segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Capítulo 16 - Refugium



Olavo estava sentado em um banco de pedra, próximo ao bosque da escola, quando eu e Janaína nos aproximávamos para falar com ele. O dia estava particularmente lindo, o sol brilhava como nunca, e sua luz banhava as folhas das árvores do bosque, criando um efeito mágico de se olhar. Janaína estava muito nervosa, mas ela foi a primeira a falar com o amigo.
- Oi - ela disse, timidamente.
- Oi... - Lavinho respondeu, sem olhar em nossa direção.
Eu apertei forte a mão de Janaína, encorajando-a para continuar a falar.
- Será que... você poderia perdoar uma amiga que falou muita merda, foi completamente cabeça dura com você, e que se arrepende muito do que fez?
Olavo não respondeu nada, só se levantou do banco, e nos abraçou, tão forte, que nada mais precisou ser dito...
- Meus pais vão se separar - ele disse baixinho, enquanto nos abraçava, e eu percebi, com uma imensa dor no meu coração, que ele chorava. Ficamos abraçados por uns minutos, como se compartilhássemos a mesma dor.

Eu olhava para Leonardo, sentado sobre a a minha cama, obervando concentrado a paisagem além da janela do meu quarto. Por um momento eu hesitei em chamar a sua atenção, queria observá-lo ali, quietinho, absorto em seus próprios pensamentos, e tão lindo, como sempre fora. Mas ele percebeu a minha presença, e lançando um sorriso que me desmontou em mil pedaços, ele veio em minha direção.
- Oi - ele disse, muito próximo a mim. O frio que emanava dele já penetrava cada parte do meu corpo.
- Oi... - eu disse, sem olhar para ele. Tentava encontrar coragem para me desculpar pela maneira fria com que eu vinha tratando ele - Eu queria que você me desculpasse...
- Pelo quê? - ele perguntou, serenamente.
- Eu tenho sido uma idiota desde... Eu não tenho te tratado bem, e...
- Você não precisa se desculpar por nada... - ele disse, beijando levemente os meus lábios, em seguida - Eu tenho sido muito egoísta, esse tempo todo, se alguém tem que se desculpar aqui, sou eu...
- Não, Léo...
- Eu tenho sido um egoísta, te impedindo de usar o seu dom para ajudar outras pessoas, e eu queria te dizer que... eu sinto muito orgulho de você por ter tentado ajudar a Gabriela...
Eu senti as lágrimas descerem pelo meu rosto.
- Eu não consegui salvá-la...
- Mas eu tenho certeza que você fez tudo o que estava ao seu alcance... Droga! Queria tanto poder te dar um abraço - ele disse, parecendo realmente muito triste por não poder me consolar mais.
Resolvi tentar parar de chorar, para diminuir a sua angústia.
- Você tem razão... Obrigada por tudo, Léo, e mais uma vez... Me desculpa... - eu disse, tentando ao máximo esconder dele, o quanto eu ainda me sentia culpada pelo fim de Gabriela - Eu vou tomar um banho - eu disse, ainda predendo o choro, deixando Leonardo com uma expressão triste em seu rosto, próximo à janela do meu quarto.
Com o tempo, eu decidi que aquela era uma culpa que eu estava condenada a carregar sozinha, em silêncio, pelo resto da minha vida.

Minha mãe se preparava para uma viagem ao Nordeste, onde ela iria visitar a minha avó, e sua mãe, a simpática dona Angélica, naquele sábado. Depois de ter preparado uma mala para dois dias, ela foi ligar para o meu pai, que deveria vir me buscar para passar o fim de semana com ele...
- Já se passaram dois meses desde a última vez em que ela te viu[...] Não! Não vem com esse papo de trabalho[...] E desde quando essa VAGABUNDA se tornou mais importante pra você do que a sua própria filha?[...] quer saber!? VAI SE FUDER, MÁRIO! Eu realmente espero que quando você tiver um filhote com essa cadela, ele receba toda a atenção que uma criança merece receber do pai. Não! Espera! Pra falar a verdade: EU NÃO DOU A MÍNIMA PRA VOCÊ OU PRA QUALQUER ABERRAÇÃO QUE ESSA VADIA PARIR!
Olga enfiou o tefone de volta no gancho, e por um momento eu pensei que ela havia quebrado o objeto. Mamãe respirou fundo, parecia estar pocessa de raiva. Depois de um tempo, ela voltou-se para mim, e tentando aparentar o máximo de serenidade, disse...
- Querida... Eu acho que você vai ter que ficar sozinha durante esse fim de semana... Mas não se preocupe, eu vou deixar dinheiro pra você comer fora e... vou tentar voltar o mais rápido possível no domingo, ok!?
Acho que nem pessoas que ganham na mega-sena ficam tão felizes como eu fiquei ao ouvir aquelas palavras. Eu nunca tivera a chance de ficar sozinha em casa por tanto tempo, e tal oportunidade me dera a idéia de chamar Olavo e Janaína para uma "festa do pijama". Sim! O nosso conceito de "festa do pijama" era muito diferente do que as pessoas estão acostumadas. Por exemplo; esse lance de ser uma coisa só de meninas não se aplicava à festa do pijama idealizada por mim, Olavo, Leonardo e Janaína; dormir estava fora de cogitação, e ao invés de leitinho morno com chocolate em pó, nós bebiamos vodka com refrigerante. Claro que depois de dois copos da bebida, todos, principalmente Janaína, se mostravam um pouco mais, como eu posso dizer?... transparentes... é, acho que é esssa a palavra certa: "transparentes"...
- Ok, ok... querem saber? Não tem nada de nojento nisso... - começou Janaína, virando mais um copo, o terceiro dela naquela noite, em meio às nossas gargalhadas - Eu... já fiz sexo oral no meu primo...
- Safada! - eu disse em tom de brincadeira.
- Huuum, a conversa tá ficando interessante - comentou Lavinho, nos fazendo rir ainda mais.
- Ah, gente... é algo muito normal, e eu não me arrependo de ter feito...
- Mas... sei lá, é um pênis, Ína, na sua boca... pênis são nojentos... - eu dizia, fazendo cara de nojo.
- Concordo! - exclamou Olavo.
- Quer dizer que você nunca fez um boquete no Léo? - perguntou Janaína, e todos nós rolamos pela minha cama, rindo sem sabermos exatamente do quê.
- Não, claro que não... - eu olhei para Leonardo, que nos observava, também aos risos, próximo à porta do meu quarto. Ele me deu um sorriso, pronunciando a palavra "mentirosa", labialmente. Eu dei outro sorriso, e voltei para a conversa com Olavo e Janaína.
- Não foi o que eu ouvi... - comentou Janaína, ainda rindo.
- Eu também já fiz sexo oral em uma prima minha, mas... ela pediu pra parar porque tava fazendo cócegas - comentou Olavo. A sua voz já estava afetada pela bebida.
- Alguém precisa te ensinar a fazer sexo oral, amigo... - disse Janaína, começando a rir de Olavo.
Eu exagerei tanto na risada dessa vez, que acabei caindo da cama, fazendo Olavo e Janaína quase sufocarem de tanto rir.
Quando a bebida nos derrubou, ficamos deitados os três em minha cama, olhando o sol nascer através da janela, ainda balbuciando algumas coisas sem o menor sentido, e rindo a toa. Depois que Janaína pegou no sono e começou a babar no meu braço, estávamos somente eu e Lavinho acordados, eu procurava por Leonardo no quarto, mas não o via em lugar algum.
- Você se lembra da última vez que bebemos juntos? - perguntou Lavinho, que estava deitado ao meu lado, a minha cama não era tão grande, por isso nós três tivemos que ficar muito apertados.
- Acho que sim, foi... Na casa do Léo, quando os pais dele viajaram pra comemorar o aniversário de casamento, ou algo do tipo... - eu dei uma risada ao me lembrar daquele dia - Você lembra que a Janaína tentava me beijar o tempo todo, e... - outra risada - eu tava tão de saco cheio que peguei ela e tasquei um beijo, eu mesma... - nós dois começamos a rir juntos - daí ela olhou pra mim com uma cara super estranha e disse: "Carol... Eu te acho super gata e tal, mas... eu e você nunca vamos ser nada além de grandes amigas" - mais risos - Tipo, ela que tava louca querendo me beijar e quando eu finalmente dou um beijo nela... - nós rimos por alguns segundos, e depois paramos, para recuperar o fôlego, voltando a admirar o nascer do sol.
- Eu sinto falta dele... - disse Lavinho, com um olhar distante, para além da janela, e eu sabia que ele estava falando do Léo.
A amizade de Leonardo e Olavo, certamente, era algo muito forte e que ia além da minha capacidade de imaginar o quanto. Eles moravam na mesma rua, desde pequenos, cresceram juntos, e eram tão inseparáveis que a mãe de Leonardo foi obrigada a matricular o filho na mesma escola que o amigo.
- Eu posso imaginar... - eu disse, olhando para o meu melhor amigo. Seus olhos começavam a lacrimejar.
- Quando os meus pais tiveram a primeira briga séria, tipo... coisas quebrando pela casa, e tal... O Léo apareceu no meu quarto, dizendo que queria me tirar de lá... Ele entrou escondido dos meus pais, acredita?... A gente saiu de casa correndo e fomos jogar bola, na quadra da rua... Eu dormi na casa dele aquela noite, claro que foi o primeiro lugar pra onde a minha mãe ligou quando deu pela minha falta... A mãe do Léo tentou acalmá-la, e a convenceu de me deixar passar a noite lá... Claro que aquilo não tornou as coisas mais fáceis, quando eu voltei pra casa... Mas significou muito pra mim, sabe?... A partir daquela noite eu me convenci de que nunca iria ter outra amizade que nem a do Léo... Não é o tipo de coisa que se encontra facilmente, sabe?... - disse Olavo, lutando contra a própria vontade de chorar.
Eu dei um beijo em seu rosto...
- Eu sei... - eu disse, olhando-o fixamente.
Olavo me encarou de volta, seu olhar ainda parecia muito triste. Nós ficamos nos admirando por alguns segundos, e quando a sua expressão mudou, eu me lembrei do possível interesse que o meu melhor amigo tinha por mim, o que me fez desviar o olhar, rapidamente, pretendendo não causar uma falsa impressão, caso ele estivesse realmente nutrindo algo mais forte que um sentimento de amizade por mim.
- Eu... vou dormir no sofá... - eu disse.
- Não, por favor, a cama é sua... - disse Olavo, parecendo envergonhado.
- Não, Lavinho, por favor... Fica aqui, eu... não consigo dividir a cama, frescura minha, fica à vontade, tá!? - eu disse, me retirando rapidamente do quarto.
Eu nunca havia pensado em Lavinho como algo além de um amigo, e começar a pensar nisso me assustava de um jeito que me forçava a mantê-lo o mais longe possível de mim. Eu nunca soube lidar muito bem com os meus próprios sentimentos, na maioria das vezes, tenho muito medo deles, principalmente daqueles que eu não consigo controlar.
Eu me joguei no sofá, com a cabeça enterrada em um dos travesseiros, para sufocar uma estranha vontade de chorar, "talvez seja a bebida!" - pensei - "talvez você esteja se apaixonando pelo seu melhor amigo" - pensei novamente, e quando menos percebi, estava encharcando o travesseiro com as minhas lágrimas - "nunca mais eu ponho uma gota de bebida alcoólica na boca" - eu pensei, começando a rir da minha própria mentira, caindo no sono, repentinamente.
Na manhã seguinte, eu fui a primeira a despertar, minha cabeça latejava e o meu corpo inteiro parecia prostestar pelos exageros da noite passada. Depois de me espreguiçar, eu me arrastei feito uma morta-viva até a cozinha, consciente de que teria que preparar um café da manhã para três. Eu dei uma olhada para o fogão, e pensei: "aaah, foda-se! Eu não vou preparar esse café sozinha". Subi até o meu quarto, e chegando lá, pulei em cima de Olavo e Janaína, que não gostaram nenhum pouco daquilo...
- Porra, Carol! Tá maluca!? Tem medo de morrer, não!? Nem a minha mãe é louca de me acordar quando eu tô de ressaca... - Protestou, Janaína, me surrando com um dos travesseiros da cama, enquanto Olavo fazia o mesmo com o outro travesseiro.
- Ah, gente, eu fui até a cozinha pra preparar o café da manhã e pensei: "Eu não vou ter toda essa diversão sozinha. Vou chamar meus dois melhores amigos para me ajudarem"...
- É? Engraçadinha! Nós somos visitas, você deveria trazer o nosso café da manhã em uma bandeja... - começou, Lavinho.
- Cala a boca que "visitas", aqui em casa, vocês dois não são mais faz tempo, seus folgados! - eu puxei o edredom com toda a força que pude, fazendo Olavo e Janaína cairem no chão.
Eu olhei para o lado, e vi Leonardo, que acompanhava toda a cena, rindo. Claro que eu também não resisti e comecei a rir. No chão, Olavo e Janaína me xingavam, e soltavam altas gargalhadas ao mesmo tempo, acompanhadas de gemidos de dor, devido a pequena queda. Inesperadamente, eles se levantaram e começaram a correr atrás de mim pela casa inteira, querendo vingança.
- Volta aqui, Carolsinha! - dizia Olavo, enquanto me perseguia na sala da casa.
- Eu quero ver se você vai rir quando eu te pegar! - disse Janaína, tentando me alcançar.
Quando Olavo conseguiu se aproximar de mim, me agarrou pela cintura, e me jogou no sofá. Os dois começaram a fazer cócegas em mim, até eu quase fazer xixi na roupa.
Na cozinha, nós preparamos três mistos quentes, e Janaína fez o café dela, que eu e Olavo tanto bajulávamos. Quando tudo estava posto na mesa, eu corri para a sala e coloquei o primeiro albúm do Kid Abelha para tocar.
- Caraaaalho, esse café tá muito bom, Ína! - comentou Olavo.
- Muito foda! - eu disse, de boca cheia.
- E vocês são dois puxa-sacos - disse Janaína.
Leonardo nos observava, dessa vez aparentando tristeza. Fiquei preocupada com ele, mas decidi abordá-lo para uma conversa, depois do café da manhã.
- Nossa, tá fazendo muito frio aqui, não acham? - comentou Olavo.
Eu olhei para Leonardo, sabendo que a presença dele era a razão para o frio constante.
- É verdade - concordou Janaína, tentando aquecer os braços com as mãos.
- Eu não tô sentindo, vocês devem estar doentes, ou sei lá... Me passa o café, Ína - eu disse, tentando mudar o foco da conversa, e quando olhei novamente para onde Leonardo estava, percebi que ele havia sumido.
Quando a minha mãe telefonou, por volta das dez da manhã, avisando que estava voltando para casa, Olavo e Janaína começaram a se preparar para irem embora. De onze horas eu os deixei na parada de ônibus mais próxima, e voltei sozinha para casa, ansiosa para conversar com Leonardo. Assim que cheguei, fui direto para o meu quarto, onde Leonardo estava na janela, de costas para mim.
- Você tá legal? - perguntei, me aproximando dele.
- Tô sim... Não precisa se preocupar - ele respondeu, permanecendo de costas.
- Você parecia meio triste na cozinha... Foi uma má idéia ter trazido o Lavinho e a Ína pra cá? - perguntei.
- Claro que não! - ele disse, firmemente, voltando-se para mim - É só que... Ver vocês três juntos, se divertindo como a gente costumava fazer... Sei lá... eu fiquei triste por não poder fazer parte da vida de vocês...
- Droga! Eu fui muito egoista, eu deveria saber que... - comecei.
- Não, Amallya! Foi uma ótima idéia trazer os dois aqui. Ou você acha que eu não gostei de rever meus melhores amigos? - ele me repreendeu, me deixando envergonhada por ter pensado que a presença de Olavo e Janaína pudesse ter deixado Leonardo triste - É só que... Eu sinto falta de realmente estar com vocês, só isso... Você me entende? - ele me perguntou, tentando disfarçar a tristeza em seu olhar, provavelmente para não me preocupar mais.
- Eu entendo, me desculpa...
- Não precisa se desculpar, eu fiquei muito feliz em ver que vocês estavam felizes, isso basta pra mim - ele me beijou, como que tentando encerrar aquela conversa. Eu obedeci a seu pedido silencioso, e não não toquei mais no assunto.

