sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Capítulo 5 - Helene


A sensação era de que eu estava no período da inquisição, prestes a ser jogada em uma enorme fogueira. A maneira como todos na sala me encaravam me fez congelar na porta. Eu podia escutar Olavo e Janaína falando comigo, me pedindo para entrar de uma vez na sala, mas eu simplesmente não conseguia.
- Bom dia, Amallya - disse a irmã Joana, com sua voz irritante de tão forçadamente gentil. Ela nos ensinava matemática desde a sexta série, e podia ser a pessoa mais doce do mundo, até o momento em que você falar algum palavrão na frente dela, ou mesmo dizer que não tem nada contra o amor entre pessoas do mesmo sexo.
- Bom dia, irmã Joana - respondi, sem olhar diretamente para ela.
- Vejo que dessa vez escolheu se atrasar no primeiro dia de aula, para chamar a atenção da turma - disse ela, aumentando o sorriso em seu rosto a cada palavra que pronunciava.
- Eu... é que...
- Não, querida, por favor, poupe a suas desculpas e as dos seus amigos para a madre superiora, e eu sugiro que sejam desculpas muito criativas dessa vez - disse, sem tirar o seu assustador sorriso da cara uma única vez - Até a próxima aula... Ou não.
A porta da sala quase arrebentou o meu nariz, quando Joana a fechou sem a mesma "gentileza" que apresentava em sua voz e em seu sorriso.
- Freira nazista, filha da puta! - sussurrei ferozmente para a porta.
- Não esquenta, a madre superiora não vai suspender a gente no primeiro dia de aula - disse Olavo, enquanto tirava um cigarro de maconha da sua mochila, e o acendia com o isqueiro dos Power Rangers que estava sempre com ele em seu All Star.
- Vem cá, quantos desse você já fumou hoje? Porque eu acho que isso já tá começando a fuder o seu cérebro, você tá dentro da escola, Olavo! - eu disse, realmente zangada com ele.
- E todas as irmãs estão dando aula, rezando, ou, no caso da madre superiora, fumando o cigarrinho matinal dela. A gente não precisa ir falar com ela agora, relaxa aí!
Nós três começamos a andar em direção ao pátio interior da escola.
- Será que agora você pode começar a explicar pra gente a razão da sua performance de "Carrie a estranha" na estátua do pátio, mais cedo? - perguntou Janaína.
- Do que você tá falando? - peguntei, fracassando completamente em tentar me fazer de desentendida.
- Nossa, acho que nem você se convenceu com essa, agora. Você sabe do que eu tô falando! - insistiu, Janaína.
- É, parecia até que você tava doidona. Não foi isso, né? Olha lá, Carol! Você prometeu que se houvesse uma primeira vez ia ser comigo.
- Ah! Aquilo? Gente, não... não foi nada demais, eu só tava delirando, sei lá, eu não comi nada no café da manhã, tô morrendo de fome, é isso.
- Eu nunca vi ninguém começar a ter visões só porquê não tomou o seu café da manhã - disse Janaína, com um olhar desconfiado.
- Madre superiora! - eu disse, como um alerta, quando vi a figura intimidadora de Amélia, aproximando-se de nós. Em segredo, agradeci pela chegada da madre superiora, que me salvou do desagradável assunto sobre o ocorrido na estátua do espírito santo.
- Porra! - disse Olavo, tossindo com o susto, arremeçando o cigarro de maconha o mais longe possível, e jogando uma bala de menta extra forte na boca.
Amélia atravessava o pátio interno do colégio, de forma distraida e um tanto desconfiada, expressão essa que mudou completamente quando ela finalmente notou a nossa presença. Nesse momento, a sua expressão lembrava mais a de alguém prestes a cometer um triplo homicídio culposo.
- O que vocês estão fazendo fora da sala de aula, feito três almas perdidas? - perguntou ela, denunciando, pelo seu hálito, não ter se livrado da sua famosa mania de fumar um cigarro, sempre que os corredores da escola encontravam-se vazios depois do primeiro toque.
- A gente... se atrasou, madre superiora - eu disse, envergonhada. Janaína parecia estar tentando se esconder atrás de mim, enquanto Olavo evitava o olhar enfurecido de Amélia.
- Que esplêndida maneira de começar um ano letivo. Hum! Claro que... vindo de vocês três, não me surpreende nem um pouco - disse ela, com um olhar de desprezo - Desta vez vocês vão ganhar uma advertência...
- Obrigada, madre - eu disse, sem olhar diretamente para ela.
- E irão ajudar o padre Jonas, com os praparativos para a missa de hoje a noite, depois das aulas - disse, séria.
Eu , Olavo e Janaína suspiramos de raiva, em uníssono. Ela não poderia ter escolhido uma detenção pior do que aquela. O padre Jonas tinha a fama de ser um completo carrasco com todos os alunos que eram mandados para cumprir detenção com ele, além de ter um mal hálito insupórtavel, o que não casava muito bem com a sua péssima mania de falar muito, muito perto mesmo, de forma intimidadora, com os alunos que saiam da linha.
