quarta-feira, 12 de maio de 2010

Capítulo 8 - Volta


Eu abri os olhos, e a sensação era a de estar acordando de um pesadelo... Um pesadelo muito real. Teria mesmo acontecido todas aquelas coisas terríveis na noite passada? O banheiro feminino coberto de sangue anônimo, o desaparecimento de Barbara Regina, e a terrível maneira como esses dois fatores pareciam casar-se perfeitamente. Seria tudo isso real?
Eu olhei para a cama de Barbara, que permanecia intacta, exatamente como ontem à noite, e eu tive a minha resposta: Foi real, por mais assustador que pudesse ser... fora real, disso eu tinha certeza. As outras meninas ainda dormiam, inclusive Janaína. Eu olhei para o enorme relógio de parede, pendurado em cima da porta do dormitório, ainda faltava uma hora para a entrada da madre superiora. Eu não ia conseguir voltar a dormir, aliás, nem fazia mais sentido voltar a dormir. Então eu fiquei sentada na minha cama, repensando tudo o que acontecera no dia anterior, por exemplo, a maneira estranha com Gabriela agira durante o desastroso ensaio de A Paixão de Cristo, momentos depois de eu ter sentido a presença de Helene, e de ter visto ela, que observava fixamente os alunos que estavam no palco do auditório. Eu tinha que contar isso à Olívia, o mais rápido possível, isto é, na hora do intervalo. Não haveria outra chance, matar aula naquela escola era quase uma missão suicida. Teria que ser no intervalo. "Ótimo!", pensei, "Eu vou morrer de ansiedade até lá!". E eu ia mesmo.
As três aulas antes do intervalo pareceram durar uma eternidade. No primeiro toque de uma aula para outra, a minha vontade era de sair correndo pela porta da sala, direto para a biblioteca, sem dar a mínima para a madre superiora, ou para a morte lenta e dolorosa que eu sofreria nas mãos da minha querida mamãe, caso eu fosse suspensa da escola. Pedir para sair de sala com o pretexto de ir ao banheiro, ou trocar o absorvente, estava fora de cogitação, uma vez que a irmã Joana, que dera a primeira aula naquele dia, anunciara para a turma, com uma falsa expressão de "sinto muito" que "Excepcionalmente nesta manhã, todos os alunos estão proibidos de sair de sala antes do intervalo, não importa o quão urgente, inadiável, caso de vida ou morte, possa ser a causa do pedido, obrigada!". Eu não tinha outra opção, se não esperar...
Quando faltavam exatos cinco minutos para o meio dia, eu passei a encarar o relógio de parede, pendurado sobre a porta da sala. Por cinco minutos foi como se eu e aquele relógio fossemos as únicas coisas existentes na terra, cheguei a pensar que ouvia o barulho causado pelo movimento dos ponteiros. Observei os três ponteiros se encontrarem sobre o número 12 no relógio, e voei da minha carteira, ao som da sirene que quase não me deixou ouvir os gritos de protesto e Olavo e Janaína, pedindo para que eu os esperasse.
Eu subi, de dois em dois degraus, a escada para o primeiro andar, e corri em direção à biblioteca, finalmente respirando quando atravessei a porta dupla e parei ofegante diante do birô de Olívia, que me olhava assustada.
- Eu... (respirei fundo) preciso...
- De um banho! Você tá encharcada, menina! - disse Olívia, alarmada.
- Falar... com você... é importante... Porra! Pra quê eu fui correr tanto? - protestei, parando para repor todo o fôlego.
- O que pode ser tão importante? - perguntou Olívia, repreendendo com o olhar os outros alunos presentes na biblioteca, que me olhavam curiosos - Venha comigo - ela disse, levantando-se do birô, e me guiando até a sessão de história.
- Então... O que houve? - perguntou, sem me dar total atenção, pois observava os outros presentes na biblioteca, atrás de mim.
- Eu não sei se é realmente importante, mas... eu achei que você deveria ficar sabendo...
- Conta logo, então! - disse Olívia, finalmente demonstrando algum interesse sobre o que eu tinha para dizer.
- Ontem, durante o ensaio de A Paixão de Cristo, eu... eu vi a Helene...
- E a novidade é? - perguntou Olívia, sarcasticamente.
- Se você me deixar terminar, eu chego lá! - respondi, irritada. Olívia calou-se. - Bem... continuando... ela estava em cima do palco e olhava fixamente para os alunos que ensaiavam a peça... acho que ela nem fazia idéia de que eu podia vê-la... Ela tava tão... concentrada, e... pela forma como ela encarava as pessoas no palco, parecia estar puta da vida, ou sei lá... eu tava morrendo de medo, até chorei... - pude perceber que Olívia parecia séria, e ligeiramente preocupada - Mas isso não foi tudo... o pior foi que uma das alunas que estavam no palco, começou a agir de forma muito estranha, muito mesmo! Tipo estranho de comer merda e andar pra trás, sabe? Uma aluna novata... (estalei os dedos, tentando lembrar o nome dela) Gabriela! O nome dela é Gabriela, e... ela começou a gritar, ela parecia muito perturbada. Quando a coitada se deu conta de toda atenção que havia chamado, ela... saiu do auditório, chorando... e quando eu me dei conta, a Helene também havia sumido... - Olívia agora parecia totalmente distante - Ei! - tentei chamar a sua atenção - Então, o que você acha? Será que... essa tal de Gabriela também é um elo?
- Eu... acredito que não... Nós, elos, temos uma maneira diferente de vermos os espíritos, as vezes, se nós não sentimos a presença deles, um frio congelante que denuncia quando há algum espírito por perto...
- Eu sei como é, eu senti isso na noite em que o Léo apareceu no meu quarto.
- Enfim... quando não sentimos isso, um espírito pode passar por nós no meio da rua e ser confundido com uma pessoa viva, além disso, espíritos não podem identificar elos, só nós podemos identificar eles, um fantasma pode estar sendo observado constantemente por um elo e nem se dar conta disso, o que eu tô tentando te dizer é que... é muito raro um elo reagir histericamente à presença de um espírito... portanto, só pode haver uma explicação para o que aconteceu com a Gabriela...
- Que seria?
- É possível que ela estivesse vendo a Helene, mas... se eu estiver certa, e ela não for um elo, só há uma meneira disso ser possível, a Helene talvez quisesse que a Gabriela a visse, e... talvez estivesse atormentando ela, de propósito, alguns fantasmas fazem isso.
- Filha da puta! - xinguei baixinho.
- Porém, fantasmas não saem por aí aparecendo para pessoas normais sem nenhum motivo, Carol... Deus queira que eu esteja errada, mas... a Helene pode ter algum interesse em aparecer pra essa novata.
A imagem das camas de Barbara e Gabriela vazias no meio da noite anterior, me veio à cabeça, e eu me dei conta de que havia algo mais que Olívia precisava saber.
- Eu senti uma presença no dormitório, ontem à noite.
- O quê? - perguntou Olívia, assustada.
- Foi como se alguém tivesse deslizado uma pedra de gelo no meu corpo, eu tava dormindo e acordei com essa sensação, eu sabia o que significava, então... morrendo de medo, eu me enrolei toda com o cobertor e tentei dormir... Algum tempo depois eu acordei de novo... dessa vez com o grito que vinha do banheiro feminino... e reparei que nem Barbara e nem Gabriela estavam em suas camas.
- Espera... essa Gabriela é... é a Gabriela...? - Olívia tentava formular uma pergunta, sem muito sucesso.
- Sim! Essa Gabriela é a mesma que foi encontrada no banheiro feminino, ontem - respondi, empolgada.
- Meu Deus - Olívia parecia mais preocupada que nunca.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até a imagem dos polícias que perambulavam pela escola, e da razão para eles estarem ali, surgir na minha mente.
- Mas e aí... O que os políciais disseram sobre...? - não consegui encontrar uma definição para o que quer que tivesse ocorrido no banheiro feminino.
- Nada demais... eles encontraram várias marcas digitais na pia, e claro... tem todo aquele... sangue... Eles vão fazer de tudo pra descobrirem quem se ferrou naquele banheiro... Mas... tem outra coisa...
- Fala logo, pelo amor de Deus! - supliquei, morrendo de curiosidade.
- Segundo os especialistas em sangue...
- Especialistas em sangue?
- Eu sei, eu também não sabia que existia, mas enfim... eles disseram que... analisando a quantidade absurda de sangue encontrado na cena do crime... a vítima não foi só arremessada contra o espelho, mas... também pode ter sido esfaqueada, e uma vez enfraquecida, foi jogada contra o espelho, e bateu com a cabeça na pia... antes de chegar ao chão - disse, cautelosa para que ninguém na biblioteca, além de mim, escutasse o que ela relatava.
- Porra! - eu disse, horrorizada.
- Os professores e alguns funcionários estão sendo interrogados agora, os próximos serão vocês - disse Olívia, em tom de alerta.
- Você já foi interrogada?
- Ainda não, estão esperando o intervalo terminar pra esses ratinhos saírem daqui - disse Olívia, olhando impaciente para os alunos atrás de mim.
- Eles ainda estão procurando pela Barbara? - perguntei.
- Existe uma equipe trabalhando nisso, agora mesmo, pelo menos foi o que me disseram.
Eu pensei um pouco, e decidi fazer uma pergunta que me perturbava desde a noite passada, mas eu não sabia explicar ao certo a razão para tanto, era mais como uma intuição, eu acho.
- Você acha que a Helene pode ter alguma relação com tudo o que tá acontecendo? - perguntei, apreensiva.
- Eu acho que agora, mais do que nunca, você deveria tentar se aproximar da Anita. Ela estudou com essa Helene no tempo em que as duas eram vivas, não? Se existe alguém que pode nos contar algo sobre a Helene, é a Anita.
- Mas como eu vou conseguir me aproximar dela?
Olívia pensou por alguns segundos.
- Harry Potter! - disse ela, empolgada.
- O que Harry Potter tem a ver... Oh! Harry Potter! - eu disse, também empolgada.
- Exato! Na próxima semana traga todos os seus exemplares, e eu tenho certeza que você vai fisgar a confiança daquela falecida ratinha de biblioteca - disse Olívia, me lançando um sorrisinho malicioso.
- Ótima idéia, Liv!
- Ah! E tenta se aproximar mais da Gabriela. Com tudo o que anda acontecendo, ela deve estar se sentindo muito sozinha, aproveita isso! - disse Olívia, sugerindo uma idéia quase impossível.
- Eu acho que isso vai ser muito mais difícil do que tentar dialogar com um fantasma que se assusta até com a minha voz - respondi, desanimada.
- Eu sei que você vai conseguir. Agora vai comer alguma coisa, antes que o intervalo termine.
- Me lembrei de Olavo e Janaína, e da maneira como eu os havia abandonado na sala de aula.
- Tá! A gente se vê depois - eu disse, recomeçando a correr e tropeçando desastradamente no birô de Olívia.
- CUIDADO! SEU DESASTRE AMBULANTE! ISSO É MADEIRA IMPORTADA, CARAMBA! - gritou Olívia, preocupada com o birô.
- Eu corri para o refeitório, onde Olavo e Janaína conversavam algo, sentados em uma mesa próxima às janelas. Fui até eles, pensando em uma desculpa convincente para a maneira como eu havia deixado a sala.
- Oi - eu disse, ofegante.
- Olha só, Olavo, ela ainda lembra que a gente existe - disse Janaína, em tom de brincadeira, e eu me senti aliviada por ela não estar zangada da maneira como eu imaginava.
- Que merda foi aquela, cara? Você parecia até... Os vietnamitas fugindo do Dr. Manhattan, o Super Homem quando vê uma criptonita, ou...
- A gente já entendeu, Lavinho. Você é o super nerd, aqui! - disse Janaína, interrompendo o delírio nerd de Olavo.
Me divertindo com com eles, eu me sentei, e peguei a terceira bandeja na mesa, me dando conta do quanto amava aqueles dois. Olavo e Janaína sempre pediam uma bandeja para mim, quando eu não ia direto para o refeitório.
- Valeu pelo almoço, gente - eu disse.
- Valeu nada! Pode ir dando uma explicação pra você ter deixado a gente feito dois babacas chamando o seu nome, na sala de aula - disse Janaína, tirando o copo de suco da minha mão.
- Bem... - comecei a pensar, rapidamente, em uma resposta convincente - eu tive que... pegar um livro, que... sai muito, entende? - respondi, não convencendo nem à mim mesma.
- E cadê esse livro tão procurado? - perguntou Janaína, enfatizando cada palavra com o seu inconfundível sarcasmo.
- Eu... não cheguei a tempo, e alguém já tinha levado. Meu Deus, batata frita! - eu disse, tentando escapar de mais perguntas.
- Da próxima vez, vê se espera a gente - disse Olavo, enquanto bebia o resto do seu suco, fazendo um barulho irritante com o canudo.
- Ou pelo menos responde quando a gente te chamar - continuou Janaína, puxando o copo da mão de Olavo, e arremessando-o para longe, expressando assim, à sua inconfundível maneira, o quanto estava irritada com o barulho que o amigo fazia.
- Não que eu tivesse ido à biblioteca se você tivesse chamado a gente, eu... tenho muito medo da bibliotecária - disse Olavo, parecendo estar falando sério.
- Você tem medo de tudo que esteja relacionado à livros, Olavo - disse Janaína, expondo uma verdade sobre a personalidade de Olavo. Ele realmente odiava ler.
- Eu só havia conseguido devorar metade do meu almoço, quando o susto que eu levei ao ouvir o som da sirene, fez com que eu me engasgasse com a comida. Aconselhada por Janaína, eu bebi o resto do meu suco, e nós três voltamos para a nossa sala.
Ao chegarmos na porta da sala, nos deparamos com dois políciais que nos encaravam sérios, acompanhados da madre superiora. "Provavelmente, para nos interrogar", pensei, olhando para os dois homens, e me lembrando da informação que Olívia me dera na biblioteca.
Quando toda a turma encontrava-se na sala, que nunca estivera mais silenciosa, a madre superiora entrou, acompanhada pelos dois homens.
- Boa tarde a todos - disse a madre superiora, que parecia cansada.
- BOA TARDE, MADRE SUPERIORA - respondeu a turma, em uníssono.
- Esses senhores tem algumas perguntas para serem feitas a cada um de vocês, portanto... fiquem sentados em silêncio, enquanto esperam serem chamados - disse Amélia, dando espaço para um dos polícias, que era baixinho e tinha a barba por fazer.
- Quem for chamado, por favor, dê um passo a frente - disse ele, que para um polícial, não era dono de uma voz muito grave - Gabriela Machado - ele disse, encarando toda a turma, enquanto esperava que a tal Gabriela desse sinal de vida.
- A estranha Gabriela ergueu-se devagar, e caminhou, timidamente, em direção ao polícial, tentando evitar os olhares de suspeita lançados por todos na sala.
Pela ordem alfabética, Gabriela não deveria ser a primeira a ser chamada, mas todos sabiam que ela havia se tornado a principal suspeita do... desaparecimento?... de Barbara Regina. Talvez por esse motivo fosse a primeira.
O interrogatório dela deve ter durado cerca de quinze minutos, e então o polícial retornou à sala, desta vez, chamando por Alexandre Medeiros, namorado de Barbara, que parecia mais nervoso do que a própria Gabriela, quando atravessou a sala em direção ao polícial baixinho e mal encarado. Foi a última coisa que eu vi, antes de cair no sono. Eu escutei o meu nome, e acordei com a sensação de ter dormido por horas.
Amallya Caroline - repetiu o baixinho, irritado.
Surpresa, eu atravessei a sala, escutando as risadinhas de alguns alunos. O polícial encostou a mão gorda no meu ombro e me levou para fora da sala, direto para o refeitório. Ele me levou até a mesa mais próxima, e sentou-se de frente para mim.