Na segunda feira pela manhã, eu estava arrumada para ir a escola, ainda um pouco cansada por não ter dormido muito no fim de semana. Leonardo me observava, distraido, arrumar o material escolar.
- Vou indo... - eu disse, colocando a mochila nas costas - A gente se vê no sábado.
- Não se mete em encranca... ou, pelo menos tenta não se meter em encrenca, sei lá... - ele disse, esboçando um leve sorriso.
Eu me aproximei dele, e beijei sua boca, rapidamente, me deixando ser tomada pelo frio de sua aura e lábios.
- Eu prometo que vou fazer o meu melhor... Enquanto isso, tenta relaxar, ok!? - eu disse, começando a me retirar do quarto...
- Carol...? - disse Léo, me fazendo parar na porta - Eu te amo - ele disse, com um olhar um tanto apreensivo, quase como se estivesse dizendo "por favor, não vá". Eu controlei uma inexplicável vontade de chorar, e respondi...
- Eu também te amo.
Me retirei, abandonando o seu olhar desolado, com uma estranha sensação tomando conta de mim, algo que me alertava baixinho para voltar para dentro do quarto, trancar a porta, e nunca mais sair... Ficar para sempre envolvida pelo frio que emanava de Leonardo, e vigiada pelo seu olhar misterioso e acolhedor.
- CORRE, AMALLYA! OLHA A HORA! - gritou a minha mãe, pontuando a frase com uma longa buzinada do carro.
Eu tentei, em vão, calar aquele alerta que se repetia em minha mente; "Não vá, não entre naquele carro, não ponha os pés naquela escola...", e uma vez dentro do carro, eu olhei para a janela do meu quarto, a procura de Leonardo, querendo admirar o seu olhar mais uma vez (uma última vez?), e para a minha total angustia, ele não estava lá.

Na escola, a primeira coisa sobre a qual eu, Olavo e Janaína conversamos foi a nossa noite de sábado, ou pelo menos o que a gente conseguia lembrar dela, no caso de Janaína: Nada. Eu e Olavo demos muitas risadas tentando fazê-la se lembrar de uma certa confissão que ela fizera, sob o efeito de três copos de Vodka com refrigerante, envolvendo sexo oral e um certo primo dela.
- Mentirosos! Como é que vocês dois tem a coragem de insinuar que eu fiz um boquete no meu primo!? - protestou Janaína, e seu sorriso denunciava que nem a própria estava botando fé no que dizia.
- Engraçado, há um dia atrás você estava se gabando do quanto era experiente nesse departamento - disse Olavo, me fazendo quase chorar de tanto rir.