- Vocês poderão entrar para a aula de geográfia com o professor Júlio, no próximo horário - disse ela, já se afastando de nós três - Ah! E a propósito, caso vocês esqueçam de cumprir a detenção, fiquem sabendo que a falta será substituida por uma detenção ainda mais drástica, tão drástica que eu ainda nem pensei nela, mas eu garanto que quando eu começar, serei o mais criativa possível - disse, encerrando a conversa, virando-se bruscamente, e indo em direção ao pátio frontal.
- Ótimo! - disse Janaína, bufando de raiva - Finalmente vamos descobrir se o que falam sobre o lendário hálito do Padre Jonas é mesmo só lenda.
- Ele se aproximou de mim pra me dar um sermão sobre se masturbar, uma vez... Eu juro que não aguentei nem os primeiros dois segundos depois que ele abriu a boca, e comecei a me esforçar pra não chorar na frente dele. Sério, parecia mais que ele havia engolido um animal em decomposição, ou sei lá - disse Olavo, tentando achar o cigarro de maconha que ele havia desperdiçado, quando a madre superiora nos encontrara.
- Vamos sentar de uma vez, eu tô cansada de andar e de levar sermão - disse Janaína.
Nós três nos sentamos em um dos bancos do pátio e dormimos durante meia hora. O toque ensurdecedor da sirene, nos acordou de imediato.
- Obrigada por babar a minha calça, Olavo - eu disse levantando a cabeça de Olavo do meu colo.
- Disponha - disse ele, ainda sonolento.
- Vamo indo, antes que o professor Júlio também fique puto com a gente - disse Janaína, puxando o meu braço.
Durante as duas últimas aulas, antes do intervalo, eu não parei de pensar na garota que eu encontrara na estátua do espírito santo. Procurava desesperadamente por uma explicação para o que eu vira, ou mesmo para o fato de Olavo e Janaína não terem visto a assustadora menina, como eu. O emblema que eu vira estampado em sua roupa não deixava dúvida, a garota já havia estudado no Lar, apesar de que o uniforme que ela usava era bastante diferente do atual modelo. Eu precisava saber se estava ficando louca, precisava saber se, por alguma razão, eu passaria a ver fantasmas pelo resto da minha vida. E só havia um modo de confirmar isso, eu teria que descobrir se aquela garota já havia estudado no Lar, teria que procurar por fotos que confirmassem isso.
Assim que o sinal tocou, eu me levantei da carteira e me retirei da sala o mais rápido que pude, sem nem ao menos falar com Olavo e Janaína, que deveriam estar se perguntando o porquê do meu sumiço repentino. Estava decidida a explicar tudo a eles depois, ou quase tudo, dependendo do que eu descobrisse.
Minutos depois, eu estava em frente à biblioteca no primeiro andar. Se havia um lugar onde eu poderia encontar os anuários das outras turmas antigas do colégio, seria aquele, e para minha sorte, eu era muito amiga de Olívia, a bibliotecária loucona da escola.
- Oi, Liv! - eu disse, quando me aproximei do birô super desorganizado de Olívia.
- Oi, Amallya, feliz por voltar pra escola depois de dois meses de puro tédio? - perguntou Olívia, mostrando que me conhecia muito bem.
- Essa pergunta é pra ser levada a sério? - perguntei.
- Claro que não, foi... só algo que eu perguntei pra dar um rumo à conversa, eu odeio silêncios constrangedores, você sabe.
- Nós duas nunca tivemos esse tipo de problema antes, Olívia.
- Eu sei, por isso que eu te amo, agora deixa eu te dar um abraço - disse Olívia, se levantando para me abraçar forte, como sempre fazia depois de passar muito tempo sem me ver - Agora me diga... o que te trouxe aqui? Além da sua enorme saudade de mim, é claro - disse, voltando a sentar-se, me encarando por cima dos seus enormes óculos vermelhos. Olívia sempre usava seus cabelos castanhos e rebeldes, soltos. Tinha uma preferência por vestidos longos e rodados, daqueles com estampas floridas, e sempre estava calçando sandálias. Nunca perguntei a sua idade, mas ela sempre me pareceu muito jovem, apesar de sua maturidade, sabedoria e das poucas rugas.
- Eu preciso muito de uma coisa, e... eu acho que esse é o lugar certo pra procurar.
- Olha, querida, eu já disse ao seu amiguinho, Otávio...
- Olavo, o nome dele é Olavo...
- Que eu não vendo mais essas coisas, eu só fiz isso uma vez, e foi pra pagar uma dívida da pesada...
- EU... - disse, aumentando o meu tom de voz, com a intenção de que ela começasse a me ouvir - tô procurando pelos anuários da escola.
- O quê? Mas... o quê você iria querer com os anuários da escola?
Não havia pensado em uma justificativa, então improvisei... muito mal.
- Eu queria saber se alguém que eu conheço já estudou aqui, alguém... muito velho - enquanto eu falava, podia perceber a suspeita de Olívia aumentando mais e mais.
- Sei... Bem, a gente guarda os anuários aqui, sim. Não me pergunte o porquê disso, eu sempre achei que esses anuários deveriam ficar na coordenação...
- Em que seção eu posso encontrá-los? - perguntei, ansiosa.
- Vejamos, anuários, anuários - repetia, enquanto estalava os dedos, tentando se lembrar - Ah! Seção de História, sem erro!
- Valeu, Liv - eu disse, apressando-me em direção a seção.