- Quantos anos você tem, Amallya? - perguntou ele, sem nem ao menos esperar que eu me sentasse.
- Quinze... Dezesseis! Desculpe - respondi, me sentando em seguida.
- Vamos, decida-se, meu bem - disse ele, rindo, e olhando para o seu parceiro, esperando a mesma reação dele, que também riu, forçadamente.
- Eu tenho dezesseis anos - respondi, séria.
- Faz muito tempo que você estuda aqui?
- Desde o quinto ano.
- Você era próxima de Barbara Regina?
- Na verdade, não, desde o... - tentei me lembrar - quinto ano!... Quando ela cuspiiu um chiclete no meu cabelo, e eu... me vinguei, no dia seguinte, cuspindo um chiclete na boca dela... eu passei o dia inteiro mascando aquele chiclete - foi impossível evitar a risada, quando, automaticamente, me lembrei da cara da Barbara quando eu pisei no pé dela, com tanta força, que a dor obrigou-a a abrir a boca para gritar, a única chance que eu precisava para me vingar - ai, ai... - enxuguei uma lágrima do rosto - Bons tempos - eu disse, olhando para o polícial, que não parecia ter achado graça nenhuma.
- Onde estava por volta da meia-noite de ontem? - perguntou ele, impaciente.
- No dormitório - respondi, evitando o olhar acusador do polícial.
Ele ficou me encarando, um pouco intrigado, por alguns segundos.
- Eu já posso voltar pra minha sala? - perguntei, encarando-o.
- É... eu acho que isso é tudo - ele disse, dando um sorriso forçado.
Eu me levantei, e fui acompanhada pelo outro polícial até a minha sala.
Os interrogatórios terminaram por volta das cinco da tarde. Olavo e Janaína responderam as mesmas perguntas que eu. Me vi tentada a puxar conversa com Gabriela, só para saber o que os políciais haviam perguntado a ela. Sim, com certeza, não foram as mesmas coisas que eles perguntaram a mim, ou aos outros alunos do Lar.
Olívia me mandara fazer isso, eu deveria me aproximar de Gabriela... E não fazia idéia de como fazer isso. Fomos mandados mais cedo para o dormitório, naquele dia. Os políciais que fizeram os interrogatórios deixaram a escola por volta das seis e meia. Observei bem a madre superiora, quando ela nos levou até os dormitórios, e senti muita pena dela. A sua face parecia representar o medo que todos no Lar estavam sentindo desde a noite passada. O olhar choroso, e as olheiras, denunciavam que a pobre velha passara a noite em claro, provavelmente pensando no futuro do Lar, agora que o colégio tinha um possível desaparecimento em seu histórico. Como ia ficar a imagem da escola se os pais de Barbara decidissem processar a instituição, caso a menina não fosse encontrada? O que seria da própria madre superiora, e doa outros funcionários, que há anos trabalhavam somente no Lar? Esses e outros problemas, provavelmente, deveriam estar martelando insistentemente na cabeça de Amélia. E a única solução para todos eles seria o reaparecimento de Barbara (viva ou morta).
Aquele dia se passara. E Barbara continuava desaparecida.
Na quinta feira, no intervalo, eu voltei à biblioteca, esperando que Olívia me desse alguma informação sobre a procura por Barbara Regina. Ela não sabia de nada, além do rumor de os pais de Barbara haviam aparecido na escola, por volta das dez horas, na noite passada, e desesperados, ameaçaram todos da equipe de investigação, a madre superiora e o próprio Lar. Olívia também me falou sobre o seu interrogatório, que não foi muito diferente do meu, até que a nossa conversa foi encerrada pelo toque da sirene, e eu voltei para a minha sala.
Ao som dos protestos da madre superiora, os políciais da equipe de investigação que a cada dia pareciam menos esperançosos, deixaram a escola antes do anoitecer, e assim, a quinta-feira se passara. Um dia monótono, e ao fim dele, a cama de Barbara permanecia vazia.
Na sexta-feira, durante o intervalo, eu fui até a biblioteca para a minha conversa diária com Olívia, que me informou sobre o último escândalo que os pais de Barbara protagonizaram na sala da madre superiora, que não pôde fazer nada, além de ouvir os protestos do casal, calada. E era o mínimo que a pobre mulher podia fazer por aqueles dois pais inconsoláveis, uma vez que a única filha deles sumira dentro da própria escola onde estudou durante anos, sem deixar nenhuma pista, além de um rastro de sangue.
Sim, segundos Olívia, que naquele mesmo conversara com um dos políciais responsáveis pela investigação, o sangue e as impressões digitais coletadas no banheiro feminino realmente pertenciam à Barbara.
- Meu Deus... - foi tudo o que eu consegui pronunciar, depois de ouvir as palavras que saíram da boca de Olívia.
- Eu sei... é... horrível... mas é a verdade - ela disse, também abalada.
- Mas... se todo aquele sangue realmente pertencia à Barbara, então... ela pode estar morta, agora, não!?
- Existe uma grande possibilidade de que isso seja verdade - respondeu Olívia, preocupada.
- Ok... - respirei fundo - é impossível que a Helene tenha alguma coisa a ver com isso... afinal... um fantasma não poderia matar alguém... poderia? - perguntei, sem acreditar nas palavras que saiam da minha boca. Era muita loucura para mim.
- Não... não poderia, querida - respondeu Olívia, evitando o meu olhar. E por alguma razão, eu não acreditei nela.
Quando anoiteceu, pouco a pouco, os alunos foram levados de volta para suas casas, por seus respectivos pais. Olavo se despediu de mim e Janaína, quando sua mãe chegou por volta das sete da noite, dirigindo o seu velho fusca branco, onde eu já pegara carona inúmeras vezes. A tia de Janaína chegou minutos depois, a pé, pois elas moravam à dois quarteirões da escola. Ína se despediu de mim com um longo abraço e dizendo que, se não tivesse que recepcionar, que voltaria da Itália naquela noite, ficaria na escola para me fazer companhia.
Eu nunca havia me sentido tão sozinha como naquela noite. Além de mim, haviam mais outras cinco garotas no dormitório. Eu já estava acostumada a ficar sozinha nas noites de sexta feira, graças a preguiça da minha mãe de me pegar no colégio por volta das 22h, horário em que terminava de lecionar história, em uma importante faculdade de São Paulo. Mas eu nunca havia sentido tanta falta de ter Janaína ao meu lado, como naquela noite. Associei isso ao medo de me deparar com a imagem de Helene, me encarando na escuridão. Medo esse, que eu adquirira desde a noite em que eu sentira a estranha presença no dormitório.
Com dificuldade, eu comecei a cair no sono, e sonhei...
Eu estava no primeiro andar, e olhava fixamente para a porta dupla no final do corredor. A biblioteca estava diferente, as luzes apagadas. Eu adentrei o breu, que tomava conta da biblioteca como uma criatura feita de escuridão... prestes a me devorar. Eu nunca havia entrado em um lugar tão escuro. De repente, a biblioteca inteira foi iluminada por uma luz fraca e amarelada. Eu estava em meio ao corredor da ala de história, que parecia mais extenso que o normal. No final dele, eu pude perceber uma figura encolhida no canto da parede. Era Anita, e ela chorava feito um bebê. Eu me aproximei da garota, devagar, e toquei o seu ombro, dizendo...
- Anita... você tá bem?
Ela ergueu o seu olhar para mim, os olhos inchados de tanto chorar.
- Ela sabe... - sussurrou Anita.
- Ela quem? - perguntei, começando a ficar assustada.
Aos prantos, a garota apontou, timidamente, para o outro lado da enorme ala. Tomei coragem para olhar na direção que Anita me indicara, e quando finalmente o fiz, me arrependi profundamente. Eu quis gritar, mas tudo o que consegui foi chorar... um choro sufocado... de medo. No outro lado do corredor de livros, Helene me encarava, da mesma maneira intimidadora e com o mesmo sorriso, quase imperceptível, em seu rosto. A sua farda estava coberta de sangue, e sua mão direita segurava uma faca de cozinha, também ensanguentada. Ao seu lado, o corpo de Barbara Regina estava deitado no chão, o abdômen da jovem sangrando incessantemente, e seu olhar petrificado de pavor. Eu fiquei paralisada pelo medo, podia sentir as lágrimas deslizarem pelo meu rosto. Inconscientemente, levei as minhas mãos ao meu abdômen... em estado de pânico, percebi que também sangrava. Desesperada, eu tentava estancar o ferimento, que teimava em continuar derramando o meu sangue. Olhei novamente para Helene, ela estava mais perto de mim... não disse nada, só continuou a sorrir.
- Acorda, Amallya! - disse uma voz feminina e arrogante.
Eu acordei, ainda em estado de choque. A camisola colada no corpo e encharcada de suor, me fez pensar, por um instante, que eu ainda sangrava. Eu respirava, ofegante. Foi quando percebi que todos os olhares no dormitório estavam voltados para mim. A irmã Joana me encarava, assustada e com um certo desdém.
- Você está bem, minha filha? - perguntou ela, em tom de falsa gentileza.
- Eu... tô... tô bem sim, foi... só um pesadelo - respondi, ainda ofegante.
- Bem... você não teria pesadelos se rezasse todas as noites, antes de dormir... mas, sinceramente, esse não é o tipo de costume que eu esperaria ver uma criança como você, praticar - disse Joana, agora, sem nenhum receio em demonstrar o seu desdém - Sua mãe está esperando por você no refeitório - ela disse, me dando as costas e retirando-se rapidamente do dormitório.
"Que direito essa puta tem de julgar a minha fé, ou a falta dela?", pensei, me mordendo de raiva.
Apertei os olhos com força, e os esfreguei com as duas mãos, na intenção de expulsar da minha cabeça as imagens do meu último pesadelo. Sem sucesso. Flashes daquele, e de outros pesadelos, ainda me atormentariam por muito, muito tempo.
No chuveiro, me dei conta de que, com tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias, eu havia até me esquecido do quanto eu estava ansiosa para rever Leonardo (ou... o fantasma dele? Não importava!). Me arrumei o mais rápido possível, e quase tropecei quando desci correndo as escadas para encontrar a minha mãe no refeitório.
Olga me esperava, fumando um cigarro, e batendo o pé, impaciente.
- Amém! - ela disse, quando me viu atravessar o arco do refeitório.
- Também tava com saudade, mãe - eu disse, de forma sarcástica.
Ela me deu um rápido beijo na testa.
- Como foi a sua semana? - ela perguntou, por obrigação, e começou a andar em direção à saída.
- Monótona - respondi, tentando acompanhar os seus passos.
Nós atravessamos o lobby da escola, e o pátio introdutório em seguida. Quando o enorme e velho portão da escola começou a se fechar atrás de mim, dei uma última olhada para o Lar. Helene estava no pátio, ao lado da estátua do espírito santo, me encarando, com o mesmo sorriso sacana, que eu começara a odiar, ao invés de temer. Por um segundo, imaginei ela dizer: "Adeus... a gente se vê em dois dias... vou ficar te esperando". Foi quando eu desviei o olhar, apertando os olhos com força, e entrando no carro da minha mãe, o mais rápido que eu pude. Fechei a porta, sem coragem de olhar através da janela.
Durante todo o percurso de carro, eu procurei desviar os meus pensamentos do Lar, de Helene, e de Barbara Regina. Passei a pensar em Leonardo, e na infeliz possibilidade de que ele não estivesse esperando por mim em meu quarto, com o seu típico sorriso de lado. E, ao mesmo tempo, eu tentava alimentar a acolhedora ilusão de que eu iria revê-lo naquele dia.
Sem esperar que Olga estacionasse o carro na velha garagem da nossa casa, eu peguei a chave da casa no porta-luvas, abri a porta do carro, rapidamente, e corri para a porta de casa. Mamãe perguntava em voz alta o motivo da minha pressa. Sem responder, eu entrei em casa e subi, de dois em dois degraus, a escada em direção ao meu quarto. Eu abri a porta.
Leonardo não estava lá. Ainda ofegante, eu revistei todo o quarto, procurando o fantasma do meu namorado, mas não havia sinal algum dele. Eu sentei na minha cama, desamparada. E droga! Já podia sentir as malditas lágrimas brotarem dos meus olhos.
Enxuguei o rosto quando escutei dona Olga resmungando, enquanto subia a escada.
- AH! SE VOCÊ PENSA QUE A ESCRAVA DA SUA MÃE VAI PEGAR AS SUAS MALAS, PODE IR TIRANDO O SEU MALDITO CAVALINHO DA CHUVA! EU TÔ MORTA DE CANSADA E... - Olga entrou em seu quarto, e continuou reclamando, apesar de eu não poder mais ouvir, ao certo, o que ela dizia. Foi quando eu senti... O toque de algo que parecia ser uma mão muito, muito fria. A minha espinha gelou, e elogo todos os pêlos da minha nuca estavam arrepiados. Eu engoli um grito de pavor, e olhei para trás.
- Te assustei? - perguntou Léo, soltando uma risada.
- Meu Deus, Léo! - eu não aguentei, as lágrimas desabaram do meu rosto, descontroladamente.
- Me desculpa... - ele disse, parecendo realmente arrependido - Você vai acreditar se eu disser que não foi de propósito? - perguntou Léo, se esforçando para conseguir tocar o meu rosto, levemente, na tentativa de me acalmar.
- Não mesmo, seu idiota - eu respondi, sorrindo. O toque dele me acalmara. A simples presença dele me fazia bem.
- Eu senti sua falta - ele disse, se aproximando de mim. Eu pude sentir o frio que a sua presença transmitia.
- É mesmo?... Eu adoraria poder dizer o mesmo, só pra você não ficar triste - brinquei.
- Sério... Mentir, não é o seu forte - ele disse, abrindo um largo sorriso.
- Qualé! Eu não convenci nem um pouquinho? - perguntei, também rindo.
- Não mesmo - ele disse, se aproximando dos meus lábios.
Eu deixei que a sua boca encostasse na minha, e logo o meu corpo inteiro estava tomado pelo frio transmitido pelo toque de Leonardo. Naquele momento, eu me dei conta do quanto eu sentira a sua falta. Minha vontade era de poder agarrar a nuca dele e não libertá-lo nunca mais. Poder, realmente, tocá-lo, sentir o calor exalado do seu corpo... mas isso era impossível. E tudo o que eu sentia com o seu... toque?... agora, era frio... o acolhedor frio da morte.
Ele se afastou, parecendo distante.
- Eu vi outros fantasmas - eu disse, sem saber ao certo a razão de ter tocado naquele assunto.
- O quê? Onde? - Ele perguntou, preocupado.
- No lar...
- Que tipo de fantasmas?
- E por acaso existe diferença? - falei, achando graça na pergunta de Leonardo.
- Como... como eles eram, Amallya? - ele perguntou, nervoso.
- Duas garotas que já estudaram no Lar, mas porque isso é tão importante, Léo? São só... fantasmas... certo? - perguntei, começando a ficar preocupada também.
- Com que frequência elas aparecem pra você? - perguntou, encarando o chão, e com as mãos apoiando a cabeça, como costumava fazer quando estava preocupado, ou se concentrando em algo.
- Bem... Uma delas... a Anita, não parece gostar muito de mim, ela vive na biblioteca, e Olívia pode vê-la também...
- A bibliotecária esquisitona? - perguntou, me encarando com curiosidade.
- Sim, mas eu explico isso depois... Na verdade... é outro espírito que tá me deixando maluca... Helene, ela... ela é a que mais aparece, e... na maioria das vezes, é como se ela estivesse me desafiando...
- Ela sabe que você consegue vê-la? - ele perguntou, levantando-se da cama.
- Eu acho que... sim.
