pelo menos responde quando a gente te chamar - continuou Janaína, puxando o copo da mão de Olavo, e arremessando-o para longe, expressando assim, à sua inconfundível maneira, o quanto estava irritada com o barulho que o amigo fazia.
- Não que eu tivesse ido à biblioteca se você tivesse chamado a gente, eu... tenho muito medo da bibliotecária - disse Olavo, parecendo estar falando sério.
- Você tem medo de tudo que esteja relacionado à livros, Olavo - disse Janaína, expondo uma verdade sobre a personalidade de Olavo. Ele realmente odiava ler.
- Eu só havia conseguido devorar metade do meu almoço, quando o susto que eu levei ao ouvir o som da sirene, fez com que eu me engasgasse com a comida. Aconselhada por Janaína, eu bebi o resto do meu suco, e nós três voltamos para a nossa sala.
Ao chegarmos na porta da sala, nos deparamos com dois políciais que nos encaravam sérios, acompanhados da madre superiora. "Provavelmente, para nos interrogar", pensei, olhando para os dois homens, e me lembrando da informação que Olívia me dera na biblioteca.
Quando toda a turma encontrava-se na sala, que nunca estivera mais silenciosa, a madre superiora entrou, acompanhada pelos dois homens.
- Boa tarde a todos - disse a madre superiora, que parecia cansada.
- BOA TARDE, MADRE SUPERIORA - respondeu a turma, em uníssono.
- Esses senhores tem algumas perguntas para serem feitas a cada um de vocês, portanto... fiquem sentados em silêncio, enquanto esperam serem chamados - disse Amélia, dando espaço para um dos polícias, que era baixinho e tinha a barba por fazer.
- Quem for chamado, por favor, dê um passo a frente - disse ele, que para um polícial, não era dono de uma voz muito grave - Gabriela Machado - ele disse, encarando toda a turma, enquanto esperava que a tal Gabriela desse sinal de vida.
- A estranha Gabriela ergueu-se devagar, e caminhou, timidamente, em direção ao polícial, tentando evitar os olhares de suspeita lançados por todos na sala.
Pela ordem alfabética, Gabriela não deveria ser a primeira a ser chamada, mas todos sabiam que ela havia se tornado a principal suspeita do... desaparecimento?... de Barbara Regina. Talvez por esse motivo fosse a primeira.
O interrogatório dela deve ter durado cerca de quinze minutos, e então o polícial retornou à sala, desta vez, chamando por Alexandre Medeiros, namorado de Barbara, que parecia mais nervoso do que a própria Gabriela, quando atravessou a sala em direção ao polícial baixinho e mal encarado. Foi a última coisa que eu vi, antes de cair no sono. Eu escutei o meu nome, e acordei com a sensação de ter dormido por horas.
Amallya Caroline - repetiu o baixinho, irritado.
Surpresa, eu atravessei a sala, escutando as risadinhas de alguns alunos. O polícial encostou a mão gorda no meu ombro e me levou para fora da sala, direto para o refeitório. Ele me levou até a mesa mais próxima, e sentou-se de frente para mim.
- Quantos anos você tem, Amallya? - perguntou ele, sem nem ao menos esperar que eu me sentasse.
- Quinze... Dezesseis! Desculpe - respondi, me sentando em seguida.
- Vamos, decida-se, meu bem - disse ele, rindo, e olhando para o seu parceiro, esperando a mesma reação dele, que também riu, forçadamente.
- Eu tenho dezesseis anos - respondi, séria.
- Faz muito tempo que você estuda aqui?
- Desde o quinto ano.
- Você era próxima de Barbara Regina?
- Na verdade, não, desde o... - tentei me lembrar - quinto ano!... Quando ela cuspiiu um chiclete no meu cabelo, e eu... me vinguei, no dia seguinte, cuspindo um chiclete na boca dela... eu passei o dia inteiro mascando aquele chiclete - foi impossível evitar a risada, quando, automaticamente, me lembrei da cara da Barbara quando eu pisei no pé dela, com tanta força, que a dor obrigou-a a abrir a boca para gritar, a única chance que eu precisava para me vingar - ai, ai... - enxuguei uma lágrima do rosto - Bons tempos - eu disse, olhando para o polícial, que não parecia ter achado graça nenhuma.
- Onde estava por volta da meia-noite de ontem? - perguntou ele, impaciente.
- No dormitório - respondi, evitando o olhar acusador do polícial.
Ele ficou me encarando, um pouco intrigado, por alguns segundos.
- Eu já posso voltar pra minha sala? - perguntei, encarando-o.
- É... eu acho que isso é tudo - ele disse, dando um sorriso forçado.
Eu me levantei, e fui acompanhada pelo outro polícial até a minha sala.
Os interrogatórios terminaram por volta das cinco da tarde. Olavo e Janaína responderam as mesmas perguntas que eu. Me vi tentada a puxar conversa com Gabriela, só para saber o que os políciais haviam perguntado a ela. Sim, com certeza, não foram as mesmas coisas que eles perguntaram a mim, ou aos outros alunos do Lar.
Olívia me mandara fazer isso, eu deveria me aproximar de Gabriela... E não fazia idéia de como fazer isso. Fomos mandados mais cedo para o dormitório, naquele dia. Os políciais que fizeram os interrogatórios deixaram a escola por volta das seis e meia. Observei bem a madre superiora, quando ela nos levou até os dormitórios, e senti muita pena dela. A sua face parecia representar o medo que todos no Lar estavam sentindo desde a noite passada. O olhar choroso, e as olheiras, denunciavam que a pobre velha passara a noite em claro, provavelmente pensando no futuro do Lar, agora que o colégio tinha um possível desaparecimento em seu histórico. Como ia ficar a imagem da escola se os pais de Barbara decidissem processar a instituição, caso a menina não fosse encontrada? O que seria da própria madre superiora, e doa outros funcionários, que há anos trabalhavam somente no Lar? Esses e outros problemas, provavelmente, deveriam estar martelando insistentemente na cabeça de Amélia. E a única solução para todos eles seria o reaparecimento de Barbara (viva ou morta).
Aquele dia se passara. E Barbara continuava desaparecida.
Na quinta feira, no intervalo, eu voltei à biblioteca, esperando que Olívia me desse alguma informação sobre a procura por Barbara Regina. Ela não sabia de nada, além do rumor de os pais de Barbara haviam aparecido na escola, por volta das dez horas, na noite passada, e desesperados, ameaçaram todos da equipe de investigação, a madre superiora e o próprio Lar. Olívia também me falou sobre o seu interrogatório, que não foi muito diferente do meu, até que a nossa conversa foi encerrada pelo toque da sirene, e eu voltei para a minha sala.
Ao som dos protestos da madre superiora, os políciais da equipe de investigação que a cada dia pareciam menos esperançosos, deixaram a escola antes do anoitecer, e assim, a quinta-feira se passara. Um dia monótono, e ao fim dele, a cama de Barbara permanecia vazia.
Na sexta-feira, durante o intervalo, eu fui até a biblioteca para a minha conversa diária com Olívia, que me informou sobre o último escândalo que os pais de Barbara protagonizaram na sala da madre superiora, que não pôde fazer nada, além de ouvir os protestos do casal, calada. E era o mínimo que a pobre mulher podia fazer por aqueles dois pais inconsoláveis, uma vez que a única filha deles sumira dentro da própria escola onde estudou durante anos, sem deixar nenhuma pista, além de um rastro de sangue.