Quando eu filnalmente localizei a seção de história, ao lado da seção de literatura clássica, quase gritei de susto quando percebi uma garota, que poderia ter a minha idade, escorada em uma das estantes da seção, segurando um livro entitulado "Alexandre O Grande - Um homem e suas conquistas". Ela olhou para mim, e enfiou o livro de volta na prateleira, aparentando estar mais assustada do que eu. Achei estranho o fato de ela não estar usando o uniforme da escola, mas sim uma calça jeans, uma blusa cor de rosa e um tennis All Star que poderia ter pertencido à mãe dela. Os seus cabelos eram negros encaracolados, e seus olhos grandes, acastanhados e expressivos. Sua pele era morena como chocolate. Ela me pareceu incrivelmente simpática.
- Me desculpe, eu te assustei? - perguntei, sem graça. Logo a sua expressão passou de assustada para completamente surpresa. Era quase como se ela me enxergasse como algo que não deveria estar ali, falando com ela - Você tá bem? - perguntei, quando percebi que ela estava ficando cada vez mais amedrontada. Sem falar nada, a garota começou a se afastar rapidamente, parecendo falar sozinha, enquanto caminhava para outra seção.
Resolvi ignorar o ocorrido, e o quanto aquela garota me deixara apavorada, e comecei a procurar pelos anuários. Depois de alguns minutos, eu finalmente localizei uma das prateleiras da estante, cheia de livros sem nome algum. Abri um deles, para ter certeza se era o que eu estava procurando. De fato, eram os anuários. Peguei todos que eu pude segurar sozinha, e fui até o birô de Olívia, que olhava, com repulsa, um livro entitulado "O fantasma da meia-noite" de Sidney Sheldon.
- Liv...
- É ridícula a maneira como eles descrevem os fantasmas nesses livros; branquelos, arrastando correntes, gemendo feito retardados...
- É, eu sei, pode acreditar que é ridícula mesmo - respondi, inevitavelmente, me lembrando de Leonardo, e de como ele me parecia perfeitamente vivo quando aparecera no meu quarto, muito diferente dessas versões idiotas dos fantasmas, que costumamos ver em filmes - Liv, será que eu posso levar esses anuários para dar uma olhadinha? Amanhã mesmo eu devolvo.
- Sinto muito, Amallya, mas como você me prometeu a mesma coisa sobre o exemplar de "Noites na taverna", quatro meses atrás, e não cumpriu, eu não posso mais permitir que você alugue livros da biblioteca.
- Qualé, Olívia! Você sabe que eu adoro Noites na taverna, e era meu aniversário.
- Está vendo isso? - disse Olívia, fazendo um gesto com a mão, sobre o próprio rosto - essa é a minha cara de quem não tá nem aí. Se quiser ver estes anuários, terá que fazer isso na biblioteca, querida. Sinto muito, espera... Não, eu não sinto.
- E eu que pensei que você era minha amiga - eu disse, em tom de brincadeira.
- Querida, eu adoraria dizer que a nossa amizade é mais importante pra mim do que o meu salário, mas eu odeio mentir, então... arruma uma mesa, cala essa boca, e olha logo se você conhece alguém nesses anuários, antes de o sinal tocar - ela disse, sorrindo, também em tom de brincadeira.
- Eu te amo, Liv - eu disse, me afastando para poder procurar por uma mesa.
- Eu também, meu anjo - disse ela, jogando o exemplar de "O fantasma da meia noite" no lixeiro ao lado do seu birô - Ah! Querida? - disse ela, tentando me chamar a atenção.
- Oi - eu disse, parando para ouvi-la.
- É impressão minha, ou você... falou com alguém na seção de história, agora a pouco? - perguntou, um tanto preocupada.
- Sim, uma garota muito bizarra. Eu falei com ela, mas ela parecia não querer conversar - eu respondi, tantando falar o mais baixo possível, afinal a tal garota poderia ainda estar na biblioteca. A expressão de Olívia mudara assustadoramente depois da minha resposta, parecia mais uma mãe que acabara de descobrir que a filha menor de idade está grávida -Algum problema? - perguntei, inocentemente.
Olívia demorou a responder, parecia preocupada.
- Não... nada, querida, não foi nada, é... pode ir.
Voltei a procurar um lugar para sentar, achando totalmente estranha a pergunta de Olívia, e mais ainda a sua reação ao ouvir a minha resposta.
Quando me sentei e puz todos os anuários que eu pegara em cima da mesa redonda da biblioteca, me lembrei da garota estranha que eu vira na seção de história, e desejei que ela não aparecesse de novo. Eu procurava no anuário por modelos antigos dos uniformes do colégio. Devo ter folheado três anuários, antes de abrir o da turma do primeiro ano ginasial de 1978. Quase caí para trás ao ver a foto de três alunos muito estranhos, que talvez fossem amigos. Na foto, que parecia ter sido tirada contra a vontade dos três, haviam uma garota incrivelmente pálida, e dois garotos, os três poderiam ter a minha idade, a garota usava exatamente o mesmo modelo de uniforme usado pela garota que eu vira na estátua, mas o que estava me fazendo tremer era o olhar dela na foto, o mesmo olhar que me paralizara na estátua do espírito santo, os mesmos olhos verdes assustadoramente atraentes, e embaixo da foto a seguinte legenda: "Helene, Caio e Marcos. Amigos inseparáveis".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Capítulo 4 - Lar


- Me ligue se precisar de alguma coisa. Eu venho te pegar no sábado, e... é isso, se manda! - disse a minha mãe, me dando um rápido beijo no rosto.