- Meu Deus, Amallya! Você não podia ter deixado isso acontecer...
- Calma, Léo... Ela não pode fazer nada comigo... - a imagem do banheiro feminino coberto de sangue me veio à cabeça.
Leonardo estava agora apoiado no para-peito da janela, e parecia estar com raiva.
- Você ainda se lembra... da Barbara? - perguntei, decidida a deixá-lo saber de tudo.
- Quem? - ele perguntou, direcionando o olhar para mim, novamente.
- Barbara Regina... Você ainda se lembra dela?
- Barbara Regina...? A patricinha que te odiava, e vivia dando em cima de mim?
- Sim.
- Mais do que eu gostaria... por que a pergunta? - disse Léo, curioso.
Eu contei a ele tudo o que acontecera no decorrer dos últimos dias, desde a descoberta do meu dom, que mais me parecia uma maldição, até as aparições de Helene, a sua relação com a misteriosa Anita, a maneira como a novata Gabriela agira durante o ensaio de A Paixão de Cristo, e claro, o banho de sangue no banheiro feminino.
Leonardo escutou toda a história, com o mesmo semblante sério, e sem me interromper em momento algum. O silêncio dele ao final do meu relato, me fez perguntar...
- Você acha que essa tal de Helene pode, de alguma forma, ter causado tudo isso?
Com um olhar distante, ele suspirou de maneira preocupada, e alisou o cabelo, rapidamente.
- Antes de... voltar pra você... eu... estava nesse lugar tão... cheio de paz... muito, muito diferente de tudo isso aqui... e lá haviam outros... espíritos...
- E você podia... falar com eles? - perguntei, um tanto fascinada.
- Não... mas eu podia senti-los... eu podia sentir... o que eles sentiam, ou... a energia deles, sei lá... e acredite Amallya... - nesse momento ele se voltou para mim, com um olhar sincero e profundo, que me assustou um pouco - nem todos esses sentimentos... eram bons - senti os pêlos da minha nuca ouriçarem, e tremi. Leonardo parecia ter percebido o meu medo, e acariciou o meu rosto, na tentativa de me tranquilizar - Portanto... Você vai prometer, pelo amor que você ainda sente por mim... que você não vai se envolver com seja lá o quê esse espírito... Helene... estiver tramando... por favor, Amallya... não corra perigo... porque eu não vou poder te proteger... dessa vez - ele implorou, com as duas mãos sobre a minha face. O seu olhar de súplica... e medo... ficaria cravado na minha mente para sempre.
- Eu... prometo - eu menti, enquanto sentia uma lágrima solitária descer o meu rosto, levemente.
A promessa, que eu jamais cumpriria, foi selada pelo encontro gélido de seus lábios com os meus.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Capítulo 7 - Adaptação


Olívia sorria como se tivesse dado a melhor notícia da minha vida.
- Eu não vejo graça nenhuma - eu disse apavorada, enquanto a calma de Olívia me irritava.
- Ninguém tá dizendo que é engraçado, é só... fantástico, é um dom, Amallya, você pode se considerar uma pessoa iluminada... - disse Olívia, parecendo fascinada.
- O que pode haver de tão fantástico em ver gente morta por aí?
- Eu não tô pedindo pra você concordar comigo com relação a isso, mas você precisa aceitar o que você é, Amallya... Você precisa aceitar a sua missão...
- Missão?
- Sim, missão... a nossa missão aqui na terra é ajudar esses espíritos a... a encontrarem a paz...
- Isso... isso tudo é demais pra mim, Olívia. Eu não nasci pra sair por aí brincando de "Caça fantasmas" ...
- Eu sei que é difícil , mas... tentar fugir disso, tentar negar o seu dom... não vai ser uma boa decisão - disse Olívia, parecendo realmente preocupada.
Eu fiquei em silêncio, tentando absorver tudo o que Olívia acabara de me dizer. Eu estava com medo, eu não queria nada daquilo. Mas Olívia tinha razão; tentar fugir não seria a decisão certa.
- Você já viu viu o Léo?
Aquela pergunta me pegara totalmente desprevenida.
- O quê? - perguntei, totalmente surpresa.
- É que... quando eu tinha a sua idade, o primeiro espírito que eu vi foi o da minha avó... alguém que eu amava muito... Então eu pensei que, como o Leonardo foi uma pessoa muito especial pra você, ele seria o primeiro espírito que você veria - disse Olívia, parecendo triste.
- É, foi ele sim... Eu acordei no meio da noite, e ele... simplesmente estava lá... olhando pra mim... Claro que eu quase caí da cama, com o susto - eu disse, me divertindo com a lembrança de Léo me encarando, enquanto eu pensava que estava sonhando, ou ficando louca.
- Isso não acontece por acaso - disse Olívia, escorando-se em seu birô.
- O que você quer dizer?
- Que o Leonardo não apareceu pra você só porque estava com saudade, querida - disse Olívia, em tom de zombação.
- Mas... pra quê ele voltaria? - pensei alto.
- Eu não faço a mínima idéia, assim como talvez ele não faça a mínima idéia... só o tempo dirá - respondeu Olívia, misteriosa.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, eu estava completamente distraída tentando pensar em algum motivo que pudesse justificar a "volta" de Leonardo. E essa tal Helene, que razão poderia ter aquela estranha garota para continuar no mundo dos vivos? Foi quando eu tive a idéia de perguntar a Olívia sobre ela.
- Olívia?
- Sim?
- Você já ouviu falar em uma garota chamada Helene? Ela já estudou aqui no colégio há muito tempo atrás...
- Helene? Não me parece familiar, por quê?
Eu relatei a Olívia o ocorrido na estátua do espírito santo, falei sobre Helene, sobre Olavo e Janaína não a terem visto, o que foi o bastante para eu ter deduzido que a garota era na verdade um fantasma, falei sobre a foto que eu encontrara no anuário da turma do primeiro ano de 1978, e por fim, lhe contei sobre a recente aparição de Helene no corredor do primeiro andar, que ocorrera alguns minutos antes.
- Você disse que ela cursou o primeiro ano em 1978? - perguntou Olívia.
- Sim.
Olívia sorriu.
- Eu acho que conheço alguém que pode te ajudar - disse Olívia, esperançosa.
- ANITAAA... - ela gritou para alguém na biblioteca. Me perguntei quem ainda poderia estar ali em uma hora daquelas - EU ACHEI O "HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA", VEM BUSCAR! - disse Olívia, mentindo sobre o exemplar de "Harry Potter e a câmara secreta". Em poucos segundos, Anita, a garota dos olhos assustados, surgiu animada da sessão de literatura clássica. Ela paralizou ao me ver, e eu mesmo estava muito assustada ao ver que ela era a Anita por quem Olívia chamara. Por um instante, pareceu que a garota ia sair correndo.
- Espera, Anita... - começou Olívia, tentando acalmar a garota - Esta é Amallya...
- Prazer...
- Shhh - fez Olívia, repreendendo a minha tentativa de iniciar uma conversa com Anita, e voltando a sua atenção para a garota - Sim... assim como eu, a Amallya também pode te ver... - Os olhos da garota pareciam mais apavorados que o normal, Olívia parecia estar fracassando em sua tentativa de acalma-la - E não... ela não vai te fazer mal... até porque você já está morta - disse Olívia, rindo da própria piada de mau gosto. O olhar de Anita mostrava que ela não havia achado graça nenhuma - Me desculpe, eu... sou um desastre quando tento ser engraçada, de vez em quando - disse Olívia, visivelmente envergonhada - Amallya gostaria de te fazer algumas perguntas, Anita... se não for incomodo.
Anita evitava me olhar diretamente. Na verdade, era mais como se ela tivesse medo de fazer isso, como se eu fosse a própria Medusa da mitologia grega. Me dei conta da idéia de Olívia, e me chamei de burra, mentalmente, por não ter pensado nisso antes. Anita estava em uma das fotos do anuário de 1978, ao lado de Helene.
- Oi... Anita - eu disse, resolvendo esperar por alguma reação dela, antes de partir para o interrogatório.
- Oi - disse ela, quase sem voz.
- É um prazer te conhecer - eu disse, agradecida por ela estar parecendo mais a vontade para falar comigo. Dessa vez ela não respondeu nada - Eu te vi numa foto... no anuário da turma do primeiro ano ginasial de 1978... e nessa foto... você estava ao lado de uma garota... - a expressão dela mudou por completo, de repente ela parecia mais assustada do que nunca.
- Não!... - ela sussurrou como um alerta.
- Você estudou com uma garota chamada Helene, não foi?
A minha pergunta serviu como um gatilho para que Anita correce desesperada pela biblioteca, e sumisse da nossa vista, enquanto gritava "Não" repetidas vezes.
- Eu tentei - lamentou Olívia.
- É... - eu suspirei - Valeu!
- Olha... eu tenho certeza que a Anita pode começar a colaborar, com o tempo, ela é gente boa... Era - disse rindo - Eu a conheço há muito tempo, desde quando comecei a trabalhar aqui, na verdade... Então... aparece aqui mais vezes, tenta conquistar a amizade dela, e eu tenho certeza que ela vai te ajudar a descobrir mais sobre essa Helene.
- É uma boa idéia, vale a pena tentar - eu disse, um tanto desesperançosa.
- Agora se manda daqui, e não vai pro refeitório! Essa hora os alunos já jantaram e devem estar em seus dormitórios...
- É, Olívia, eu sei!... Obrigada - eu disse, enquanto me aproximava de Olívia para lhe dar um beijo de boa noite.
- Boa noite, Carol - disse ela, retribuindo o beijo com um outro na minha buxexa - Não deixa ninguém te ver! Principalmente a bruxa superiora - disse Olívia.
- Pode deixar! - eu disse, não me controlando na risada.
O primeiro andar estava assustadoramente silencioso. Intimamente desejei que Helene não decidisse aparecer ali, não naquele momento. Então, como eu costumo fazer quando estou sozinha em um lugar assustador; comecei a correr feito uma louca, até chegar a escada que me levaria ao segundo andar. Parei ao chegar no penultimo degrau, escutei passos e vozes, que me pareciam perfeitamente familiares. A irmã Joana e o padre Jonas caminhavam pelo corredor dos dormitórios, enquanto conversavam sobre Olívia. Desci alguns degraus, na intenção de me esconder e escutar a conversa.
- Eu não sei que razões a madre superiora possa ter para permitir que essa mulher continue trabalhando nessa escola, imagine o senhor que outro dia eu confisquei a bolsa dela, e descobri que ela estava trazendo um exemplar de... meu Deus...
- Diga de uma vez, Joana! - insistiu o padre Jonas
- Harry Potter - respondeu Joana, dando tapinhas na própria boca, depois de pronunciar o nome de um dos personagens literários que eu mais amo. Logo deduzi que o tal exemplar de Harry Potter que enfurecera Joana poderia ser um presente que Olívia levara para Anita. Achei engraçada a idéia de um fantasma que lê.
- Meu Deus - disse o padre Jonas, fazendo o sinal da cruz.
- Claro que ela desrespeitou a minha autoridade, e não quis me entregar o livro, aquela bibliotecaria atrevida! - disse Joana com um olhar de desdém, e pronunciando a palavra "biliotecária" em tom de ofensa.
- Você contou para a madre superiora?... - perguntou o padre Jonas. E foi a última coisa que eu consegui ouvir nitidamente, pois os dois já se afastavam da escada onde eu me escondia.
Dei uma espiada para saber o quanto eles estavam longe. Esperei eles entrarem na sala dos professores , que ficava no fim do corredor do segundo andar, e corri até o dormitório feminino que estava bem à minha frente, no outro lado do corredor. Dentro do dormitório, fechei a porta bem devagar, para não acordar as garotas, O dormitório era uma sala enorme de teto alto, muitas janelas, onde haviam camas confortáveis e perfeitamente enfileiradas uma ao lado da outra, que ocupavam quase todo o lugar, deixando pouco espaço para caminhar. Eu tinha pouco tempo para trocar de roupa e me jogar na cama, antes que a madre superiora aparecesse para fazer a inspeção noturna no dormitório. Fui até a minha cama, Janaína parecia dormir muito profundamente na cama ao lado da minha. Como estava escuro, não exitei em tirar a minha calça jeans e a blusa do colégio, ficando somente de sutiã e calcinha.
- Amallya? - disse Janaína, ainda sonolenta. Tive que me controlar para não soltar um grito com o susto que levara.
- Que susto, Ína! - eu falei baixinho para não acordar as outras garotas.
- Foi mal, é que... eu ia ficar te esperando acordada, mas você demorou tanto...
- É, eu... eu peguei uma briga com a Barbara...
- Eu sei! Ela entrou aqui, chorando feito uma maluca, dizendo que ia te matar, e tal... Você bateu muito nela? - perguntou Janaína, animada.
- Não, foi só um soco... muito bem dado, é claro - eu falei, me gabando um pouco.
- É, quer dizer... pelo que eu pude ver, ela tava sangrando muito, me surpreendeu ela não ter contado nada pra madre superiora.
- A Barbara não é tão burra a esse ponto. Ela e os seus amiguinhos estavam perambulando pela escola, sem a permissão da madre superiora, com certeza. Então, se ela me dedurasse , eu ia dedurar ela - eu disse, me gabando novamente.
- Você virou minha heroína - disse Ína, rindo baixinho - Ah! Você não apareceu para o jantar, então... - ela tirou uma sacola cheia de batatas fritas, de dentro da sua bolsa.
- Obrigada, Ína - eu agradeci, me dando conta do quanto estava com fome.
- Come logo, que a madre superiora já deve tá vindo fazer a inspeção noturna - alertou Janaína.
Coloquei o meu jantar em cima da cama, e procurei a minha camisola na mala, que durante o intervalo fora tirada da minha sala de aula e posta na minha cama, provavelmente por algum zelador. Com dificuldade, encontrei a peça de roupa, em meio a bagunça em que se encontravam as minhas coisas, e a vesti rapidamente. Sentei na cama, e comecei a comer como se a minha vida dependesse disso. Janaína me observava, sentada na sua cama, com um olhar sonolento.
- Então... você não passou esse tempo todo só dando porrada na Babara... onde mais você foi? - perguntou Janaína, esfregando o rosto para espantar o sono.
Engoli tudo para não falar de boca cheia.
- Eu já disse, eu fui na biblioteca.
- Conversar com a Olívia!? - perguntou Janaína, um tanto desconfiada.
- Sim... Qual o problema?
- Nenhum, é que... de repente você começou a ter assuntos urgentes pra tratar com a Olívia...
- Eu nunca disse que eram assuntos urgentes.
- Mas a maneira como você correu hoje, depois da missa... me pareceu algo muito urgente - disse Janaína, me lançado um olhar desconfiado - Mas eu não tenho nada a ver com a sua vida, não é? Afinal, eu sou apenas a sua melhor amiga...
- Pára com isso, Ína... - eu disse, pulando em cima de Janaína, e beijando o seu rosto várias vezes.
- Não, vai beijar a Olívia, vai... - ela dizia, rindo baixinho para não acordar as outras meninas.
No mesmo instante a porta se abriu, iluminando o dormitório com a luz do corredor. Eu pulei de volta para a minha cama, me cobrindo da cabeça aos pés, com a colcha. A madre superiora passeava pelo dormitório segurando um pequeno castiçal com uma vela acesa, fazendo-a parecer uma freira malvada, tirada de um desses filmes sobre crianças sendo maltratadas em um orfanato. Quando ouvi o som da porta se fechando, e a escuridão envolver o dormitório novamente, eu respirei fundo e me virei para Janaína, que ainda estava acordada.
- Meu Deus, já pensou se ela tivesse visto a gente nesse momento lésbico, em cima da minha cama? - perguntou Janaína, começando a rir.