Durante o intervalo, eu e Janaína nos separamos de Olavo no caminho para o refeitório, e entramos no banheiro feminino do térreo. Eu fazia xixi, enquanto Janaína trocava o absorvente, na cabine ao lado da minha. Nós saímos quase ao mesmo tempo, e ficamos de frente ao espelho; eu lavando as mãos e o rosto, e Janaína arrumando o cabelo.
- Droga! A minha menstruação tinha que chegar em plena semana de provas!? É muita felicidade pra uma pessoa só, não sei se eu vou aguentar! - disse Janaína, sarcasticamente, enquanto arrumava a sua franja.
- Nem me fale, a minha tá quase chegando também... - eu parei, subtamente, ao perceber que havia mais alguém no banheiro.
Pelo enorme espelho à nossa frente, eu pude ver a minha imagem, a de Janaína, e a de Helene, escorada, calmamente, na porta do banheiro. Eu sufoquei um grito de susto, e me voltei rapidamente para a porta, onde não havia ninguém.
- O que foi, Carol? - perguntou Janaína, preocupada.
- Nada... - eu disse, surpresa, ao encarar a porta do banheiro - Eu só... Não foi nada.
"Ótimo! Ficar louca seria o ponto máximo de um ano totalmente incrível"- pensei, começando a ficar preocupada com a possibilidade de estar perdendo a cabeça, ou pior... de realmente ter visto a Helene naquele banheiro.
- Tem certeza? - perguntou Janaína, olhando na mesma direção em que eu olhava, paralisada, como se a porta tivesse me hipnotizado.
- Tenho, vamos só... sair daqui, ok!? - eu pedi, e Janaína me acompanhou para fora do banheiro, parecendo realmente muito precocupada.
No caminho para o refeitório, eu tentava convencer a mim mesma de que aquilo não passara de uma ilusão, não fazia sentido a Helene estar de volta, com que propósito? O que ela estaria querendo dessa vez? Matar a filha de alguém que, provavelmente, infernizou a vida dela durante a adolescência, não teria sido o bastante? Era como ter voltado ao início do ano, e a todas as perguntas que tanto me assombraram a respeito das intenções de Helene.
Só consegui parar de pensar na Helene quando a irmã Joana colocou a prova de matemática na minha frente, e ainda assim eu tive que me esforçar um pouquinho para me concentrar em números e cálculos, ao invés de em espíritos vingativos.
Em meia hora de prova, eu não conseguira responder nada, a minha mente estava totalmente voltada para a aparição de Helene. Eu tinha medo de vê-la a qualquer momento, na minha frente, perguntando se eu não sentira saudades. E foi quase o que aconteceu. Eu tirei a minha atenção da prova por um instante, e olhei em direção a porta da sala, de onde Helene me observava, através da tela de vidro, com o mesmo olhar esnobe de sempre. Eu olhava fixamente para ela, e de repente, tudo em volta parecia ter sumido, ou não ter significado algum, a única coisa que existia era aquele fantasma atrás da porta, me observando, quase como se dissesse: "Pensou que tinha se livrado de mim?... Vem cá, Carol... eu senti tanto a sua falta"...
- Amallya!? - disse a irmã Joana, chamando a minha atenção. Eu pude sentir, envergonhada, os meus olhos lacrimejando - Acredito que a sua atenção deveria estar voltada para a SUA prova, não concorda!? - ela disse, com um olhar fulminante.
Eu quase enterrei a minha cara na mesa, me esforçando para não olhar novamente para a tela de vidro na porta da sala. Tentei ao máximo me concentrar na prova, mas a imagem de Helene não saia da minha cabeça, logo eu só pensava em responder as questões o mais rápido possível, e correr para a biblioteca. Eu precisava avisar Olívia sobre a possível volta de Helene. Depois que o som da sirene anunciou que já se passara uma hora desde o início da prova, eu finalmente pude entregá-la à irmã Joana e sair correndo de dentro da sala. Uma vez no corredor, eu me surpreendi com a imagem de Helene, que para o meu desespero, estava ao lado da escada que me levaria para o andar da biblioteca, como se estivesse vigiando a passagem.
Ela olhava para mim de maneira desafiadora, eu tentei não demonstrar o meu medo, e continuei andando até a escada, sem desviar o olhar do imponente espírito. Inconscientemente, eu apressei o passo quando comecei a subir a escada, me odiando por ter dado esse gostinho a ela.
- Mande lembranças pra Olívia... - disse Helene.
O meu sangue ferveu, e eu parei subitamente, me voltando para ela, que para a minha total surpresa, sumira do pé da escada. Eu engoli em seco, e continuei subindo os degraus, o mais rápido que pude.
Eu abri a porta da biblioteca, e a minha expressão pareceu ter assustado Olívia, que se levantou rapidamente do birô, e veio em minha direção. Eu estava ofegante, e suava muito.
- Olívia... - comecei, parando para respirar.
- O que houve, menina? Parece que viu um... - começou ela.
- Não! Essa piadinha eu não aguento! Nem começa! - eu disse, com todo o fôlego que eu consegui acumular, desabando na cadeira em frente ao birô de Olívia. Ela alisava o meu cabelo, tentando me acalmar.
- O que aconteceu? - perguntou ela, preocupada.
- Eu vi... - comecei, parando subitamente ao ver uma foto muito familiar, abandonada sobre o birô de Olívia - O que você tá fazendo com essa foto? - perguntei, um tanto alto demais, pegando a fotografia de anuário da turma do primeiro ano de 1978.
- Fala baixo, sua retardada! Isso aqui ainda é uma biblioteca, esqueceu!? - disse Olívia, passando a puxar o meu cabelo, ao invés de alisá-lo.
- Aaai, Liv! - eu disse, como reação a dor, que não foi tão grande.
- Desculpe... - disse ela, voltando a sentar atrás do birô.
- Qualé a da foto? - perguntei novamente.
Ela respirou fundo, e me olhou séria...
- Essa é a Helene? - ela perguntou, apontando a maldita garota de olhar intimidador, na foto.
- Sim... Mas por que... - eu disse, começando a ficar intrigada com aquela conversa.
- Eu tenho visto ela - disse Olívia, me deixando surpresa e aliviada ao mesmo tempo.
- Graças a Deus... - eu disse - não tô ficando louca...
- Você também tem visto ela?
- Começou hoje... Mas que porra! O que essa psicopata quer dessa vez? - eu me perguntei, atentando para não aumentar o tom da minha voz com a minha raiva.
- Você não consegue pensar em nada...? Ou em alguém...? - insinuou Olívia, com uma expressão super preocupada em seu rosto, inevitavelmente, me fazendo lembrar da minha mãe.
- Puta que pariu! - eu quase berrei, quando me dei conta do que Olívia tentava me dizer - Ela... ela quer à mim!? - eu perguntei, desnecessariamente.
- Você tem que sair dessa escola o mais rápido possível! Inventa aluma coisa pra sua mãe vir te buscar, diz que tá doente, arranja algum problema sério com a madre superiora pra ela te suspender, sei lá... - alertou-me Olívia, seriamente preocupada.
- Não! Eu não posso sair daqui, não agora que a Helene está de volta. Além do mais, você mesma disse que ela não pode fazer mau à alguém como eu... - comecei, tentando me reconfortar.
- Amallya, eu acredito que já deixei bem claro o que pode acontecer se você tentar enfrentar um espírito como a Helene...
- Eu não ligo! - e desta vez eu não liguei para o tom da minha voz, me sentindo envorgonhada depois - Eu não vou deixar ela vencer, Olívia... Não dessa vez! - eu disse, olhando formemente para a amiga à minha frente, e me retirando da biblioteca, feito um furacão.
Olívia ainda tentou me impedir, levantando-se do birô, mas eu fui mais rápida, e saí da biblioteca, apressando-me para o andar inferior.
O andar térreo já estava cheio de alunos que terminaram as suas provas mais cedo. Eu ainda tinha a esperança de dar de cara com a Helene, mais uma vez, e desafiá-la, mas ela não apareceria em um lugar tão cheio de gente... Ou pelo menos era o que eu esperava.
Em meio a multidão de alunos eufóricos, estava o ameaçador olhar, lindamente esverdeado, de Helene. Eu correspondi ao seu olhar com um mais ameaçador ainda, e comecei a caminhar decidida à seu encontro. "Vou te mandar direto pra o inferno, vagabunda!" - eu pensava, enquanto andava em sua direção, esbarrando em alguns alunos no percurso.
Alguém muito alto tirou a minha visão de Helene, por um instante, e quando eu olhei novamente para o fim do corredor, ela não estava mais lá. Eu comecei a olhar em todas as direções, e quando olhei para o meu lado esquerdo, pude vê-la tão próxima de mim, que institivamente, fui forçada a recuar, um pouco amedrontada. Mais pessoas na minha frente, e mais uma vez ela desaparecera. E a maldita ficou repetindo esse ato de sumir e reaparecer em um lugar diferente, até eu começar a ter a angustiante sensação de que ela estava em toda a parte, rindo de mim.
Eu podia ouvir o comentário de alguns alunos, a respeito do meu estado de medo e raiva, ao estar sendo totalmente manipulada por um espírito.
"Ela deve estar maluca, que nem a outra que se matou" - sussurravam vozes desconhecidas e cheias de escárnio.
- "Olha só como ela é estranha! Tá chorando... só pode estar maluca!"
- "Eu sabia que ela ia acabar assim, tava passando muito tempo com a Gabriela antes da garota se matar..."
- "Maluca"
- "Ela tá chorando?"
- "Ela tem que sair da escola! Já basta de gente enlouquecendo aqui!"
Eu reprimi uma extrema vontade de gritar, e saí daquele lugar o mais rápido que pude. Helene estava tentando me enlouquecer, estaria ela tentando fazer comigo o mesmo que fizera com a pobre Gabriela? Mas por que naquele momento? Depois de todos aqueles meses?
Correndo freneticamente, eu atravessei o lobby da escola, me enfiando dentro do bosque, sem saber ao certo para onde estava indo. Muitas coisas assombravam a minha mente naquele momento. Quando eu finalmente dei por mim, estava dentro da igreja no coração do bosque da escola. Me senti segura ali, não sabia o porquê, mas eu simplesmente me senti segura, como em nenhum outro lugar. Não havia ninguém lá, e a igreja estava escura e silenciosa. Eu me sentei em um dos bancos, enxugando as lágrimas em meu rosto, e tentando recuperar o fôlego. Eu admirei a abóbada da igreja, me dando conta de que nunca havia visto nada tão bonito naquela escola. No teto havia um lindo desenho da pomba que representa o espírito santo. O pássaro era enorme e intimidador, parecia estar protegendo as pessoas abaixo dele, de suas asas irradiavam traços dourados. Eu me senti tão em paz, admirando aquela verdadeira obra de arte, que decidi me deitar no banco, encarando a linda imagem na abóbada, me sentindo estranhamente protegida.
- Amallya? - aguém chamava por mim, enquanto me sacudia.
Demorou alguns segundos até eu perceber que se tratava da voz do padre Jonas. Eu me levantei num pulo, sentindo uma chata dor de cabeça, talvez pela posição e o local em que dormira.
- Padre... me desculpa, eu... - comecei, ainda meio atordoada.
- Você não precisa se desculpar por ter pegado no sono dentro da igreja - disse o padre Jonas, me ajudando a levantar do banco.
- Obrigada... - observei que o lugar estava mais escuro - Já anoiteceu? - perguntei surpresa.
- Sim, já passa das seis, e todos estão no refeitório, jantando. Eu te levarei até lá.
Pensei em Olvao e Janaína, que deveriam estar mortos de preocupação, afinal, eu sumira por quase cinco horas. O bosque estava assustadoramente escuro e silencioso naquele momento. Apressei o passo, ao perceber que o padre Jonas se distanciara de mim.
- O que te levou a procurar a igreja, filha? - perguntou o padre Jonas, repentinamente, no momento em que atravessávamos o lobby da escola.
- Eu não sei ao certo... só cheguei lá - respondi, escondendo a parte em que eu estava sendo perseguida por um espírito que, provavelmente, queria me enlouquecer, ou pior...
- Bem... me conforta saber que o seu coração te guiou para um lugar bom... - disse o padre Jonas.
- Com o perdão da palavra, senhor... Assim como as pessoas; nenhum lugar é totalmente bom - eu disse, sem saber ao certo o que me levara a desabafar aquilo, ainda mais com o padre Jonas, que me olhou com repulsa pelo meu comentário.
Ao chegarmos no refeitório, eu avistei rapidamente a mesa onde Olavo e Janaína comiam, e fui até eles, deixando o padre Jonas para trás.
- Oi, gente... - eu disse, me sentando em uma das cadeiras vagas. Havia um terceiro prato esperando por mim na mesa.
- Onde você se meteu, sua retardada? - perguntou Janaína, tomando um gole de suco de laranja, em seguida.
- Você desapareceu depois da prova, e deixou a gente morto de preocupação - completou Lavinho.
- Eu sei, me desculpem... Eu... tava na igreja.
- Tava de detenção? O que foi que você fez? - perguntou Janaína, surpresa.
- Não, eu não tava cumprindo detenção, eu... comecei a caminhar pela escola, depois da prova, fui parar lá, me deitei em um dos bancos e dormi, foi só isso - eu disse, começando a comer, me dando conta do quanto eu estava faminta.
- De todos os lugares para se tirar um cochilo nessa escola você foi escolher logo aquela igreja bolorenta!? Eu só tenho amigo fudido da cabeça mesmo! - comentou Janaína, sem se preocupar em me ofender com o comentário.
- Da próxima vez avisa, pô! A gente ficou precocupado - disse Lavinho, acariciando a minha mão esquerda. Institivamente, eu afastei a minha mão, me arrependo ao ver que Olavo ficara envergonhado.
- Bem, me deculpem se eu sou humana e as vezes preciso de um momento sozinha! Não sabia que precisava da permissão de vocês pra conseguir isso - eu disse, tentando não parecer grosseira.
Olavo e Janaína ficaram em silêncio, e eu pude comer em paz. Devo ter levado menos de dez minutos para tanto, tamanha era a minha fome. Encerrei a minha refeição com um último gole do suco de laranja, e foi nesse mesmo momento que a sirene tocou, e todos no refeitório se levantaram para formar as filas com direção aos dormitórios.
Eu e Janaína nos despedimos de Lavinho, no momento em que as nossas filas se separaram, e eu entrei no dormitório feminino, parando abruptamente na porta do aposento. Eu escutei os gritinhos de reclamação das meninas que estavam atrás de mim mas não dei a miníma, eu não me movi. As garotas atrás de mim me empurravam para poderem entrar, exceto Ína, que permaneceu ao meu lado, preocupada com o meu estado de choque.
- Carol, você tá bem? O que há de errado? Você tá gelada... - comentou ela, ao tocar no meu braço.
Me perguntei se alguém mais sentia o penetrante frio que tomava conta de todo o dormitório. "Ela está aqui!" - eu pensei, com toda a convicção do meu ser, e me apavorei.
- Não foi nada, eu... só fiquei um pouco tonta, acontece - eu disse, tentando acalmar a minha amiga.
- Se quiser eu te levo à enfermaria... - começou Janaína.
- Não, Ína, não é nada, é sério... Não se preocupa - eu disse, acariciando o seu rosto, e pegando na sua mão para continuarmos a andar até as nossas camas, olhando em todas as direções, esperando encontrar Helene em alguma parte do enorme aposento.
Eu vesti a minha camisola curta de alcinha por cima das minhas roupas de baixo, e me deitei, cobrindo o corpo inteiro com o edredom. Janaína ainda parecia preocupada, mas não me perguntou mais nada.
- Boa noite, Ína - eu disse, ficando de costas para ela, tentando evitar qualquer conversa antes de dormir.
- Boa noite - ela disse, indiferente.
Eu queria que Janaína dormisse o mais rápido possível, para que eu pudesse sair do dormitório no meio da noite, e ir ao encontro de Helene. Eu precisava saber o que ela queria de mim. Eu precisava acabar com aquilo de uma vez por todas... o que me atormentava, era não saber como.
Eu fechei os meus olhos com força, sentindo o frio arrepiar cada pêlo do meu corpo. Não intencionava pegar no sono.
...
Eu corria, corria com toda a minha vontade, sentia meu peito e pernas doerem com o esforço, mas eu corria... Corria em meio à uma escuridão sem fim. Não sabia de quem, ou do quê, eu estava fugindo, mas eu fazia isso com toda a minha vontade. Repentinamente, eu cheguei à uma escada, e à alguns degraus abaixo, estava eu, como se tivesse acabado de cair. Como isso era possível?
Eu fiquei encarando aquela figura muito parecida comigo, chorando amedrontada, no fim da escada, como se eu fosse machucá-la. Ainda vislumbrando a minha própria imagem, no alto da escada, fui agarrada por mãos frias como mármore, e senti o meu pescoço ser, violentamente, puxado para trás. Eu olhei fundo no verde penetrante dos olhos de minha caçadora. Helene sorriu deliciada, antes de rasgar a minha garganta com um único golpe de faca...
Eu acordei ofegante, meu corpo e roupa encharcados de suor. Nesse instante, a porta do dormitório fechou-se abruptamente, fazendo um barulho que ecoou por todo o aposento. Eu pude sentir o meu coração tentar escapar do meu peito, com o susto que levara. Ainda um pouco atordoada, me esforcei para ver Janaína na escuridão, e me desesperei ao ver que ela não estava em sua cama. Pensei em Helene, e me dei conta de que o clima no dormitório também mudara, o penetrante frio da morte dera lugar à temperatura ambiente, nem muito fria, nem muito quente.
Eu pulei da cama, e corri em direção à porta do dormitório. Espiando o lado de fora, me deparei com Janaína descendo as escadas para o térreo.
- Janaína!? - eu gritei, sem me preocupar em acordaqr as outras pessoas nos dormitórios.
Ela não respondeu ao meu chamado, e continuou descendo os degraus da escadaria, até sumir de vista. Nesse momento, eu me vi assombrada por imagens de um passado que eu daria tudo para esquecer. Estaria acontecendo tudo de novo? Helene atacara novamente, e desta vez, a vítima escolhida seria a minha melhor amiga? Aquilo precisava acabar, de uma vez por todas. Ela não tinha razão para querer fazer mal algum contra Janaína, a não ser que ela pretendesse me atingir através dela. Decidi não perder mais nenhum segundo me perguntando sobre os planos de Helene, corri em direção à escada, tentando seguir Janaína.
Quando eu cheguei ao térreo, ela já ia muito longe, para além do lobby da escola. Estranhei o fato de a porta principal estar aberta, uma vez que todos os alunos já dormiam, então imaginei que talvez ainda não passasse das onze horas, e que houvessem funcionários cumprindo expediente no Lar.
- JANAÍNA!? - eu gritei mais uma vez, desta vez mais alto, chamando pelo nome da minha melhor amiga, na esperança de que ela me respondesse. Mas ela não respondeu, o que me deu a certeza de que Janaína não comandava mais o seu própio corpo. Atingida pela certeza de que a minha amiga corria grave perigo, eu corri o mais rápido que pude em direção à entrada do colégio. Janaína, por sua vez, também apressou-se.
Cheguei ofegante aos degrais que antecediam a entrada da escola. A única luz que iluminava o pátio frontal do Lar era a da lua, que naquela noite estava minguante, formando um perfeito sorriso no céu, a escuridão parecia, de fato, estar antecedendo algo horripilante. Senti a minha espinha gelar, ao ver que Janaína se precipitara pelo bosque. "Estou caminhando direto para uma armadilha" - pensei, recuando alguns passos nos degraus do lobby. "A sua melhor amiga ainda está lá, e precisa de você". Eu respirei fundo, sentindo o meus pulmões se encherem do gélido ar noturno, e corri em direção ao bosque, sem pensar no que poderia estar me aguardando lá. Eu pisava no chão de terra e folhas secas, sendo guiada pela luz da lua, que penetrava, timidamente, a floresta por entre os galhos das imensas arvores. A escuridão não me permitia ver Janaína, mas eu podia ouvir os seus passos adiante. Ao chegar na igreja, que ficava em uma área mais aberta do bosque, e por isso a luz da lua penetrava com mais intensidade, pude ver Janaína entrando na velha construção. O medo me disse para não dar mais nenhum passo, e voltar para a escola o mais rápido possível, e devo confessar que, por um instante, aquela idéia me pareceu bem tentadora. Mas eu não podia abandonar Janaína. E foi pensando nela que eu tomei coragem para colocar um pé na frente do outro, e continuar caminhando até a igreja.
Eu abri a imensa porta de madeira envelhecida, e entrei. O rangido da porta ecoou gravemente, tamanho era o silêncio do lugar. Em meio à densa escuridão, me esforcei para enxergar o pequeno altar com a imagem de nossa senhora de Aparecida, onde eu sabia que haviam algumas velas,e se eu tivesse sorte; fósforos. Eu dei alguns passos para a direita, e esbarrei no simples altar de madeira, começando a tateá-lo às cegas, encontrando imediatamente um castiçal com uma vela, e para a minha felicidade, uma caixa de fósforos.
Eu acendi a vela de imediato, e vasculhei o lugar com a fraca e amarelada luz que emanava do fogo, procurando por algum sinal de Janaína.
- Janaína!? - eu chamei, sem gritar.
Não houve resposta.
Eu caminhei, cautelosamente, em direção ao altar da igreja, onde havia uma imensa cruz de madeira com a tradicional imagem de Jesus Cristo sobre ela. Foi quando eu ouvi o forte som de algo muito pesado sendo arrastado, cortando violentamente o silêncio, o que me fez virar em direção ao foco do barulho, quase apagando a vela com o movimento brusco que eu fizera. O som viera do confessionário, que ficava atrás de uma cortina vermelho-sangue. A cortina balançara, por efeito do vento, ou porque alguém acabara de movimentá-la. O medo me paralisara. Naquele momento eu desejei não ter entrado na igreja, e até pensei em sair correndo sem olhar para trás, mas era tarde demais, a porta estava muito longe, e algo na escuridão me dizia que seria muito arriscado tentar fugir. Nao vendo outra saida, eu comecei a me mover em direção à cortina que antecedia o confessionário. Eu toquei o tecido plumado da cortina, respirando fundo e abrindo-a, abruptamente. Atrás não havia ninguém, nem nada, além do confessionário. Eu respirei aliviada, e intrigada, ao mesmo tempo. Olhei para trás, procurando pelo menor sinal de vida. Eu já estava recuando, quando olhei para o confessionário uma última vez, e percebi algo muito estranho. De fato, ele havia sido movido, e tal movimento desvendara uma fenda, antes ocultada pelo confessionário. Eu o movi um pouco mais, e aos poucos, uma estreita passagem foi se revelando à minha frente. Eu tampei o nariz ao sentir o desagradável odor que emanava do lugar. Tentei iluminar a passagem secreta com a pouca luz que emanava da chama da vela, mas não servira nem para ter uma noção do tamanho do lugar, que na verdade parecia ser um buraco, pois não havia chão além da passagem, só o breu. Eu ergui a minha visão e me deparei com uma escritura, raspada profundamente na parede acima da passagem, e ao ler a palavra, senti a minha mente ser levada no passado para uma conversa que eu tivera com uma assustada Anita, na biblioteca, e que, até aquele momento, me parecia sem importância. Na conversa, ela me falara sobre um lugar secreto em que Helene e seus dois melhores amigos, Caio e Marcos, costumavam ir durante a noite. O lugar fora descrito por Anita como um "Refúgio" para os três amigos. E não podia ser mera coincidência que a palavra "REFUGIUM" estivesse cravada em uma parede acima de uma passagem oculta, e que parecia não ser visitada por ninguém há anos. Atingida pela repentina descoberta, eu recuei, amedrontada, e ao me virar, me encontrei com o olhar de Janaína, tão próxima de mim que poderia me beijar. Ela sorria, sorria de um jeito que não era comum a ela, mas que me era terrivelmente familiar...
Eu só pude libertar um grito de pavor, antes de ser empurrada para a passagem atrás de mim, sendo tragada pela escuridão em uma curta queda, e perdendo a consciência ao chegar no chão.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Capítulo 15 - Cicatrizes