Sim, segundos Olívia, que naquele mesmo conversara com um dos políciais responsáveis pela investigação, o sangue e as impressões digitais coletadas no banheiro feminino realmente pertenciam à Barbara.
- Meu Deus... - foi tudo o que eu consegui pronunciar, depois de ouvir as palavras que saíram da boca de Olívia.
- Eu sei... é... horrível... mas é a verdade - ela disse, também abalada.
- Mas... se todo aquele sangue realmente pertencia à Barbara, então... ela pode estar morta, agora, não!?
- Existe uma grande possibilidade de que isso seja verdade - respondeu Olívia, preocupada.
- Ok... - respirei fundo - é impossível que a Helene tenha alguma coisa a ver com isso... afinal... um fantasma não poderia matar alguém... poderia? - perguntei, sem acreditar nas palavras que saiam da minha boca. Era muita loucura para mim.
- Não... não poderia, querida - respondeu Olívia, evitando o meu olhar. E por alguma razão, eu não acreditei nela.
Quando anoiteceu, pouco a pouco, os alunos foram levados de volta para suas casas, por seus respectivos pais. Olavo se despediu de mim e Janaína, quando sua mãe chegou por volta das sete da noite, dirigindo o seu velho fusca branco, onde eu já pegara carona inúmeras vezes. A tia de Janaína chegou minutos depois, a pé, pois elas moravam à dois quarteirões da escola. Ína se despediu de mim com um longo abraço e dizendo que, se não tivesse que recepcionar, que voltaria da Itália naquela noite, ficaria na escola para me fazer companhia.
Eu nunca havia me sentido tão sozinha como naquela noite. Além de mim, haviam mais outras cinco garotas no dormitório. Eu já estava acostumada a ficar sozinha nas noites de sexta feira, graças a preguiça da minha mãe de me pegar no colégio por volta das 22h, horário em que terminava de lecionar história, em uma importante faculdade de São Paulo. Mas eu nunca havia sentido tanta falta de ter Janaína ao meu lado, como naquela noite. Associei isso ao medo de me deparar com a imagem de Helene, me encarando na escuridão. Medo esse, que eu adquirira desde a noite em que eu sentira a estranha presença no dormitório.
Com dificuldade, eu comecei a cair no sono, e sonhei...
Eu estava no primeiro andar, e olhava fixamente para a porta dupla no final do corredor. A biblioteca estava diferente, as luzes apagadas. Eu adentrei o breu, que tomava conta da biblioteca como uma criatura feita de escuridão... prestes a me devorar. Eu nunca havia entrado em um lugar tão escuro. De repente, a biblioteca inteira foi iluminada por uma luz fraca e amarelada. Eu estava em meio ao corredor da ala de história, que parecia mais extenso que o normal. No final dele, eu pude perceber uma figura encolhida no canto da parede. Era Anita, e ela chorava feito um bebê. Eu me aproximei da garota, devagar, e toquei o seu ombro, dizendo...
- Anita... você tá bem?
Ela ergueu o seu olhar para mim, os olhos inchados de tanto chorar.
- Ela sabe... - sussurrou Anita.
- Ela quem? - perguntei, começando a ficar assustada.
Aos prantos, a garota apontou, timidamente, para o outro lado da enorme ala. Tomei coragem para olhar na direção que Anita me indicara, e quando finalmente o fiz, me arrependi profundamente. Eu quis gritar, mas tudo o que consegui foi chorar... um choro sufocado... de medo. No outro lado do corredor de livros, Helene me encarava, da mesma maneira intimidadora e com o mesmo sorriso, quase imperceptível, em seu rosto. A sua farda estava coberta de sangue, e sua mão direita segurava uma faca de cozinha, também ensanguentada. Ao seu lado, o corpo de Barbara Regina estava deitado no chão, o abdômen da jovem sangrando incessantemente, e seu olhar petrificado de pavor. Eu fiquei paralisada pelo medo, podia sentir as lágrimas deslizarem pelo meu rosto. Inconscientemente, levei as minhas mãos ao meu abdômen... em estado de pânico, percebi que também sangrava. Desesperada, eu tentava estancar o ferimento, que teimava em continuar derramando o meu sangue. Olhei novamente para Helene, ela estava mais perto de mim... não disse nada, só continuou a sorrir.
- Acorda, Amallya! - disse uma voz feminina e arrogante.
Eu acordei, ainda em estado de choque. A camisola colada no corpo e encharcada de suor, me fez pensar, por um instante, que eu ainda sangrava. Eu respirava, ofegante. Foi quando percebi que todos os olhares no dormitório estavam voltados para mim. A irmã Joana me encarava, assustada e com um certo desdém.
- Você está bem, minha filha? - perguntou ela, em tom de falsa gentileza.
- Eu... tô... tô bem sim, foi... só um pesadelo - respondi, ainda ofegante.
- Bem... você não teria pesadelos se rezasse todas as noites, antes de dormir... mas, sinceramente, esse não é o tipo de costume que eu esperaria ver uma criança como você, praticar - disse Joana, agora, sem nenhum receio em demonstrar o seu desdém - Sua mãe está esperando por você no refeitório - ela disse, me dando as costas e retirando-se rapidamente do dormitório.
"Que direito essa puta tem de julgar a minha fé, ou a falta dela?", pensei, me mordendo de raiva.
Apertei os olhos com força, e os esfreguei com as duas mãos, na intenção de expulsar da minha cabeça as imagens do meu último pesadelo. Sem sucesso. Flashes daquele, e de outros pesadelos, ainda me atormentariam por muito, muito tempo.
No chuveiro, me dei conta de que, com tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias, eu havia até me esquecido do quanto eu estava ansiosa para rever Leonardo (ou... o fantasma dele? Não importava!). Me arrumei o mais rápido possível, e quase tropecei quando desci correndo as escadas para encontrar a minha mãe no refeitório.
Olga me esperava, fumando um cigarro, e batendo o pé, impaciente.
- Amém! - ela disse, quando me viu atravessar o arco do refeitório.
- Também tava com saudade, mãe - eu disse, de forma sarcástica.
Ela me deu um rápido beijo na testa.
- Como foi a sua semana? - ela perguntou, por obrigação, e começou a andar em direção à saída.
- Monótona - respondi, tentando acompanhar os seus passos.
Nós atravessamos o lobby da escola, e o pátio introdutório em seguida. Quando o enorme e velho portão da escola começou a se fechar atrás de mim, dei uma última olhada para o Lar. Helene estava no pátio, ao lado da estátua do espírito santo, me encarando, com o mesmo sorriso sacana, que eu começara a odiar, ao invés de temer. Por um segundo, imaginei ela dizer: "Adeus... a gente se vê em dois dias... vou ficar te esperando". Foi quando eu desviei o olhar, apertando os olhos com força, e entrando no carro da minha mãe, o mais rápido que eu pude. Fechei a porta, sem coragem de olhar através da janela.
Durante todo o percurso de carro, eu procurei desviar os meus pensamentos do Lar, de Helene, e de Barbara Regina. Passei a pensar em Leonardo, e na infeliz possibilidade de que ele não estivesse esperando por mim em meu quarto, com o seu típico sorriso de lado. E, ao mesmo tempo, eu tentava alimentar a acolhedora ilusão de que eu iria revê-lo naquele dia.