- Eu sei, acho que ela ia nos expulsar por estar trazendo o demônio pra dentro do colégio, ou coisa do tipo - eu disse, também rindo.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos, ambas esperando o sono chegar.
- Boa noite, Carol - disse Janaína, bocejando e começando a cair no sono.
- Boa noite, Ína - eu disse, aliviada por ela ter esquecido o assunto da minha ida urgente à biblioteca.
Olhando para o teto, pensei sobre o quanto aquele dia havia sido uma loucura para mim, pensei no fantasma que eu deixara no meu quarto, e o medo de não rever Leonardo me tomou novamente. Medo; essa era a definição perfeita do que eu sentia naquele momento, deitada na minha cama, no dormitório escuro e silencioso. Eu imaginava o rosto de Helene na escuridão, sorrindo para mim, da mesma maneira terrível que ela sorrira no corredor do primeiro andar. Eu torcia, inutilmente, para que o sono viesse, para que levasse todas aquelas imagens da minha cabeça, para que eu pudesse me ver livre de todos os meus pensamentos. No outro dia, eu acordara com a sensação de ter encarado o teto do dormitório a noite toda, considerando que eu só consegui dormir, realmente, lá pelas quatro da manhã. De seis horas em ponto, a madre superiora já nos acordava com o seu clichê e insuportável bordão matinal: "Deus ajuda a quem cedo madruga!". "Eu não sei quanto a Deus, mas você me ajudaria muito mais se calasse a porra da boca e me deixasse dormir mais umas três horas, sua bruxa!", pensei, enquanto me levantava da cama feito uma morta-viva . Em filas revesadas de mais ou menos vinte garotas, nós íamos ao banheiro, e tinhamos quinze minutos para escovar os dentes e tomar banho. Depois saíamos todas de toalha para o dormitório, onde trocávamos de roupa, tendo exatos dez minutos para isso, e enfim descermos juntas até o refeitório, que ficava no térreo.
O café da manhã era o primeiro momento do dia em que nós reviamos os meninos, o dormitório masculinos ficava em frente ao nosso, porém, nós descíamos sempre cinco minutos adiantadas. Como sempre eu e Janaína esperávamos por Olavo, na entrada do refeitório. Com excessão de Nievy, o aluno nerd da nossa sala, fanático por RPG e revistas em quadrinhos (vício que eu compartilhava com ele), Olavo não tinha muitas amizades masculinas. Naquele dia, Olavo vinha acompanhado de Nievy, o que não acontecia com frequência, pois o pobre garoto morria de medo de Janaína... O que nos fazia acreditar que ele tinha uma quedinha por ela.
- Então... qual o cardápio de hoje? - perguntou Nievy, empolgado, olhando para Janaína que o ignorou.
- Não faço a mínima idéia - respondi por pura educação.
Nievy ajeitou os óculos, sem jeito, e passou à olhar para vários lugares, tentando disfarçar o gelo que Janaína lhe dera.
- Vamo pegar um lugar, que eu tô morrendo de fome - disse Janaína.
Colocamos nossos livros em cima da primeira mesa vaga que encontramos, e fomos para a fila do refeitório. O cardápio do dia era ovos fritos com pão e café. A cozinheira, dona Sandra, serviu a gente com a cara simpática de quem deseja que você se engasgue com um pedaço de pão, o que não era novidade, se ela começasse a nos servir com um enorme sorriso naquela cara gorda, aí sim eu ficaria surpresa.
Quando voltamos para nossa mesa, me dei conta de que Barbara, que estava com um belo olho roxo e com um curativo sobre a sobrancelha, e sua amigas estavam sentadas bem próximas da gente. A novata, Gabriela, falava com Barbara, enquanto elas olhavam para mim. Decidida a provocar Barbara, eu acenei para ela, sorrindo de forma simpática. Ela respondeu a provocação com um olhar furioso e fazendo um gesto obsceno com o dedo. Fiz cara de magoada, e me sentei, enquanto todos na minha mesa riam da reação dela.
- Você não presta, Amallya! - brincou Janaína, tentando conter o riso.
- E ela também não! Isso nos deixa quites - eu disse, satisfeita.
- Conta tudo! - disse Olavo, empolgado.
- Tudo o quê? - perguntei, meio que já sabendo o que Olavo queria saber.
- Não fode, Amallya! Toda a escola tá sabendo que você e a Barbara saíram na porrada! - continuou, Olavo.
- Ontém no dormitório masculino tava todo mundo falando da "surra que Barbara Regina levou de Amallya Caroline" - disse Nievy, fascinado, e me dando um soco no ombro, sem medir a força - Desculpa - disse ele, envergonhado, depois de perceber que o soco não tinha sido uma boa idéia.
- Bem... Ela me provocou e teve o que mereceu, foi só isso! - eu disse, bancando a falsa modesta.
- Ah, qualé! Eu quero detalhes, teve SANGUE ou foi só uma briguinha de mulher, com puxão de cabelo, gritaria e tal...? - perguntou Olavo.
- Ela me chamou de vaca, eu chamei ela de vadia mau educada, ela me deu um tapa e eu dei um soco no rosto dela, que sangrou pra caramba... e só! - eu disse, novamente me achando.
- Que fooooda, velho! - disse Nievy, exageradamente empolgado.
- É, foi muito foda, agora vamo parar de satisfazer o ego da Amallya e começar a satisfazer os nossos estômagos, que tal? - disse Janaína, bem humorada.
- Ótima idéia - eu disse, rindo, e começando a comer.
- Você dá um soco na cara de Barbara Regina e se torna a Lindsay Lohan da escola, eu não entendo isso! Me ensina qualquer dia desses, tá? - disse Janaína, nunca se casando de me fazer rir.
Depois do café da manhã, fomos todos mandados para a sala de aula, onde teríamos a primeira aula de matemática, e felizmente, a única naquele dia. Uma hora inteira de pura tortura, envolvendo dízimas periódicas e insinuações sobre alunos que andavam "brincando de corda bamba na estreita linha entre o céu e o inferno"; palavras da irmã Joana, e antes do intervalo teríamos mais duas aulas de biologia com o professor Pablo, também padre da escola, e tão enrustido que chegava a dar pena, já dera em cima de Olavo milhares de vezes, e todas as tentativas foram em seu famoso confessionário na igreja da escola. Olavo odiava tocar nesse assunto, mas toda vez que Pablo nos dava aula era impossível para mim e Janaína não começarmos a rir olhando para a cara do nosso amigo, enquanto ele tentava evitar os olhares cheios de insinuação que o professor lançava para ele sempre que tinha a oportunidade.
A segunda aula de biologia foi finalizada pelo toque ensurdecedor da sirene, que sempre me fazia sentir como se estivesse em uma prisão ao invés de uma escola. Eu, Janaína e Olavo nos levantamos rapidamente das carteiras e nos apressamos em direção a porta da sala, quando fomos interrompidos pelo professor Pablo, para a infelicidade de Olavo.
- Não tão depressa, Olavo - disse Pablo, com a sua voz mansa e lenta, que chegava a ser um pouco assustadora.
Eu e Janaína iamos sair da sala, mas o olhar que Olavo nos lançou naquele momento, nos implorava para ficar, e foi o que fizemos.
- Oi, professor... há quanto tempo - disse Olavo, sem graça.
- Pois é, você bem que poderia aparecer na igreja, de vez em quando... pra se confessar, ou mesmo conversar um pouco, seria um prazer para mim - disse Pablo, com todo seu cinismo.
- Eu aposto que sim, senhor - respondeu Olavo, um tanto desafiador.
- Será possível que eu serei obrigado a convocar, novamente, todos os meninos da escola para se confessarem, só para que você me faça uma visita na igreja - disse Pablo, em um falso tom de brincadeira.
- Eu acho que sim, senhor - respondeu Olavo, de maneira firme, o que pareceu ter ofendido o padre Pablo - Não me entenda mal, senhor ... é que... eu ando muito ocupado com os estudos, então... não me sobra tempo pra nada - continuou Olavo, tentando se desculpar.
- Entendo - disse Pablo, visivelmente insatisfeito com a justificativa de Olavo.
- Agora se me der licença, eu preciso comer alguma coisa - disse Olavo, começando a nos empurrar para fora da sala.
- Claro, a gente se vê, hein!? - disse o padre Pablo, animado.
- Espero que não tão cedo! - disse Olavo, já do lado de fora da sala.
- Ele tá tão afim de você, dá uma chance, Olavo... - brincou Janaína.
- Depois de tantos anos de castidade, o padre Pablo deve tá louco por uma noite à sós com o Lavinho...
- PÁRA COM ISSO, POR FAVOR! - gritou Olavo, mostrando-se realmente perturbado pelas nossas brincadeiras - Esse homem é bizarro, vocês... não fazem idéia - disse sério.
- Foi mal, Lavinho... A gente só tava tirando onda... - disse Janaína.
- A gente não sabia que você se incomodava tanto com esse assunto... Desculpa aí, vai!? - eu disse, um tanto envergonhada.
- Esquece isso!... - ele pareceu distante - Eu tô morrendo de fome, vamo comer alguma coisa.
Eu e Janaína nos lançamos olhares preocupados, e seguimos Olavo até o refeitório. Durante o intervalo, Nievy veio novamente se juntar à nós, o que deixava Janaína muito irritada, pois ela, assim como todos na escola, sabia que o pobre garoto sofria de um amor platônico, e Janaína era a causadora disso.
- Oi, gente! Posso me sentar com vocês... de novo? - disse Nievy, sem jeito.
- Claro, Ni... - eu comecei, até ser interrompida por Janaína.
-Vem cá, você não tem nenhuma partida de RPG pra jogar com os seus amigos, ou... sei lá! Qualquer outro lugar pra ir? - disse Janaína, de maneira intencionalmente rude.
- Não que eu saiba - disse Nievy, com a cara no chão.
- Se o Nievy não vai sentar aqui, eu também não sento, Ína - disse Olavo, irritado com a atitude de Janaína.
- Não esquenta, Nievy! Eu tenho certeza que foi só uma brincadeira muito idiota da Ína... - eu disse, enquanto chutava o pé de Janaína por debaixo da mesa.
- Porra, Carol! Essa merda dói - disse Janaína, queixando-se do chute - Senta logo aí, Nievy! Foi só uma "brincadeira muito idiota"! - disse Janaína, contrariada.
- Valeu! - disse Nievy, pondo a bandeja com o seu almoço em cima da mesa e sentando-se, em seguida.
O prato do dia era o meu favorito: Batata frita com bife, arroz e salada. Durante o intervalo conversamos sobre os filmes do Quentin Tarantino que ainda não havíamos assistido, sobre quadrinhos violentos, e sobre a vergonhosa apresentação de A Paixão de Cristo, do no passado, onde a garota que interpretava o diabo esqueceu metade de suas falas. Quando o toque da sirene encerrou o intervalo , Olavo tentava convecer a mim e a Nievy de que o Homem Aranha é "infinitamente melhor" que os X-MEN que, segundo ele: "Não passam de adolescentes super evoluidos, comandados por um molestador de menores em uma cadeira de rodas". Na porta da nossa sala, a madre superiora esperava que todos os alunos do primeiro ano se amontoassem na sua frente.
- O que tá acontecendo? - perguntou Janaína, intrigada.
- Não faço a mínima idéia - respondi, tão intrigada quanto a minha amiga e todos os outros ali.
- ATENÇÃO! - gritou a madre superiora, conseguindo fazer com que todos olhassem para ela, amedrontados, porém muito atenciosos - TODOS OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO GINASIAL, FORMEM UMA FILA DIANTE DE MIM, AGORA! - disse de forma autoritária.
Em segundos, a madre superiora tinha a sua fila de alunos obedientes, perfeitamente formada diante dela, que olhou orgulhosa para o feito - Muito bem... Diante de circuntâncias das quais vocês não precisam ter conhecimento, o professor Júlio não poderá dar a sua aula hoje, por isso eu decidi que esse horário vago será preenchido com o nosso primeiro ensaio para A Paixão de Cristo... Nós iremos agora para o auditório, onde faremos a leitura do roteiro, que já está pronto e será distribuido a todos que fazem parte da peça... A propósito... aqueles que não fazem parte do elenco deveram prestar atenção à leitura do roteiro... ou simplesmente manterem a boca CALADA! Estão todos entendidos? - perguntou a madre superiora, encarando a todos de forma séria e intimidadora - Ótimo!... Agora, EM FILA, todos subam a escada direto para o auditório.
- Que saco! - começou Olavo - Eu não sou popular, não tenho talento e nem muito menos pedi pra fazer parte dessa palhaçada anual, então pra quê diabos resolveram me dar um papel? - questionou Olavo, irritado.
- Talvez eles só estejam te punindo por ter alisado a bunda da professora Joana, no ano passado... - disse Janaína, relembrando um dos nossos clássicos momentos do ano anterior, um ano em que rir era quase uma dádiva para três amigos que haviam perdido alguém muito amado por ambos.
- Eu já disse que eu tava doidão naquele dia, se não eu... nunca... teria... vocês sabem!
- Assediado a professora de matemática!? - eu disse, começando a rir, seguida por Janaína.
- Eu juro que, lá no fundo, eu tô morrendo de rir - disse Olavo, rabugento.
A fila seguia subindo a longa escada em ritmo retardado. Claro que a vontade de todo mundo ali era correr até o auditório e pegar os lugares nos fundos da enorme sala, fora do alcance da madre superiora, que estaria no palco, ocupada com o ensaio, mas Amélia tinha prazer em ver seus alunos marcharem lentamente, como se estivessem caminhando para a forca.
Dentro do auditório, eu e Janaína fomos obrigadas a sentar próximas ao palco, uma vez que todos os outros lugares já estavam ocupados. Olavo nos lançou um olhar desesperado quando a madre superiora o chamou para o palco, onde o resto do elenco já recebia as cópias do roteiro, escrito pela própria Amélia. Barbara não desgrudava da sua nova seguidora, Gabriela, que parecia não dar muita atenção ao que a amiga dizia. A madre superiora mandou que os alunos no palco fizessem um círculo com suas cadeiras, e quando todos encontravam-se sentados com o roteiro em mãos, ela deu início à leitura. O ritmo e o desinteresse de Olavo atrapalhavam os outros membros do elenco, o que parecia não estar agradando nem um pouco a madre superiora. Eu e Janaína riamos baixinho toda vez que o nosso amigo, desastrosamente, lia alguma de suas falas. Lá pela cena da crucificação de Jesus Cristo, Barbara tentou mostrar-se empolgada para a madre superiora, e começou a ler as suas falas de pé, enquanto tentava atuar ao mesmo tempo, claro que Amélia aplaudia empolgadíssima a atuação de Barbara.
- Não... NÃO! MEU FILHO! VOCÊS NÃO PODEM... ELE NÃO É UM CRIMINOSO! - gritava Barbara, olhando para Alexandre, que fingia estar crucificado tão bem quanto a Sabrina Sato é capaz de dizer uma frase inteira sem cometer pelo menos dois erros de português.
- Quem ela pensa que é? A Debora Secco em início de carreira? Ela grita como se tivesse tendo um orgasmo - comentou Janaína, baixinho.
Eu me controlava para não rir alto, quando me vi tomada por uma gélida presença, e eu podia sentir, com cada parte do meu corpo, que alguém, ou algo, havia passado por mim. Eu olhei para trás, institivamente, e não vi nada. Percebendo a minha agitação, Janaína olhou para mim.
- Você tá bem? - perguntou ela, preocupada.
- Não... é que... Não foi nada, eu só... tive um calafrio, foi só isso - eu disse, tentando disfarçar o quanto eu estava assustada.