- Mãe... será que a senhora não poderia me pegar na sexta à noite? - perguntei, sem muita esperança.
- Mas pra quê essa pressa? Eu pensei que você quisesse passar todo o tempo possível com o Olavo e a Janaína - perguntou, desconfiada.
- É que... a maioria dos alunos vão embora na sexta, e...
- Sinto muito querida, mas dessa maioria você não vai fazer parte, eu odeio dirigir à noite, e você sabe disso.
- Mas...
- Te vejo no sábado, Amallya! - disse minha mãe, com um olhar que finalizara aquela conversa.
Saí do carro, emburrada, e me dei de cara com o enorme portão de entrada do colégio interno Lar do Sagrado Espírito Santo, também conhecido pela sigla, de pronúncia desagradável, LSES e carinhosamente chamado de Lar. Faltavam cinco minutos para o toque de entrada, eu respirei fundo e entrei no pátio do colégio. No centro do lugar havia uma enorme estatua em mármore, do espírito santo, representado por uma pomba, e sobre a sombra de uma das asas da estátua estavam sentados os meus dois melhores, e únicos, amigos. Olavo foi o primeiro que me viu chegando. Ele se levantou e veio em minha direção, segundos depois Janaína fez o mesmo.
- Pensei que não fosse aparecer, aberração! - disse Olavo, dando um leve soco no meu braço.
- É... eu acordei tarde - eu disse, visivelmente desanimada.
- Oi, Carol - disse Janaína, me dando um beijo no rosto.
- Oi, Ína - eu sorri, rapidamente.
- E as férias? - perguntou Janaína, com sua voz baixa e, como sempre, sem olhar diretamente nos meus olhos, devido à sua timidez incomum.
- Uma merda... como sempre - respondi, entediada.
- Você não foi pra casa do seu pai, em Gramados? - perguntou Olavo.
- Não, ele teve que passar o mês inteiro viajando... Negócios... eu acho - eu disse, tentando não parecer triste. Pela cara de Olavo pude ver que ele se arrependera de tocar naquele assunto.
Olavo e Janaína, assim como todos no colégio, sabiam que meus pais haviam se divorciado há quatro anos atrás, desde então eu passara a morar com a minha mãe, e visitava o meu pai nos finais de semana. Eu nunca soube o verdadeiro motivo da separação e nunca quis saber, o que era um alívio para a minha mãe.
- A minha avó morreu nessas férias - disse Janaína, em uma tentativa desastrosa de mudar um assunto desagradável.
- Eu... eu sinto muito muito, Ína - eu disse, um tanto desconcertada.
- Obrigada, mas... eu já superei... Minha mãe tá voltando pra casa - disse, parecendo se animar.
- Que bom - eu disse.
- É, agora que a vovó morreu ela pode voltar da Itália, depois de quatro anos. Finalmente eu vou deixar de morar com a minha tia - disse ela, alíviada.
-É, vocês vão voltar a morar juntas, isso é muito bom - eu disse, realmente feliz por Janaína.
Quando ambas paramos de conversar, olhamos automaticamente para Olavo, que parecia muito distraído encarando a enorme estátua do espírito santo, e depois de alguns segundos ele finalmente percebeu que eu e Janaína estávamos esperando a sua colaboração na conversa.
- Ah! Bem... O meu vizinho morreu... atropelado por uma ambulância... quanta sorte, não!? Espera... Não, ele não teve tanta sorte assim - disse Olavo, começando a rir.
- Isso é horrível - disse Janaína, séria.
Eu não aguentei e comecei a rir, me sentindo um tanto envergonhada por isso. Janaína também começou a rir, e logo nós três estávamos rindo, rindo da morte e de como ela pode ser terrivelmente engraçada, às vezes.
-Não, vocês são horríveis - disse Janaína, tentando parar de rir.
O sinal tocou, abafando o som das nossas risadas. Olhei para Olavo e Janaína, e me dei conta do quanto eu havia sentido falta deles durante os últimos dois meses. Parei de pensar no fantasma que naquele momento deveria estár perambulando o meu quarto, me esperando, e tentei ignorar o medo que vinha me devorando desde o momento em que eu deixara a minha casa naquele dia, medo de que a última imagem que eu teria de Léo, em toda a minha vida, fosse a do seu triste sorriso, e de seus olhos verdes e distantes de mim, na janela do meu quarto. Mas naquele momento eu estava feliz por rever Olavo e Janaína, o que me deu a ilusória sensação de que nada mais no mundo importava, eu estava com os meus amigos, "não há NADA a temer", eu pensava... Como eu fui tola. Hávia TUDO a temer, eu só não sábia disso ainda.