Sem esperar que Olga estacionasse o carro na velha garagem da nossa casa, eu peguei a chave da casa no porta-luvas, abri a porta do carro, rapidamente, e corri para a porta de casa. Mamãe perguntava em voz alta o motivo da minha pressa. Sem responder, eu entrei em casa e subi, de dois em dois degraus, a escada em direção ao meu quarto. Eu abri a porta.
Leonardo não estava lá. Ainda ofegante, eu revistei todo o quarto, procurando o fantasma do meu namorado, mas não havia sinal algum dele. Eu sentei na minha cama, desamparada. E droga! Já podia sentir as malditas lágrimas brotarem dos meus olhos.
Enxuguei o rosto quando escutei dona Olga resmungando, enquanto subia a escada.
- AH! SE VOCÊ PENSA QUE A ESCRAVA DA SUA MÃE VAI PEGAR AS SUAS MALAS, PODE IR TIRANDO O SEU MALDITO CAVALINHO DA CHUVA! EU TÔ MORTA DE CANSADA E... - Olga entrou em seu quarto, e continuou reclamando, apesar de eu não poder mais ouvir, ao certo, o que ela dizia. Foi quando eu senti... O toque de algo que parecia ser uma mão muito, muito fria. A minha espinha gelou, e elogo todos os pêlos da minha nuca estavam arrepiados. Eu engoli um grito de pavor, e olhei para trás.
- Te assustei? - perguntou Léo, soltando uma risada.
- Meu Deus, Léo! - eu não aguentei, as lágrimas desabaram do meu rosto, descontroladamente.
- Me desculpa... - ele disse, parecendo realmente arrependido - Você vai acreditar se eu disser que não foi de propósito? - perguntou Léo, se esforçando para conseguir tocar o meu rosto, levemente, na tentativa de me acalmar.
- Não mesmo, seu idiota - eu respondi, sorrindo. O toque dele me acalmara. A simples presença dele me fazia bem.
- Eu senti sua falta - ele disse, se aproximando de mim. Eu pude sentir o frio que a sua presença transmitia.
- É mesmo?... Eu adoraria poder dizer o mesmo, só pra você não ficar triste - brinquei.
- Sério... Mentir, não é o seu forte - ele disse, abrindo um largo sorriso.
- Qualé! Eu não convenci nem um pouquinho? - perguntei, também rindo.
- Não mesmo - ele disse, se aproximando dos meus lábios.
Eu deixei que a sua boca encostasse na minha, e logo o meu corpo inteiro estava tomado pelo frio transmitido pelo toque de Leonardo. Naquele momento, eu me dei conta do quanto eu sentira a sua falta. Minha vontade era de poder agarrar a nuca dele e não libertá-lo nunca mais. Poder, realmente, tocá-lo, sentir o calor exalado do seu corpo... mas isso era impossível. E tudo o que eu sentia com o seu... toque?... agora, era frio... o acolhedor frio da morte.
Ele se afastou, parecendo distante.
- Eu vi outros fantasmas - eu disse, sem saber ao certo a razão de ter tocado naquele assunto.
- O quê? Onde? - Ele perguntou, preocupado.
- No lar...
- Que tipo de fantasmas?
- E por acaso existe diferença? - falei, achando graça na pergunta de Leonardo.
- Como... como eles eram, Amallya? - ele perguntou, nervoso.
- Duas garotas que já estudaram no Lar, mas porque isso é tão importante, Léo? São só... fantasmas... certo? - perguntei, começando a ficar preocupada também.
- Com que frequência elas aparecem pra você? - perguntou, encarando o chão, e com as mãos apoiando a cabeça, como costumava fazer quando estava preocupado, ou se concentrando em algo.
- Bem... Uma delas... a Anita, não parece gostar muito de mim, ela vive na biblioteca, e Olívia pode vê-la também...
- A bibliotecária esquisitona? - perguntou, me encarando com curiosidade.
- Sim, mas eu explico isso depois... Na verdade... é outro espírito que tá me deixando maluca... Helene, ela... ela é a que mais aparece, e... na maioria das vezes, é como se ela estivesse me desafiando...
- Ela sabe que você consegue vê-la? - ele perguntou, levantando-se da cama.
- Eu acho que... sim.
- Meu Deus, Amallya! Você não podia ter deixado isso acontecer...
- Calma, Léo... Ela não pode fazer nada comigo... - a imagem do banheiro feminino coberto de sangue me veio à cabeça.
Leonardo estava agora apoiado no para-peito da janela, e parecia estar com raiva.
- Você ainda se lembra... da Barbara? - perguntei, decidida a deixá-lo saber de tudo.
- Quem? - ele perguntou, direcionando o olhar para mim, novamente.
- Barbara Regina... Você ainda se lembra dela?
- Barbara Regina...? A patricinha que te odiava, e vivia dando em cima de mim?
- Sim.
- Mais do que eu gostaria... por que a pergunta? - disse Léo, curioso.
Eu contei a ele tudo o que acontecera no decorrer dos últimos dias, desde a descoberta do meu dom, que mais me parecia uma maldição, até as aparições de Helene, a sua relação com a misteriosa Anita, a maneira como a novata Gabriela agira durante o ensaio de A Paixão de Cristo, e claro, o banho de sangue no banheiro feminino.
Leonardo escutou toda a história, com o mesmo semblante sério, e sem me interromper em momento algum. O silêncio dele ao final do meu relato, me fez perguntar...
- Você acha que essa tal de Helene pode, de alguma forma, ter causado tudo isso?
Com um olhar distante, ele suspirou de maneira preocupada, e alisou o cabelo, rapidamente.
- Antes de... voltar pra você... eu... estava nesse lugar tão... cheio de paz... muito, muito diferente de tudo isso aqui... e lá haviam outros... espíritos...
- E você podia... falar com eles? - perguntei, um tanto fascinada.
- Não... mas eu podia senti-los... eu podia sentir... o que eles sentiam, ou... a energia deles, sei lá... e acredite Amallya... - nesse momento ele se voltou para mim, com um olhar sincero e profundo, que me assustou um pouco - nem todos esses sentimentos... eram bons - senti os pêlos da minha nuca ouriçarem, e tremi. Leonardo parecia ter percebido o meu medo, e acariciou o meu rosto, na tentativa de me tranquilizar - Portanto... Você vai prometer, pelo amor que você ainda sente por mim... que você não vai se envolver com seja lá o quê esse espírito... Helene... estiver tramando... por favor, Amallya... não corra perigo... porque eu não vou poder te proteger... dessa vez - ele implorou, com as duas mãos sobre a minha face. O seu olhar de súplica... e medo... ficaria cravado na minha mente para sempre.
- Eu... prometo - eu menti, enquanto sentia uma lágrima solitária descer o meu rosto, levemente.
A promessa, que eu jamais cumpriria, foi selada pelo encontro gélido de seus lábios com os meus.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Capítulo 7 - Adaptação


Olívia sorria como se tivesse dado a melhor notícia da minha vida.
- Eu não vejo graça nenhuma - eu disse apavorada, enquanto a calma de Olívia me irritava.
- Ninguém tá dizendo que é engraçado, é só... fantástico, é um dom, Amallya, você pode se considerar uma pessoa iluminada... - disse Olívia, parecendo fascinada.
- O que pode haver de tão fantástico em ver gente morta por aí?
- Eu não tô pedindo pra você concordar comigo com relação a isso, mas você precisa aceitar o que você é, Amallya... Você precisa aceitar a sua missão...