Janaína voltou a sua atenção para o palco, enquanto eu olhava em todas as direções, tentando descobrir a origem daquela presença. Foi quando eu olhei para o canto esquerdo do palco, e quase caí para trás quando me deparei com a imagem de Helene, que observava, quase como uma estátua, os alunos que estavam no palco. Eu não conseguia desviar o meu olhar dela, percebi algo líquido deslizar pelo meu rosto, eu estava chorando de pavor. Desejei que Janaína não percebesse, porque eu simplesmente não conseguia evitar aquele medo que ia tomando conta de mim.
- PAI, PERDOAI-VOS... ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM! - gritou Alexandre, que naquele momento encenava a morte de Jesus.
- PÁÁÁÁÁRAAA! - gritou Gabriela, fazendo com que todos no auditório, inclusive eu, voltassem a atenção para ela que naquele ato da peça não tinha fala alguma.
Ela parecia perturbada, e chorava, assim como eu. Quando a garota percebeu que estava cercada pelos olhares de todos no auditório, ela fechou os olhos com força, e correu para a porta, enxugando as lágrimas no rosto. Assustada, a madre superiora tentou alcançar Gabriela, todos na sala pareciam confusos e perguntavam entre si o que havia contecido. Em meio a confusão, eu olhei novamente para o lugar onde Helene estava, e ela havia sumido, o que não me surpreendeu. Quando percebi que o meu rosto estava ensopado, eu o enxuguei rapidamente com as mãos.
- Mas que porra foi essa? Essa garota só pode ser pirada! - disse Janaína.
Olavo se aproximava de nós.
- Que doidêra, hein!? Será que ela tá bem? - disse Olavo.
Eu não conseguia dizer nada, me perguntava se fora somente uma coincidência o surto de Gabriela e a aparição de Helene.
- Talvez ela seja muito tímida - supôs Janaína.
- Ou então tava doidona... A Barbara e o Jesus Cristo Superstar lá, tavam viajando legal, eu tenho certeza! Talvez ela também tenha entrado na jogada - supôs Olavo.
A madre superiora entrou na sala feito um foguete.
- TODOS PARA A SALA, AGORA! E ESPEREM PELO PRÓXIMO PROFESSOR... EM SILÊNCIO! - gritou Amélia, parecendo nervosa, e saindo do auditório, em seguida.
Todos se apressaram em direção a porta do auditório, e em instantes a enorme sala estava completamente vazia. Na nossa sala de aula não se falava em outra coisa que não fosse "o surto de Gabriela", até mesmo quando o professor Fernando começou a sua aula sobre a tabela periódica, os coxixos sobre o corrido ainda eram audíveis por toda a sala, e assim foi durante as três últimas aulas daquele dia.
Gabriela só foi se juntar à turma no refeitório, onde todos jantavam, e acompanhada da madre superiora, sentou-se em uma mesa solitária, nos fundos do salão. Claro que todos olhavam para ela, seja com curiosidade ou com repulsa, ou com os dois. Durante todo o jantar eu não parei de pensar em Olívia, meu único desejo era correr até a biblioteca e contar a ela, detalhadamente, tudo o que acontecera no auditório. Mas não seria possível, uma vez que a irmã Joana vigiava a todos no refeitório. Com a cabeça lotada de perguntas, eu enfiei a minha cara no travesseiro, depois de ter conversado com Ína por alguns minutos.
Novamente fui dormir pensando na misteriosa Helene, e em como parecia ter virado parte da minha rotina dar de cara com a branquela dos assustadores olhos verdes. Olívia me dissera que a missão de alguém que é um elo, é ajudar espíritos como Helene a encontrarem a paz... Mas alguma coisa me dizia que paz era a última coisa que interessária à Helene. Eu teria que descobrir a razão para Helene ainda não ter alcançado essa tal paz? E se essa fosse a resposta, como eu poderia ajudá-la se não era capaz de nem sequer pensar nela sem ficar apavorada, quanto mais tentar aproximação, e até uma conversa. Eu poderia não ter a resposta para nem uma dessas perguntas, mas de uma coisa eu tinha certeza; eu ainda veria Helene, ou até outros fantasmas, muitas vezes, e para não surtar de vez só me restava uma única saída, como dissera Olívia; eu teria que aceitar o que eu sou, tentar fugir não seria sensato, não teria outra escolha, se não, adaptar-me às frequentes aparições e àos caláfrios que indicavam a proximidade de algo não vivo. Teria que que me adaptar, para não enlouquecer. Chegando a essa conclusão, eu finalmente pegara no sono, sono esse que não duraria muito tempo, pois o mesmo frio que me envolvera no auditório, me fez acordar no meio da noite. Um vulto negro viera acompanhado da tal sensação gélida que tomou conta do meu corpo, eu pude sentir o vento ser cortado por quem quer que tivesse passado na minha frente. E não tive coragem para fazer nada além de me envolver completamente pelo cobertor e novamente chorar de medo. Passados alguns minutos, a total ausência da sensação me fizera ter certeza de que não havia mais ninguém no dormitório, além de mim e das meninas da escola, então eu me deixei envolver pelo sono frágil, para ser novamente despertada, algum tempo depois, mas desta vez eu não fora a única a acordar, e não fora um frio anormal tomando conta do meu corpo que me fizera pular da cama, assim como Janaína, e outras dez meninas ou mais no dormitório, mas sim um grito, um grito tão horrível e intenso que parecia ter tomado todo o colégio, um grito de desespero, que até hoje me vem à cabeça através de pesadelos e flashes de memória aterradores que eu daria qualquer coisa para poder esquecer de uma vez por todas. Claro que ninguém teve coragem de se levantar da cama. Ficamos paradas olhando umas para as outras, e era difícil dizer quem era a mais apavorada de todas nós.
- O que foi isso? - perguntou Janaína, ofegante.
- Um grito - eu respondi, indo em direção à porta do dormitório, seguida pelas outras garotas.
Ao passar pelas camas de Barbara e Gabriela, eu gelei ao perceber que estavam vazias. Lentamente eu abri a porta do dormitório e coloquei a cabeça para fora, dando uma espiada no corredor, a madre superiora vinha correndo em nossa direção, acompanhada pelo padre Jonas.
- Pelo amor de Deus, o que houve? - perguntou o padre Jonas, desesperado.
- Nós ouvimos um grito... - completou a madre superiora.
- SANGUEEEEE! - gritou alguém, de dentro do banheiro feminino.
Fiquem todas aqui! - ordenou a madre superiora, olhando para mim e para as outras garotas que tentavam sair do dormitório, e correndo em direção ao banheiro, o padre Jonas logo atrás.
No outro lado do corredor, os meninos também estavam acordados, Olavo veio em nossa direção, usando um pijama azul bebê, e parecendo muito assustado.
- O que houve? - perguntou, agitado.
- Eu não sei, mas ninguém vai me impedir de descobrir! - eu disse, saindo de dentro do dormitório, claro, seguida por uma multidão de alunos curiosos.
Na entrada do banheiro feminino, eu ouvi mais gritos.
- Sangueee, SANGUEEE, ISSO É SANGUEE! Isso é sangue!... - repetia Gabriela, aos berros, enquanto esperneava nos braços do padre Jonas e da madre superiora, que assim como eu e os outros alunos que conseguiram entar no banheiro, olhavam amedrontados para a poça de sangue que havia na última pia, e que cobria quase todo o chão, o espelho sobre a pia estava quebrado e também banhado em sangue, na parede viam-se marcas de mãos avermelhadas, e o cheiro de sangue dominava todo o lugar. Gabriela, porém, estava perfeitamente limpa, não havia uma única mancha vermelha em seu corpo, ou em sua camisola.
- Calma querida... - dizia a madre superiora, tentando acalmar a garota que chorava e tremia no chão.
- Meu anjo... você pode, em nome de Deus, nos explicar o que houve aqui? - perguntou o padre Jonas, ignorando o estado de choque em que Gabriela se encontrava.
- Bar... Barb... Barbara, Barbara... - repetia Gabriela.
- Barbara... Barbara Regina? Vocês estavam juntas? - perguntou a madre superiora.
Gabriela só balançou a cabeça, indicando que "sim".
- BARBARA!? - gritou a madre superiora - BARBARA REGINA!? -e ela repetiu milhares de vezes, até começar a chorar - Meu Deus... - sussurrava a madre superiora, aos prantos.
Barbara não apareceria naquela noite. Não havia sinal de Barbara Regina em lugar algum em toda a escola.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Capítulo 6 - Elo


Eu simplesmente congelei com a assustadora foto em minha mão, e mais uma vez me vi completamente presa pelo olhar de Helene. A imagem revelava o que eu estava com medo de descobrir... Helene, a garota que eu vira no pátio, era um fantasma, e ela morreu no ano de 1978, talvez na escola? Isso eu teria que descobrir. Na foto ela estava exatamente da maneira que eu a encontrara na estátua do espírito santo. Por um momento me senti aterrorizada pela possíbilidade de que tivesse virado um tipo de medium. Primeiro Leonardo, agora Helene. Quando parei para reparar nos dois garotos da foto, percebi algo intrigante. Um deles, acho que o tal Caio, se a legenda estivesse apontando a ordem correta, falava algo no ouvido do outro, enquanto ambos olhavam para a câmera. O Caio era muito bonito, cabelo encaracolado castanho, olhar charmoso e intimidador, já Marcos parecia radiante, cabelo loiro, dono de um olhar bondoso, sorria timidamente para a câmera, enquanto escutava seja lá o que o outro, Caio, estivesse sussurrando em seu ouvido.
O toque que encerrava o intervalo me fez soltar o anuário, com o susto. Eu tremia, quando reparei que três páginas foram adiantadas com a queda. Na nova página havia apenas uma foto de tamanho médio, com a legenda; "Turma do primeiro ano ginasial de 1978". Na foto, os alunos estavam sentados na escada que levava ao primeiro andar, meninas em um degrau, e meninos um degrau abaixo. Parei para reparar melhor nas garotas, e uma em especial me chamou a atenção, essa garota estava sentada ao lado de Helene, olhos assustados, cabelos negros encaracolados, pele morena... "Só pode ser brincadeira", pensei. Eu não conseguia acreditar, apertei os olhos com força, e voltei a olhar para a agarota, na esperança de que ela se tornasse ruiva e sardenta, tudo, menos morena com cabelos negros encaracolados e olhos assustados. Mas não adiantou, por mais que eu tentasse, eu sempre via a imagem da estranha garota que eu acabara de ver na seção de história da biblioteca.
- Chega! - eu falei, quase sem ar, fechando o anuário com força, e abandonando-o na mesa, junto com os outros.
Eu queria sair daquela biblioteca o mais rápido possível, havia tido revelações demais por um dia, naquele lugar. Estava caminhando rapidamente em direção ao birô de Olívia, quando soltei um grito de pavor, ao ver que ela conversava com ninguém menos que a tal garota dos olhos assustados. Por um momento eu havia perdido a minha capacidade de respirar.
- Meu Deus... Olí... Olívia... você... ela... - eu sentia que ia desmaiar, e Olívia parecia ter percebido isso, pois começou a se aproximar de mim, assustada.
- Calma, meu bem...
- Ela... ela tá... tá...
- Você tá vendo mais alguém aqui, além de mim? - perguntou Olívia, preocupada.
-Ela tá... mor...
- Morta, eu sei, mas... se você se acalmar, eu prometo que te explico...
- Meu Deus... - eu comecei a correr para fora da biblioteca.
- VOLTA AQUI, AMALLYA! - gritou Olívia.
Eu corria feito uma maluca pela escola, esbarrava nos alunos que voltavam do intervalo, e chorava, chorava de medo, de indignação, "por que EU?", pensava, repetidas vezes. Eu não queria aquele... dom? Quem em sã consciência poderia querer ser capaz de ver fantasmas, claro que me pareceu uma boa idéia lá na minha casa, quando Leonardo começou a aparecer para mim, mas eu não queria que isso virasse algo constante. Quando eu me cansei de correr, sentei em um dos bancos do pátio interno, e respirei fundo, enquanto enxugava o meu rosto.
- Buuu! - gritou Olavo, quase me fazendo correr novamente com o susto, algo que só não aconteceu porque ele me segurou.
- Mas que merda, Olavo! - eu disse, enquanto socava o peito dele.
- Desculpa, eu não sabia que você ia se assustar tanto. Você tá bem? - perguntou ele, ainda segurando os meus braços, de forma carinhosa.
- Você saiu correndo da sala feito uma louca, quando tocou pro intervalo, e nem esperou a gente! - disse Janaína, realmente irritada.
- Eu sei... me desculpa... - eu ainda tentava recuperar o folêgo - é que... eu me lembrei que tinha que falar com a Olívia, pra matar a saudade, e... pode me soltar agora, Olavo, eu não vou mais sair correndo.
- Ah! Tá... me... desculpa - disse Olavo, um tanto sem jeito.
- Pelo menos avisa, antes de abandonar a gente da próxima vez - disse Janaína, ainda irritada.
- Eu não abandonei vocês, eu...
- VOCÊS TRÊS... - gritou a madre superiora, começando a tossir, devido ao esforço que fizera para gritar, e claro, devido ao seu pulmão idoso e completamente fudido pelos cigarros - Já para a sala! - completou, em um tom menor, e com um olhar homicida para nós três.
No mesmo momento, eu, Olavo e Janaína, corremos o mais rápido possível em direção a nossa sala, para a segunda aula de matemática da professora Joana.
Ainda haviam quatro aulas pela frente, antes de todos irem dormir tranquilamente, enquanto eu e meus dois amigos íamos cumprir detenção com o padre Jonas. Claro que eu não prestava atenção em absolutamente nada à minha volta, eu não conseguia parar de pensar na descoberta perturbadora que eu fizera na biblioteca. Ver pessoas mortas era agora parte do meu cotidiano? Seria uma condição à qual eu teria que me adaptar? Olívia tentara me dizer algo, antes de eu sair correndo da biblioteca, ela também estava vendo a tal garota dos olhos assustados, isso ficara perfeitamente claro para mim. Eu teria que voltar à biblioteca, naquela mesma noite, eu não iria suportar nem mais um dia... eu precisava tirar essa dúvida de dentro de mim, se Olívia tinha alguma coisa pra me dizer sobre essa loucura que estava acontecendo comigo, eu queria ouvir TUDO. Obviamente, teria que ser depois da detenção com o padre Jonas. Pra minha sorte, Olívia sempre passava uma hora inteirinha arrumando a biblioteca, depois que as aulas se encerravam, exatamente o tempo de duração da missa das seis. Assim que a missa terminasse, eu iria correndo para a biblioteca.
Faltava exatamente uma aula para o início da missa. Eu, Olavo e Janaína fazíamos um trabalho em grupo de química. Como em toda toda última aula, o tempo parecia se arrastar.
- Eu não aguento mais fingir que tô fazendo alguma coisa - disse Olavo, que quase babava em cima do seu livro de Química.
- Nossa, eu não imagino como isso deve ser cansativo, Olavo - disse Janaína, em tom sarcástico. Ela era a única que tentara fazer o trabalho.
- Me desculpa por não tá ajudando, Ína, é que... eu tô meio... desligada - eu disse, quando comecei a me sentir mal por não estar fazendo nada para o trabalho.
- É, eu percebi, vem cá Carol, você não vai mesmo dizer pra gente o que tá acontecendo? Ultimamente você... tá mais estranha do que costuma ser - disse Janaína, em tom confidencial.
- Não é nada... é... que... - eu precisava de uma explicação convincente para despistar Olavo e Janaína, então eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça - Esse é o nosso segundo ano letivo sem o Léo... - a justificativa pareceu ter sido mais que convincente. Olavo e Janaína de repente pareciam muito tristes, eu havia tocado uma ferida muito poderosa, que nós três compartilhávamos desde que Leonardo nos deixara. Logo depois de notar as caras de Olavo e Janaína, eu me arrependi de ter usado tal argumento para as minhas atitudes estranhas daquele dia, mas era para o próprio bem deles, afinal seria muito mais doloroso se eu simplesmente lhes contasse a verdade, então além de terem perdido um amigo, eles teriam que lhe dar com uma amiga que poderia estar enlouquecendo com a perda do namorado.