O sol se escondia atrás de nuvens cinzentas, aos poucos o céu ia tornando-se bucólico, o cheiro peculiar que antecede a chuva começava a penetrar as minha narinas. "Faz mal sentir esse cheiro"; eu pensava. Dona Olga dissera uma vez que era só senti-lo e esperar para pegar uma gripe no outro dia, mas eu não me preocupava com isso.
- Vai chuver - comentou Leonardo, que estava sentado ao meu lado nos batentes que antecediam a porta da minha casa.
- Eu sei... mas não quero entrar agora - eu respondi, descansando a minha cabeça em meus joelhos.
Eu senti o frio de Leonardo penetrar o local da cicatriz no meu braço esquerdo, ele a tocava, tentando me acariciar. Desejei que ele não tivesse feito aquilo, aquela maldita coisa no meu braço não me trazia lembranças das mais felizes. Naquele momento, decidi que nunca mais usaria blusa regata em toda a minha vida.
- Você nunca conversou comigo... sobre essa cicatriz... - comentou ele, me irritando ainda mais.
- Talvez eu simplesmente não queira falar sobre ela... - eu disse, me afastando um pouco dele, e como resultado, parou de me tocar - e eu já te disse tudo o que você precisava saber... vamos mudar de assunto, ou ficar em silêncio... - eu disse, voltando a enterrar a cabeça entre as minhas pernas.
- Me desculpe... eu não queria fazer você se lembrar...
- Mas fez! - eu disse, de forma arrogante, me arrependendo depois.
Percebi que Leonardo se afastava de mim, mas não o impedi, queria mesmo ficar sozinha. Eu olhei para o céu nublado mais uma vez, e fui tomada por uma tristeza indescritível, as primeiras gotas de chuva começavam a tocar a minha pele. Me encostei na porta, evitando ao máximo a chuva. Era novembro, e a cidade já estava em clima de Natal, algumas casas da minha vizinhança já estavam enfeitadas para a data, tudo a minha volta parecia indicar que o tempo passara, e muito, desde o dia em que Gabriela Machado tirara a própria vida na minha frente, mas aquilo ainda parecia tão vivo em minha memória, que era difícil acreditar que acontecera há onze meses. A água da chuva tocava os meus pés, deliciosamente, e por um momento me vi livre dos pensamentos sobre Gabriela, e admirei a chuva. Devo ter ficado ali por mais de meia hora, a chuva, no entanto, durou o resto do dia.

Na escola, as coisas haviam mudado muito desde o suicídio de Gabriela, claro que ela levou a culpa dos crimes cometidos, mas Lúcia Machado sempre defendia a filha, afirmando que , ao contrário do que diziam as autoridades, Gabriela nunca tivera problemas mentais, o que era verdade. A mulher até se atracara com a mãe de Alycia, que aos prantos, acusava a madre superiora de permitir que "psicopatas mirins" se matriculassem no Lar. Alycia não sobrevivera ao ataque fatal de Gabriela, fora encontrada já morta, afogada em seu próprio sangue, no banheiro feminino, o que também garantira mais um processo para a escola por parte da mãe da garota. Mas a pessoa que mais mudara era a madre superiora , a mulher parecia representar perfeitamente a situação pela qual o Lar estava passando, através de suas assombrosas olheiras, as marcas da velhice mais expostas, como feridas de guerra, e seu semblante derrotado. Olga estava menos ativa para manter a ordem no Lar, não visitava mais as salas durante as aulas, não fazia a sua inspeção noturna nos dormitórios, passava o dia inteiro trancada em sua sala, saindo apenas quando a solicitavam para alguma coisa. Os dias do Lar estavam contados, assim que o ano letivo acabasse, o colégio também teria o seu fim, e não havia nada que eu pudesse fazer. "Não conseguiu nem garantir que Helene não fizesse mal a pobre Gabriela, quanto mais salvar o Lar de seu fim, se renda a sua inutilidade, Amallya... Você é um fracasso, sempre foi e sempre será, acostume-se", eu pensava, toda a vez que tentava imaginar uma saida para a atual situação do meu amado colégio. Porém, dentre todas as coisas que mudaram na minha vida desde as tragédias que eu presenciara no Lar, eu nunca poderia imaginar que os meus amigos também seriam uma delas. Janaína estava mais estressada que o normal, e se isolava constantemente, já Olavo parecia me evitar, também começara a fumar mais, o que me fazia aconselhá-lo além do normal, afinal é para isso que os amigos de verdade servem, quando um amigo nosso está fazendo uma burrada consigo mesmo, nós temos que ser um pé no saco para ele.
- Esse é o terceiro que você fuma - comecei.
- E eu não preciso de alguém contando os cigarros que eu fumo, muito obrigado - respondeu ele, dando uma longa tragada para pontuar o seu "foda-se, o pulmão é meu".
- Desculpa por estar preocupada com você...
- "Desculpa por estar precocupada com você"... - desdenhou Janaína - Aaaah! Deixa ele se fuder, Carol! Parece até que é mãe dele... opa! Me desculpe, eu esqueci que a sua mãe não dá a mínima pra você - disse Janaína, começando a falar diretamente com Olavo.
Ele lançou um olhar explosivo e ao mesmo tempo surpreso, para Janaína, como se não a conhecesse, e saiu em direção ao bosque, sem dizer mais nada. Eu e Janaína ficamos sentadas sob a sombra da estátua do espírito santo, olhando uma para a outra.
- O que há de errado com vocês? - perguntei, em uma mistura de espanto e raiva.
- "O que há de errado?", "O que há de errado?" Dá um tempo, Carol! Para de perguntar o que há de errado com as pessoas, e comece a se pergentar o que há de errado com você, pra variar. Saco! - disse Janaína, também me abandonando, correndo em direção ao lobby do colégio.
E eu fiquei sentada ali, me perguntando o que acabara de ter acontecido e o porquê. Alguma coisa estava acontecendo entre Olavo e Janaína, eu conversaria com Lavinho sobre isso, mas não naquele momento. Eu corri para a biblioteca, na esperança de que a companhia de Olívia me acalmasse um pouco. Era incrível, por mais que Olívia não trocasse uma palavra comigo (como as vezes ela fazia quando estava muito ocupada), a simples presença dela me fazia bem.