Olavo e Janaína apressaram-se em direção ao imenso portal enfeitado com anjos de mármore, que antecedia a porta dupla da escola, eu fiquei para trás quando tentei segui-los e a minha mala se abriu despejando toda a minha roupa e livros. Comecei a enfiar as coisas de volta na mala, o mais rápido que pude, Janaína percebeu que eu ficara para trás e parou o Olavo antes que os dois entrassem na escola. Quando finalmente eu consegui fechar a mala, olhei em direção à estátua do espírito santo, e senti os pêlos da minha nuca e braços ouriçarem quando me deparei com uma garota do meu tamanho, que encarava fixamente o portal da escola, onde Olavo e Janaína eram as únicas pessoas que me esperavam. Ela não estava muito distante de mim, no outro lado da estátua, e não pude deixar de reparar que o uniforme usado por ela não parecia ser o do colégio. Sua pele era pálida e quase se confundia com o mármore branco da estátua, seu cabelo era preto, na altura dos ombros, e extremamente liso. Devo ter olhado para ela, sem dizer nada, por uns cinco segundos. Foi quando, vagarozamente, a garota se virou em minha direção, e eu me encantei pelo verde de seus olhos, porém, algo na sua expressão me assustou de uma maneira que eu nunca experimentara antes. O que quer que tenha me assustado em seu olhar, deu lugar a uma expressão de surpresa e quase indignação, o que me deixou ainda mais assustada. Eu olhei rapidamente para o seu uniforme e pude perceber, chocada, que o símbolo do colégio estava perfeitamente bordado em seu seio. "Mas como?", me perguntei.
- Amallya? - gritou Janaína - Algum problema?
- Não - eu respondi, e sem olhar para a garota novemente, eu continuei andando o mais rápido que pude até o portal da escola.
- O que houve? Você ficou, tipo, sei lá... dois minutos encarando o nada - disse Olavo, preocupado.
- Vocês não... - comecei - Encarando o nada? - perguntei, surpresa.
- Sim! - confirmou Janaína.
Eu tive vontade de olhar para o lugar onde a misteriosa garota deveria estar, mas simplesmente não consegui. Continuei andando em direção à porta dupla da escola, Olavo e Janaína me seguiram, mais confusos do que eu, naquele momento.
A palavra "fantasma" veio à minha cabeça, fazendo gelar cada parte do meu corpo. Eu andava o mais rápido que podia, enquanto Olavo e Janaína gritavam o meu nome, mas eu não tive coragem de olhar para trás até o momento em que abri a porta da minha sala de aula.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Capítulo 3 - Saudade


- Acorda, Amallya! Já passa das seis.
Eu acordei automaticamente com o barulho da porta, e a voz tediosa da minha mãe. Olhei para o lado, e para a minha total decepção, Léo não estava mais lá. Teria sido tudo um sonho muito real? - pensei, desesperada - Senti um misto de decepção e agonia, eu queria chamar por ele, queria chorar, mas não poderia fazer nem uma das duas coisas sem que a minha mãe achasse que eu estava louca.
- Vai preparar o seu cereal, que hoje eu não tô nenhum pouco a fim de fazer café da manhã reforçado - disse Olga, que ao contrário do que aparenta, sabia ser uma mãe carinhosa e até superprotetora, quando queria ser.
Minha mãe abriu rapidamente a janela do quarto, e eu puxei a colcha da cama para o meu rosto na intenção de evitar a luz do sol.
- Você tem vinte minutos pra tomar banho e se trocar. Eu vou te esperar lá embaixo - disse Olga, saindo do quarto tão rapidamente, que eu só consegui ouvir o barulho feito pelo seu sapato, em contato com o piso de madeira, antes de ver a porta do quarto se fechar com força.
Eu estava sozinha. Finalmente podia chorar, e foi o que fiz. Apertei a colcha contra o meu rosto, decidida a não poupar uma única lágrima de raiva e desespero. Sim, eu tinha raiva, e pior, eu tinha raiva do Léo, por ele ter me deixado, por ter levado aquele tiro, chamei ele de burro várias vezes, enquanto surrava a cama.
- Me desculpa, eu não queria ter te deixado, você sabe disso...
Eu gritei como nunca em toda a minha vida. Léo estava na minha frente, e de repente parecia assustado também.
- AMALLYA!? - gritou a minha mãe, e pude perceber que ela estava subindo rapidamente a escada, e vindo em direção ao meu quarto.
- Porra, Léo! Você me assustou - sussurrei para o fantasma à minha frente.
No mesmo instante, minha mãe entrou no quarto com a expressão de alguém que viera apagar um incêndio. Automaticamente olhei para o meu lado e fiquei surpresa ao ver que Leonardo continuava no mesmo lugar. Fiquei olhando para ele e para minha mãe, feito uma ratardada.
- O que houve, Amallya? Por quê você gritou daquele jeito...? - perguntou a minha mãe, e pude perceber que ela não notara a presença de Léo.
- Eu... foi... - eu gaguejava, enquanto tentava criar uma resposta, e olhava para Léo.
- Olha pra mim, garota! - disse a minha mãe, confusa.
- Era... um passaro... enorme... ele entrou no quarto de repente, mas saiu rápido, acho que se assustou comigo... depois que eu me assustei com ele - eu disse, tentando parecer convincente, mas a cara da minha mãe me dizia que eu não estava convencendo ninguém.
- E você ainda não está pronta pra escola por quê? Além de te atacar, o tal pássaro também roubou o seu uniforme? - perguntou ela, e pelo seu tom de voz eu percebi que não deveria responder.