- Bem... a gente também ainda tá sofrendo com a perda do Léo, é claro... Mas é preciso superar isso... juntos, nós podemos superar isso - disse Janaína, acariciando o meu ombro.
- Eu nunca havia parado pra pensar no quanto é estranho que ele não esteja mais com a gente, sempre - disse Olavo, os olhos lacrimejando.
- Aposto que se ele estivesse aqui, já teria dado uma desculpa pra sair da sala, e ficar perambulando pela escola, até a hora do toque - disse Janaína.
E nós três começamos a rir, enquanto todos pareciam muito concentrados em seus trabalhos, e só paramos quando a madre superiora entrou na sala, inspecionando todo o lugar com um olhar sério e empinado.
- Boa noite, professor Fernando, boa noite classe - disse a madre superiora, e todos responderam "boa noite" em uníssono.
- Gostaria de aproveitar esses últimos minutos de aula para dar um aviso aos seus alunos, professor, tenho a sua licença? -perguntou Amélia.
- Ah... - começou Fernando.
- Obrigada, professor. Como todos sabem, a equipe cultural do Lar, da qual eu faço parte, é muito preocupada com as atividades artísticas nas datas santas... e como é de costume, todo início de ano nós nomeamos seis alunos do primeiro ano ginasial para atuarem na Paixão de Cristo, realizada um dia antes do feriado de Páscoa... Nas minhas mãos está a lista com os sortudos desse ano: No papel de Maria temos Barbara Regina, - Barbara era a líder do grupo de filhinhas de papai que passavam a maior parte do tempo me odiando, o motivo? Barbara sempre foi apaixonada pelo Léo - no papel de Jesus temos Alexandre Medeiros, - Alexandre era o atual namorado-bonitão-mais-burro-que-uma-porta, de Barbara - no papel de José; Mário Alencar, no papel de Maria Madalena; Alycia Moraes, - Alycia era o braço direito e puxa-saco pessoal de Barbara - Gabriela Machado, você vai ser o diabo - Gabriela era uma aluna novata, que rapidamente se encaixara no grupo de Barbara - e Olavo, você será Pôncio Pilatos - finalizou Amélia, parecendo forçada a pronunciar o nome de Olavo - Isso é tudo. Obrigada, professor - disse a madre superiora, retirando-se, bem devagar, com a intenção de dar uma última inspecionada na sala.
- Mas que porra!? - disse Janaína, supresa, e com muito cuidado para que a madre superiora não ouvisse o palavrão que ela pronunciara.
- Eles ficaram malucos, ou coisa do tipo? - perguntei, olhando para Olavo.
- Não olhem pra mim, eu tô tão surpreso quanto vocês, e vem cá... quem é Pôncio Pilates? -perguntou Olavo.
- Ai, Olavo! Pôncio Pilates foi o homem cego que Jesus curou - disse Janaína, realmente convencida de que estava dando uma informação correta à Olavo. Achei tudo tão engraçado que nem me preocupei em corrigi-los.
O toque de encerramento das aulas fez toda a turma sair correndo da sala, exceto por nós três, Barbara e suas amigas.
- Mandem um abraço ao padre Jonas, por mim - disse Barbara, sorrindo e olhando para nós, enquanto balançava o seu longo cabelo loiro, coisa que ela sempre fazia quando começava a falar. Em seguida, Barbara e suas amigas saíram da sala, em fila.
- A gente ainda pode fugir do colégio, ou, na melhor das hipóteses, sermos atropelados por um caminhão - brincou Olavo.
- Qualquer coisa seria melhor do que ter o padre Jonas cuspindo na minha cara - disse Janaína.
Nós três começamos a caminhar para os fundos da igreja que ficava ao lado da escola, como quem caminha para a guilhotina. Já era noite, e o céu estava perfeitamente nublado. Quando chegamos à porta dos fundos da igreja, nos surpreendemos com a estranha figura do padre Jonas, que nos olhava como se fosse nos devorar vivos.
- Entrem e vistam suas tunicas, vocês estão atrasados, e portanto, a missa está atrasada - disse Jonas, indicando-nos a entrada. Nós três entramos rapidamente no quarto do padre Jonas, e vestimos, por cima do uniforme, as tunicas azul marinho que estavam sobre a sua cama.
- Agora... - começou o padre Jonas, se aproximando de nós - vocês iram levar o vinho e as óstias para o altar, e organizar tudo. Eu vou me arrumar, e quando eu voltar é bom que aquele altar esteja impecável, caso contrário, eu juro, que nós vamos passar muito mais do que só uma missa juntos - finalizou Jonas, não me deixando mais nenhuma dúvida com relação aos boatos sobre o bafo dele. Me perguntei se ele reparara a cara de nojo que nós três inevitavelmente fizemos quando ele começou a falar.
Nós levamos cinco minutos para arrumar todo o altar, mais outros cinco minutos e o padre Jonas finalmente apareceu para celebrar a missa, que naquele dia se iniciara com vinte minutos de atraso, o que não alterou o horário de encerramento, o sermão do padre Jonas havia durado dez minutos a menos que o tempo normal. Olavo quase desmaiou de sono várias vezes durante a missa, Janaína parecia muito envergonhada diante das poucas pessoas que assistiam à missa, quanto a mim, estava completamente tomada pela ansiedade, eu não via a hora de sair correndo para a biblioteca. Quando o padre Jonas deu início à benção final, eu aproveitei a pressa de algumas pessoas que já se retiravam e quase arranquei a tunica, jogando-a sobre uma cadeira, enquanto começava a caminhar apressadamente, Olavo e Janaína fizeram o mesmo.
- Ei, espera a gente, Amallya! - disse Janaína, tentando me acompanhar.
- Não, Ína, eu... eu não vou para o dormitório ainda... - eu disse, começando a correr. Janaína foi parando.
- Então pra onde você vai, maluca? - perguntou ela, ficando para trás, acompanhada de Olavo, que também parecia confuso.
- EU VOU DAR UM PULO NA BIBLIOTECA, É RAPIDINHO - eu tive que dizer em voz alta, pois já estava muito longe dos dois.
Eu subi a escada para o primeiro andar o mais rápido que pude, torcendo para que a madre superiora não me visse pegando um caminho que não levava ao dormitório feminino. O que eu vi quando finalmente cheguei ao primeiro andar, me paralizou de medo, eu senti cada parte do meu corpo congelar, e logo não conseguia mais me mover. No final do enorme corredor do primeiro andar, de costas para a porta dupla da biblioteca, estava a misteriosa Helene, me encarando com um terrível sorriso no rosto. Foi então que eu me vi tomada por uma estranha coragem, eu queria acabar com aquilo de uma vez por todas.
- EI, VOCÊ! HELENE, NÃO É? - eu gritei, tentando mostrar para ela que eu não estava com medo, o que não era verdade. Comecei a andar em direção a ela, que sem tirar o sorriso da cara uma única vez, andou devagar em direção a porta que levava à escadaria de emergência, quando eu vi que ela intencionava fugir de mim, eu corri em sua direção - VOLTA AQUI! - eu gritei, enquanto corria.
Foi então que a porta do auditório, que ficava ao lado da escadaria de emercência, se abriu e dela saíram todos os alunos que foram escalados para a apresentação de a Paixão de Cristo, menos Olavo, que obviamente fora excluido da suposta reunião. Eu não parei de correr, estava perdendo Helene de vista, foi quando eu esbarrei em Barbara, que fez um escândalo, o que não me deixou nenhum pouco surpresa.
- Olha por onde anda, sua VACA! - disse ela, ajeitando o cabelo que ficara bagunçado com a colisão.
Helene não estava mais em lugar algum. Eu bufei de raiva.
- E você aprenda à ser mais educada, sua vadia! - eu disse, depois de ter me certificado de que o grupinho não estava acompanhado pela madre superiora, ou por nenhuma outra professora ou professor.
- Você vai ver só, sua... - foi tudo o que Barbara disse antes de me meter um tapa, pocessa de raiva.
Eu não aguentei, primeiro ela me fizera perder Helene de vista, me chamara de vaca e de quebra me dera um tapa na cara. Aquilo não ficaria assim, é claro!
- Você bateu em mim... - eu disse, enquanto me recuperava do tapa.
Os amiguinhos de Barbara riam da minha cara, sem dó.
- É o que parece, sua retardada! - disse Barbara, com um sorrisinho presunçoso, que logo foi apagado da sua cara com o soco que eu lhe dei, fazendo-a cair no chão e choramingar feito uma criança. Sim, eu tenho muito prazer em relembrar isso, até hoje.
- Não, querida... isso é bater! - foi a minha deixa para continuar caminhando até a biblioteca.
Os seguidores de Barbara tentavam ajudá-la a se levantar.
- VOCÊ VAI VER SÓ, SUA PUTA! ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM! - ela gritava, repetidas vezes.
A porta da biblioteca estava aberta, sinal de que Olívia ainda estava lá.
- OLÍVIA - eu gritei ao entrar na biblioteca, esperando que ela aparecesse, depois de ter visto que ela não estava em seu birô.
- MAS QUE PORR... ah! É você Amallya, eu não... eu me assustei, me desculpe... - disse Olívia, surgindo da seção de Geográfia, com alguns livros na mão, ficando totalmente sem graça depois de me ver.
- Fala tudo! - eu disse, sem nem esperar que Olívia se recuperasse do susto que lhe causara com a minha entrada na biblioteca.
- Fala tudo!? Como assim? - perguntou ela, confusa.
- Me diz, por que eu tô vendo fantasmas? Você ia me explicar isso antes de eu sair correndo da biblioteca, hoje cedo, não ia?
- Ah, é isso! Claro! É muito simples, meu bem...
- Então começa logo a me explicar! - eu disse, impaciente.
- Ai, calma! Estresse envelhece mais cedo, viu!?
- Olívia... - eu estava perdendo a paciência - eu acabei de ver, pela SEGUNDA vez, só hoje, uma garota chamada Helene, e que deveria estar morta, eu só quero saber o porquê...
- Você é um Elo! - disse Olívia, calmamente, desviando-se de mim para arrumar em seu birô os livros que ela trazia em mãos.
- Eu... Que porra é um Elo? Não fode comigo, Olívia...
- Ai, ai, ai, garotinha! Não é por que nós somos amigas que você pode chegar aqui e divulgar em alto e bom som a sua extensa lista de palavrões! Isso aqui não não é um cabaré, é uma biblioteca, porra! Mais respeito, viu!?
- Olívia... - comecei, tentando me acalmar - o que é um Elo?
Olívia suspirou...
- Elos, são pessoas que possuem uma... conexão com o Além... pessoas que são capazes de ver espíritos, incorporá-los, e até mesmo mandá-los de volta para o lugar de onde eles, normalmente, não deveriam ter saído... Pessoas como eu e você, Amallya - disse Olívia, como quem diz as horas.
- Eu... - respirei fundo, precisava absorver a enorme carga de informação que Olívia simplesmente jogara em cima de mim - Meu Deus... - minha voz pareceu mais um sussurro.
- Eu seeei, não é legal!? - disse Olívia, brincalhona.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Capítulo 5 - Helene


A sensação era de que eu estava no período da inquisição, prestes a ser jogada em uma enorme fogueira. A maneira como todos na sala me encaravam me fez congelar na porta. Eu podia escutar Olavo e Janaína falando comigo, me pedindo para entrar de uma vez na sala, mas eu simplesmente não conseguia.
- Bom dia, Amallya - disse a irmã Joana, com sua voz irritante de tão forçadamente gentil. Ela nos ensinava matemática desde a sexta série, e podia ser a pessoa mais doce do mundo, até o momento em que você falar algum palavrão na frente dela, ou mesmo dizer que não tem nada contra o amor entre pessoas do mesmo sexo.
- Bom dia, irmã Joana - respondi, sem olhar diretamente para ela.
- Vejo que dessa vez escolheu se atrasar no primeiro dia de aula, para chamar a atenção da turma - disse ela, aumentando o sorriso em seu rosto a cada palavra que pronunciava.
- Eu... é que...
- Não, querida, por favor, poupe a suas desculpas e as dos seus amigos para a madre superiora, e eu sugiro que sejam desculpas muito criativas dessa vez - disse, sem tirar o seu assustador sorriso da cara uma única vez - Até a próxima aula... Ou não.
A porta da sala quase arrebentou o meu nariz, quando Joana a fechou sem a mesma "gentileza" que apresentava em sua voz e em seu sorriso.
- Freira nazista, filha da puta! - sussurrei ferozmente para a porta.
- Não esquenta, a madre superiora não vai suspender a gente no primeiro dia de aula - disse Olavo, enquanto tirava um cigarro de maconha da sua mochila, e o acendia com o isqueiro dos Power Rangers que estava sempre com ele em seu All Star.
- Vem cá, quantos desse você já fumou hoje? Porque eu acho que isso já tá começando a fuder o seu cérebro, você tá dentro da escola, Olavo! - eu disse, realmente zangada com ele.
- E todas as irmãs estão dando aula, rezando, ou, no caso da madre superiora, fumando o cigarrinho matinal dela. A gente não precisa ir falar com ela agora, relaxa aí!
Nós três começamos a andar em direção ao pátio interior da escola.
- Será que agora você pode começar a explicar pra gente a razão da sua performance de "Carrie a estranha" na estátua do pátio, mais cedo? - perguntou Janaína.
- Do que você tá falando? - peguntei, fracassando completamente em tentar me fazer de desentendida.
- Nossa, acho que nem você se convenceu com essa, agora. Você sabe do que eu tô falando! - insistiu, Janaína.
- É, parecia até que você tava doidona. Não foi isso, né? Olha lá, Carol! Você prometeu que se houvesse uma primeira vez ia ser comigo.
- Ah! Aquilo? Gente, não... não foi nada demais, eu só tava delirando, sei lá, eu não comi nada no café da manhã, tô morrendo de fome, é isso.
- Eu nunca vi ninguém começar a ter visões só porquê não tomou o seu café da manhã - disse Janaína, com um olhar desconfiado.
- Madre superiora! - eu disse, como um alerta, quando vi a figura intimidadora de Amélia, aproximando-se de nós. Em segredo, agradeci pela chegada da madre superiora, que me salvou do desagradável assunto sobre o ocorrido na estátua do espírito santo.
- Porra! - disse Olavo, tossindo com o susto, arremeçando o cigarro de maconha o mais longe possível, e jogando uma bala de menta extra forte na boca.
Amélia atravessava o pátio interno do colégio, de forma distraida e um tanto desconfiada, expressão essa que mudou completamente quando ela finalmente notou a nossa presença. Nesse momento, a sua expressão lembrava mais a de alguém prestes a cometer um triplo homicídio culposo.
- O que vocês estão fazendo fora da sala de aula, feito três almas perdidas? - perguntou ela, denunciando, pelo seu hálito, não ter se livrado da sua famosa mania de fumar um cigarro, sempre que os corredores da escola encontravam-se vazios depois do primeiro toque.
- A gente... se atrasou, madre superiora - eu disse, envergonhada. Janaína parecia estar tentando se esconder atrás de mim, enquanto Olavo evitava o olhar enfurecido de Amélia.
- Que esplêndida maneira de começar um ano letivo. Hum! Claro que... vindo de vocês três, não me surpreende nem um pouco - disse ela, com um olhar de desprezo - Desta vez vocês vão ganhar uma advertência...
- Obrigada, madre - eu disse, sem olhar diretamente para ela.