- Some daqui! - disse Olívia, sem olhar para mim, estava concentrada na leitura de "Christine" de Stephen King.
- Eu gosto de pensar que essa é a sua maneira de dizer que estava com saudades.
- Se isso faz você se sentir melhor... - ela disse, me dando um leve e carinhoso sorriso, eu respondi da mesma forma.
Ficamos em silêncio, olhando uma para a outra por uns dois segundos, quando eu senti que Olívia lia a minha face, me senti invadida, e desviei o olhar.
- Você tá bem?... - perguntou Olívia, começando a ficar preocupada, ela sempre me lembrava a minha mãe quando fazia isso - Ainda se sentindo culpada pelo que aconteceu com a Gabriela? - perguntou, me irritando por ela me conhecer tão bem.
- Acho que é algo com o qual eu vou ter que aprender a lidar...
- Você não podia salvá-la, Carol...
- Mas você disse...
- Que pessoas como nós não precisam se preocupar com espíritos, mas sim eles com a gente, eu sei que disse isso, mas... eu sinto por não ter explicado o quanto pode ser perigoso para você tentar enfrentar um espírito como a Helene...
- Mas eu podia ter tentado... - eu insistia na minha culpa - Eu só não tive coragem...
- Nesse caso não seria coragem, querida, mas sim burrice, existe uma grande diferença entre os dois... Não deixe a culpa te consumir, Amallya, isso só vai fazer mal a você e as pessoas ao seu redor...
- Na verdade, eu acho que isso já tá acontecendo - eu falei, pensando em Olavo e Janaína, e em como os dois andavam estranhos.
- Como assim? - perguntou Olívia.
- Esquece... Deixa eu ficar aqui até o fim do intervalo? - eu pedi, me sentando na cadeira em frente ao birô de Olívia, observando-a segurar o livro que estava lendo.
- Tá... mas não me atrapalha, eu tô em uma parte interessante da história - ela disse, voltando a atenção para o livro.
E eu fiquei lá, com a cabeça deitada sobre o birô, esperando o toque da sirene anunciar o reinício das aulas. Meus penasamentos voltaram-se para Gabriela, e eu não pude evitar a pergunta...
- Olívia...?
Ela suspirou de raiva...
- Que parte de "não me atrapalha" você não entendeu, peste? - ela disse, carinhosamente.
- Se eu tivesse tido coragem de tentar expulsar a Helene do corpo da Gabriela, como você disse que os Elos são capazes de fazer... o que poderia ter acontecido comigo? - perguntei, já temendo a resposta.
Olívia ficou em silêncio, por um momento achei que ela fosse ignorar a pergunta...
- Como eu já disse, Carol... eu receio que você ainda não esteja preparada para isso... mas se você tivesse tentado, provavelmente teria conseguido salvar a Gabriela, e até mesmo expulsar a Helene deste mundo... mas digamos que... você não estaria viva para me contar como conseguiu - ela setenciou, me olhando profundamente, e depois de um certo tempo voltou à leitura.
Naquele momento, eu senti o estranho frio que vinha me assombrando desde o início daquele ano, me tomar pela espinha, não entrei em pânico, no entanto, pois eu já imaginava quem poderia estar atrás de mim...
- Oi, Amallya? - disse Anita, timidamente.
- Oi Anita... - me levantei rapidamente da cadeira, tomada pelo impulso de dar-lhe um abraço, pelo longo tempo em que não nos víamos, me dando conta, instantes depois, do quanto idiota seria se eu tentasse fazer aquilo - Nossa... fazia um tempão que a gente não se falava...
- Não vai dizer que eu estou diferente? - brincou Anita, mostrando um lado brincalhão dela que eu não conhecia. Já me acostumara a vê-la sempre amedrontada, ou enterrada em um livro, mas nunca fazendo piada.
- É... você parece mais morta do que nunca - eu disse, esperando que ela achasse graça, mas não foi o caso. Anita deu um sorriso, meio sem graça.
Olívia me deu um beliscão pela piadinha infeliz, eu sufoquei o grito pela dor, fazendo apenas uma careta.
- E aí, gostou da série? - eu disse tentando, desesperadamente, mudar de assunto.
- Que série? - perguntou Anita, meio perdida.
- Harry Potter... gostou dos livros? - perguntei novamente.
- Sim, eu adorei... Morre muita gente no final, e de morte eu já tô farta, mas valeu a pena ler. A gente pode conversar um instante? - ela perguntou, indicando a última ala de livros da biblioteca.
- Ah... claro! - eu disse, começando a acompanhá-la.
Nós duas fomos em direção a seção de História. A bilioteca parecia estar vazia.
- Eu queria te pedir desculpas - disse Anita, assim que nós chegamos à ala.
- Desculpas...? - eu disse, confusa- Você não tem que se desculpar por nada, Anita...
- Eu poderia ter te falado sobre a Helene antes, é impossível não ter a sensação de que... foi tarde demais...
- Saber a intenção da Helene com a Gabriela há mais tempo, não teria me ajudado a impedi-la de fazer o que fez...
- Mas eu fui tão... covarde...
- Você agiu como qualquer pessoa normal agiria, quando confrontada com lembranças dolorosas, Anita... Eu que te forcei demais, me desculpa... - eu fui interropida pelo som da sirene - Saco! Eu tenho que ir agora, foi ótimo rever você - eu disse, começando a me retirar da biblioteca.
- Mas... Amallya, eu... - começou Anita, parecendo querer me dizer algo.
- Depois eu passo aqui pra pegar meus livros, valeu!? - eu disse, passando direto pelo birô de Olívia, onde ela ainda lia, concentradamente.
- Tchau, Olívia - eu disse, abrindo a porta da biblioteca para sair.
- Boa aula - ela disse, sem parar de ler.
À noite, eu e Janaína não trocamos uma palavra antes de dormir. Eu contemplava a cama vazia de Gabriela Machado, enquanto um filme de memórias que eu daria tudo para esquecer, rodava na minha cabeça, me mantendo acordada por muito, muito tempo. Flashes do dia em que Gabriela Machado tirara a própria vida na minha frente, passaram a me assombrar todas as noites, como Helene costumava fazer. Sim, Helene havia sumido desde o dia da morte de Gabriela, mas era impossível evitar a desagrádavel sensação de que ela estava por perto, me observando na escuridão, por mais que eu não sentisse nada que denunciasse a sua presença.
Aos poucos eu pegava no sono, as lembranças ruins iam desfazendo-se lentamente em minha mente, até tudo se transformar em trevas...
Um grito ofegante me desperta, em plena madrugada. Janaína estava ensopada de suór, e respirava muito rápido. Eu esfreguei os olhos para despertar, e me voltei para ela, preocupada.
- Ína, você tá bem? - perguntei, acariciando o seu ombro.
- Eu... tô sim... foi só... só um pesadelo - ela disse, pressionando o rosto com as mãos.
- E... com o que você sonhou? - perguntei, curiosa.
- Eu... Droga! Não consigo lembrar - ela começou a chorar, e me abraçou subitamente, eu retribuí o abraço, um pouco surpresa.
- Me desculpa... - ela repetia, com o rosto pressionado contra o meu seio - por favor, me desculpa...
- Pelo quê? - perguntei, já imaginando o que poderia ser.
- Eu agi feito uma vaca, hoje cedo, não devia ter dito aquilo pro Lavinho, não sei o que me deu...
- Acontece, Ína... Todos nós fazemos merda, as vezes. Infelizmente, isso é perfeitamente humano - eu disse, beijando a sua testa suada, e fazendo ela olhar para mim - esquece o que aconteceu hoje, ok!?
- Mas... e o Lavinho... Acho que ele ainda tá muito puto comigo... Meu Deus! As coisas que eu disse pra ele... - ela recomeçou a chorar.
- Shhh, calma, calma... Amanhã eu prometo que eu te ajudo a falar com ele, tá bem? Agora, eu vou pegar um pouco de água pra você...
- Não precisa... Fica aqui, por favor... - ela implorou, parecendo realmente amedrontada pela idéia de ficar sozinha.
- Tudo bem, então...
- Você acha que a madre superiora iria nos condenar às chamas do inferno se a gente dormisse abraçadinhas, só hoje? - perguntou ela, fazendo gracinha. Ela voltara a ser a Janaína que eu conhecia.
- Foda-se a madre superiora e o seu preconceito idiota!... Além do mais... eu sempre fui um pouco afim de te dar uns amassos, mesmo - eu disse, entrando na brincadeira, abraçando-a forte.
Ína deu uma risada, e pulou para a minha cama. Nós ficamos abraçadas até o sono chegar, o que não demorou muito. Na manhã do dia seguinte, a irmã Joana nos acordou com uma cara de nojo, nos fazendo jurar, em nome de Deus, que nunca mais faríamos aquilo novamente. A gente fez o que ela mandou, sem levar à sério, quase rindo da cara dela, o que a gente só fez quando ela deu as costas, enfurecida.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - O fim


Antes de sair do banheiro para pedir ajuda, eu olhei uma última vez para onde eu vira Helene, que não estava mais lá.
- Eu... vou procurar ajuda, você vai ficar bem, Gabriela, tente... ficar acordada - eu disse, ainda sem fôlego.
Saí desesperada do banheiro, pensando em encontrar a madre superiora o mais rápido possível.
- AMÉLIA! - eu repetia aos gritos, batendo com força na porta da Direção.
- Pelo sagrado coração de Maria! O que houve, menina? - perguntou a madre superiora, um tanto atordoada, ao abrir a porta.
- A Gabriela... ela tá... no banheiro feminino, ela... ela... precisa de ajuda - eu disse, ofegante.
- Calma, se não daqui a pouco quem vai estar precisando de ajuda é você - ela disse, tentando me acalmar, acariciando o meu ombro - Agora, me leve até ela.
Chegando ao banheiro feminino, a madre superiora soltou um grito de pavor. Ela se agachou próxima a Gabriela, e tocou os cortes em suas mãos, como se estivese tentando escondê-los, e começou a rezar baixinho.
- Meu senhor, perdoai essa pobre alma... - ela começou.
- Sério que você vai esperar os cortes sararem por um milagre divino!? - eu disse, indignada - Chama logo a droga da enfermeira!
- A madre superiora olhou para mim, meio perdida. Imaginei que aquela era a primeira vez que ela lidava com uma situação daquela.
- Chame... Chame a Carmén pra mim, na enfermaria, eu ficarei aqui mantendo ela acordada, VÁ! - ela disse, colocando Gabriela em seu colo, começando a acariciar o seu rosto, conversando com ela, baixinho.
Eu corri até a enfermaria, e acordei Carmén, explicando-a toda a situação. Chegamos o mais rápido possível ao banheiro feminino, onde Gabriela ainda estava consciente. Nós três carregamos a menina ensanguentada nos braços, e a levamos para a enfermaria, ao chegar lá, eu fui mandada de volta ao dormitório, depois que a madre superiora enxugou as minhas lágrimas com as mãos, e tentou me calmar, fechando a porta da enfermaria na minha cara, em seguida, me deixando sozinha no corredor dos dormitórios.
Não consegui dormir. Fiquei enrolada em baixo do meu lençol, a imagem de Helene em minha cabeça, até que a madre superiora entrou no dormitório para nos acordar. ela veio em minha direção e disse baixinho...
- Ela já está bem, e você tem uma história pra me contar - ela disse, me olhando desconfiada.
- A senhora não acha que eu...
- Eu não acho nada, mas você foi a pessoa que a encontrou...
- Ela já havia feito a besteira quando a encontrei, não tenho mais nada pra explicar - encarei a madre superiora de forma desafiadora, ela me lançou um olhar arrependido, e retirou-se sem dizer mais nada.
- O que houve? - perguntou Janaína, preocupada.
- Você não vai acreditar...
Contei toda a história a Janaína e depois a Olavo, no refeitório. Os dois ficaram boquiabertos, ambos comentaram sobre o quanto a madre superiora deve ter ficado desesperada, uma vez que os religiosos possuem uma visão terrível a respeito da tentativa de suicídio, o que, claramente, era o que havia acontecido.
- O que será que a levou a tentar uma coisa dessas, e do jeito que ela tentou...? - questionou, Lavinho, horrorizado.
- Essa garota parece ter muitos problemas, não repararam o jeito dela, ultimamente? Se afastou das amigas, não conversa com ninguém... Talvez sofra de depressão... Uma tia minha tinha isso, tentou se matar várias vezes, de diferentes formas, mas o marido sempre a impedia. Ela teve que ser internada - comentou Janaína.
- Ela precisa se mandar dessa escola o mais rápido possível - pensei alto.
- O quê? - perguntou Lavinho.
- Esquece... eu... volto já! - disse, me levantando rapidamente da cadeira.
- Carol, pra onde você... Puta que pariu! Você vai perder a aula - protestou Janaína.
- Eu volto logo - eu disse, começando a andar em direção a saída do refeitório, tentando me esconder da vigília das irmãs.
Depois de sair do refeitório, subi as escadas até a biblioteca, tomando cuidado para não ser vista por ninguém.

- Você tá louca, Carol!? Isso não é hora de aparecer aqui, você tem aula... - começou Olívia, preocupada.
- Relaxa, e me escuta, Liv! - eu disse, tentando chamar a sua atenção para o que eu estava prestes a relatar - A Gabriela tentou se matar...
- Meu Deus...
- Calma, eu ainda não contei tudo... Ela tentou se matar, e eu acho que a razão foi a Helene... A vagabunda não tá deixando a Gabriela dormir, ela fica sussurrando coisas no ouvido dela...
- Bem, isso é o que espíritos como a Helene fazem, Carol; atormentam pessoas, não tem nada de surpreendente nisso, assim como não há nada que nós duas possamos fazer a respeito... Neste momento, a melhor opção para a Gabriela seria dar o fora dessa escola, e nunca mais pôr os pés aqui - disse Olívia, olhando diretamente para mim, por cima de seu óculos vermelho...
- Eu também pensei nisso, vou tentar conversar com ela o mais rápido possível, isso não pode continuar assim...
- Ela está bem? - perguntou Olívia, preocupada.
- Sim, segundo a madre superiora ela já tá se recuperando...
- Graças a Deus - disse Olívia, aliviada.
- Eu vou indo agora, mas eu volto depois pra conversar com a Anita, tem algo que eu preciso perguntar a ela...
- Tudo bem , agora vai pra aula, menina! - disse Olívia, saindo de trás do birô para me conduzir até a porta da biblioteca.
Claro que o episódio da noite passada ficou passeando pela minha cabeça o dia inteiro. Não consegui prestar atenção em aula nenhuma, todos os meus pensamentos estavam voltados para Helene, e especialmente para Gabiela. Durante a última aula daquele dia, o professor Fernando teve que interromper a sua explicação sobre destilamento, quando a madre superiora entrou na sala, com uma cara de quem estava prestes a anunciar a morte de alguém.
- Com licença, professor... - ela disse, voltando-se para a turma - Boa tarde a todos.
- "Boa tarde" - a turma respondeu em um imperfeito coro.
- Primeiramente eu gostria de dizer o quanto estou triste por ter que comunicar o que eu... o que eu estou prestes a comunicar a todos vocês, mas... - de fato, a madre superiora aparentava ter chorado, mas naquele momento, tantava parecer forte - Bem, isso não vai fazer a miníma diferença, eu acho... - ela olhava para o chão nesse instante, como se procurasse forças para dizer seja lá o que ela estava para dizer - Neste ano de 2010, eu lamento dizer... a nossa escola terá que fechar as suas portas... para sempre...
A turma inteira entrou em povoroza, alguns alunos demonstravam profunda tristeza, outros indignação. Eu, Lavinho e Janaína trocamos olhares, sem saber o que dizermos um ao outro, diante daquela inesperada e aterradora notícia. Chorando, a madre superiora fez um sinal mudo com as mãos, ordenando que todos ficassem em silêncio, quando ela conseguiu fazer a turma se calar completamente, voltou a dizer...
- Devido aos recentes acontecimentos envolvendo alguns alunos... Nós teremos que fechar a instituição... Ninguém será prejudicado, a escola irá funcionar até o final deste ano letivo... Por motivos óbvios, também não será realizada a apresentação de A Paixão de Cristo deste ano... Aqueles pais que já desejarem providenciar a transferência...
Ouvir aquela notícia sobre o Lar, me fazia sentir como se estivessem roubando parte da minha vida. Eu vivera grandes momentos naquela escola, conhecera pessoas que eu jamais esqueceria, e agora tudo isso ia ser tirado de mim. Amélia não diria, mas todos sabiam que a razão para o Lar estar fechando era o desaparecimento de Barbara, provavelmente por meio de uma ação do advogado dos pais da garota, e eu não conseguia tirar a razão dos dois, ninguém poderia imaginar a dor de perder uma filha daquela maneira. Processar as pessoas que deveriam proteger a sua filha, e não o fizeram, era a atitude que qualquer pai ou mãe tomaria.
-... Assim como vocês, a direção da escola também lamenta muito essa notícia... - ela se controlava para não chorar mais, respirou fundo e voltou a falar - Isso é tudo... Obrigada, professor - ela disse, retirando-se rapidamente da sala.
A sala ficou em perfeito silêncio, até mesmo o professor Fernando não conseguiu prosseguir com a aula, e nos liberou mais cedo. Enquanto todos iam para o refeitório depois da aula, eu corri para a enfermaria, depois de ter dito a Lavinho e a Ína, claro. As vezes eu sentia como se os meus dois melhores amigos fossem na verdade meus pais, e eu tivesse que dar satisfação a eles o tempo todo, mas acho que isso é o tipo de coisa que acaba acontecendo nas grandes amizades.
Bati devagar na porta da enfermaria, e logo Carmén veio me atender.
- Pois não, Carol? - ela disse, sorrindo deliciosamente para mim.
- Oi, Carmén... Será que eu poderia ver como a Gabriela está? Eu prometo que vou ser rapida...
- É a Amallya? - gritou Gabriela, do fundo da sala absurdamente branca.
- Sim, querida - respondeu Carmén.
- Deixa ela entrar, Carmén, por favor - disse Gabriela, e devo confessar que aquilo me assustou um pouco.
Totalmente surpreendida, eu entrei quando Carmén me deu passagem, fechando a porta atrás de nós. Eu me aproximei de Gabriela, que estava palida, deitada em uma confortável cama, coberta com lençóis brancos, trajando algo que lembrava uma camisola azul-bebê. Parecia muito cansada, tomava soro, e tinha curativos em seus pulsos, tentei evitar olhá-los.
- Eu volto logo, meu anjo - disse Carmén, dirigindo-se a Gabriela, saindo da enfermaria, em seguida.
- Oi - eu disse, timidamente.
- Oi... Gostou das minhas pulseiras? - ela disse, dando um sorriso, e levantando ambos os braços.
- Bem legais - eu respondi, rindo da piada de humor um tanto negro da menina.
- Você tá bem? - perguntei, me sentando a seu lado na cama.
- Bem melhor... Obrigada por perguntar... Mas você não veio até aqui só pra saber como eu estou... Você tá mais interessada em saber o porquê de eu ter feito essa burrada, estou certa!?
- Se você quiser me contar...
Ela riu, e continuou a falar.
- Minha querida mãe... Eu disse que eu não queria voltar pra essa escola... E ela fez o que sabe fazer de melhor, desde quando eu era uma pirralhinha... Não deu a mínima... Acho que esse lance - ela olhou para os pulsos - foi mais uma tentativa de chamar a atenção dela, sabe? Eu não queria realmente morrer... apesar de a idéia ter parecido bem tentadora quando a maldita voz voltou pra minha cabeça...
- Foi por isso que você saiu correndo da sala, ontem? Você tava ouvindo a Helene?
- Sim... foi a primeira vez que ela fez isso na sala de aula... Eu entrei em pânico, e decidi sair dali, antes que começasse a agir feito uma maluca na frente da turma inteira...
- Algo me diz que eles já te acham uma maluca, de qualquer jeito, então não precisa se precupar quanto a isso - eu disse, conseguindo arrancar um pequeno sorriso do rosto triste e cansado de Gabriela.
Ficamos em silêncio por alguns constrangedores segundos, Gabriela parecia querer me dizer algo, mas eu fui mais rápida...
- Quando precisar de ajuda... - comecei.
- É, você já deixou isso bem claro... Eu procuro você - ela disse, sorrindo timidamente, e parecendo agradecida.
Eu sorri em resposta, e comecei a me retirar da enfermaria...
- Amallya!? - disse Gabriela, me fazendo voltar a atenção para ela - Obrigada... - ela disse, com um tímido olhar de gratidão, o que me deixou muito feliz.
- Se recupera, valeu!? - eu disse, me retirando, em seguida.
A enfermeira já voltava apressada para a sala.