- Missão?
- Sim, missão... a nossa missão aqui na terra é ajudar esses espíritos a... a encontrarem a paz...
- Isso... isso tudo é demais pra mim, Olívia. Eu não nasci pra sair por aí brincando de "Caça fantasmas" ...
- Eu sei que é difícil , mas... tentar fugir disso, tentar negar o seu dom... não vai ser uma boa decisão - disse Olívia, parecendo realmente preocupada.
Eu fiquei em silêncio, tentando absorver tudo o que Olívia acabara de me dizer. Eu estava com medo, eu não queria nada daquilo. Mas Olívia tinha razão; tentar fugir não seria a decisão certa.
- Você já viu viu o Léo?
Aquela pergunta me pegara totalmente desprevenida.
- O quê? - perguntei, totalmente surpresa.
- É que... quando eu tinha a sua idade, o primeiro espírito que eu vi foi o da minha avó... alguém que eu amava muito... Então eu pensei que, como o Leonardo foi uma pessoa muito especial pra você, ele seria o primeiro espírito que você veria - disse Olívia, parecendo triste.
- É, foi ele sim... Eu acordei no meio da noite, e ele... simplesmente estava lá... olhando pra mim... Claro que eu quase caí da cama, com o susto - eu disse, me divertindo com a lembrança de Léo me encarando, enquanto eu pensava que estava sonhando, ou ficando louca.
- Isso não acontece por acaso - disse Olívia, escorando-se em seu birô.
- O que você quer dizer?
- Que o Leonardo não apareceu pra você só porque estava com saudade, querida - disse Olívia, em tom de zombação.
- Mas... pra quê ele voltaria? - pensei alto.
- Eu não faço a mínima idéia, assim como talvez ele não faça a mínima idéia... só o tempo dirá - respondeu Olívia, misteriosa.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, eu estava completamente distraída tentando pensar em algum motivo que pudesse justificar a "volta" de Leonardo. E essa tal Helene, que razão poderia ter aquela estranha garota para continuar no mundo dos vivos? Foi quando eu tive a idéia de perguntar a Olívia sobre ela.
- Olívia?
- Sim?
- Você já ouviu falar em uma garota chamada Helene? Ela já estudou aqui no colégio há muito tempo atrás...
- Helene? Não me parece familiar, por quê?
Eu relatei a Olívia o ocorrido na estátua do espírito santo, falei sobre Helene, sobre Olavo e Janaína não a terem visto, o que foi o bastante para eu ter deduzido que a garota era na verdade um fantasma, falei sobre a foto que eu encontrara no anuário da turma do primeiro ano de 1978, e por fim, lhe contei sobre a recente aparição de Helene no corredor do primeiro andar, que ocorrera alguns minutos antes.
- Você disse que ela cursou o primeiro ano em 1978? - perguntou Olívia.
- Sim.
Olívia sorriu.
- Eu acho que conheço alguém que pode te ajudar - disse Olívia, esperançosa.
- ANITAAA... - ela gritou para alguém na biblioteca. Me perguntei quem ainda poderia estar ali em uma hora daquelas - EU ACHEI O "HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA", VEM BUSCAR! - disse Olívia, mentindo sobre o exemplar de "Harry Potter e a câmara secreta". Em poucos segundos, Anita, a garota dos olhos assustados, surgiu animada da sessão de literatura clássica. Ela paralizou ao me ver, e eu mesmo estava muito assustada ao ver que ela era a Anita por quem Olívia chamara. Por um instante, pareceu que a garota ia sair correndo.
- Espera, Anita... - começou Olívia, tentando acalmar a garota - Esta é Amallya...
- Prazer...
- Shhh - fez Olívia, repreendendo a minha tentativa de iniciar uma conversa com Anita, e voltando a sua atenção para a garota - Sim... assim como eu, a Amallya também pode te ver... - Os olhos da garota pareciam mais apavorados que o normal, Olívia parecia estar fracassando em sua tentativa de acalma-la - E não... ela não vai te fazer mal... até porque você já está morta - disse Olívia, rindo da própria piada de mau gosto. O olhar de Anita mostrava que ela não havia achado graça nenhuma - Me desculpe, eu... sou um desastre quando tento ser engraçada, de vez em quando - disse Olívia, visivelmente envergonhada - Amallya gostaria de te fazer algumas perguntas, Anita... se não for incomodo.
Anita evitava me olhar diretamente. Na verdade, era mais como se ela tivesse medo de fazer isso, como se eu fosse a própria Medusa da mitologia grega. Me dei conta da idéia de Olívia, e me chamei de burra, mentalmente, por não ter pensado nisso antes. Anita estava em uma das fotos do anuário de 1978, ao lado de Helene.
- Oi... Anita - eu disse, resolvendo esperar por alguma reação dela, antes de partir para o interrogatório.
- Oi - disse ela, quase sem voz.
- É um prazer te conhecer - eu disse, agradecida por ela estar parecendo mais a vontade para falar comigo. Dessa vez ela não respondeu nada - Eu te vi numa foto... no anuário da turma do primeiro ano ginasial de 1978... e nessa foto... você estava ao lado de uma garota... - a expressão dela mudou por completo, de repente ela parecia mais assustada do que nunca.
- Não!... - ela sussurrou como um alerta.
- Você estudou com uma garota chamada Helene, não foi?
A minha pergunta serviu como um gatilho para que Anita correce desesperada pela biblioteca, e sumisse da nossa vista, enquanto gritava "Não" repetidas vezes.
- Eu tentei - lamentou Olívia.
- É... - eu suspirei - Valeu!
- Olha... eu tenho certeza que a Anita pode começar a colaborar, com o tempo, ela é gente boa... Era - disse rindo - Eu a conheço há muito tempo, desde quando comecei a trabalhar aqui, na verdade... Então... aparece aqui mais vezes, tenta conquistar a amizade dela, e eu tenho certeza que ela vai te ajudar a descobrir mais sobre essa Helene.
- É uma boa idéia, vale a pena tentar - eu disse, um tanto desesperançosa.
- Agora se manda daqui, e não vai pro refeitório! Essa hora os alunos já jantaram e devem estar em seus dormitórios...
- É, Olívia, eu sei!... Obrigada - eu disse, enquanto me aproximava de Olívia para lhe dar um beijo de boa noite.
- Boa noite, Carol - disse ela, retribuindo o beijo com um outro na minha buxexa - Não deixa ninguém te ver! Principalmente a bruxa superiora - disse Olívia.
- Pode deixar! - eu disse, não me controlando na risada.
O primeiro andar estava assustadoramente silencioso. Intimamente desejei que Helene não decidisse aparecer ali, não naquele momento. Então, como eu costumo fazer quando estou sozinha em um lugar assustador; comecei a correr feito uma louca, até chegar a escada que me levaria ao segundo andar. Parei ao chegar no penultimo degrau, escutei passos e vozes, que me pareciam perfeitamente familiares. A irmã Joana e o padre Jonas caminhavam pelo corredor dos dormitórios, enquanto conversavam sobre Olívia. Desci alguns degraus, na intenção de me esconder e escutar a conversa.
- Eu não sei que razões a madre superiora possa ter para permitir que essa mulher continue trabalhando nessa escola, imagine o senhor que outro dia eu confisquei a bolsa dela, e descobri que ela estava trazendo um exemplar de... meu Deus...