- E irão ajudar o padre Jonas, com os praparativos para a missa de hoje a noite, depois das aulas - disse, séria.
Eu , Olavo e Janaína suspiramos de raiva, em uníssono. Ela não poderia ter escolhido uma detenção pior do que aquela. O padre Jonas tinha a fama de ser um completo carrasco com todos os alunos que eram mandados para cumprir detenção com ele, além de ter um mal hálito insupórtavel, o que não casava muito bem com a sua péssima mania de falar muito, muito perto mesmo, de forma intimidadora, com os alunos que saiam da linha.
- Vocês poderão entrar para a aula de geográfia com o professor Júlio, no próximo horário - disse ela, já se afastando de nós três - Ah! E a propósito, caso vocês esqueçam de cumprir a detenção, fiquem sabendo que a falta será substituida por uma detenção ainda mais drástica, tão drástica que eu ainda nem pensei nela, mas eu garanto que quando eu começar, serei o mais criativa possível - disse, encerrando a conversa, virando-se bruscamente, e indo em direção ao pátio frontal.
- Ótimo! - disse Janaína, bufando de raiva - Finalmente vamos descobrir se o que falam sobre o lendário hálito do Padre Jonas é mesmo só lenda.
- Ele se aproximou de mim pra me dar um sermão sobre se masturbar, uma vez... Eu juro que não aguentei nem os primeiros dois segundos depois que ele abriu a boca, e comecei a me esforçar pra não chorar na frente dele. Sério, parecia mais que ele havia engolido um animal em decomposição, ou sei lá - disse Olavo, tentando achar o cigarro de maconha que ele havia desperdiçado, quando a madre superiora nos encontrara.
- Vamos sentar de uma vez, eu tô cansada de andar e de levar sermão - disse Janaína.
Nós três nos sentamos em um dos bancos do pátio e dormimos durante meia hora. O toque ensurdecedor da sirene, nos acordou de imediato.
- Obrigada por babar a minha calça, Olavo - eu disse levantando a cabeça de Olavo do meu colo.
- Disponha - disse ele, ainda sonolento.
- Vamo indo, antes que o professor Júlio também fique puto com a gente - disse Janaína, puxando o meu braço.
Durante as duas últimas aulas, antes do intervalo, eu não parei de pensar na garota que eu encontrara na estátua do espírito santo. Procurava desesperadamente por uma explicação para o que eu vira, ou mesmo para o fato de Olavo e Janaína não terem visto a assustadora menina, como eu. O emblema que eu vira estampado em sua roupa não deixava dúvida, a garota já havia estudado no Lar, apesar de que o uniforme que ela usava era bastante diferente do atual modelo. Eu precisava saber se estava ficando louca, precisava saber se, por alguma razão, eu passaria a ver fantasmas pelo resto da minha vida. E só havia um modo de confirmar isso, eu teria que descobrir se aquela garota já havia estudado no Lar, teria que procurar por fotos que confirmassem isso.
Assim que o sinal tocou, eu me levantei da carteira e me retirei da sala o mais rápido que pude, sem nem ao menos falar com Olavo e Janaína, que deveriam estar se perguntando o porquê do meu sumiço repentino. Estava decidida a explicar tudo a eles depois, ou quase tudo, dependendo do que eu descobrisse.
Minutos depois, eu estava em frente à biblioteca no primeiro andar. Se havia um lugar onde eu poderia encontar os anuários das outras turmas antigas do colégio, seria aquele, e para minha sorte, eu era muito amiga de Olívia, a bibliotecária loucona da escola.
- Oi, Liv! - eu disse, quando me aproximei do birô super desorganizado de Olívia.
- Oi, Amallya, feliz por voltar pra escola depois de dois meses de puro tédio? - perguntou Olívia, mostrando que me conhecia muito bem.
- Essa pergunta é pra ser levada a sério? - perguntei.
- Claro que não, foi... só algo que eu perguntei pra dar um rumo à conversa, eu odeio silêncios constrangedores, você sabe.
- Nós duas nunca tivemos esse tipo de problema antes, Olívia.
- Eu sei, por isso que eu te amo, agora deixa eu te dar um abraço - disse Olívia, se levantando para me abraçar forte, como sempre fazia depois de passar muito tempo sem me ver - Agora me diga... o que te trouxe aqui? Além da sua enorme saudade de mim, é claro - disse, voltando a sentar-se, me encarando por cima dos seus enormes óculos vermelhos. Olívia sempre usava seus cabelos castanhos e rebeldes, soltos. Tinha uma preferência por vestidos longos e rodados, daqueles com estampas floridas, e sempre estava calçando sandálias. Nunca perguntei a sua idade, mas ela sempre me pareceu muito jovem, apesar de sua maturidade, sabedoria e das poucas rugas.
- Eu preciso muito de uma coisa, e... eu acho que esse é o lugar certo pra procurar.
- Olha, querida, eu já disse ao seu amiguinho, Otávio...
- Olavo, o nome dele é Olavo...
- Que eu não vendo mais essas coisas, eu só fiz isso uma vez, e foi pra pagar uma dívida da pesada...
- EU... - disse, aumentando o meu tom de voz, com a intenção de que ela começasse a me ouvir - tô procurando pelos anuários da escola.
- O quê? Mas... o quê você iria querer com os anuários da escola?
Não havia pensado em uma justificativa, então improvisei... muito mal.
- Eu queria saber se alguém que eu conheço já estudou aqui, alguém... muito velho - enquanto eu falava, podia perceber a suspeita de Olívia aumentando mais e mais.
- Sei... Bem, a gente guarda os anuários aqui, sim. Não me pergunte o porquê disso, eu sempre achei que esses anuários deveriam ficar na coordenação...
- Em que seção eu posso encontrá-los? - perguntei, ansiosa.
- Vejamos, anuários, anuários - repetia, enquanto estalava os dedos, tentando se lembrar - Ah! Seção de História, sem erro!
- Valeu, Liv - eu disse, apressando-me em direção a seção.
Quando eu filnalmente localizei a seção de história, ao lado da seção de literatura clássica, quase gritei de susto quando percebi uma garota, que poderia ter a minha idade, escorada em uma das estantes da seção, segurando um livro entitulado "Alexandre O Grande - Um homem e suas conquistas". Ela olhou para mim, e enfiou o livro de volta na prateleira, aparentando estar mais assustada do que eu. Achei estranho o fato de ela não estar usando o uniforme da escola, mas sim uma calça jeans, uma blusa cor de rosa e um tennis All Star que poderia ter pertencido à mãe dela. Os seus cabelos eram negros encaracolados, e seus olhos grandes, acastanhados e expressivos. Sua pele era morena como chocolate. Ela me pareceu incrivelmente simpática.
- Me desculpe, eu te assustei? - perguntei, sem graça. Logo a sua expressão passou de assustada para completamente surpresa. Era quase como se ela me enxergasse como algo que não deveria estar ali, falando com ela - Você tá bem? - perguntei, quando percebi que ela estava ficando cada vez mais amedrontada. Sem falar nada, a garota começou a se afastar rapidamente, parecendo falar sozinha, enquanto caminhava para outra seção.
Resolvi ignorar o ocorrido, e o quanto aquela garota me deixara apavorada, e comecei a procurar pelos anuários. Depois de alguns minutos, eu finalmente localizei uma das prateleiras da estante, cheia de livros sem nome algum. Abri um deles, para ter certeza se era o que eu estava procurando. De fato, eram os anuários. Peguei todos que eu pude segurar sozinha, e fui até o birô de Olívia, que olhava, com repulsa, um livro entitulado "O fantasma da meia-noite" de Sidney Sheldon.
- Liv...
- É ridícula a maneira como eles descrevem os fantasmas nesses livros; branquelos, arrastando correntes, gemendo feito retardados...
- É, eu sei, pode acreditar que é ridícula mesmo - respondi, inevitavelmente, me lembrando de Leonardo, e de como ele me parecia perfeitamente vivo quando aparecera no meu quarto, muito diferente dessas versões idiotas dos fantasmas, que costumamos ver em filmes - Liv, será que eu posso levar esses anuários para dar uma olhadinha? Amanhã mesmo eu devolvo.
- Sinto muito, Amallya, mas como você me prometeu a mesma coisa sobre o exemplar de "Noites na taverna", quatro meses atrás, e não cumpriu, eu não posso mais permitir que você alugue livros da biblioteca.
- Qualé, Olívia! Você sabe que eu adoro Noites na taverna, e era meu aniversário.
- Está vendo isso? - disse Olívia, fazendo um gesto com a mão, sobre o próprio rosto - essa é a minha cara de quem não tá nem aí. Se quiser ver estes anuários, terá que fazer isso na biblioteca, querida. Sinto muito, espera... Não, eu não sinto.
- E eu que pensei que você era minha amiga - eu disse, em tom de brincadeira.
- Querida, eu adoraria dizer que a nossa amizade é mais importante pra mim do que o meu salário, mas eu odeio mentir, então... arruma uma mesa, cala essa boca, e olha logo se você conhece alguém nesses anuários, antes de o sinal tocar - ela disse, sorrindo, também em tom de brincadeira.
- Eu te amo, Liv - eu disse, me afastando para poder procurar por uma mesa.
- Eu também, meu anjo - disse ela, jogando o exemplar de "O fantasma da meia noite" no lixeiro ao lado do seu birô - Ah! Querida? - disse ela, tentando me chamar a atenção.
- Oi - eu disse, parando para ouvi-la.
- É impressão minha, ou você... falou com alguém na seção de história, agora a pouco? - perguntou, um tanto preocupada.
- Sim, uma garota muito bizarra. Eu falei com ela, mas ela parecia não querer conversar - eu respondi, tantando falar o mais baixo possível, afinal a tal garota poderia ainda estar na biblioteca. A expressão de Olívia mudara assustadoramente depois da minha resposta, parecia mais uma mãe que acabara de descobrir que a filha menor de idade está grávida -Algum problema? - perguntei, inocentemente.
Olívia demorou a responder, parecia preocupada.
- Não... nada, querida, não foi nada, é... pode ir.
Voltei a procurar um lugar para sentar, achando totalmente estranha a pergunta de Olívia, e mais ainda a sua reação ao ouvir a minha resposta.
Quando me sentei e puz todos os anuários que eu pegara em cima da mesa redonda da biblioteca, me lembrei da garota estranha que eu vira na seção de história, e desejei que ela não aparecesse de novo. Eu procurava no anuário por modelos antigos dos uniformes do colégio. Devo ter folheado três anuários, antes de abrir o da turma do primeiro ano ginasial de 1978. Quase caí para trás ao ver a foto de três alunos muito estranhos, que talvez fossem amigos. Na foto, que parecia ter sido tirada contra a vontade dos três, haviam uma garota incrivelmente pálida, e dois garotos, os três poderiam ter a minha idade, a garota usava exatamente o mesmo modelo de uniforme usado pela garota que eu vira na estátua, mas o que estava me fazendo tremer era o olhar dela na foto, o mesmo olhar que me paralizara na estátua do espírito santo, os mesmos olhos verdes assustadoramente atraentes, e embaixo da foto a seguinte legenda: "Helene, Caio e Marcos. Amigos inseparáveis".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Capítulo 4 - Lar


- Me ligue se precisar de alguma coisa. Eu venho te pegar no sábado, e... é isso, se manda! - disse a minha mãe, me dando um rápido beijo no rosto.
- Mãe... será que a senhora não poderia me pegar na sexta à noite? - perguntei, sem muita esperança.
- Mas pra quê essa pressa? Eu pensei que você quisesse passar todo o tempo possível com o Olavo e a Janaína - perguntou, desconfiada.
- É que... a maioria dos alunos vão embora na sexta, e...
- Sinto muito querida, mas dessa maioria você não vai fazer parte, eu odeio dirigir à noite, e você sabe disso.
- Mas...
- Te vejo no sábado, Amallya! - disse minha mãe, com um olhar que finalizara aquela conversa.
Saí do carro, emburrada, e me dei de cara com o enorme portão de entrada do colégio interno Lar do Sagrado Espírito Santo, também conhecido pela sigla, de pronúncia desagradável, LSES e carinhosamente chamado de Lar. Faltavam cinco minutos para o toque de entrada, eu respirei fundo e entrei no pátio do colégio. No centro do lugar havia uma enorme estatua em mármore, do espírito santo, representado por uma pomba, e sobre a sombra de uma das asas da estátua estavam sentados os meus dois melhores, e únicos, amigos. Olavo foi o primeiro que me viu chegando. Ele se levantou e veio em minha direção, segundos depois Janaína fez o mesmo.
- Pensei que não fosse aparecer, aberração! - disse Olavo, dando um leve soco no meu braço.
- É... eu acordei tarde - eu disse, visivelmente desanimada.
- Oi, Carol - disse Janaína, me dando um beijo no rosto.
- Oi, Ína - eu sorri, rapidamente.
- E as férias? - perguntou Janaína, com sua voz baixa e, como sempre, sem olhar diretamente nos meus olhos, devido à sua timidez incomum.
- Uma merda... como sempre - respondi, entediada.
- Você não foi pra casa do seu pai, em Gramados? - perguntou Olavo.
- Não, ele teve que passar o mês inteiro viajando... Negócios... eu acho - eu disse, tentando não parecer triste. Pela cara de Olavo pude ver que ele se arrependera de tocar naquele assunto.
Olavo e Janaína, assim como todos no colégio, sabiam que meus pais haviam se divorciado há quatro anos atrás, desde então eu passara a morar com a minha mãe, e visitava o meu pai nos finais de semana. Eu nunca soube o verdadeiro motivo da separação e nunca quis saber, o que era um alívio para a minha mãe.
- A minha avó morreu nessas férias - disse Janaína, em uma tentativa desastrosa de mudar um assunto desagradável.
- Eu... eu sinto muito muito, Ína - eu disse, um tanto desconcertada.
- Obrigada, mas... eu já superei... Minha mãe tá voltando pra casa - disse, parecendo se animar.
- Que bom - eu disse.
- É, agora que a vovó morreu ela pode voltar da Itália, depois de quatro anos. Finalmente eu vou deixar de morar com a minha tia - disse ela, alíviada.
-É, vocês vão voltar a morar juntas, isso é muito bom - eu disse, realmente feliz por Janaína.
Quando ambas paramos de conversar, olhamos automaticamente para Olavo, que parecia muito distraído encarando a enorme estátua do espírito santo, e depois de alguns segundos ele finalmente percebeu que eu e Janaína estávamos esperando a sua colaboração na conversa.
- Ah! Bem... O meu vizinho morreu... atropelado por uma ambulância... quanta sorte, não!? Espera... Não, ele não teve tanta sorte assim - disse Olavo, começando a rir.
- Isso é horrível - disse Janaína, séria.
Eu não aguentei e comecei a rir, me sentindo um tanto envergonhada por isso. Janaína também começou a rir, e logo nós três estávamos rindo, rindo da morte e de como ela pode ser terrivelmente engraçada, às vezes.
-Não, vocês são horríveis - disse Janaína, tentando parar de rir.
O sinal tocou, abafando o som das nossas risadas. Olhei para Olavo e Janaína, e me dei conta do quanto eu havia sentido falta deles durante os últimos dois meses. Parei de pensar no fantasma que naquele momento deveria estár perambulando o meu quarto, me esperando, e tentei ignorar o medo que vinha me devorando desde o momento em que eu deixara a minha casa naquele dia, medo de que a última imagem que eu teria de Léo, em toda a minha vida, fosse a do seu triste sorriso, e de seus olhos verdes e distantes de mim, na janela do meu quarto. Mas naquele momento eu estava feliz por rever Olavo e Janaína, o que me deu a ilusória sensação de que nada mais no mundo importava, eu estava com os meus amigos, "não há NADA a temer", eu pensava... Como eu fui tola. Hávia TUDO a temer, eu só não sábia disso ainda.