Léo parecia se divertir com a situação, e isso me iritava. Fui em direção ao banheiro, envergonhada, e quando minha mãe não olhava para mim, eu lancei um olhar enraivecido para Leonardo, que em troca acenou para mim, com um sorriso presunçoso no rosto. Eu quase ri, mas me controlei, com a intenção de demonstrar a minha raiva.
Tirei a roupa, liguei o chuveiro e fiquei esperando pelo som da porta do quarto batendo para então poder tirar satisfação com o Léo. Não que eu estivesse realmente com raive dele, só queria saber o motivo pelo qual ele sumira enquanto eu dormia. A porta bateu, e eu soube que a minha mãe não estava mais no quarto, então abri o box do banheiro, enfurecida...
- Leonardo, como você pôde...
- Te deixar só?
Dei um grito abafado, quando me deparei com a presença de Léo, no lado de fora do box, puxei a toalha o mais rápido que pude, e me cobri. Leonardo ria, e a minha vontade era de dar um tapa na cara dele, algo que, obviamente, não seria possível.
- Eu não acredito que tive que morrer pra poder te ver nua... mas valeu a pena - disse ele, com o típico sorriso de lado, pontuado com uma piscadela, também típica dele.
- Sai... da minha frente, Leonardo - eu disse, nervosa, e atravessando o corpo dele, sem querer. A sensação foi quase como a que eu tive quando o beijei na noite passada, porém dessa vez o estranho frio tomou conta do meu corpo inteiro. Ficamos olhando um para o outro, ambos assustados.
- Não faz isso de novo - disse ele, sério.
Ficamos em silêncio enquanto eu retomava o folêgo.
-Me desculpa... é que... eu fiquei desesperada quando acordei e não vi você do meu lado. Eu pensei que...
- Que tinha me perdido outra vez - concluiu ele, tirando as palavras da minha boca, o que me deixou feliz - Amallya... - ele se aproximou de mim, e tocou o meu rosto, suavemente, o frio de sua mão me fez tremer um pouco - Eu prometo que você não vai me perder de novo... Em cinco dias você vai voltar pra este quarto, e eu vou estar te esperando, com toda a saudade que alguém pode sentir no mundo.
Eu estava prestes a chorar, quando senti o meu rosto ser puxado levemente, e em seguida o frio beijo de Leonardo.
- Sobre esse lance de voce ter que ficar aqui... - comecei, quando Léo me deu a chance de respirar - eu estava pensando... Será que você não pode ir comigo pra o colégio...?
- Eu acho que não vai ser possível - disse ele, decepcionado.
- Mas... eu não entendo, por quê?
- Bem... Aparentemente, eu não posso.
- O quê? Como assim, não pode? - perguntei, enraivecida. "Você é um fantasma, certo? Pode fazer tudo o que quiser", pensei.
- Eu... tentei, pouco antes da sua mãe entrar no quarto pra te acordar... mas não consegui nada além de ficar invisível pra vocês duas, algo que, aparentemente, foi desnecessário, afinal a sua mãe não me viu na segunda vez em que ela apareceu aqui... É como se... como se eu estivesse preso a essa casa. O que me fez perder a esperança de rever os meus pais, pelo menos mais uma vez - disse ele, com uma profunda tristeza na voz. Pensei em abraça-lo, mas eu não queria repetir a experiência de ter atravessado o seu corpo, acidentalmente.
- AMALLYA CAROLINE! VOCÊ TEM CINCO MINUTOS, OUVIU BEM!? E SEM TEMPO PRA O CAFÉ DA MANHÃ, mas que BOSTA! EU VOU TER QUE ESCUTAR RECLAMAÇÃO DA MADRE SUPERIORA NO SEU PRIMEIRO DIA DE AULA! - gritou a minha mãe, do pé da escada no andar de baixo.
- Eu tenho que ir - disse, bufando de raiva.
Fui para o banheiro e comecei a vestir o uniforme do colégio, devo ter feito isso em três minutos, peguei meu tennis e minhas meias para calçar no carro, e por último peguei a minha mala, que havia siso feita no dia anterior. Quando saí do banheiro, Léo estava sentado na minha cama, olhando distraído para a janela.
- A gente se vê em uma semana - eu disse, tentando chamar a sua atenção.
- Eu mal posso esperar - ele disse, esborçando um triste sorriso.
- Eu vou sentir sua falta - e então saí do quarto, sem conseguir olhar para ele novamente.
Descí a escada segurando o choro com todas as minhas forças, "Larga de frescura! Em uma semana você vai ver ele de novo!", eu tentava pensar. Dentro do carro, eu não conseguia escutar as reclamações da minha mãe. Olhei para a janela do meu quarto, e para minha total surpresa, Léo estava lá, olhando para mim. Eu acenei para ele, discretamente, para que a minha mãe, que estava do meu lado, não percebesse. O aceno não fora correspondido, o olhar de Léo parecia distante, apesar de eu ter certeza de que ele olhava para mim. Uma lágrima desceu no meu rosto, me perguntei se fantasmas também choravam, "Claro que não, sua estúpida!", pensei.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Capítulo 2 - Recomeço

Era tudo muito real. Eu podia dizer que era de fato ele, me beijando ferozmente, se não fosse pelo frio incomum que tomou conta do meu corpo, no instante em que Léo tocou a minha face. Quando ele finalmente me deixou respirar, fechei bem os olhos na intenção de não ter que encarar os dele. Estava com medo; uma reação perfeitamente normal para alguém que acabara de ter a cabeça quase arrancada pelo beijo de um fantasma.