- Diga de uma vez, Joana! - insistiu o padre Jonas
- Harry Potter - respondeu Joana, dando tapinhas na própria boca, depois de pronunciar o nome de um dos personagens literários que eu mais amo. Logo deduzi que o tal exemplar de Harry Potter que enfurecera Joana poderia ser um presente que Olívia levara para Anita. Achei engraçada a idéia de um fantasma que lê.
- Meu Deus - disse o padre Jonas, fazendo o sinal da cruz.
- Claro que ela desrespeitou a minha autoridade, e não quis me entregar o livro, aquela bibliotecaria atrevida! - disse Joana com um olhar de desdém, e pronunciando a palavra "biliotecária" em tom de ofensa.
- Você contou para a madre superiora?... - perguntou o padre Jonas. E foi a última coisa que eu consegui ouvir nitidamente, pois os dois já se afastavam da escada onde eu me escondia.
Dei uma espiada para saber o quanto eles estavam longe. Esperei eles entrarem na sala dos professores , que ficava no fim do corredor do segundo andar, e corri até o dormitório feminino que estava bem à minha frente, no outro lado do corredor. Dentro do dormitório, fechei a porta bem devagar, para não acordar as garotas, O dormitório era uma sala enorme de teto alto, muitas janelas, onde haviam camas confortáveis e perfeitamente enfileiradas uma ao lado da outra, que ocupavam quase todo o lugar, deixando pouco espaço para caminhar. Eu tinha pouco tempo para trocar de roupa e me jogar na cama, antes que a madre superiora aparecesse para fazer a inspeção noturna no dormitório. Fui até a minha cama, Janaína parecia dormir muito profundamente na cama ao lado da minha. Como estava escuro, não exitei em tirar a minha calça jeans e a blusa do colégio, ficando somente de sutiã e calcinha.
- Amallya? - disse Janaína, ainda sonolenta. Tive que me controlar para não soltar um grito com o susto que levara.
- Que susto, Ína! - eu falei baixinho para não acordar as outras garotas.
- Foi mal, é que... eu ia ficar te esperando acordada, mas você demorou tanto...
- É, eu... eu peguei uma briga com a Barbara...
- Eu sei! Ela entrou aqui, chorando feito uma maluca, dizendo que ia te matar, e tal... Você bateu muito nela? - perguntou Janaína, animada.
- Não, foi só um soco... muito bem dado, é claro - eu falei, me gabando um pouco.
- É, quer dizer... pelo que eu pude ver, ela tava sangrando muito, me surpreendeu ela não ter contado nada pra madre superiora.
- A Barbara não é tão burra a esse ponto. Ela e os seus amiguinhos estavam perambulando pela escola, sem a permissão da madre superiora, com certeza. Então, se ela me dedurasse , eu ia dedurar ela - eu disse, me gabando novamente.
- Você virou minha heroína - disse Ína, rindo baixinho - Ah! Você não apareceu para o jantar, então... - ela tirou uma sacola cheia de batatas fritas, de dentro da sua bolsa.
- Obrigada, Ína - eu agradeci, me dando conta do quanto estava com fome.
- Come logo, que a madre superiora já deve tá vindo fazer a inspeção noturna - alertou Janaína.
Coloquei o meu jantar em cima da cama, e procurei a minha camisola na mala, que durante o intervalo fora tirada da minha sala de aula e posta na minha cama, provavelmente por algum zelador. Com dificuldade, encontrei a peça de roupa, em meio a bagunça em que se encontravam as minhas coisas, e a vesti rapidamente. Sentei na cama, e comecei a comer como se a minha vida dependesse disso. Janaína me observava, sentada na sua cama, com um olhar sonolento.
- Então... você não passou esse tempo todo só dando porrada na Babara... onde mais você foi? - perguntou Janaína, esfregando o rosto para espantar o sono.
Engoli tudo para não falar de boca cheia.
- Eu já disse, eu fui na biblioteca.
- Conversar com a Olívia!? - perguntou Janaína, um tanto desconfiada.
- Sim... Qual o problema?
- Nenhum, é que... de repente você começou a ter assuntos urgentes pra tratar com a Olívia...
- Eu nunca disse que eram assuntos urgentes.
- Mas a maneira como você correu hoje, depois da missa... me pareceu algo muito urgente - disse Janaína, me lançado um olhar desconfiado - Mas eu não tenho nada a ver com a sua vida, não é? Afinal, eu sou apenas a sua melhor amiga...
- Pára com isso, Ína... - eu disse, pulando em cima de Janaína, e beijando o seu rosto várias vezes.
- Não, vai beijar a Olívia, vai... - ela dizia, rindo baixinho para não acordar as outras meninas.
No mesmo instante a porta se abriu, iluminando o dormitório com a luz do corredor. Eu pulei de volta para a minha cama, me cobrindo da cabeça aos pés, com a colcha. A madre superiora passeava pelo dormitório segurando um pequeno castiçal com uma vela acesa, fazendo-a parecer uma freira malvada, tirada de um desses filmes sobre crianças sendo maltratadas em um orfanato. Quando ouvi o som da porta se fechando, e a escuridão envolver o dormitório novamente, eu respirei fundo e me virei para Janaína, que ainda estava acordada.
- Meu Deus, já pensou se ela tivesse visto a gente nesse momento lésbico, em cima da minha cama? - perguntou Janaína, começando a rir.
- Eu sei, acho que ela ia nos expulsar por estar trazendo o demônio pra dentro do colégio, ou coisa do tipo - eu disse, também rindo.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos, ambas esperando o sono chegar.
- Boa noite, Carol - disse Janaína, bocejando e começando a cair no sono.
- Boa noite, Ína - eu disse, aliviada por ela ter esquecido o assunto da minha ida urgente à biblioteca.
Olhando para o teto, pensei sobre o quanto aquele dia havia sido uma loucura para mim, pensei no fantasma que eu deixara no meu quarto, e o medo de não rever Leonardo me tomou novamente. Medo; essa era a definição perfeita do que eu sentia naquele momento, deitada na minha cama, no dormitório escuro e silencioso. Eu imaginava o rosto de Helene na escuridão, sorrindo para mim, da mesma maneira terrível que ela sorrira no corredor do primeiro andar. Eu torcia, inutilmente, para que o sono viesse, para que levasse todas aquelas imagens da minha cabeça, para que eu pudesse me ver livre de todos os meus pensamentos. No outro dia, eu acordara com a sensação de ter encarado o teto do dormitório a noite toda, considerando que eu só consegui dormir, realmente, lá pelas quatro da manhã. De seis horas em ponto, a madre superiora já nos acordava com o seu clichê e insuportável bordão matinal: "Deus ajuda a quem cedo madruga!". "Eu não sei quanto a Deus, mas você me ajudaria muito mais se calasse a porra da boca e me deixasse dormir mais umas três horas, sua bruxa!", pensei, enquanto me levantava da cama feito uma morta-viva . Em filas revesadas de mais ou menos vinte garotas, nós íamos ao banheiro, e tinhamos quinze minutos para escovar os dentes e tomar banho. Depois saíamos todas de toalha para o dormitório, onde trocávamos de roupa, tendo exatos dez minutos para isso, e enfim descermos juntas até o refeitório, que ficava no térreo.