Olavo e Janaína apressaram-se em direção ao imenso portal enfeitado com anjos de mármore, que antecedia a porta dupla da escola, eu fiquei para trás quando tentei segui-los e a minha mala se abriu despejando toda a minha roupa e livros. Comecei a enfiar as coisas de volta na mala, o mais rápido que pude, Janaína percebeu que eu ficara para trás e parou o Olavo antes que os dois entrassem na escola. Quando finalmente eu consegui fechar a mala, olhei em direção à estátua do espírito santo, e senti os pêlos da minha nuca e braços ouriçarem quando me deparei com uma garota do meu tamanho, que encarava fixamente o portal da escola, onde Olavo e Janaína eram as únicas pessoas que me esperavam. Ela não estava muito distante de mim, no outro lado da estátua, e não pude deixar de reparar que o uniforme usado por ela não parecia ser o do colégio. Sua pele era pálida e quase se confundia com o mármore branco da estátua, seu cabelo era preto, na altura dos ombros, e extremamente liso. Devo ter olhado para ela, sem dizer nada, por uns cinco segundos. Foi quando, vagarozamente, a garota se virou em minha direção, e eu me encantei pelo verde de seus olhos, porém, algo na sua expressão me assustou de uma maneira que eu nunca experimentara antes. O que quer que tenha me assustado em seu olhar, deu lugar a uma expressão de surpresa e quase indignação, o que me deixou ainda mais assustada. Eu olhei rapidamente para o seu uniforme e pude perceber, chocada, que o símbolo do colégio estava perfeitamente bordado em seu seio. "Mas como?", me perguntei.
- Amallya? - gritou Janaína - Algum problema?
- Não - eu respondi, e sem olhar para a garota novemente, eu continuei andando o mais rápido que pude até o portal da escola.
- O que houve? Você ficou, tipo, sei lá... dois minutos encarando o nada - disse Olavo, preocupado.
- Vocês não... - comecei - Encarando o nada? - perguntei, surpresa.
- Sim! - confirmou Janaína.
Eu tive vontade de olhar para o lugar onde a misteriosa garota deveria estar, mas simplesmente não consegui. Continuei andando em direção à porta dupla da escola, Olavo e Janaína me seguiram, mais confusos do que eu, naquele momento.
A palavra "fantasma" veio à minha cabeça, fazendo gelar cada parte do meu corpo. Eu andava o mais rápido que podia, enquanto Olavo e Janaína gritavam o meu nome, mas eu não tive coragem de olhar para trás até o momento em que abri a porta da minha sala de aula.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Capítulo 3 - Saudade


- Acorda, Amallya! Já passa das seis.
Eu acordei automaticamente com o barulho da porta, e a voz tediosa da minha mãe. Olhei para o lado, e para a minha total decepção, Léo não estava mais lá. Teria sido tudo um sonho muito real? - pensei, desesperada - Senti um misto de decepção e agonia, eu queria chamar por ele, queria chorar, mas não poderia fazer nem uma das duas coisas sem que a minha mãe achasse que eu estava louca.
- Vai preparar o seu cereal, que hoje eu não tô nenhum pouco a fim de fazer café da manhã reforçado - disse Olga, que ao contrário do que aparenta, sabia ser uma mãe carinhosa e até superprotetora, quando queria ser.
Minha mãe abriu rapidamente a janela do quarto, e eu puxei a colcha da cama para o meu rosto na intenção de evitar a luz do sol.
- Você tem vinte minutos pra tomar banho e se trocar. Eu vou te esperar lá embaixo - disse Olga, saindo do quarto tão rapidamente, que eu só consegui ouvir o barulho feito pelo seu sapato, em contato com o piso de madeira, antes de ver a porta do quarto se fechar com força.
Eu estava sozinha. Finalmente podia chorar, e foi o que fiz. Apertei a colcha contra o meu rosto, decidida a não poupar uma única lágrima de raiva e desespero. Sim, eu tinha raiva, e pior, eu tinha raiva do Léo, por ele ter me deixado, por ter levado aquele tiro, chamei ele de burro várias vezes, enquanto surrava a cama.
- Me desculpa, eu não queria ter te deixado, você sabe disso...
Eu gritei como nunca em toda a minha vida. Léo estava na minha frente, e de repente parecia assustado também.
- AMALLYA!? - gritou a minha mãe, e pude perceber que ela estava subindo rapidamente a escada, e vindo em direção ao meu quarto.
- Porra, Léo! Você me assustou - sussurrei para o fantasma à minha frente.
No mesmo instante, minha mãe entrou no quarto com a expressão de alguém que viera apagar um incêndio. Automaticamente olhei para o meu lado e fiquei surpresa ao ver que Leonardo continuava no mesmo lugar. Fiquei olhando para ele e para minha mãe, feito uma ratardada.
- O que houve, Amallya? Por quê você gritou daquele jeito...? - perguntou a minha mãe, e pude perceber que ela não notara a presença de Léo.
- Eu... foi... - eu gaguejava, enquanto tentava criar uma resposta, e olhava para Léo.
- Olha pra mim, garota! - disse a minha mãe, confusa.
- Era... um passaro... enorme... ele entrou no quarto de repente, mas saiu rápido, acho que se assustou comigo... depois que eu me assustei com ele - eu disse, tentando parecer convincente, mas a cara da minha mãe me dizia que eu não estava convencendo ninguém.
- E você ainda não está pronta pra escola por quê? Além de te atacar, o tal pássaro também roubou o seu uniforme? - perguntou ela, e pelo seu tom de voz eu percebi que não deveria responder.
Léo parecia se divertir com a situação, e isso me iritava. Fui em direção ao banheiro, envergonhada, e quando minha mãe não olhava para mim, eu lancei um olhar enraivecido para Leonardo, que em troca acenou para mim, com um sorriso presunçoso no rosto. Eu quase ri, mas me controlei, com a intenção de demonstrar a minha raiva.
Tirei a roupa, liguei o chuveiro e fiquei esperando pelo som da porta do quarto batendo para então poder tirar satisfação com o Léo. Não que eu estivesse realmente com raive dele, só queria saber o motivo pelo qual ele sumira enquanto eu dormia. A porta bateu, e eu soube que a minha mãe não estava mais no quarto, então abri o box do banheiro, enfurecida...
- Leonardo, como você pôde...
- Te deixar só?
Dei um grito abafado, quando me deparei com a presença de Léo, no lado de fora do box, puxei a toalha o mais rápido que pude, e me cobri. Leonardo ria, e a minha vontade era de dar um tapa na cara dele, algo que, obviamente, não seria possível.
- Eu não acredito que tive que morrer pra poder te ver nua... mas valeu a pena - disse ele, com o típico sorriso de lado, pontuado com uma piscadela, também típica dele.
- Sai... da minha frente, Leonardo - eu disse, nervosa, e atravessando o corpo dele, sem querer. A sensação foi quase como a que eu tive quando o beijei na noite passada, porém dessa vez o estranho frio tomou conta do meu corpo inteiro. Ficamos olhando um para o outro, ambos assustados.
- Não faz isso de novo - disse ele, sério.
Ficamos em silêncio enquanto eu retomava o folêgo.
-Me desculpa... é que... eu fiquei desesperada quando acordei e não vi você do meu lado. Eu pensei que...
- Que tinha me perdido outra vez - concluiu ele, tirando as palavras da minha boca, o que me deixou feliz - Amallya... - ele se aproximou de mim, e tocou o meu rosto, suavemente, o frio de sua mão me fez tremer um pouco - Eu prometo que você não vai me perder de novo... Em cinco dias você vai voltar pra este quarto, e eu vou estar te esperando, com toda a saudade que alguém pode sentir no mundo.
Eu estava prestes a chorar, quando senti o meu rosto ser puxado levemente, e em seguida o frio beijo de Leonardo.
- Sobre esse lance de voce ter que ficar aqui... - comecei, quando Léo me deu a chance de respirar - eu estava pensando... Será que você não pode ir comigo pra o colégio...?
- Eu acho que não vai ser possível - disse ele, decepcionado.
- Mas... eu não entendo, por quê?
- Bem... Aparentemente, eu não posso.
- O quê? Como assim, não pode? - perguntei, enraivecida. "Você é um fantasma, certo? Pode fazer tudo o que quiser", pensei.
- Eu... tentei, pouco antes da sua mãe entrar no quarto pra te acordar... mas não consegui nada além de ficar invisível pra vocês duas, algo que, aparentemente, foi desnecessário, afinal a sua mãe não me viu na segunda vez em que ela apareceu aqui... É como se... como se eu estivesse preso a essa casa. O que me fez perder a esperança de rever os meus pais, pelo menos mais uma vez - disse ele, com uma profunda tristeza na voz. Pensei em abraça-lo, mas eu não queria repetir a experiência de ter atravessado o seu corpo, acidentalmente.
- AMALLYA CAROLINE! VOCÊ TEM CINCO MINUTOS, OUVIU BEM!? E SEM TEMPO PRA O CAFÉ DA MANHÃ, mas que BOSTA! EU VOU TER QUE ESCUTAR RECLAMAÇÃO DA MADRE SUPERIORA NO SEU PRIMEIRO DIA DE AULA! - gritou a minha mãe, do pé da escada no andar de baixo.
- Eu tenho que ir - disse, bufando de raiva.
Fui para o banheiro e comecei a vestir o uniforme do colégio, devo ter feito isso em três minutos, peguei meu tennis e minhas meias para calçar no carro, e por último peguei a minha mala, que havia siso feita no dia anterior. Quando saí do banheiro, Léo estava sentado na minha cama, olhando distraído para a janela.
- A gente se vê em uma semana - eu disse, tentando chamar a sua atenção.
- Eu mal posso esperar - ele disse, esborçando um triste sorriso.
- Eu vou sentir sua falta - e então saí do quarto, sem conseguir olhar para ele novamente.
Descí a escada segurando o choro com todas as minhas forças, "Larga de frescura! Em uma semana você vai ver ele de novo!", eu tentava pensar. Dentro do carro, eu não conseguia escutar as reclamações da minha mãe. Olhei para a janela do meu quarto, e para minha total surpresa, Léo estava lá, olhando para mim. Eu acenei para ele, discretamente, para que a minha mãe, que estava do meu lado, não percebesse. O aceno não fora correspondido, o olhar de Léo parecia distante, apesar de eu ter certeza de que ele olhava para mim. Uma lágrima desceu no meu rosto, me perguntei se fantasmas também choravam, "Claro que não, sua estúpida!", pensei.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Capítulo 2 - Recomeço

Era tudo muito real. Eu podia dizer que era de fato ele, me beijando ferozmente, se não fosse pelo frio incomum que tomou conta do meu corpo, no instante em que Léo tocou a minha face. Quando ele finalmente me deixou respirar, fechei bem os olhos na intenção de não ter que encarar os dele. Estava com medo; uma reação perfeitamente normal para alguém que acabara de ter a cabeça quase arrancada pelo beijo de um fantasma.
- Não precisa ter medo - disse ele, calmamente.
- É muito... fácil pra você dizer isso... a-afinal não é você que está vivo e diante de alguém que... que deveria estar... morto! Ou será que estou errada!? - eu disse, gaguejando de medo.
Ele sorriu em resposta.
- Você continua linda.
- E você deveria estar morto, mas... continua... lindo, também - eu disse, tomando coragem de olhar para ele.
Tirando os olhos, que haviam perdido um pouco do verde intenso de antes, ele estava exatamente como da última vez em que eu o vira vivo, o mesmo corte de cabelo, usando a mesma camisa branca de manga comprida, em gola de V, exibindo parte de seu peito, o mesmo jeans, o mesmo par de All Star, e esbanjando o mesmo porte físico de nadador que eu tanto adimirava (ele, de fato, nadava. Ganhara duas medalhas de ouro para a escola). Me senti tentanda a toca-lo, pensei em mecher na sua franja, como sempre fazia quando namorávamos. Eu adorava mecher no cabelo dele, que ao contrário do meu; absurdamente preto e liso, era castanho e crespo.
- Isso... Tá errado! Você... Eu vi aquela bala atravessar o seu peito, e-eu estava lá quando você...
- Quando eu morri, eu sei, eu sei, mas... Eu estou aqui, agora, não estou? - ele acariciou o meu rosto, e o frio de sua mão me fez estremecer - Me desculpe - disse ele, recuando depois de ter percebido a minha reação ao seu toque.
- Não foi nada, é só que... você está... frio... incrivelmente frio.
- Huh... Faz sentido, não!? - disse ele, rindo.
- Acho que faz sim - concordei, também rindo.
Ficamos em silêncio, nos encarando, e quando ficou muito embaraçoso, desviamos o olhar um do outro, quase que ao mesmo tempo. Me levantei do chão e fui sentar na minha cama, Léo fez o mesmo, e ficou me olhando, esperando que eu quebrasse o silêncio, e foi o que eu fiz...
- Tá!... Desculpa, mas eu tenho que perguntar... - comecei, vacilante.
- Vai em frente - disse ele, calmamente, parecendo entusiasmado para ouvir a minha pergunta.
- Como é... morrer...? - perguntei, um tanto nervosa .
Ele suspirou, e começou a responder...
- Na verdade... é difícil de explicar... Eu não me lembro de quase nada do que aconteceu na 25, eu... só me lembro de estar nos seus braços - ele olhou nos meus olhos, e sorriu timidamente -... e havia sangue, em todo o meu corpo, e... eu me lembro de ter sentido essa paz incomum tomar conta da minha mente... E agora eu estou aqui.
- Só isso? - perguntei, visivelmente decepcionada.
- Ah, é claro! Eu esqueci de contar sobre as mil virgens com as quais eu passo a maior parte do meu tempo, enquanto curto o paraíso - disse ele, com o seu típico sarcasmo que tanto me irritava, e uma das muitas coisas que eu odiava no Léo, das quais eu passara a sentir falta.
- Nem depois de morto você consegue parar de ser irritante - eu disse, carinhosamente. Dei um beijo em seu rosto gelado, e me deitei, mantendo os meus olhos nele.
- E você continua adorando isso - disse ele, de maneira presunçosa.
Ele se deitou ao meu lado, olhando para mim.
- Se você fosse menos convencido, eu até assumiria isso.
- Você acabou de assumir - disse ele, sorrindo de leve.
Eu sorri, e olhei para o relógio. Faltavam apenas duas horas para que a minha mãe entrasse pela porta do quarto.
- Você vai comigo pra escola? - perguntei, estranhamente animada.
- Acho que não... Eu sinto que devo ficar aqui - disse ele, parecendo confuso.
- Então... quando eu voltar pra casa no fim de semana... você ainda vai estar aqui, certo? - perguntei, apreensiva.
- Sim... eu vou estar aqui... te esperando - disse ele, confiante.
- Sério? - perguntei, animada e apreensiva, ao mesmo tempo.
- Sim... sim, eu vou estar, você vai ver! Eu não quero mais te deixar.
Dessa vez foi eu que o beijei, eu que quase arranquei a sua cabeça, nem mesmo o frio do corpo dele parecia mais me incomodar. Eu estava feliz, estranhamente feliz, dadas as circunstâncias. De repente eu não tinha mais dezesseis anos, eu me sentia renovada, me sentia com quatorze anos, quando Leonardo, também com quatorze anos, me pediu em namoro, e eu o respondi com aquele que seria o meu primeiro beijo. Era como se nós dois estivéssemos recomeçando o nosso namoro, e ali, na minha cama, estivéssemos nos beijando pela primeira vez. O sol começava a penetrar as brechas na janela do meu quarto, e tudo o que eu queria era ficar abraçada com ele, para sempre.