Eu e Janaína conversávamos, deitadas em nossas camas, olhando uma para a outra. Janaína já apresentava os primeiros sinais de sono...
- Eu... (bocejou) Não quero estudar em outro colégio interno dirigido por fanáticos religiosos... eu nunca vou encontrar pessoas tão legais quanto você e o Lavinho, tipo... não é o tipo de coisa que acontece duas vezes, saca!?
- É um pouco cedo pra pensar nisso, não acha? - eu disse, rindo da preocupação de Ína.
- Nós só temos mais um ano juntos...
- Nós não vamos morrer ou coisa do tipo, Ína... A nossa amizade vai continuar com ou sem o Lar - eu tentava tranquilizar a minha melhor amiga, escondendo o quanto eu mesma estava triste com o fim do Lar, não queria contribuir para a tristeza dela.
- Promete? - ela perguntou, fazendo biquinho e me fazendo rir daquela idiotisse.
- Prometo, sua tosca - eu disse, batendo nela com o meu travesseiro.
Não sei exatamente quando nós duas caímos no sono, devo ter dormido por uma meia hora ou menos, quando fui despertada pelo som da porta do dormitório se abrindo, duas pessoas conversavam baixinho, enquanto entravam no quarto. Ainda um pouco atordoada por causa do sono, demorei um pouco para reconhecer as duas vozes...
- Sinto muito, querida, mas é realmente uma emergência... - disse Carmén, parecendo estar se desculpando por algo.
- Tudo bem, eu entendo, Carmén... Muito obrigada por tudo - disse Gabriela, se deitando devagar em sua cama.
- Amanhã eu estarei de volta bem cedo...
- Não acredito que vá precisar mais da sua ajuda, eu já estou me sentindo melhor, sério mesmo.
- Veremos isso amanhã, querida... Durma bem - disse Carmén, dando um beijo na testa de Gabriela, e se retirando do dormitório, em seguida.
Carmén fechou a porta do dormitório, e o lugar foi envolvido pela escuridão novamente. Eu peguei no sono, quase que instantaneamente...
Eu abri os meus olhos para a escuridão do dormitório, aterrorizada. "Não, não, NÃO! De novo não! Não agora!"; eu repetia para mim mesma, enquanto sentia cada parte do meu corpo ser invadida por um frio terrivelmente familiar... Há algum tempo, me acostumara a pensar nele como "o frio da morte". Eu comecei a chorar, me achando uma idiota por isso. Imaginava, aterrorizada, que a qualquer momento Helene iria sussurrar algo em meu ouvido... O frio foi aumentando, eu podia jurar que escutava passos próximos à minha cama. Eu queria sair dali, me sentei na cama, visualizando a porta do dormitório, bem a minha frente... "Vamos... Corra!"...
- Você pode fugir, Carol... mas eu sempre vou te encontrar... SEMPRE - ameaçou a voz feminina, e mais uma vez, a sensação era a de tal frase estar sendo pronunciada muito próxima ao meu ouvido.
Eu sufoquei um grito, e pulei da cama, correndo desesperada até a porta do dormitório, sem me preocupar em evitar fazer barulho. Eu fechei a porta atrás de mim, e uma vez no corredor, corri para o banheiro feminino, e me tranquei na primeira cabine, chorando feito uma criança. Não sabia o que dera em mim. Eu não precisava ter medo da Helene e eu sabia disso, Olívia me garantira isso... Talvez tenha sido a voz... O ódio com certeza dominara aquele espírito, eu podia sentir toda a sua raiva e rancor só de ouvir a sua aterradora voz.
A porta do banheiro se abriu, e eu quase desmaiei de susto, tampei a boca com as mãos, e fiquei aliviada no mesmo instante, ao reconhecer a voz de Alycia...
- Fica aí, caramba! Eu volto já, prometo...
- Deixa eu entrar, qualé o problema? - disse Alexandre, parecendo querer ficar a sós com Alycia no banheiro feminino.
- O problema é que eu não quero... Agora vai me esperar na escada de emergência, ou eu não vou beijar nada... além da sua boca, hoje - Alycia encerrou a conversa, empurrando Alexandre para fora do banheiro feminino.
Eu não queria ser descoberta ali, por sorte Alycia escolheu a cabine ao lado da minha. Ela parecia estar urinando. Depois de dois minutos, saiu da cabine, indo direto para a pia do banheiro e ligando uma das torneiras, lavou as mãos e o rosto. De dentro do box, eu a obeservava por uma brecha da porta. A porta do banheiro rangeu, indicando que alguém mais entrara, seria Alexandre desobecendo a atual namorada? Percebi que não, ao ver a expressão de Alycia, ela parecia irritada e surpresa ao mesmo tempo.
- Você não deveria estar gemendo na sua cama, aberração? - perguntou Alycia, parecendo enojada.
Procurei uma segunda brecha na porta para tentar enxergar a outra pessoa. Me assustei ao ver que era Gabriela. Os curativos nos pulsos haviam sumido, e eu não gostei nenhum pouco disso, os cortes ainda estavam muito abertos, me arrepiei ao vê-los, ela encarava Alycia de forma ameaçadora, não parecia a mesma Gabriela... - Alguém esqueceu de tomar os remédios - murmurou Alycia, começando a se retirar do banheiro, sendo impedida por Gabriela, que esbarrou nela de propósito, parecendo querer dizer algo, ela apertava o braço de Alycia com força - Eu juro que se você não me largar agora... - começou Alycia, em tom de ameaça.
Gabriela ergueu o seu olhar para Alycia, e eu me assustei ao perceber que seus olhos estavam diferentes, o castanho habitual deles parecia ter sido penetrado por um branco espectral, o mesmo parecia ter calado Alycia...
- Transar com o namorado da melhor amiga recém-falescida, antes mesmo do cadáver dela esfriar, é uma forma muito estranha de demonstrar luto, não acha? - começou Gabriela, com uma voz gutural e amarga, muito diferente da sua voz tradicional.
- Do que você tá falando, sua...
- Eu devo admitir que você me superou, quer dizer... Eu e o Alexandre nos beijamos algumas poucas vezes, quando a Barbara estava ocupada demais tendo um dos seus surtos de popularidade, mas... Fazer isso depois da morte dela... já é ser vadia demais, até mesmo pra você, Alycia...
Em um rápido movimento, Gabriela foi atingida violentamente no rosto por um tapa...
- Gostou disso, sua psicopata? - perguntou Alycia, falando muito próxima a Gabriela, desafiando-a - A madre superiora pode ter fechado os olhos para a assassina que agora estuda aqui... Mas eu não!... Eu sei que foi você quem matou a Barbara, e pode ter certeza... Eu vou te fuder legal, sua vagabunda, você vai sair daqui direto pra um hospício...
- Sério? - disse Gabriela, virando-se para encarar Alycia, os cabelos caindo sobre o rosto, devido ao tapa - E você pretende fazer isso antes ou depois de chupar o pau do Alexandre?
Alycia tentou responder à provocação com outro tapa, mas foi lançada contra a pia atrás de Gabriela, antes que pudesse tentar algo.
- Minha vez - sussurrou Gabriela, tirando uma reluzente faca de cozinha de dentro da roupa, penetrando rapidamente o peito de Alycia com a arma.
Tudo aconteceu muito rápido, eu recomecei a chorar ali dentro da cabine, paralizada pelo medo, eu jamais imaginei que a pequena discussão das duas poderia chegar àquele ponto, eu tentei me mover, mas o meu corpo parecia não me obedecer, tamanho era o meu estado de desespero. Alycia se debatia, cuspindo sangue, Gabriela se preparou para dar mais outro golpe, e sem pensar duas vezes, eu abri a porta da minha cabine, que bateu violentamente na garota, derrubando-a no chão, a faca fora jogada para longe. Eu tentei segurar Alycia, que começava a desmaiar...
- Alycia? Alycia, fala comigo, por favor, fala comigo... - eu dizia, sacudindo-a em meus braços, ao perceber, desesperada, que a menina começava a fechar os olhos.
- Oi, Carol... Pensei que não ia participar da nossa brincadeira... - disse Gabriela, tendo se levantado do chão e recuperado a faca banhada em sangue, segurando-a firme, de forma ameaçadora, com mão direita.
- Eu não perderia por nada, Helene...
Ela correu em minha direção, e eu não tive tempo de pensar ou fazer mais nada, além de correr ao encontro dela, empurrando-a violentamente contra a parede para poder escapar de lá. Uma vez fora do banheiro, esperei ela aparecer, imaginando que estaria bem mais interessada em mim, e em instantes, ela apareceu no corredor, enfurecida, com a maldita faca na mão. Sem olhar para trás uma outra vez, eu recomecei a correr. Desesperada, eu ouvia os passos incrivelmente rápidos de Gabriela (ou devo dizer Helene?), em meu encalço. Eu corria em direção à escada que me levaria para o piso inferior, Gabriela parecia se aproximar de mim em uma velocidade incrível, o pânico me sufocava, me impedindo de correr mais rápido. Chegando à escada, eu senti a aproximação de Gabriela, seguida de uma dor nauseante, quando a lâmina da faca que ela segurava atravessou o meu ombro, me fazendo rolar escada abaixo após perder o equilíbrio. Só parei de cair quando fui jogada contra a parede onde a escada dava a curva. Eu sentia que ia perder a consciência a qualquer momento. As dores causadas pela queda se misturavam com a dor aguda do corte em meu braço esquerdo. Impossibilitada de me levantar do chão, eu já aceitara o meu fim, tentando ver o lado positivo nisso: "Eu poderia realmente estar com o Léo mais uma vez". Com muita dificuldade, eu ergui o meu olhar para o topo da escadaria, onde Gabriela estava em pé, a faca não estava mais em sua mão. Foi quando eu percebi que havia algo de estranho com a garota. Gabriela parecia estar lutando contra o espiríto em seu corpo, ela se debatia, aos berros, parecia estar sentindo uma dor escruciante, ela se ajoelhou, voltando a segurar a faca, antes jogada no chão...
- MEU DEUS, GABRIELA! - alguém gritou ao longe.
- Me desculpe - sussurrou Gabriela, que agora chorava, olhando para mim.
Eu começava a perder a minha visão, o meu corpo e a minha mente pareciam estar mergulhando aos poucos na escuridão, a última coisa que eu vi, e algo que me atormentaria para sempre, foi a pobre Gabriela cortando a própria garganta, vagarozamente, com a faca em sua mão.
Estava acabado... Helene finalmente conseguira cumprir a sua vingança, levando a vida de uma inocente... As trevas tomaram conta de tudo, anunciando um triste fim.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Capítulo 13 - Pedido de socorro