- Não precisa ter medo - disse ele, calmamente.
- É muito... fácil pra você dizer isso... a-afinal não é você que está vivo e diante de alguém que... que deveria estar... morto! Ou será que estou errada!? - eu disse, gaguejando de medo.
Ele sorriu em resposta.
- Você continua linda.
- E você deveria estar morto, mas... continua... lindo, também - eu disse, tomando coragem de olhar para ele.
Tirando os olhos, que haviam perdido um pouco do verde intenso de antes, ele estava exatamente como da última vez em que eu o vira vivo, o mesmo corte de cabelo, usando a mesma camisa branca de manga comprida, em gola de V, exibindo parte de seu peito, o mesmo jeans, o mesmo par de All Star, e esbanjando o mesmo porte físico de nadador que eu tanto adimirava (ele, de fato, nadava. Ganhara duas medalhas de ouro para a escola). Me senti tentanda a toca-lo, pensei em mecher na sua franja, como sempre fazia quando namorávamos. Eu adorava mecher no cabelo dele, que ao contrário do meu; absurdamente preto e liso, era castanho e crespo.
- Isso... Tá errado! Você... Eu vi aquela bala atravessar o seu peito, e-eu estava lá quando você...
- Quando eu morri, eu sei, eu sei, mas... Eu estou aqui, agora, não estou? - ele acariciou o meu rosto, e o frio de sua mão me fez estremecer - Me desculpe - disse ele, recuando depois de ter percebido a minha reação ao seu toque.
- Não foi nada, é só que... você está... frio... incrivelmente frio.
- Huh... Faz sentido, não!? - disse ele, rindo.
- Acho que faz sim - concordei, também rindo.
Ficamos em silêncio, nos encarando, e quando ficou muito embaraçoso, desviamos o olhar um do outro, quase que ao mesmo tempo. Me levantei do chão e fui sentar na minha cama, Léo fez o mesmo, e ficou me olhando, esperando que eu quebrasse o silêncio, e foi o que eu fiz...
- Tá!... Desculpa, mas eu tenho que perguntar... - comecei, vacilante.
- Vai em frente - disse ele, calmamente, parecendo entusiasmado para ouvir a minha pergunta.
- Como é... morrer...? - perguntei, um tanto nervosa .
Ele suspirou, e começou a responder...
- Na verdade... é difícil de explicar... Eu não me lembro de quase nada do que aconteceu na 25, eu... só me lembro de estar nos seus braços - ele olhou nos meus olhos, e sorriu timidamente -... e havia sangue, em todo o meu corpo, e... eu me lembro de ter sentido essa paz incomum tomar conta da minha mente... E agora eu estou aqui.
- Só isso? - perguntei, visivelmente decepcionada.
- Ah, é claro! Eu esqueci de contar sobre as mil virgens com as quais eu passo a maior parte do meu tempo, enquanto curto o paraíso - disse ele, com o seu típico sarcasmo que tanto me irritava, e uma das muitas coisas que eu odiava no Léo, das quais eu passara a sentir falta.
- Nem depois de morto você consegue parar de ser irritante - eu disse, carinhosamente. Dei um beijo em seu rosto gelado, e me deitei, mantendo os meus olhos nele.
- E você continua adorando isso - disse ele, de maneira presunçosa.
Ele se deitou ao meu lado, olhando para mim.
- Se você fosse menos convencido, eu até assumiria isso.
- Você acabou de assumir - disse ele, sorrindo de leve.
Eu sorri, e olhei para o relógio. Faltavam apenas duas horas para que a minha mãe entrasse pela porta do quarto.
- Você vai comigo pra escola? - perguntei, estranhamente animada.
- Acho que não... Eu sinto que devo ficar aqui - disse ele, parecendo confuso.
- Então... quando eu voltar pra casa no fim de semana... você ainda vai estar aqui, certo? - perguntei, apreensiva.
- Sim... eu vou estar aqui... te esperando - disse ele, confiante.
- Sério? - perguntei, animada e apreensiva, ao mesmo tempo.
- Sim... sim, eu vou estar, você vai ver! Eu não quero mais te deixar.
Dessa vez foi eu que o beijei, eu que quase arranquei a sua cabeça, nem mesmo o frio do corpo dele parecia mais me incomodar. Eu estava feliz, estranhamente feliz, dadas as circunstâncias. De repente eu não tinha mais dezesseis anos, eu me sentia renovada, me sentia com quatorze anos, quando Leonardo, também com quatorze anos, me pediu em namoro, e eu o respondi com aquele que seria o meu primeiro beijo. Era como se nós dois estivéssemos recomeçando o nosso namoro, e ali, na minha cama, estivéssemos nos beijando pela primeira vez. O sol começava a penetrar as brechas na janela do meu quarto, e tudo o que eu queria era ficar abraçada com ele, para sempre.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Prefácio e Capítulo 1

Prefácio

"Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo, a não ser que eu estivesse sonhando, ou mesmo ficando louca, ele não podia estar ali na minha frente, exatamente como eu o conhecera quatro anos atrás; lindo, com o seu sorriso simples e ligeiramente triste que tanto me encantava. Claro que eu queria acreditar que pudesse ser verdade, que ele me abraçasse forte, e me dissesse que tudo o que acontecera um ano atrás na 25 de março não passara de um pesadelo, que ele estava vivo , e que aquela maldita bala perdida não tivesse atravessado o seu peito... Mas Leonardo estava morto, e nada poderia mudar isso.