O café da manhã era o primeiro momento do dia em que nós reviamos os meninos, o dormitório masculinos ficava em frente ao nosso, porém, nós descíamos sempre cinco minutos adiantadas. Como sempre eu e Janaína esperávamos por Olavo, na entrada do refeitório. Com excessão de Nievy, o aluno nerd da nossa sala, fanático por RPG e revistas em quadrinhos (vício que eu compartilhava com ele), Olavo não tinha muitas amizades masculinas. Naquele dia, Olavo vinha acompanhado de Nievy, o que não acontecia com frequência, pois o pobre garoto morria de medo de Janaína... O que nos fazia acreditar que ele tinha uma quedinha por ela.
- Então... qual o cardápio de hoje? - perguntou Nievy, empolgado, olhando para Janaína que o ignorou.
- Não faço a mínima idéia - respondi por pura educação.
Nievy ajeitou os óculos, sem jeito, e passou à olhar para vários lugares, tentando disfarçar o gelo que Janaína lhe dera.
- Vamo pegar um lugar, que eu tô morrendo de fome - disse Janaína.
Colocamos nossos livros em cima da primeira mesa vaga que encontramos, e fomos para a fila do refeitório. O cardápio do dia era ovos fritos com pão e café. A cozinheira, dona Sandra, serviu a gente com a cara simpática de quem deseja que você se engasgue com um pedaço de pão, o que não era novidade, se ela começasse a nos servir com um enorme sorriso naquela cara gorda, aí sim eu ficaria surpresa.
Quando voltamos para nossa mesa, me dei conta de que Barbara, que estava com um belo olho roxo e com um curativo sobre a sobrancelha, e sua amigas estavam sentadas bem próximas da gente. A novata, Gabriela, falava com Barbara, enquanto elas olhavam para mim. Decidida a provocar Barbara, eu acenei para ela, sorrindo de forma simpática. Ela respondeu a provocação com um olhar furioso e fazendo um gesto obsceno com o dedo. Fiz cara de magoada, e me sentei, enquanto todos na minha mesa riam da reação dela.
- Você não presta, Amallya! - brincou Janaína, tentando conter o riso.
- E ela também não! Isso nos deixa quites - eu disse, satisfeita.
- Conta tudo! - disse Olavo, empolgado.
- Tudo o quê? - perguntei, meio que já sabendo o que Olavo queria saber.
- Não fode, Amallya! Toda a escola tá sabendo que você e a Barbara saíram na porrada! - continuou, Olavo.
- Ontém no dormitório masculino tava todo mundo falando da "surra que Barbara Regina levou de Amallya Caroline" - disse Nievy, fascinado, e me dando um soco no ombro, sem medir a força - Desculpa - disse ele, envergonhado, depois de perceber que o soco não tinha sido uma boa idéia.
- Bem... Ela me provocou e teve o que mereceu, foi só isso! - eu disse, bancando a falsa modesta.
- Ah, qualé! Eu quero detalhes, teve SANGUE ou foi só uma briguinha de mulher, com puxão de cabelo, gritaria e tal...? - perguntou Olavo.
- Ela me chamou de vaca, eu chamei ela de vadia mau educada, ela me deu um tapa e eu dei um soco no rosto dela, que sangrou pra caramba... e só! - eu disse, novamente me achando.
- Que fooooda, velho! - disse Nievy, exageradamente empolgado.
- É, foi muito foda, agora vamo parar de satisfazer o ego da Amallya e começar a satisfazer os nossos estômagos, que tal? - disse Janaína, bem humorada.
- Ótima idéia - eu disse, rindo, e começando a comer.
- Você dá um soco na cara de Barbara Regina e se torna a Lindsay Lohan da escola, eu não entendo isso! Me ensina qualquer dia desses, tá? - disse Janaína, nunca se casando de me fazer rir.
Depois do café da manhã, fomos todos mandados para a sala de aula, onde teríamos a primeira aula de matemática, e felizmente, a única naquele dia. Uma hora inteira de pura tortura, envolvendo dízimas periódicas e insinuações sobre alunos que andavam "brincando de corda bamba na estreita linha entre o céu e o inferno"; palavras da irmã Joana, e antes do intervalo teríamos mais duas aulas de biologia com o professor Pablo, também padre da escola, e tão enrustido que chegava a dar pena, já dera em cima de Olavo milhares de vezes, e todas as tentativas foram em seu famoso confessionário na igreja da escola. Olavo odiava tocar nesse assunto, mas toda vez que Pablo nos dava aula era impossível para mim e Janaína não começarmos a rir olhando para a cara do nosso amigo, enquanto ele tentava evitar os olhares cheios de insinuação que o professor lançava para ele sempre que tinha a oportunidade.
A segunda aula de biologia foi finalizada pelo toque ensurdecedor da sirene, que sempre me fazia sentir como se estivesse em uma prisão ao invés de uma escola. Eu, Janaína e Olavo nos levantamos rapidamente das carteiras e nos apressamos em direção a porta da sala, quando fomos interrompidos pelo professor Pablo, para a infelicidade de Olavo.
- Não tão depressa, Olavo - disse Pablo, com a sua voz mansa e lenta, que chegava a ser um pouco assustadora.
Eu e Janaína iamos sair da sala, mas o olhar que Olavo nos lançou naquele momento, nos implorava para ficar, e foi o que fizemos.
- Oi, professor... há quanto tempo - disse Olavo, sem graça.
- Pois é, você bem que poderia aparecer na igreja, de vez em quando... pra se confessar, ou mesmo conversar um pouco, seria um prazer para mim - disse Pablo, com todo seu cinismo.
- Eu aposto que sim, senhor - respondeu Olavo, um tanto desafiador.
- Será possível que eu serei obrigado a convocar, novamente, todos os meninos da escola para se confessarem, só para que você me faça uma visita na igreja - disse Pablo, em um falso tom de brincadeira.
- Eu acho que sim, senhor - respondeu Olavo, de maneira firme, o que pareceu ter ofendido o padre Pablo - Não me entenda mal, senhor ... é que... eu ando muito ocupado com os estudos, então... não me sobra tempo pra nada - continuou Olavo, tentando se desculpar.
- Entendo - disse Pablo, visivelmente insatisfeito com a justificativa de Olavo.
- Agora se me der licença, eu preciso comer alguma coisa - disse Olavo, começando a nos empurrar para fora da sala.
- Claro, a gente se vê, hein!? - disse o padre Pablo, animado.
- Espero que não tão cedo! - disse Olavo, já do lado de fora da sala.
- Ele tá tão afim de você, dá uma chance, Olavo... - brincou Janaína.
- Depois de tantos anos de castidade, o padre Pablo deve tá louco por uma noite à sós com o Lavinho...
- PÁRA COM ISSO, POR FAVOR! - gritou Olavo, mostrando-se realmente perturbado pelas nossas brincadeiras - Esse homem é bizarro, vocês... não fazem idéia - disse sério.
- Foi mal, Lavinho... A gente só tava tirando onda... - disse Janaína.
- A gente não sabia que você se incomodava tanto com esse assunto... Desculpa aí, vai!? - eu disse, um tanto envergonhada.
- Esquece isso!... - ele pareceu distante - Eu tô morrendo de fome, vamo comer alguma coisa.
Eu e Janaína nos lançamos olhares preocupados, e seguimos Olavo até o refeitório. Durante o intervalo, Nievy veio novamente se juntar à nós, o que deixava Janaína muito irritada, pois ela, assim como todos na escola, sabia que o pobre garoto sofria de um amor platônico, e Janaína era a causadora disso.
- Oi, gente! Posso me sentar com vocês... de novo? - disse Nievy, sem jeito.