Depois de ter perdido Anita de vista, eu fui falar com Olívia a respeito de tudo o que a assustada fantasma havia me confessado, e tudo o que ela quase confessara.
- Olívia...? - eu disse, tentando chamar a sua atenção. Ela parecia muito concentrada na catalogação de uns livros novos que haviam sido doados para a biblioteca.
- Oi - ela disse, sem tirar os olhos dos seus livros.
- Você já ouviu algo a respeito dos três silenciosos? - perguntei, sem muita esperança de que Olívia soubesse de algo.
- Os três... o quê? - ela disse, finalmente olhando para mim.
- Deixa pra lá... E sobre um esconderijo secreto... dentro do Lar... Você já ouviu falar?
- Querida, eu sei de muitas coisas que aconteceram e que andam acontecendo nessa escola, coisas que algumas pessoas adorariam que permanecessem escondidas secretamente (ela disse, sarcasticamente), mas... eu não sei de nenhum esconderijo secreto não... e se é um esconderijo, pressupõe-se que seja secreto, não acha? - ela disse em tom de zombação, e voltou-se para o seu trabalho com a catalogação - Mas qual a razão para essas perguntas tão intrigantes? - ela perguntou, sem olhar para mim.
- Algo que a Anita me falou, depois eu te conto com mais calma, você parece muito ocupada.
- Bingo! Se manda daqui, querida - ela disse, sem desviar a atenção dos livros uma única vez.
Quando eu cheguei à mesa onde estavam Olavo e Janaína, a sirene tocou, indicando o fim do intervalo, e eu estava com tanta fome, que quase gritei de raiva.
- Alguém vai ficar com fome - brincou Janaína.
- Não é nenhum pouco recomendável tirar onda de alguém com fome, dona Janaína, principalmente se esse alguém for eu - eu disse, um pouco estressada.
- Ai que meda! - disse Lavinho, dando um tapinha na minha cabeça.
Gabriela vinha rapidamente em minha direção, encarando o chão, provavelmente para evitar o meu olhar, quando ela passou por mim, eu comecei a segui-la, insistindo para ela parasse para conversar comigo, um instante.
- Gabriela... - eu andava rapido, tentando acompanhar os seus passos - Gabriela... vamos conversar... - eu disse, tocando o seu ombro, amigavelmente.
- Não toque em mim, sua aberração! - ela disse, tirando a minha mão de seu ombro, violentamente, e voltando a sua atenção para mim - Eu só vou te dizer isso uma vez... Me deixa em paz... ou eu te parto a cara, sua anormal! - ela quase sussurrou para mim. Olhei para seus olhos, ela parecia mais cansada e perturbada que nunca.
- Eu só quero te ajudar... - eu disse, de maneira séria.
- Ajuda a mãe! Eu não preciso da ajuda de ninguém, quanto menos da sua - ela disse, me dando as costas e correndo em direção a saída do refeitório, desaparecendo de vista, em meio a multidão de alunos que voltavam para as suas salas.

Três dias se passaram, da forma mais vagarosa e entediante possível. Gabriela passara a dormir além do limite permitido pelas irmãs. Enquanto todas no dormitório já estavam acordadas, ela permanecia dormindo como uma rocha, apesar de acordar rapidamente, e assustada, ao sentir o simples toque de alguém. No intervalo ela dormia em cima da mesa, que somente ela ocupava, no refeitório. "Talvez a coitada não esteja dormindo à noite!?" - pensei, com medo de imaginar a razão para isso. Naquela quinta-feira, eu havia decidido, ficaria acordada, esperando todas dormirem, e iria até a cama de Gabriela só para ter a certeza de que ela estava dormindo bem. Era inevitável essa minha preocupação quase maternal com a Gabriela. A garota estava passando pela mesma situação que eu, a única diferença era a minha capacidade de lidar calmamente com isso (ou, pelo menos, mais calmamente do que a Gabriela), mas claro, não era a mim que Helene estava atormentando.

Eu encarava o céu acizentado daquela manhã de quinta-feira, deitada no colo de Janaína, que mexia deliciosamente no meu cabelo. Era intervalo, e eu e meus dois melhores amigos estávamos na estátua do espírito santo, em completo silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. É tão bom estar com pessoas que você ama de verdade, e que te amam da mesma forma, você se sente confortável para falar merda o tempo todo com elas, ou até mesmo ficar em silêncio absoluto, e o melhor de tudo é que você nunca é julgado por isso. As vezes, eu, Janaína e Olavo conversávamos no gramado da minha casa, até a gente não ter mais nada para falar um para o outro, então a gente se deitava na grama, e ficávamos abraçados em silêncio, olhando para o céu, as vezes até pegávamos no sono naquela situação.

- Você teria coragem de ficar com o Lavinho? - perguntou Janaína, como quem pergunta "que dia é hoje?", enquanto nós duas olhávamos para o teto do dormitório feminino, Ína esperando o sono chegar e eu esperando o momento certo de ir checar se Gabriela dormia tranquilamente.
- Que merda, Ína! Dorme logo, que o sono tá começando a fuder com a tua cabeça. Que perguntinha mais idiota! - eu disse, em tom de protesto, tomando cuidado para não acordar as outras garotas.
- Só responde, caramba! - ela insistiu, também tomando cuidado com o tom de voz.
- É o mesmo que perguntar se eu ficaria com você; a resposta seria NÃO, mil vezes, NÃO!
- Nossa, valeu! Eu sou tão não-pegável assim!? - ela disse, parecendo magoada.
- Você entendeu o que eu quis dizer, Ína. Eu te pegaria numa boa... se eu fosse lésbica, mas nessa vida não rolou, quem sabe na próxima!?
- Você não vai nem perguntar a razão pra eu te fazer essa pergunta? - ela disse, tentando me deixar intrigada.
- Tá, Ína... qualé a dessa pergunta incrivelmente idiota? - perguntei, me rendendo.
- Bem... eu perguntei, porque... Eu tenho certeza que o Lavinho ficaria com você, numa boa.
- Que ridículo, Ína! A gente é quase irmão...
- Ah, Carol! Vai dizer que você nunca suspeitou que o Olavo já tinha uma quedinha por você desde antes... -ela parou de falar, como se não quisesse terminar a frase.
- Desde antes do quê? - eu perguntei, de forma autoritária.
- Nada, eu... devo tá com muito sono mesmo, tô começando a falar merda.
- Ah, mas essa merda você vai terminar de falar! - eu disse, quase pulando pra cama de Janaína, e subindo em cima dela, prendendo os seus braços contra o colchão, ao som de seus gritinhos de protesto.
- Pára, Carol! Você tá maluca!? Vai acordar todo mundo! Sai de cima de mim, vai!?
- Só depois que você me disser desde quando o Lavinho tem uma quedinha por mim!?
- Olha, eu ando meio nostálgica ultimamente, lembrando de uns lance nada-a-ver, esquece isso, vai!?
- Janaína Marques, a senhorita sabe muito bem do que eu sou capaz quando quero arrancar um segredo de alguém, portanto... não... queira... me... testar - eu ameacei a minha melhor amiga, mas só de brincadeirinha.
Janaína riu e, percebendo que não tinha saída, começou a falar...
- Bem... desde antes de você e o Léo começarem a ficar... o Lavinho já demonstrava sentir algo por você, na verdade ele mudou muito depois que você e o Leonardo começaram a namorar, não se lembra? Ficou mais na dele, menos brincalhão, a gente chegou até a conversar com ele sobre isso...
- Sim, eu lembro disso... Mas não quer dizer que a razão tenha sido eu ter começado a namorar o Léo, aliás, de onde você tirou essa idéia de que o Lavinho sente algo por mim?
- Tá quase estampado na testa dele, Carol. Só você que não percebe, ou finge que não percebe, sei lá...
- Você tá delirando, Ína... Eu e o Lavinho somos amigos...
- E o que impede ele de querer ser algo mais que só um amigo seu? A gente não tem controle sobre o que sente, Carol... Você e o Léo também já foram amigos, se lembra?
E Janaína estava com toda a razão, eu só não queria admitir isso. Era muito estranho pensar no Olavo como algo mais que um amigo, e na verdade, eu nem queria pensar.
- Porra, Ína! Valeu mesmo, agora eu nunca vou olhar pra o Lavinho da mesma maneira.
- Você vai continuar olhando pra ele da maneira que você quiser, Carol... O que eu te contei hoje não vai mudar nada, e se mudar... bem, eu não vou ser culpada - ela deu um sorrisinho e me empurrou de cima dela - Agora volta pra sua caminha, vai.
Eu voltei pra minha cama, e fiquei encarando o teto do dormitório, enquanto Janaína se enrolava toda, preparada para se entregar ao sono. Caramba! Ter o meu melhor amigo interessado por mim era tudo o que eu menos precisava naquele momento. Já não bastava o que eu vinha enfrentando aquele ano no Lar, agora eu teria que lidar com um amigo e seus sentimentos (que de "amigáveis" não tinham nada) por mim. Como eu iria fazer Lavinho parar de gostar de mim, sem magoá-lo, e principalmente, sem destruir a nossa amizade? Primeiro eu teria que comprovar por mim mesma que essa suposição da Janaína era de fato verdadeira, e depois, dependendo do veredicto, eu tomaria uma atitude.
Sem querer, eu adormeci. Devo ter apagado por meia hora, ou mais, sei lá. Me levantei de supetão, como se tivesse me lembrado de algo muito importante que eu deveria ter feito, antes de cair no sono, e a lembrança tivesse feito eu acordar. E na verdade, era mais ou menos isso, eu não pretendia dormir até que tivesse certeza de que Gabriela também estivesse dormindo, sem ser importunada por nada nem ninguém. Assim que levantei, olhei em direção a cama de Gabriela. Como eu temia; a garota não estava dormindo, se revirava embaixo dos lençóis, e eu pude ouvir que chorava. Desci da cama e caminhei decidida até ela.
Gabriela? - eu disse, quando me aproximei o suficiente para conversar com ela, sem acordar ninguém.
Ela ficou imóvel por alguns segundos, e então saiu de baixo do lençol, e pela sua cara eu podia jurar que ia levar um soco dela, ali mesmo.
- Você tá querendo que eu te mate, fala a verdade - ela disse, tentando me intimidar com o olhar, sem muito sucesso.
- Eu tô querendo te ajudar...
- Ajudaria muito se você sumisse da minha vida...
- Você sabe que precisa da minha ajuda, Gabriela, só tem medo de admitir isso - eu disse, fazendo ela se calar e virar o rosto, evitando me olhar.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, ela encarando o outro lado do dormitório, e eu esperando que ela tivesse coragem de me olhar nos olhos. Quando eu percebi que aquilo não ia dar em nada, resolvi voltar para minha cama.
- Eu espero, do fundo do meu coração, que não seja tarde demais quando você resolver aceitar a minha ajuda - eu disse, começando a me retirar, quando...
- Ela sussurra coisas no meu ouvido... - disse Gabriela, timidamente, me fazendo parar para ouvi-la. Me voltei para ela, devagar - De noite, quando o colégio todo está em completo silêncio... eu escuto a sua voz... ela diz... coisas... coisas que eu não entendo, mas... que me assustam... as vezes parece que ela está se referindo a outra pessoa, e não a mim... Ela parece estar muito furiosa... Isso tem me deixado acordada a noite toda... não durmo direito há muitos dias...
- Eu não sabia...
- Então não venha me dizer que sabe pelo que eu estou passando... Você parece estar dormindo muito bem, na minha opnião - ela disse, voltando a se enrolar da cabeça aos pés.
Eu não consegui dizer mais nada. Eu realmente não podia imaginar o quanto estava sendo difícil para Gabriela conviver com a constante presença de Helene, afinal, não era através de mim que o espírito estava tentando se vingar de alguém do seu passado, e mesmo se Helene tentasse fazer algo contra mim, se Olívia estivesse certa, ela não conseguiria. A partir daquela noite, eu havia decidido que daria um tempo a Gabriela, e esperaria que ela viesse atrás da minha ajuda, quando se sentisse preparada. Eu só podia torcer para que ela estivessse preparada antes que fosse tarde demais.

A sexta-feira chegara, e mais uma vez eu me despedia de Olavo e Janaína.
- Se cuida, Carol - disse Janaína, correndo até o carro da mãe, que desta vez não viera comprimentar nem a mim nem a Olavo. Me perguntei se o nosso último encontro não teria sido o culpado por essa atitude, foi quando eu me lembrei que era típico da mãe da Janaína agir como uma perfeita vaca, então fiquei mais tranquila.
Eu e Olavo ficamos sozinhos por alguns minutos, e eu fiquei aliviada depois que o pai dele deu as caras no portão da escola. Desde a conversa com Janaína, a respeito do suposto interesse de Lavinho por mim, eu ficava um tanto desconfortável perto dele, e morria de medo que ele percebesse que havia alguma coisa estranha.
- Tchau, Carol... - ele disse, dando um beijo no meu rosto. Involuntariamente, eu recuei um pouco. Lavinho me olhou, um tanto desconfiado, e foi ao encontro do pai - Até segunda! -gritou ele.
- Até - eu respondi, e voltei para dentro da escola, louca para dormir e poder ir para casa no outro dia.