Ele se aproximou de mim, eu não tive medo, senti a sua mão acariciar a minha face, e me arrepiei ao sentir o frio de sua pele, estranhamente, penetrar o meu rosto.
- Que estranho... você não parece assustada da maneira que imaginei - disse ele, brincalhão.
E, segundos depois, a minha voz saiu quase como um sussurro:
- É... você mesmo?... Como... como pode ser?
Ele riu, e por um momento eu pensei que o som de sua risada pudesse ter acordado a minha mãe, no quarto ao lado.
- Eu... eu não sei - respondeu ele.
E eu senti o meu rosto ser puxado com força em sua direção. Nossos lábios se encontraram, e é simplesmente impossível descrever o quão mágico foi aquele instante, aquela sensação. Eu deixei o frio de seu corpo me penetrar, e desejei que aquele momento, por mais improvável que ele pudesse ser, nunca acabasse."



Capítulo 1 - Frio

Eu não conseguia dormir, meu olhar passeava pelo quarto, enquanto eu esperava inutilmente pelo sono. Olhei para o despertador: 2 horas da manhã. Até ali, já tentara de tudo para conseguir dormir, desde ler um dos livros de auto ajuda da minha mãe, à assistir qualquer lixo televisivo. Depois de ter lido dois capítulos de "Como domesticar seu marido", e ter visto a versão moderninha de "Carrie a estranha", na Sessão Insônia, ainda não conseguia dormir. Naquele mesmo dia eu estaria retornando ao colégio interno Lar do Sagrado Espírito Santo, onde estudava desde a quarta série, para iniciar o meu 1º ano ginasial. Estava ansiosa para rever meus amigos, Olavo e Janaína, que estudavam comigo desde o meu primeiro ano no Lar, e culpei essa ansiedade pela minha repentina falta de sono. Me perguntei se talvez Olavo e Janaína também estivessem tendo problemas para dormir, então olhei novamente para o despertador: 2 e 15 da madrugada.
Decidi ir até o banheiro em frente ao meu quarto, mais por vontade de sair da cama, do que por real necessidade. Depois de sair do quarto, dei dois passos, e abri a porta à minha frente. Quase caí no sono enquanto urinava; lavei as mãos e o rosto, esperançosa com relação a possibilidade de finalmente conseguir dormir. Fora do banheiro, tive a impressão de ter visto um vulto esbranquiçado, no espelho que cobria a parede inteira no fim do corredor. Em seguida, olhei rapidamente para o lugar onde a pessoa que eu vira no espelho, deveria realmente estar, e não vi nada além da escada que conduzia ao térreo da casa. Abri a porta do quarto e corri para minha cama, me enrolando da cabeça aos pés, com o edredom. Fechei os olhos, o mais forte que pude, prometendo a mim mesma que não os abriria até que minha mãe viesse me acordar, o que aconteceria em poucas horas.
Devo ter dormido por uns trinta minutos. Quando acordei, estava deitada de lado, e percebi que a minha cabeça não estava mais coberta pelo edredom. Abri os olhos, e o que eu vi, me fez levantar tão rápido da cama, que eu me desequilibrei e caí no chão, onde permaneci, sem forças para me levantar. Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo, a não ser que eu estivesse sonhando, ou mesmo ficando louca, ele não podia estar ali na minha frente, exatamente como eu o conhecera quatro anos atrás; lindo, com o seu sorriso simples e ligeiramente triste que tanto me encantava. Claro que eu queria acreditar que pudesse ser verdade, que ele me abraçasse forte, e me dissesse que tudo o que acontecera um ano atrás na 25 de março não passara de um pesadelo, que ele estava vivo , e que aquela maldita bala perdida não tivesse atravessado o seu peito... Mas Leonardo estava morto, e nada poderia mudar isso. Ele se aproximou de mim, eu não tive medo, senti a sua mão acariciar a minha face, e me arrepiei ao sentir o frio de sua pele, estranhamente, penetrar o meu rosto.
- Que estranho... você não parece assustada da maneira que imaginei - disse ele, brincalhão.
E, segundos depois, a minha voz saiu quase como um sussurro:
- É... você mesmo?... Como... como pode ser?
Ele riu, e por um momento eu pensei que o som de sua risada pudesse ter acordado a minha mãe, no quarto ao lado.
- Eu... eu não sei - respondeu ele.
E eu senti o meu rosto ser puxado com força em sua direção. Nossos lábios se encontraram, e é simplesmente impossível descrever o quão mágico foi aquele instante, aquela sensação. Eu deixei o frio de seu corpo me penetrar, e desejei que aquele momento, por mais improvável que ele pudesse ser, nunca acabasse.