- Claro, Ni... - eu comecei, até ser interrompida por Janaína.
-Vem cá, você não tem nenhuma partida de RPG pra jogar com os seus amigos, ou... sei lá! Qualquer outro lugar pra ir? - disse Janaína, de maneira intencionalmente rude.
- Não que eu saiba - disse Nievy, com a cara no chão.
- Se o Nievy não vai sentar aqui, eu também não sento, Ína - disse Olavo, irritado com a atitude de Janaína.
- Não esquenta, Nievy! Eu tenho certeza que foi só uma brincadeira muito idiota da Ína... - eu disse, enquanto chutava o pé de Janaína por debaixo da mesa.
- Porra, Carol! Essa merda dói - disse Janaína, queixando-se do chute - Senta logo aí, Nievy! Foi só uma "brincadeira muito idiota"! - disse Janaína, contrariada.
- Valeu! - disse Nievy, pondo a bandeja com o seu almoço em cima da mesa e sentando-se, em seguida.
O prato do dia era o meu favorito: Batata frita com bife, arroz e salada. Durante o intervalo conversamos sobre os filmes do Quentin Tarantino que ainda não havíamos assistido, sobre quadrinhos violentos, e sobre a vergonhosa apresentação de A Paixão de Cristo, do no passado, onde a garota que interpretava o diabo esqueceu metade de suas falas. Quando o toque da sirene encerrou o intervalo , Olavo tentava convecer a mim e a Nievy de que o Homem Aranha é "infinitamente melhor" que os X-MEN que, segundo ele: "Não passam de adolescentes super evoluidos, comandados por um molestador de menores em uma cadeira de rodas". Na porta da nossa sala, a madre superiora esperava que todos os alunos do primeiro ano se amontoassem na sua frente.
- O que tá acontecendo? - perguntou Janaína, intrigada.
- Não faço a mínima idéia - respondi, tão intrigada quanto a minha amiga e todos os outros ali.
- ATENÇÃO! - gritou a madre superiora, conseguindo fazer com que todos olhassem para ela, amedrontados, porém muito atenciosos - TODOS OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO GINASIAL, FORMEM UMA FILA DIANTE DE MIM, AGORA! - disse de forma autoritária.
Em segundos, a madre superiora tinha a sua fila de alunos obedientes, perfeitamente formada diante dela, que olhou orgulhosa para o feito - Muito bem... Diante de circuntâncias das quais vocês não precisam ter conhecimento, o professor Júlio não poderá dar a sua aula hoje, por isso eu decidi que esse horário vago será preenchido com o nosso primeiro ensaio para A Paixão de Cristo... Nós iremos agora para o auditório, onde faremos a leitura do roteiro, que já está pronto e será distribuido a todos que fazem parte da peça... A propósito... aqueles que não fazem parte do elenco deveram prestar atenção à leitura do roteiro... ou simplesmente manterem a boca CALADA! Estão todos entendidos? - perguntou a madre superiora, encarando a todos de forma séria e intimidadora - Ótimo!... Agora, EM FILA, todos subam a escada direto para o auditório.
- Que saco! - começou Olavo - Eu não sou popular, não tenho talento e nem muito menos pedi pra fazer parte dessa palhaçada anual, então pra quê diabos resolveram me dar um papel? - questionou Olavo, irritado.
- Talvez eles só estejam te punindo por ter alisado a bunda da professora Joana, no ano passado... - disse Janaína, relembrando um dos nossos clássicos momentos do ano anterior, um ano em que rir era quase uma dádiva para três amigos que haviam perdido alguém muito amado por ambos.
- Eu já disse que eu tava doidão naquele dia, se não eu... nunca... teria... vocês sabem!
- Assediado a professora de matemática!? - eu disse, começando a rir, seguida por Janaína.
- Eu juro que, lá no fundo, eu tô morrendo de rir - disse Olavo, rabugento.
A fila seguia subindo a longa escada em ritmo retardado. Claro que a vontade de todo mundo ali era correr até o auditório e pegar os lugares nos fundos da enorme sala, fora do alcance da madre superiora, que estaria no palco, ocupada com o ensaio, mas Amélia tinha prazer em ver seus alunos marcharem lentamente, como se estivessem caminhando para a forca.
Dentro do auditório, eu e Janaína fomos obrigadas a sentar próximas ao palco, uma vez que todos os outros lugares já estavam ocupados. Olavo nos lançou um olhar desesperado quando a madre superiora o chamou para o palco, onde o resto do elenco já recebia as cópias do roteiro, escrito pela própria Amélia. Barbara não desgrudava da sua nova seguidora, Gabriela, que parecia não dar muita atenção ao que a amiga dizia. A madre superiora mandou que os alunos no palco fizessem um círculo com suas cadeiras, e quando todos encontravam-se sentados com o roteiro em mãos, ela deu início à leitura. O ritmo e o desinteresse de Olavo atrapalhavam os outros membros do elenco, o que parecia não estar agradando nem um pouco a madre superiora. Eu e Janaína riamos baixinho toda vez que o nosso amigo, desastrosamente, lia alguma de suas falas. Lá pela cena da crucificação de Jesus Cristo, Barbara tentou mostrar-se empolgada para a madre superiora, e começou a ler as suas falas de pé, enquanto tentava atuar ao mesmo tempo, claro que Amélia aplaudia empolgadíssima a atuação de Barbara.
- Não... NÃO! MEU FILHO! VOCÊS NÃO PODEM... ELE NÃO É UM CRIMINOSO! - gritava Barbara, olhando para Alexandre, que fingia estar crucificado tão bem quanto a Sabrina Sato é capaz de dizer uma frase inteira sem cometer pelo menos dois erros de português.
- Quem ela pensa que é? A Debora Secco em início de carreira? Ela grita como se tivesse tendo um orgasmo - comentou Janaína, baixinho.
Eu me controlava para não rir alto, quando me vi tomada por uma gélida presença, e eu podia sentir, com cada parte do meu corpo, que alguém, ou algo, havia passado por mim. Eu olhei para trás, institivamente, e não vi nada. Percebendo a minha agitação, Janaína olhou para mim.
- Você tá bem? - perguntou ela, preocupada.
- Não... é que... Não foi nada, eu só... tive um calafrio, foi só isso - eu disse, tentando disfarçar o quanto eu estava assustada.
Janaína voltou a sua atenção para o palco, enquanto eu olhava em todas as direções, tentando descobrir a origem daquela presença. Foi quando eu olhei para o canto esquerdo do palco, e quase caí para trás quando me deparei com a imagem de Helene, que observava, quase como uma estátua, os alunos que estavam no palco. Eu não conseguia desviar o meu olhar dela, percebi algo líquido deslizar pelo meu rosto, eu estava chorando de pavor. Desejei que Janaína não percebesse, porque eu simplesmente não conseguia evitar aquele medo que ia tomando conta de mim.
- PAI, PERDOAI-VOS... ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM! - gritou Alexandre, que naquele momento encenava a morte de Jesus.
- PÁÁÁÁÁRAAA! - gritou Gabriela, fazendo com que todos no auditório, inclusive eu, voltassem a atenção para ela que naquele ato da peça não tinha fala alguma.