- Obrigado - sussurrou Leonardo, bem perto do meu ouvido.
Era manhã de sábado, e nós estávamos deitados na minha cama, encarando um ao outro. Eu ainda vestida com a farda do colégio, morrendo de preguiça de ir ao banheiro. Ele me olhava carinhosamente, parecia realmente grato, eu só não sabia o porquê.
- Pelo quê? - perguntei, intrigada.
- Você não se meteu em perigo essa semana... pelo menos eu não senti nada que indicasse isso... Obrigado - ele disse novamente, me dando um rápido beijo na boca.
- Ah! É... essa semana foi bem monótona. Eu não vi a Helene uma única vez - preferi não dizer ao Léo o quanto esse sumiço repentino da Helene me preocupava. Me dava a sensação de que ela estava planejando algo pelas minhas costas.
- Você parece desapontada... - disse Léo, contrariado - Deveria estar feliz com isso, não!?
- Não é isso, Léo... Olha, vamos mudar de assunto!? Eu passo a semana inteira naquela porcaria de escola, e quando tenho a chance de ficar dois dias longe de lá...
- Tudo bem, tudo bem... Vamos falar de outra coisa, sim... Ah! Eu estava me perguntando; há quanto tempo a gente não assiste os seus filmes do Quentin Tarantino!?
- Acho que a última vez que eu assiti foi com você... e a gente fez tudo, menos prestar atenção nos filmes - eu disse, rindo deliciosamente daquela lembrança, Leonardo fez o mesmo.
- Bem... agora acho que a gente vai poder assisti-los, afinal, eu não vou poder te dar uns amassos - disse Léo, com um sorriso safado no rosto.
- Dar uns amassos, Léo!? - eu disse, meio enojada com a expressão que ele usara.
- Qual o problema? - ele perguntou, ainda sorrindo.
- Nem se a gente pudesse dar uns amassos (zombei), eu toparia depois de uma dessas, de boa! - eu disse, finalmente me levantando da cama, tirando a roupa na frente do Léo, e correndo para o banheiro.
- Isso, pode provocar! Ah, se eu pudesse te pegar agora, você tava fu...
Na mesma hora a porta do meu quarto se abriu, e a minha mãe surgiu, com uma expressão estranha. Percebendo o que havia acontecido, eu saí rapidamente do banheiro, sem dar a mínima para o fato de eu estar nua.
- Oi, mãe...
- Você viu a chave do carro? Eu não consigo lembrar...
- Na sua mão, talvez!? - eu disse, olhando para a chave que a minha mãe segurava. Não, ela não estava ficando maluca, esse tipo de coisa acontecia com mais frequência do que se é possível imaginar.
- Ah! Claro, obrigada... - ela disse, balançando a chave, e acendendo um cigarro, em seguida - Filha... eu podia jurar que te ouvi falar sozinha ainda há pouco...
- Mamãe, quantos cigarros a senhora já fumou hoje? - eu perguntei, cruzando os braços, e espiando Leonardo pelo canto do olho. Ele ria de toda a situação, claro.
- Boa pergunta!... - ela disse, parecendo fazer esforço para se lembrar - Meu Deus, como eu queria me livrar dessa merda!
- A senhora já sabe qual é a solução...
- É, eu preciso transar, e transar muito! - ela disse, parecendo se arrepender em seguida - Você não ouviu isso, mocinha - repreendeu.
- Eu estava pensando em adesivos de nicotina, mas a sua idéia parece bem mais interessante...
- Vai tomar seu banho, dona Caroline - ela disse, dando um sorriso, que há tempos eu não via em seu rosto. Aquilo me deixou feliz por um instante, eu retribuí o sorriso mandando um beijo com a mão, enquanto ela fechava a porta do quarto.
- Eu e Leonardo rimos baixinho, olhando um para o outro. Eu me aproximei dele, toda sensual, e beijei os seus lábios. Eu senti o frio dele tomar o meu corpo, e estremeci, me afastando dele, institivamente. Caminhei de forma sensual até o banheiro, observando Leonardo, que sorria feito um bobão.
Aquele foi um dos melhores fins de semana da minha vida. Eu e Léo asistimos todos os filmes do Quentin Tarantino, e na noite de domingo, relembramos todos os melhores momentos do tempo em que a gente começou a namorar. Rimos muito quando eu mencionei um episódio em que nós fomos assaltados em uma pracinha, perto da casa do Léo, e depois que o assaltante pegou todo o nosso dinheiro e o meu celular, ele se despediu da gente, me parabenizando pelo "namorado gatinho". Eu lembro que ficamos olhando um para a cara do outro feito dois trouxas, até o assaltante sumir de vista, a partir daí foi impossível conter as risadas, mesmo sabendo que tinhamos perdido cento e cinquenta reais e um celular que custara duas vezes esse valor.
Na manhã de segunda-feira, foi até difícil me despedir do Léo. Não estava com a mínima vontade de voltar para o Lar, queria passar a eternidade trancada no meu quarto, acompanhada apenas do fantasma do meu namorado, e esquecer todos os problemas que me esperavam do lado de fora da minha aconchegante casa. Infelizmente, nós nunca podemos fugir da realidade, nem dos muitos problemas que ela envolve. Então lá fui eu, de volta para o Lar, sem fazer idéia de que a minha quantidade de problemas estava bem perto de aumentar drasticamente.

Depois de me despedir de dona Olga, e descer do carro, quase fui empurrada no chão por Gabriela, que passou por mim feito um furacão. Ela tentava esconder, mas parecia estar chorando, precionando a mochila com toda a força contra o peito. Ainda concentrada em Gabriela, que se distanciava rapidamente, nem percebi que Olavo e Janaína se aproximavam de mim.
- Oi, Carol - disse Janaína, me assustando.
- Ah... oi, gente.
- Eu, hein! Tá toda nervosinha assim por quê - perguntou Lavinho.
- Nada não... - reparei que não haviam mais polícias vigiando a entrada da escola - O que aconteceu com os PMs? - perguntei, intrigada.
- Sei lá, mas também não tem nenhum polícial dentro da escola, devem ter desistido do caso da Barbara... Os pais dela estiveram aqui, mais cedo, disseram que o tempo fechou na sala da madre superiora - comentou Lavinho.
- Eles não podem desisitir de procurá-la assim, de uma hora pra outra, isso não faz sentido... -protestei.
- O que não faz sentido é a maneira como a Barbara sumiu... Ok, a escola é enorme, mas os políciais já procuraram em tudo que é canto, e NADA... - disse Janaína, até ser interrompida por Lavinho.
- Algum lugar eles devem ter deixado passar, ela não pode ter sumido assim, sem explicação nenhuma, a não ser...
- Lavinho, não começa! - advertiu Janaína.
- Lá vem... - comentei, já sabendo sobre o que Olavo ia começar a falar.
- Ah, gente! Vai dizer que vocês não acreditam em outras dimensões? Uma vez eu li um livro que dizia que qualquer lugar pode ser uma porta para outras dimensões, e se a Barbara encontrou um desses lugares e... - Lavinho foi interrompido pelo som da sirene.
- Eu nunca gostei tanto de ouvir o som dessa maldita sirene, como eu tô gostando agora - disse Janaína, me fazendo rir.
- Porra! Vocês nunca me levam à sério! - reclamou, Lavinho.
- A gente tenta, amigo, mas você não colabora... - disse Janaína.
- Eu levo você a sério, Lavinho... -comecei.
- Valeu, pelo menos você, Carol...
- Quando você não tá doidão, o que não acontece com muita frequência, né!? - eu disse, fazendo Janaína ter uma crise de risos.
- Muito engraçado, sério mesmo, tipo, não dá pra perceber pela minha cara, mas por dentro eu tô me acabando de rir... - disse Lavinho, parecendo meio chateado de verdade.
- Tão fofinho, com raiva... - eu o abracei e dei um beijo em seu rosto - A gente tá só tirando onda com a sua cara, Lavinho. Desculpa, vai!?
Ele não conseguiu conter o sorriso, e tudo ficou bem. Foi quando eu me dei conta de que não tava levando muito a sério o lance que Janaína me contara no dormitório, sobre Olavo sentir algo por mim. Eu não ia prejudicar a minha amizade com ele por causa de uma suposição, não mesmo! Nossa amizade era forte demais para se abalar desse jeito.
A irmã Joana dizia alguma coisa sobre números primos, formas geométricas ou hipotenusa, enquanto eu observava Alexandre sussurrar algo no ouvido de Alycia, que a fizera sorrir. Os dois pareciam estar no maior clima romântico, o que não me surpreendeu nenhum pouco. Não era novidade para ninguém na turma, que a Alycia tinha uma quedinha pelo namorado de Barbara, assim como não era novidade que Alexandre era um perfeito galinha. A minha atenção foi subitamente desviada, quando Gabriela se levantou da sua carteira, soluçando de tanto chorar, e saiu da sala correndo, sem dar qualquer explicação para a professora. Involuntariamente, eu me levantei para segui-la, sendo repreendida pela irmã Joana, no mesmo instante.
- Ninguém sai desta sala até eu voltar! - ela disse, se retirando para deter Gabriela.
Eu me sentei, sob os olhares de todos na sala. Olavo e Janaína me encaravam como se perguntassem "que porra foi essa?".
- Qualé, gente!? Vocês não viram o estado da garota? Eu fiquei preocupada, vocês não?
- Quer saber, Carol!? Você tá mais estranha que a Gabriela, ultimamente - disse Janaína, parecendo um pouco irritada.
Permanecemos em silêncio, até a volta da irmã Joana, que retomou a aula, sem mais explicações.
Durante o resto do dia, Gabriela não compareceu às aulas, imaginei que ela talvez estivesse na enfermaria, se recuperando de, seja lá o quê, ela estivesse sentindo para ter corrido da sala daquele jeito. À noite, no dormitório, Gabriela apareceu acompanhada da madre superiora. Ela ainda parecia muito abalada, e sem olhar para ninguém, deitou-se em sua cama, se cobrindo com o lençól da cabeça aos pés, pude ouvir algumas meninas rirem baixinho da ação de Gabriela.
- Ela parece estar péssima - comentou Janaína - O que será que houve?
- Não faço a mínima idéia - eu menti, imaginando qual poderia ser a razão para o atual estado de Gabriela, e um único nome me veio à cabeça: Helene.
Naquela noite, eu e Janaína compartilhávamos um cansaço indescritível, por isso conversamos pouco antes de pegarmos no sono, ao mesmo tempo. O meu sono, no entanto, não durou muito. Eu senti a escuridão do dormitório penetrar os meus olhos, ao abri-los no meio da noite. Olhei rapidamente para o relógio acima da porta do dormitório: 3 e 30 da madrugada. Não sabia exatamente o porquê de eu ter despertado naquela hora, mas me senti agradecida por tal fato ao ver a porta do dormitório ser aberta, lançando um raio de luz sobre o meu rosto, que vinha do corredpr. Alguém saia do aposento, muito rapidamente, pois não consegui ver quem era. Rapidamente, olhei para a cama de Gabriela, e pulei da minha da minha própria cama ao ver que ela não estava na dela. Corri até a porta entreaberta, quase me esquecendo de não fazer barulho. Coloquei a cabeça para fora do dormitório e chequei se havia alguém no corredor, a porta do banheiro feminino acabara de se fechar, fazendo um barulho que ecoou pelo corredor vazio. Sem pensar duas vezes, eu corri até o lugar de onde o barulho viera. Me posicionei em frente a porta do banheiro feminino e, inevitavelmente, me lembrei de todas as coisas que eu já havia presenciado ali dentro. Hesitei por um instante, acho que estava esperando a tal da coragem chegar, então, respirando fundo, eu abri devagar a porta, e senti... O frio vinha de dentro, como se estivesse tentando escapar, me arrepiei, fiquei congelada segurando a maçaneta da porta, por alguns segundos. Abri-a, e fui entrando aos poucos, não conseguia olhar para os boxes, eu encarava o chão, o frio tomou conta do meu corpo por inteiro, foi quando eu olhei para frente, e a vi, me encarando da mesma maneira sacana, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo. Helene estava escorada na parede, como ela conseguia fazer aquilo sem atravessá-la eu não sei, mas ela parecia muito relaxada. Eu a encarei por alguns segundos, tentando não demonstrar medo. Pelo jeito que ela sorria, pude perceber que estava fracassando nessa tentativa.
- Sentiu a minha falta, Carol? - sussurou uma voz feminina e assustadoramente bonita , como se a pessoa estivesse ao meu lado pronunciado tal frase.
Eu recuei apavorada, não conseguia mais esconder o medo, eu ia abrir a porta para sair correndo dali, quando eu vi algo que me chamou a atenção. De dentro do box mais próximo a mim, havia um líquido vermelho-vivo, escorrendo lentamente pelo chão. Por um instante eu esqueci de Helene e abri rapidamente a porta do tal box... Eu sufoquei um grito que, com certeza, iria acordar todos nos dormitórios. Eu tampava a minha boca com a mão, quase mordendo-a, como reação a cena que eu presenciava. O choro, no entanto, eu não consegui conter, diante de uma Gabriela quase inconsciente e jorrando sangue por dois cortes feitos em seus pulsos, ela se debatia no chão, uma lâmina de gilete ensanguentada jogada ao seu lado. Ela tentou, com dificuldade, virar a cabeça em minha direção, o seu olhar era puro desespero, as lágrimas em seu rosto se misturavam com o sangue.
- Me... ajude... p-por favor - ela sussurrou, em um tom aterrador de súplica.