Ela parecia perturbada, e chorava, assim como eu. Quando a garota percebeu que estava cercada pelos olhares de todos no auditório, ela fechou os olhos com força, e correu para a porta, enxugando as lágrimas no rosto. Assustada, a madre superiora tentou alcançar Gabriela, todos na sala pareciam confusos e perguntavam entre si o que havia contecido. Em meio a confusão, eu olhei novamente para o lugar onde Helene estava, e ela havia sumido, o que não me surpreendeu. Quando percebi que o meu rosto estava ensopado, eu o enxuguei rapidamente com as mãos.
- Mas que porra foi essa? Essa garota só pode ser pirada! - disse Janaína.
Olavo se aproximava de nós.
- Que doidêra, hein!? Será que ela tá bem? - disse Olavo.
Eu não conseguia dizer nada, me perguntava se fora somente uma coincidência o surto de Gabriela e a aparição de Helene.
- Talvez ela seja muito tímida - supôs Janaína.
- Ou então tava doidona... A Barbara e o Jesus Cristo Superstar lá, tavam viajando legal, eu tenho certeza! Talvez ela também tenha entrado na jogada - supôs Olavo.
A madre superiora entrou na sala feito um foguete.
- TODOS PARA A SALA, AGORA! E ESPEREM PELO PRÓXIMO PROFESSOR... EM SILÊNCIO! - gritou Amélia, parecendo nervosa, e saindo do auditório, em seguida.
Todos se apressaram em direção a porta do auditório, e em instantes a enorme sala estava completamente vazia. Na nossa sala de aula não se falava em outra coisa que não fosse "o surto de Gabriela", até mesmo quando o professor Fernando começou a sua aula sobre a tabela periódica, os coxixos sobre o corrido ainda eram audíveis por toda a sala, e assim foi durante as três últimas aulas daquele dia.
Gabriela só foi se juntar à turma no refeitório, onde todos jantavam, e acompanhada da madre superiora, sentou-se em uma mesa solitária, nos fundos do salão. Claro que todos olhavam para ela, seja com curiosidade ou com repulsa, ou com os dois. Durante todo o jantar eu não parei de pensar em Olívia, meu único desejo era correr até a biblioteca e contar a ela, detalhadamente, tudo o que acontecera no auditório. Mas não seria possível, uma vez que a irmã Joana vigiava a todos no refeitório. Com a cabeça lotada de perguntas, eu enfiei a minha cara no travesseiro, depois de ter conversado com Ína por alguns minutos.
Novamente fui dormir pensando na misteriosa Helene, e em como parecia ter virado parte da minha rotina dar de cara com a branquela dos assustadores olhos verdes. Olívia me dissera que a missão de alguém que é um elo, é ajudar espíritos como Helene a encontrarem a paz... Mas alguma coisa me dizia que paz era a última coisa que interessária à Helene. Eu teria que descobrir a razão para Helene ainda não ter alcançado essa tal paz? E se essa fosse a resposta, como eu poderia ajudá-la se não era capaz de nem sequer pensar nela sem ficar apavorada, quanto mais tentar aproximação, e até uma conversa. Eu poderia não ter a resposta para nem uma dessas perguntas, mas de uma coisa eu tinha certeza; eu ainda veria Helene, ou até outros fantasmas, muitas vezes, e para não surtar de vez só me restava uma única saída, como dissera Olívia; eu teria que aceitar o que eu sou, tentar fugir não seria sensato, não teria outra escolha, se não, adaptar-me às frequentes aparições e àos caláfrios que indicavam a proximidade de algo não vivo. Teria que que me adaptar, para não enlouquecer. Chegando a essa conclusão, eu finalmente pegara no sono, sono esse que não duraria muito tempo, pois o mesmo frio que me envolvera no auditório, me fez acordar no meio da noite. Um vulto negro viera acompanhado da tal sensação gélida que tomou conta do meu corpo, eu pude sentir o vento ser cortado por quem quer que tivesse passado na minha frente. E não tive coragem para fazer nada além de me envolver completamente pelo cobertor e novamente chorar de medo. Passados alguns minutos, a total ausência da sensação me fizera ter certeza de que não havia mais ninguém no dormitório, além de mim e das meninas da escola, então eu me deixei envolver pelo sono frágil, para ser novamente despertada, algum tempo depois, mas desta vez eu não fora a única a acordar, e não fora um frio anormal tomando conta do meu corpo que me fizera pular da cama, assim como Janaína, e outras dez meninas ou mais no dormitório, mas sim um grito, um grito tão horrível e intenso que parecia ter tomado todo o colégio, um grito de desespero, que até hoje me vem à cabeça através de pesadelos e flashes de memória aterradores que eu daria qualquer coisa para poder esquecer de uma vez por todas. Claro que ninguém teve coragem de se levantar da cama. Ficamos paradas olhando umas para as outras, e era difícil dizer quem era a mais apavorada de todas nós.
- O que foi isso? - perguntou Janaína, ofegante.
- Um grito - eu respondi, indo em direção à porta do dormitório, seguida pelas outras garotas.
Ao passar pelas camas de Barbara e Gabriela, eu gelei ao perceber que estavam vazias. Lentamente eu abri a porta do dormitório e coloquei a cabeça para fora, dando uma espiada no corredor, a madre superiora vinha correndo em nossa direção, acompanhada pelo padre Jonas.
- Pelo amor de Deus, o que houve? - perguntou o padre Jonas, desesperado.
- Nós ouvimos um grito... - completou a madre superiora.
- SANGUEEEEE! - gritou alguém, de dentro do banheiro feminino.
Fiquem todas aqui! - ordenou a madre superiora, olhando para mim e para as outras garotas que tentavam sair do dormitório, e correndo em direção ao banheiro, o padre Jonas logo atrás.
No outro lado do corredor, os meninos também estavam acordados, Olavo veio em nossa direção, usando um pijama azul bebê, e parecendo muito assustado.
- O que houve? - perguntou, agitado.
- Eu não sei, mas ninguém vai me impedir de descobrir! - eu disse, saindo de dentro do dormitório, claro, seguida por uma multidão de alunos curiosos.
Na entrada do banheiro feminino, eu ouvi mais gritos.
- Sangueee, SANGUEEE, ISSO É SANGUEE! Isso é sangue!... - repetia Gabriela, aos berros, enquanto esperneava nos braços do padre Jonas e da madre superiora, que assim como eu e os outros alunos que conseguiram entar no banheiro, olhavam amedrontados para a poça de sangue que havia na última pia, e que cobria quase todo o chão, o espelho sobre a pia estava quebrado e também banhado em sangue, na parede viam-se marcas de mãos avermelhadas, e o cheiro de sangue dominava todo o lugar. Gabriela, porém, estava perfeitamente limpa, não havia uma única mancha vermelha em seu corpo, ou em sua camisola.
- Calma querida... - dizia a madre superiora, tentando acalmar a garota que chorava e tremia no chão.
- Meu anjo... você pode, em nome de Deus, nos explicar o que houve aqui? - perguntou o padre Jonas, ignorando o estado de choque em que Gabriela se encontrava.
- Bar... Barb... Barbara, Barbara... - repetia Gabriela.
- Barbara... Barbara Regina? Vocês estavam juntas? - perguntou a madre superiora.
Gabriela só balançou a cabeça, indicando que "sim".
- BARBARA!? - gritou a madre superiora - BARBARA REGINA!? -e ela repetiu milhares de vezes, até começar a chorar - Meu Deus... - sussurrava a madre superiora, aos prantos.
Barbara não apareceria naquela noite. Não havia sinal de Barbara Regina em lugar algum em toda a escola.